Gripe
7 Irritação nos olhos
Notas iniciais
Eu recomendo que vocês escutem The Scientist do Coldplay. Pode ser o cover, também.
:*
Ela se assustou com o barulho. Giane estava indo para casa depois de mais um dia de trabalho e não esperava ouvir aquele barulho. Não era comum alguém ficar naquela parte escura da rua à noite. Ela decidiu ver o que estava acontecendo quando outras duas batidas seguiram a primeira. Quando ela reconheceu Fabinho, sabia que ele não estava bem. Aquelas batidas eram o escape de alguém furioso.
Ele a mandou embora dizendo que era perigoso. Há! Perigoso.
Ela não tinha medo dele. Poderia ter vários sentimentos conflitantes que hora faziam ela se aproximar e hora a faziam sentir uma imensa vontade de bater nele. Mas medo, não. Por isso a vontade de rir quando ele falou para ela ir embora. Ela não o deixaria assim, sem chão, sozinho e se ela enxergou bem, chorando. Ele era diferente das pessoas que ela conhecia. Era bruto, teimoso e na maioria das vezes, muito irritante, mas ele não gostava de se fazer de vítima. E ver ele daquele jeito foi um dos motivos que a fez ficar.
E quando ele finalmente falou o que aconteceu, Giane mais uma vez sentiu um turbilhão de emoções. Ela sentiu o corpo ferver. Queria bater em Érico. Será que o cara não conseguia perceber que Fabinho não entregaria a própria ideia? Ele não teria nada a ganhar com aquilo. Tá certo que ele já aprontou muito, mas não era tão idiota assim.
Ela pensou seriamente em acertar a cabeça do Érico. Talvez ele recuperasse o juízo. Provavelmente não adiantaria.
Além da raiva, sentiu uma agonia intensa. Ela queria abraça-lo, queria de algum modo, o confortar e garantir que tudo ficaria bem. Mesmo que às vezes ela tivesse um pouco de dúvida de que tudo acabaria mesmo bem.
Não era justo! Era com se todas as coisas ruins que ele fizera se multiplicassem e retornassem para ele mil vezes pior. Bom, olhando por esse ângulo, talvez fosse justo. Dizem que quem planta, colhe. Mas ele estava diferente e agora ele era inocente. E ela dificilmente se enganava em relação às pessoas.
A tristeza emanava dele. Um culpado não estaria em uma rua escura, com raiva e chorando. Ela não se surpreendeu por acreditar nele. Ultimamente, ela reparou, estava acreditando bastante em Fabinho. Acreditava que ele era inocente no incêndio da Toca do Saci, acreditava que ele estava se esforçando, acreditava que ele tinha se arrependido. E ver que ele estava daquele jeito fazia o peito dela pesado, como se tivesse pedra no lugar do coração. Não queria vê-lo tão fragilizado, tão... tão... tão fraldinha! Ele era forte, podia passar por aquilo. Eles passariam por aquilo tudo juntos.
Giane queria provar que estava do lado dele, que acreditava nele. Queria mostrar que ele não estava só. Então, quando tocou no ombro dele, ela estava decidida a tentar fazer um pouco da dor que ele sentia passar. Não foi surpresa a corrente elétrica que percorreu o corpo dela.
“Eu acredito em você”. Só pelo modo como ele desviou o olhar, dava para perceber que ele não acreditava nela. Ele pensava que ela estava falando aquilo da boca pra fora, só por falar.
“É sério. Eu acredito em você” Giane se aproximou mais. E foi impossível não notar o campo magnético entre eles. Mas ela ainda estava muito longe, queria chegar mais perto e pelo olhar dele, ele também queria que ela se aproximasse. Ela deu mais um passo em direção a ele.
“Eu juro”. Não sabia o momento exato que colocou as mãos no rosto dele. Ela sabia que era errado, mas não conseguia parar de olhar para os lábios dele. Parecia que a puxavam para mais perto. E Giane queria aquele beijo e estava cansada de lutar contra tudo aquilo que estava acontecendo entre eles. E pelo modo como ele reagiu, dava para perceber que ele também estava cansado de esperar.
Se ela tivesse tomado um choque, teria doido menos. O corpo dela estava quente, e ao mesmo tempo, arrepios a percorriam por inteiro. Ela estava muito perto e muito longe. Queria se aproximar mais, queria sentir o calor do corpo dele junto a ela. Queria apertar, morder, beijar cada pedaço que pudesse encontrar.
Não que ele não estivesse correspondendo. Desde o momento que ela iniciou o beijo, ele respondeu a altura. Ele a puxou para perto, segurou com firmeza, de um jeito que as pernas dela ficaram moles. Ela pensou que ia derreter quando sentiu a mão quente dele subindo pelas costas dela. Os arrepios se intensificaram. Veio uma sensação na barriga, um frio, uma agonia. Mas não era algo ruim. Era uma dor prazerosa, um calor irritante e, ela queria mais.
Nunca havia sentido algo assim. Era como alguém respirando depois de ficar muito tempo debaixo d’água. A boca dele, a língua, as mãos. Ela se perguntou por que demorou tanto tempo para fazer aquilo.
Ai ela lembrou.
Porque aquele era o Fabinho. Um fraldinha irritante, orgulhoso, metido que até pouco tempo ela não hesitaria em dar uns bons socos. Ele a chamou de inúmeras coisas para magoá-la e ela não deveria beija-lo como se não houvesse amanhã.
Ela o afastou. “Ai, desculpa. Eu não...” E ele a puxou mais uma vez para um beijo. Ela esqueceu o que ela não deveria fazer, esqueceu quem era ele, esqueceu até o nome dela.
Se ela iniciou da primeira vez, agora ele estava no controle. E não é que o fraldinha beijava bem? Ela não conseguia pensar ou sentir outra coisa que não fosse ele.
Fabinho literalmente a colocou contra a parede, ou nesse caso, grade. Ele a beijava com tamanha vontade, como se ela fosse o ar que há muito tempo ele precisava. Ela queria o sentir por inteiro. O ar em volta deles estava tão quente e tão frio. Giane precisava dele para acabar com tudo aquilo que ela estava sentindo. A agonia, a solidão, o desejo.
Opa! Ela o desejava. E pela segunda vez naquela noite, ela se assustou. E ficar perto dele daquele jeito não estava ajudando em nada. O juízo dela foi embora quando ele passou a mão na costa dela. E imprensada naquela grade, ela tinha certeza que tudo dentro dela tinha fervido no calor que ela estava sentindo.
Ela precisava sair dali. Estava muito bom e ela não queria, mas ela precisava sair dali. Giane estava começando a se sentir sufocada pelos próprios sentimentos. Mais uma vez, ela o afastou.
“Não, peraí. Não” Ela saiu correndo. Podia ouvir Fabinho chamando por ela, mas ela estava confusa demais, quente demais, e o juízo dela ainda não tinha voltado. Se ela ficasse, sabe lá o que ela faria com ele.
Se Giane não tivesse morado a vida toda na Casa Verde, ela provavelmente teria errado o caminho de casa. Passou pelo pai como um foguete, nem deu boa noite. Precisava ficar sozinha, de preferência trancada e amarrada para não voltar onde Fabinho estava.
Ela sentia uma sensação engraçada nos lábios. Era como se formigassem ou estivessem amortecidos. Ela queria rir e chorar ao mesmo tempo. Queria que nunca tivesse acontecido. Queria que aquela sensação nunca passasse.
Idiota! Ela não podia pensar assim. Há alguns dias, ele mesmo disse que nunca tinha se apaixonado. Ela não podia agir que nem uma tonta só por causa de um beijo. Era ridículo! Mas que beijo, hein?
A adrenalina provocada pelo beijo estava passando. O fraldinha não gosta de mim! Aquilo foi apenas um beijo. Mas só de pensar daquele jeito, ela ficava triste e muito irritada. Nunca vai acontecer algo entre a gente! Ela não poderia estar apaixonada pelo fraldinha. E ele definitivamente não estava apaixonado por ela. A irritação nos olhos estava aumentando. Se ela não se controlasse, acabaria chorando mesmo.
Ai, droga!
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