Grilhões Eternais
37 Puro
Notas iniciais
Aquela noite Milo passou no 11° Templo, e só assim Camus pôde dormir sem interrupções. Ainda assim, por vezes, seu sono tornava-se agitado, e o grego afligia-se ao perceber que não eram bons os sonhos por onde seu amado vagava: ele virava a cabeça de um lado para o outro, adquiria uma expressão angustiada e balbuciava coisas incompreensíveis. Certo momento uma lágrima chegou a descer pelo rosto. Milo enxugou-a, comovido. Acariciou seus cabelos com delicadeza e disse-lhe palavras de conforto ao ouvido; os traços do aquariano suavizaram, denotando que seu sono tornara-se tranquilo outra vez.
Por entre as cortinas de veludo entraram os primeiros raios de sol. O escorpiano ainda mantinha atentamente sua vigília, que só findaria com o despertar do francês.
Quando isso ocorreu, o grego não sufocou um suspiro de alívio. Notando que acordara, beijou-o suavemente na testa, com esmero e cuidado.
— Bom dia...
— Milo?... — murmurou, sonolento, tornando para ele olhos que, Milo juraria por Athena, eram os mais lindos por sobre esta Terra — ...bom dia.
— Como se sente? Tá com fome?
—Eu…sim.
—Vou trazer seu café até aqui.
— Não precisa.
— Precisa sim. Deu pra ver que você não tem descansado muito bem.
— Mas eu... Milo. Eu...
— O quê?
Ele fechou a mão sobre o peito, presa de constrangimento. Desviou o olhar ao dizer:
— Eu... sobre esta noite...
— Se você me pedir desculpas de novo, vai me deixar bem bravo, Camus — declarou, sério.
— Não sei o que tem dado em mim — desabafou.
O outro abrandou a expressão e voltou a sentar na cama, acariciando o rosto do namorado.
— Não exija muito de você, Camus. Passou por coisas horríveis. Não foi somente o seu corpo que foi ferido. Sua mente também. Seu coração também. É só dar um tempo. Você vai ficar bem.
Sorrindo levemente, o francês retribuiu a carícia e concordou:
— Sim... vou... na verdade, já estou ficando. Porque você está ao meu lado.
— Tá ficando bom nisso, hein, senhor Aquário — riu,capturando e beijando a mão que passeava por sua face — Daqui a pouco vai roubar o meu posto de super conquistador!
— Milo... mesmo assim, eu...
— Vou buscar seu café. Vai fazendo sua higiene enquanto isso — e num salto dirigiu-se para a porta.
Antes que Camus dissesse aquela frase mais uma vez.
*************
Como a festa não havia terminado muito tarde, às dez da manhã os Santos de Ouro treinavam nas arenas principais. Milo saudou os companheiros, notando a ausência de Afrodite e Mu. Máscara da Morte explicou:
—Aquele cabeça de peixe tá com uma ressaca monstruosa. Foi aquele licor de cereja que ele fez — riu — ainda bem que me recusei a tomar aquele troço.
— Coitado do Mu, ele tomou só pra agradar o Dite e agora está péssimo também — comentou Aldebaran, condoído.
— É, eu só tomei um copinho e já me deu uma azia pavorosa — ajuntou Aioria, gargalhando.
Notando o silêncio de Escorpião, Shura arriscou:
— Hã... tudo bem, Milo?
—Tá sim...
— E como está o Camus? Ele tava estranho...
— E como você queria que ele estivesse depois de tudo que passou, Aldebaran? — a rispidez da resposta surpreendeu a todos. Após uns segundos de silêncio, Milo passou os dedos pelos cabelos, tentando se recompor.
— Desculpe. Foi mal, Deba.
— Tudo bem, Milo — sorriu o grandalhão, compreensivo.
Aioria tratou de amenizar a atmosfera:
— Beleza, que tal definirmos as duplas pros treinos, pessoal? Milo, tem coragem de me encarar?
— Depois a parada é comigo — falou Câncer, estalando os dedos.
— Hah, podem vir os dois juntos, se quiserem!
— Ihh, o venenoso aí tá confiante, hein! Vamos, chifrudo, deixa eu te derrotar logo pra depois abaixar a bola desse aí — brincou o italiano, afastando-se com o taurino.
— Vou ver onde está o Shaka, treino com ele — anunciou o capricorniano, despedindo-se deles.
*************
—Milo! Cê tá legal?
O escorpiano enxugava o sangue no canto da boca com as costas da mão, sorrindo amistosamente.
— Tô sim. Bela direita, Leãozinho.
— Você desviaria facilmente disso...
— Que é, tá ficando humilde? Logo você?
Aioria fitou-o desconfiado:
—Você não dormiu esta noite, não é, Milo?
— Hum?
—Camus estava bastante alterado… você deve ter ficado preocupado... dá pra ver que passou a noite em claro.
— Eu...
— E aí, vamos almoçar? — gritou Aldebaran trazendo Carlo no braço.
— Eita! O prato de hoje é caranguejo, é? — brincou o escorpiano, fazendo todos gargalharem.
— Esse brasileiro é mais “carcamano” que eu, rapá — disse o italiano, zonzo.
O grego de cabelos compridos pôs as mãos na cintura, contemplando a paisagem, ao indagar:
— Vamos comer por aqui mesmo ou cês querem ir até Rodório? Acho que tô a fim de andar um pouco.
— Vamos até a cidade, quero comprar um presente pro Mu.
— Hummm... vai rolar pedido de namoro, é? — o leonino não perdeu a chance.
Sem jeito, o taurino pôs o braço atrás da cabeça, sorrindo feliz.
— Hehe, digamos que não é mais preciso...
— O QUÊ??? — os três Santos chocaram-se, a uma só voz.
— Hehehe...
— Seu... explica isso aí!
— Agindo às escondidas, hein, chifrudo?
— E ainda dizem que os brasileiros são falantes e abertos!...
Aldebaran ergueu o indicador, em tom professoral:
—Acontece, meus caros, que eu sou do estado de Minas Gerais. Quem nasce lá é chamado de “mineiro”. E sabem o que dizem do mineiro?
—Não — responderam em uníssono.
— “O mineiro come quieto.”
— ...........
— ...........
— ...........
Máscara da Morte tomou a dianteira, berrando:
— Argh! Depois dessa, vamos logo, antes que eu perca a fome!!!
— Olha, lá vem o Shura!
— Legal, vamos então!...
O espanhol juntou-se a eles. Iam rindo trocando suas zombarias e provocações quando uma voz profunda chegou até eles:
— Milo de Escorpião.
Viraram-se na direção daquele chamado: sentado no alto das escadarias da arena…
— Shaka!...
O loiro continuou onde estava, de olhos fechados, a tudo vendo com o espírito, sabiam-no.
— Milo, posso falar com você?
— Hã... claro, Shaka. Vão na frente, pessoal.
— Estaremos naquela cantina de sempre, peçonha — disse Aioria, acenando para ele.
Depois que os companheiros se foram, foi até o indiano, bastante curioso.
— Diga, Shaka.
— Mesmo à distância, reparei que você estava muito distraído no treino. Foi golpeado inúmeras vezes por falta de atenção. Seu cosmo está bastante desequilibrado. O que está acontecendo com você, Escorpião?
Milo franziu as sobrancelhas, sem se importar em demonstrar seu desagrado com aquilo.
Na verdade, ele nunca se importava em demonstrar o que sentia.
— Você ainda não foi eleito o Papa do Santuário, Shaka. Não é cedo demais para querer me exortar acerca de minha atuação como Cavaleiro?
A calma do loiro não se alterou nem um pouco ante aquela fala atravessada.
—Não questionei como um líder ou um superior, Milo. Se algo perturba tanto assim o seu espírito a ponto de ter sido sentido por mim, estou disposto a tentar ouvi-lo.
A serenidade com que o virginiano respondeu desarmou o grego. Ele abaixou a cabeça e desabafou:
— Me desculpe. Meu humor tá horrível... não dormi nada e... ando muito cansado nos últimos dias...
— ... porque tem treinado e cuidado incessantemente de Aquário, presumo.
— Presume... — riu, levemente — você SABE. Às vezes, tenho a impressão que tu sabe de tudo. Ei, tô falando no bom sentido, hein...
— Então é Camus a razão do seu tormento interno.
Milo assentiu, sentindo-se fatigado o suficiente para admitir:
— É sim...
— Isso me parece absolutamente normal, face tudo por que ele passou...
— Não é só isso — cortou-o. Hesitou momentaneamente, suspirou e decidiu confiar naquele que era tido como um dos mais sábios dos Santos — Eu vou te contar...
*************
—Síndrome do estresse pós-traumático.
— Como?...
—Algumas pessoas após passarem por situações traumáticas, como serem submetidas a atos extremamente violentos, podem vivenciar o que sofreram no momento em que se lembram do ocorrido.
— Vivenciar?
—Não é que ele apenas fique alterado, revoltado ou triste. Quando algo lembra a Camus do que aconteceu no cativeiro, ele REVIVE o episódio como se estivesse ocorrendo naquele exato momento da lembrança, com a MESMA sensação de dor e sofrimento da vez em que ocorreu.
— Quer dizer que Camus... não apenas se lembra vividamente... quando ele tem essas crises é como se ele estivesse VIVENDO TUDO AQUILO NOVAMENTE?
— Sim. Como se estivesse lá outra vez, Milo. É uma volta ao passado. Extremamente real e dolorosa.
O grego afundou o rosto nas mãos, abismado.
— Mas isso... isso é HORRÍVEL, Shaka! Ele vai ficar assim pra sempre?
— Eu duvido. Apesar do que esteja aparentando agora, ele é emocionalmente forte. Mas por um tempo, é certo que ele vai ter essas crises, já que começou...
— Shaka, por favor! Como se pode tratar isso? — quase agarrava o outro pela túnica, tamanha sua aflição.
— VOCÊ já é o principal tratamento, meu amigo. Seu amor, seu cuidado, sua paciência...
— ... não têm sido suficientes — concluiu, sorrindo tristemente.
— Tenha calma, Milo. Está muito recente. Como sei que Camus recusaria terminantemente qualquer tratamento psicológico, talvez eu possa ajudar.
— Como sabe disso? — retrucou, desconfiado.
— Isso não é óbvio?
Milo teve que admitir. Era tão óbvio como o calor do sol.
Camus nunca admitiria ter um problema de ordem emocional e psíquica, quanto mais sentar e contar o que sentia a um estranho... ou fazer uso de medicação... ele utilizou apenas a metade dos tranquilizantes receitados durante o período de convalescência!
— Aquele cabeça dura... — resmungou o escorpiano. E voltou-se para o indiano — e como você pode ajudar?
— Posso ensinar algumas técnicas de meditação e relaxamento para ele.
O grego estreitou os olhos ameaçadoramente.
— Ei... vai ficar tocando nele, por acaso? Não quero ninguém pegando no meu Camus.
O loiro soltou uma de suas raras risadas.
— Não como você imagina, seu possessivo. E eu tenho o meu “pássaro de fogo”, esqueceu?
— Não sei como vocês se entendem tão bem... são tão diferentes...
— Como você e seu frio e racional namorado, não é mesmo, meu impulsivo amigo cabeça quente?
— Hehehehe, é mesmo...
Abraçando as próprias pernas pelos joelhos, Milo suspirou longamente e mirou o horizonte nublado por um tempo.
— Shaka, sabe o que eu queria? É uma loucura, eu sei...
O virginiano esperou.
— Há anos tenho o sonho de mostrar o mundo a ele.
— O mundo?
— Não o mundo inteiro, claro. Tipo... levá-lo num cruzeiro pelas Ilhas Gregas... mostrar o Mediterrâneo... a costa branca impregnada de construções seculares... o azul sem fim do mar e do céu da... do que você tá RINDO?
— Desculpe, é que é diferente ver você poético.
— E tu vê alguma coisa com esses olhos fechados? — fez uma careta de desagrado.
— Por que seu sonho parece uma loucura para você? — quis saber o indiano, sinceramente interessado.
— Porque como Santos de Athena não podemos alimentar tais desejos... seria uma futilidade.
— Não vejo por quê. Estamos em tempos de paz. E muito graças a ELE. Parece-me bem válido e justo que ele tirasse uns dias para viajar, descansar a mente e o espírito a fim de buscar a cura emocional. Ou, pelo menos, uma melhora significativa.
— Shaka! Acha que Athena permitiria que... que nós dois... eu e Camus, fique claro — o loiro sorriu de novo — fizéssemos uma viagem por... não sei... uma semana que fosse?
— Tudo é questão de conversa. Seria uma situação inédita. No entanto, o que aconteceu a Aquário também foi inédito. Poderia ser excelente para a recuperação dele como guerreiro de Athena... e para VOCÊ também, Milo.
— Eu?
Recostando-se no degrau de pedra, Shaka estendeu a mão e um pássaro empoleirou-se em seus alvos dedos.
— Você também foi muito ferido nesse processo. Embora de maneira diferente, foi gravemente atingido na alma e no coração... estou certo?
O escorpiano deu um sorriso de triste resignação ao responder:
— Sim. Mas eu não sou tão importante assim nisso...
— CLARO QUE É, Milo! Você é o esteio de Camus neste momento... sempre foi... mas ELE TAMBÉM é o SEU esteio. Vocês são interdependentes... e precisam se curar juntos.
A pequena ave levantou voo. Milo a acompanhou com os olhos úmidos. A mão de Shaka pousou em seu ombro. Pôde sentir calor e conforto daquele cosmo magnânimo.
— Não seria uma dádiva impossível obter tal permissão. Falarei com Ela, se você quiser.
— E-eu não sei, Shaka... seria incrível se Ela... não sei se posso te pedir isso.
A mão apertou-se mais e o doce sorriso do loiro alargou-se.
— Deixe comigo. Escute... se não quer que Camus aprenda as técnicas de relaxamento, posso mostrá-las a você e então você...
— QUE NEGÓCIO É ESSE AÍ?
— IKKI! — exclamou Shaka, sobressaltado.
— QUE TÉCNICAS DE RELAXAMENTO SÃO ESSAS QUE VAI ENSINAR PRO MILO, HEIN? — bufava o jovem, subindo as escadas na direção deles, com o semblante irado.
— Não é o que você pensa, Ikki!
Virando-se e descendo pelo lado oposto, Milo saiu rapidinho dali. Mesmo Fênix sendo um Santo de Bronze, não queria saber de problemas com o genioso rapaz. E ele era um adversário bastante respeitável, já era de conhecimento geral... foi rindo até o caminho que levava à trilha seguida minutos antes por seus amigos, rumo aos limites do Santuário.
Olhou para o céu, que tinha nublado mais nas últimas horas.
“Parece que vai chover.”
Apressou o passo a fim de acompanhar os companheiros para o almoço em Rodório.
*************
Nem ele mesmo saberia dizer como saiu da cama. A letargia que se apossara de Camus não dava mostras de partir. Não obstante levantou-se e foi até a janela. O céu escuro, de uma tonalidade chumbo, silenciosamente anunciava chuva. Saboreou o vento fresco que acariciou seu rosto empalidecido pelas noites em claro e pelos dias de clausura. Pela depressão na qual se afundara. Depreciava a si mesmo por ser tão suscetível às vivências recentes.
TINHA que superar aquilo! Não fora resgatado por seus companheiros, que para isso tão bravamente haviam se arriscado? Não tinha voltado para Milo, machucado sim, mas “inteiro”? Não estava inválido nem nada! Estava pronto para continuar a viver, e a viver uma vida promissora, sem a ameaça da terrível Guerra Santa, que sempre terminava por ceifar as existências dos Cavaleiros de Ouro e, invariavelmente, da própria Deusa! Era querido pelos outros, seu aplicado discípulo enchia-o de orgulho, tinha o homem que amava... por que tinha que se deixar envolver por aquele sentimento tão ruim?
Ele tentava sorrir!
Ele tentava reagir!
Contudo...
...por vezes IMAGENS invadiam sua mente. VOZES. SENSAÇÕES.
Cruzou os braços e encostou a cabeça no batente da janela. Fechou os olhos, pensativo.
Por que aquilo acontecia?
Era como REVIVER… não apenas na mente, mas FISICAMENTE os horríveis momentos passados no amaldiçoado castelo de Wyvern.
Quando Milo entrelaçou suas pernas nas dele... quando fechava suas mãos em suas coxas... era o frio do metal que sentia... o metal dos tentáculos... apertando seus membros, deixando-o exposto e vulnerável... as tépidas e carinhosas mãos do grego sendo em seguida substituídas por mãos geladas de espectros, assédios lúbricos, violentos, dolorosos.
Abriu os olhos, com ódio de si mesmo.
Não deveria se entregar a traumas!
Era um SANTO DE ATHENA!!!
De sua frieza e equilíbrio dependiam seu valor como guerreiro!
“Preciso me esforçar... recuperar meu autodomínio... não posso afundar nesse pesadelo que vivi... não tenho o direito!”, pensou, furiosamente, os olhos enchendo de lágrimas. Teve ganas de esmurrar a própria face. Droga! Qualquer reflexão o deixava assim, ridículo...
Pôs-se a observar a chuva que desabara há pouco. Sequer percebera seu início. Estendeu a mão para fora, colhendo um pouco daquele frescor. Passou a mão úmida pelo rosto. Almejou ser tão puro quanto aquela manifestação da natureza.
Ser puro... outra vez...
...para Milo.
Abandonou seu quarto, desceu as escadas e retirou-se para o jardim. Ficou debaixo da chuva, parado, desejando ardentemente que cada poro de sua pele, cada parte de seu ser, fosse purificado pela fria precipitação.
Enquanto isso, Milo adentrava o Templo, fechando o guarda-chuva que fora obrigado a comprar na vila para proteger-se da súbita mudança do tempo. Carregando dois embrulhos, foi até o segundo andar. Surpreendeu-se por não encontrar o amante em seus aposentos, já que não o havia visto no andar de baixo em lugar algum da casa.
— Camus? — chamou, verificando a suíte e a varanda.
Nem sinal.
Procurou-o por todo pavimento superior. Desceu. Quando chegou à cozinha, viu a porta aberta e resolveu conferir se ele havia saído por ali.
Parou à porta e viu na parte exterior...
... a mais bela imagem jamais captada.
Em pé, puro e branco como os lírios do jardim, uma figura etérea e majestosa banhava-se na chuva como se tencionasse a ela se fundir.
Milo ficou boquiaberto. Quase deixou os pacotes caírem. Depositou-os numa prateleira próxima e voltou a fitar a cena. Permaneceu em absoluto silêncio, com medo de que o mero piscar de seus olhos vidrados fizesse a linda visão se desvanecer.
Camus, com o rosto levemente levantado, deixava seu corpo acolher a chuva, magnificado em completo abandono.
Lindo.
Tão lindo.
Tão puro.
Como ele poderia achar que não era puro?!?
Sua boca entreaberta de admiração (por que não dizer, adoração?) deixou escapar um murmúrio, sem que ele sequer se desse conta:
— Camus...
Como se o encanto fosse quebrado, o Santo voltou seu rosto sereno para o homem que o observava. Ergueu a mão, jogando para trás uma mecha dos longos cabelos azulados. A camisa branca molhada, agora transparente, grudada em seu peito, os cabelos molhados colados em sua face quase inexpressiva, seus olhos índigos fixos no recém-chegado... tudo compunha o que com toda a certeza era a mais bela imagem jamais presenciada por Milo.
— Oi — balbuciou o grego, a boca seca, o coração disparado.
— Oi — respondeu o francês, como que saindo de um transe.
Parecia tão perdido!
Oh, como queria alcançá-lo!...
Sorrindo com amabilidade, o escorpiano disse:
— Vem. Trouxe comida pra você. Vamos almoçar juntos?
O outro permaneceu imóvel. Nenhuma reação... como uma escultura milenar abandonada, continuou sob a chuva, agora mais fina porém ainda insistente.
“Camus...” pensou Milo, num misto de tristeza e preocupação. Insistiu, animadamente:
—É daquela cantina em Rodório de que você gosta! Nhoque ao molho de manjericão... o cheiro tá ótimo.
O francês parecia não se decidir.
— Vem, senão vai esfriar...
Lentamente, como num sonho, o aquariano dirigiu-se para ele, pisando delicadamente por sobre a relva batizada. Surpreendentemente, abraçou-o, sem se importar se molhava o grego ou não.
Milo tampouco se importou. Cingiu-o pela cintura e falou baixinho:
— Vem. Vou te enxugar antes de almoçarmos.
*************
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