Grilhões Eternais
2 Purificação
Notas iniciais
O Mestre Ancião, pequeno em estatura, fez-se gigante em solenidade, perante todos que se encontravam reunidos no pátio que dava para o Templo do Mestre, onde se ocorrera a última batalha:
– Athena deve purificar-se por 12 horas. Aioria, conduza Nossa Senhora aos aposentos da Deusa. Não deve comer nem beber por 12 horas, tampouco dormir. Meditará e magnificará seu cosmo durante esse tempo. São 6 horas da manhã. Às 18 horas de hoje, o milagre enfim...
– Eu me recordo, Dohko. Está voltando. Sei o que fazer – falou a jovem, calmamente.
– O que vai fazer, Saori? – inquiriu Seiya, receoso.
– Não se preocupe. Não há perigo, agora que me recordo.
– Ikki, Shaka e Mu cuidarão de resgatar o corpo de Shura – o Velho Cavaleiro não permitiu mais interrupções. O tempo começava a correr — Mu, após auxiliar Fênix e Virgem, se encarregará de Saga. Deixarei a Aldebaran os cuidados pelo corpo de Máscara da Morte. Aioria depois cuidará de Camus. Milo...
– Eu cuido de Camus, Mestre Ancião – sentenciou Milo, num tom de voz que não admitia réplica.
– Como quiser. Nesse caso, Aioria cuidará do corpo de Afrodite, e você, Cavaleiro de Escorpião, do corpo de Camus.
– O que quer dizer com “cuidar dos corpos”, Mestre? – perguntou Shiryu – E nós, cavaleiros de Bronze, que faremos?
– Cabe aos encarregados saber, Shiryu. Vocês quatro podem se dirigir aos aposentos contíguos aos aposentos de Athena. Ao contrário dela, devem se alimentar e repousar. E não resistam ao que estou ordenando. O trabalho de vocês está terminado, e com louvor. Agora, é conosco.
Hyoga virou-se para Milo. Os dois se encararam. Milo leu naquele jovem rosto a súplica óbvia, ao que respondeu:
– Você ouviu, Hyoga. Vá descansar.
– Como posso descansar... eu quero... eu quero ajudar você, Milo.
Apesar de muito forçar o retorno daquele ódio, Milo agora sentiu uma certa piedade invadir seu espírito. O garoto se culpava, e seus olhares de momentos antes colaboraram muito para esse sentimento, reconhecidamente inútil.
– Hyoga, você não pode ir contra os desígnios da única pessoa que sabe exatamente o que fazer para que ele retorne. Vá.
Cisne cerrou os punhos, presa de grande aflição. Milo não podia, contudo, consolá-lo. Isso era pedir demais. Resolveu dar as costas e, antes de partir, indagou:
– O que devemos fazer… Dohko?
– Purificação.
– O que isso quer dizer? – quis saber Aldebaran.
– Primeiramente, banhar seus corpos. Cuidem para que fiquem perfeitamente limpos, sem mácula alguma. Vistam-nos com peças claras, de preferência brancas, e depositem-nos em seus leitos. Eu levarei em seguida o óleo sagrado com o qual deverão aspergir seus companheiros na fronte, nos pés e nas mãos.
– Só isso?
– Por enquanto.
– Mas e...
– Agora vão! O tempo urge. Darei maiores informações no decorrer do dia.
Eles se prepararam para cumprir as ordens de Dohko. Aioria pôs a mão no ombro de Seiya:
– Muito bonito seu discurso, garoto. Pena que fiquei de fora dele.
– Ora, Aioria, nós já contávamos com seu apoio antes mesmo das batalhas!
– Sim, mas eu também ofereci resistência a vocês...
– Por causa do Satã Imperial, só por isso.
O cavaleiro de Leão bagunçou o cabelo castanho do adolescente, afetivamente.
– Agora vão. Tudo vai dar certo. E obrigado, Seiya.
O rapaz abriu um confiante sorriso, que parecia só dar forças a todos. Não era à toa que, malgrado nem fosse o mais forte, era a grande fonte inspiradora daqueles jovens cavaleiros. Juntou-se aos seus amigos e foi para o tão merecido descanso, enquanto os mais fortes desciam as escadas de pedra, rumo aos templos onde um novo dever os aguardava.
**************************
A manhã explodira com fulgor. Apesar de ainda ser primavera, o verão parecia se fazer anunciar, ainda que suavemente. Milo adentrara o Templo de Aquário, sentindo um peso inexplicável e ao mesmo tempo, uma urgência em não se deter nas emoções. Passara pela entrada cujas paredes de alabastro conferiam maior frescor que o exterior. De fato, a temperatura decrescia à medida que ele avançava pela morada de seu grande amigo. Amigo... amigo?
Tentou não pensar. A emoção poderia atrapalhar. Nada de hesitações.
Passou pelas colunas de mármore, agora envolto por uma tênue neblina. A claridade ia abandonando seu campo de visão. Após alguns minutos, deparou-se com algumas pilastras rachadas, pedaços de pedras no chão, parte do piso destruído, sinais de um confronto feroz. Maquinalmente, perdeu-se por uns segundos na cúpula acima dele. Afrescos delicados tencionavam passar uma paz ao local. Seres celestiais por cima das nuvens douradas, em misterioso esplendor.
E logo adiante, jazia Camus. De bruços. A armadura já havia se retirado daquele cavaleiro sem vida, tomando a forma de uma enigmática figura de mulher com um jarro. Milo deteve-se, incerto de como continuar. Seu peito pareceu comprimir seu coração, e um leve tremor tomou conta de seus membros.
Nada de hesitações.
Abaixou-se perto do cavaleiro caído. Tentou erguê-lo. Difícil. Seus braços doeram com o frio intenso. Ainda estava meio congelado. Usou uma pequena quantidade de seu cosmo para dissolver o gelo que resistia às horas. Tentou novamente, e teve êxito desta vez. A preciosa carga pareceu-lhe até mais leve. Ergueu o corpo lívido nos braços fortes, esforçando-se por apoiar a cabeça em seu peito. Não era muito fácil. Em todos os aspectos.
Caminhou até a sala de banhos. Já estivera ali, em situações mais felizes do que esta, embora nunca como gostaria de ter estado. E... e se o dono daquele templo retornasse MESMO, como prometera a Deusa? Teria agora a chance...? Não, isso não era importante. O importante era que Camus voltasse. Que seu Camus voltasse.
Mesmo que nunca pudesse ser seu.
Depôs o corpo álgido num balcão de carvalho. Pôs-se a encher a larga banheira de mármore rósea. Procurou os produtos de higiene e limpeza e organizou-os ao lado. Enquanto a água descia com força e espalhava vapor pelo recinto, Milo retirava a roupa remanescente do amigo, um collant azul índigo. Tentou não olhar em demasia aquele corpo há anos almejado. Não seria certo. A única coisa que não passou despercebida foi a estranha impressão de que Camus... dormia.
Ah, como ele queria que fosse isso.
Que seu amado estivesse dormindo.
Que estivesse embriagado, como na vez em que votaram de Rodório, a vila nos arredores do Santuário, após aquela louca aventura de há alguns anos, e... e Camus... e ele...
Fechou os olhos com força. Por que não esquecia aquele dia?
Tantos anos.
Nada de hesitações.
Durante a luta entre o dever e as lembranças, a banheira tinha quase que se enchido por completo.
– Certo. Vamos lá, francês...
Tomou-o nos braços e depositou-o na água quente. Apoiou sua cabeça para que não afundasse, e começou seu trabalho. Banhou-o, e, por mais que tivesse se policiado para nem isso fazer, não resistiu a um anseio... permitiu-se dar um casto beijo na fronte descorada, afastando dela alguns fios azul petróleo molhados pelo degelo. Mirou o corpo alvo na imensa banheira de mármore rósea. A água tépida acolheu o guerreiro. Milo sentiu os olhos arderem com violência perturbadora. Procedeu à limpeza, sufocando um gemido de dor a cada ferida que lavava, a cada hematoma que vislumbrava. Havia poucas cicatrizes mais antigas, o que mostrava quão forte havia sido o belo e altivo Cavaleiro de Aquário. Passou a mão pelo rosto aristocrático, sem expressão alguma, quase como sempre fora em vida. Pelo menos perante os outros. Pois perante Milo aquele rosto já demonstrara sim emoções que não a ausência, a fleuma pela qual era conhecido. Milo fora presenciado por algumas nuances que visitaram aquela quase sempre imóvel face: risos tímidos, devido às brincadeiras de infância, dos olhares raivosos após certas provocações de Milo, da expressão dura e determinada com a qual encarava um simulado de luta mais árduo e exigente. Sim, eram amigos. Foram amigos desde a chegada daquele francês franzino ao Santuário, há 16 anos. Muito mais pela insistência do menino grego de cabelos azuis arroxeados, tão vivaz, do que pela aceitação do estrangeiro de compleição frágil e olhar gelado.
Em nome daquela amizade sepultara o sentimento que ousou florescer em seu coração, por incrível que parecesse no mesmo momento em que se conheceram. Em nome daquela amizade poupara aquele que haveria de matar seu grande amor. Sim, era senso comum que Camus se sacrificara pela evolução do Cisne. Mas não era a mesma coisa? O resultado fora o mesmo: um corpo sem vida em suas mãos. Banhado por ele como um objeto, um boneco, um... um...
Um soluço alto escapou de seus lábios mordidos. Quando foi que os mordera?
Chegavam a sangrar.
Tinha sido para segurar aquele soluço?
Pois aquele soluço abriu caminho para outro... e para um gemido, ao qual se seguiu um gemido mais alto e dolorido. E para as cascatas de lágrimas ardentes que agora se juntavam às águas mornas, à pele molhada daquele que Milo, em desespero agora nada contido, apertava em seus braços. E para o grito sentido que se elevou rumo aos anjos que os vigiavam das abóbodas da Casa de Aquário:
– CAAAMUUUUS!!!!!!
Fale com o autor