Grilhões Eternais
39 Olhos de céu, olhos de mar
Notas iniciais
A porta se abriu e um Camus bem emburrado adentrou a magnífica suíte do Royal Reflection, um dos mais luxuosos cruzeiros do mundo. Milo veio logo atrás dele, com cara de criança a quem foi negada a sobremesa.
— Aaaaaaaahhh, não era pra ser assim, Camus, por que não deixou, heeein? Estragou o início da viagem... — choramingou, dramaticamente.
— Que ideia, Milo! Querer me pegar no colo em pleno corredor do navio e me trazer nos braços até o quarto! O que os outros iriam pensar?
O grego sorriu e abraçou-o por trás, malemolente:
— Que sou um homem muito sortudo!
Desvencilhando-se dele, o francês tirou os sapatos no hall antes de continuar a entrar no apartamento. Mesmo que não fosse sua casa, tratava-se de um hábito de higiene já arraigado... bem, de mais a mais, ali seria seu “lar” por um mês. Nunca ficara tanto tempo longe do Santuário, com exceção das vezes em que fora para a Sibéria.
— Ah, veja, já deixaram nossa bagagem aqui — comentou, vendo as malas dispostas numa antessala. Em seguida, pôs-se a considerar o espaçoso lugar.
Milo soltou um assobio de admiração. A sala possuía na outra extremidade portas e janelões de vidro que iam do chão acarpetado ao teto, uma enorme varanda com vista para o mar. Finamente decorada e guarnecida de home theater, uma TV de 48 polegadas afixada à parede, carpetes macios de cor creme, um extenso sofá claro repleto de almofadas, de fato, intimista e aconchegante. Arabescos dourados permeavam lambris, detalhes e rodapés das paredes em tons pastéis, onde se dispunham quadros de inspiração e temáticas clássicas.
— Uau, que demais, hein! Aqui diz que tem 185 metros quadrados — falou o escorpiano consultando um folheto que não largava.
— De fato, de muito bom gosto — a calma na voz do aquariano não traía o assombro diante de tanto luxo.
— Aqui diz que no navio todo são apenas três apartamentos como este aqui. Chamado de Suíte Owner, são os mais luxuosos do cruzeiro!
— Fico imaginando o quanto isto não estará custando para a Fundação Graad... — observou o francês, ainda sem jeito com tanta suntuosidade.
— Ah, de novo isso, Camus? Foi um oferecimento da Deusa Athena em pessoa! Como você rejeitaria um oferecimento DA DEU-SA? Negar uma dádiva divina é pecado, sabia?
—Hum — resmungou, caminhando pela acomodação, chegando a uma porta e constatando com surpresa que havia uma sala de música com vista para o mar, com um piano em cauda, um bar privativo bem abastecido em madeira nobre, cadeiras estofadas vermelhas e divãs acolchoados da mesma tonalidade das paredes lilás.
— Olha! Piano! Cê não toca piano? Até nisso pensaram — disse o escorpiano atrás dele, eufórico.
— É... já faz umas semanas que não toco — murmurou, ainda estupefato com todo aquele esplendor.
— Aaaahhh, pra ser totalmente perfeito, só se você tivesse me deixado entrar da maneira que eu queria — e voltou ao mesmo assunto com voz chorosa.
Camus franziu o cenho e deu-lhe as costas para procurar o quarto, que ainda não tinham visto.
— Ora, Milo, que absurdo! Todos iriam achar que nós...
Estacou, mudo, à porta do vasto dormitório, o queixo quase indo ao chão ante a visão da imensa cama circular coberta por centenas de pétalas de rosas vermelhas... e no meio um balde prateado com champanhe e taças.
— ... somos um casal em lua de mel... — concluiu, num fio de voz.
— Ei! Parece até ideia do Dite, né? Legal!
— MILO! Por acaso falou que somos recém casados ou algo do tipo?!? — rosnou o francês, muito vermelho.
— Eeeeeu? Claro que não... bem, ALGO DO TIPO.
— Grrrr...
— Olha que quarto lindo, amooor...
— Não se faça de inocente!
— Vem, vamos brindar — propôs o grego, alegremente, pegando as taças de fino cristal.
— NÃO. Vamos desfazer as malas primeiro e arrumar tudo nos closets. Depois você fica bêbado e não consegue fazer nada disto.
— AAAARRGH! GRANDE ZEUS! — Milo ergueu as mãos para o alto — Por que é que eu tinha que me apaixonar por alguém tão certinho e cheio de regras?
Sem lhe dar atenção, Camus foi buscar sua mala no corredor da sala. Sem outra opção, Milo suspirou e foi fazer o mesmo. Seu semblante logo se iluminou ao abrir sua enorme mala repleta de adesivos de bandas de rock: foi retirando vários panfletos com a programação do cruzeiro.
— Olha só quanta coisa pra gente curtir: karaokê com bebida liberada, SPA, shows de dança, teatro, cinema, jet sky, mergulho, passeios pelas ilhas, noite de queijos e vinhos, festas temáticas, então!, tem “Noite Havaiana”, “Anos 80”, “De volta aos loucos anos 20”, “Baile de máscaras”, “Festa à fantasia”...
— E roupa, tem aí? — ironizou o namorado.
— E na sua mala, o que tem? Tava mais pesada que a minha... é tudo roupa?
— Bem... — o aquariano abriu sua bagagem sóbria e escura, e revelou o conteúdo.
— Mas... mas... SÃO LIVROS!
— Excelente observação, Milo.
— PRA QUE ISSO TUDO DE LIVRO???
— Ora, para que servem os livros?
— Você NÃO vai ficar lendo com tantas atrações!!!
Camus suspirou, já tentando escolher quais começaria a ler. Teriam que ser pelo menos dois, nunca lia um livro apenas.
Embora o escorpiano preferisse ir logo conhecer o cruzeiro, ou pelo menos uma parte dele, já que era gigantesco, acatou a vontade do namorado de arrumarem os closets. Conhecia-o, ele não sairia do camarote se não o deixasse impecavelmente preparado para que fosse sua habitação por um mês. Relevou, e logo estava colocando um de seus CDs de rock no som para animar a tediosa atividade.
— Milo, abaixe esse som, os passageiros vizinhos vão reclamar.
— Relaxa, “mon ange”, estes apartamentos possuem isolamento acústico!
— Hunf... você parece saber de tudo sobre isto aqui.
— Claro! EU me interessei em estudar tudo sobre o navio quando recebi os panfletos com as passagens. O que você fez com os seus?
—Bom… alguns eu usei como marcador de páginas de uns livros que estava lendo e...
O grego fez um muxoxo.
— Como você é desinteressado pelas coisas boas da vida, Camus.
— Isso não é verdade! — protestou o aquariano, levemente ofendido.
— Então prove, arrumando logo esse seu guarda-roupa para darmos uma volta pelo navio! Aqui, ó, eu já terminei.
— Já? — espantou-se o mais velho.
— Já.
— Deixe-me ver.
— O quê? Não.
— Por quê?
—Não confia em mim?
—NÃO — e o francês tirou o namorado da frente do closet, abriu as portas de correr e constatou o que suspeitava...
— Milo. Você NÃO ARRUMOU seu guarda-roupa. Apenas JOGOU suas coisas dentro dele de qualquer maneira!
— Aaaahhh QUE QUE TEM ISSO?
—ISSO VAI AMASSAR SUAS ROUPAS.
— Nossa suíte tem atendimento de mordomo exclusivo, tem gente pra passar as...
— QUE ABSURDO — indignou-se Camus, retirando tudo dali de dentro e jogando por cima da mala aberta.
— NÃÃÃÃO! O QUE TÁ FAZENDO!
— VAI FAZER DIREITO!
— CAAAMUUS...
— SABE QUE ODEIO DESORDEM!
— CAAAMUUS!!!
Do lado de fora, dois funcionários do cruzeiro passavam e acabaram por se deter na frente do apartamento 2, por causa dos gritos que vinham lá de dentro.
— Ei... este não é o camarote em que enchemos a cama de pétalas de rosas a pedido de um dos viajantes?
— É sim — o outro rapaz deu um sorriso malicioso — pelo visto, estão aproveitando bem a lua-de-mel!
*************
O Royal Reflection era um monumental navio de 320 metros de comprimento, que costumava sair de Atenas de julho a outubro para cruzeiros pelo Mediterrâneo, chegando até o litoral da Espanha, onde findava a viagem que passava pelas Ilhas Gregas, com paradas em Sicília, Nápoles, Sardenha, Nice, Marselha, Barcelona, Valência, e na volta, ilhas de Ibiza e de Malta. Tratava-se de um dos cruzeiros mais caros e luxuosos do mundo, sendo as acomodações dos Santos pertencentes à exclusiva categoria Owner, apenas três num universo de 600 cabines.
A tarde avançava: eles haviam embarcado por volta das 14 horas, e após deixarem tudo organizado conforme o metódico aquariano queria, resolveram passear pelo navio para conhecer as instalações e amenidades. Munidos de taças de refrescantes drinks – sempre havia um funcionário à disposição dos tripulantes para os servir, não importa onde estivessem — caminhavam calmamente, observando a infinidade de opções de lazer disponíveis: duas grandes piscinas de adultos e uma de crianças ao ar livre, piscinas de hidromassagem, cafés e bistrôs, pista para corridas e caminhadas, quadra de tênis, uma área que simulava um parque gramado, mirante...
— Por Athena, é uma verdadeira cidade! — impressionava-se Camus, ainda que do seu habitual modo contido.
— E estamos vendo apenas as áreas externas. Lá dentro há outras coisas legais: cinema, SPA, teatro, orquidário, solário, sauna, piano bar, danceteria, boate...
— Você está parecendo um promotor de turismo, Milo. Poderia largar o “serviço” de Cavaleiro de Athena — brincou o francês.
— Engraçadinho — enlaçou o amado — tô te mostrando que teremos muito o que fazer durante esses trinta dias... além de muito sexo gostoso, é claro.
Camus mudou de expressão e virou o rosto, incomodado. Milo percebeu; mordeu o lábio inferior e logo disse, animado:
— Ah, fora as paradas que vamos dar nas ilhas e cidades mediterrâneas. Poderemos passar algumas noites em pousadas bem gostosas à beira da praia... alugar bicicletas... visitar lugares históricos...
— Ainda acho um pouco fora de propósito isso tudo. Por que nos deram algo tão caro? E...
— Ai, Camus, vai começar? — o grego teve que controlar o tom impaciente — Poxa, foi um PRESENTE DE ATHENA, por Zeus!!!
— Sei, mas... veja essas pessoas... elas são ricas... milionárias... podem se dar ao direito de possuir tais caprichos, desfrutar dessas pompas, mas...
Milo tomou-o pela mão com firmeza, subitamente sério.
— “Mas” nada. Venha ver uma coisa — conduziu-o até uma escada que dava para a parte mais alta do navio.
Pararam junto à murada vidrada do chamado Mirante Sunset, perto de um bar de mesmo nome, um local destinado à apreciação da vista oceânica. Tanto Milo como Camus amavam o mar. Ficaram em silenciosa contemplação do majestoso e escuro mar cujos limites à visão beijavam o céu de profundo azul. Fazia um dia lindo, nenhuma nuvem pairava sobre eles, e o sol, apesar de intenso, não trazia calor excessivo já que não estavam no verão. De fato, outono era a época ideal para tal cruzeiro, pois a temperatura mais amena e o número menor de turistas certamente tornariam a jornada mais agradável para Camus. Ainda assim, tratava-se de uma época bastante visada, justamente pelos já mencionados fatores.
E o clima era muito favorável a que se aproveitasse bastante todas atrações ao ar livre.
— Olha, Camus... o mar tem a cor dos seus olhos...
— ... e o céu tem a cor dos seus — completou o francês.
— Eu preferia ter a cor dos seus olhos, sabia? Acho que já te disse isso. Combinariam muito mais com a cor do meu cabelo — riu — meus olhos são claros demais.
— Não fale besteira — retrucou seu amante, secamente.
— Por que é “besteira”?
—Porque seus olhos têm a cor mais bonita que existe. São os olhos mais lindos que já vi. Às vezes me pego olhando para eles sem conseguir pa... — parou, envergonhado do que dizia, e ficou ainda mais ao ver a cara embevecida de satisfação de seu acompanhante, que sorria de orelha a orelha com aquelas palavras, tão raras de se ouvir do frio jovem.
— Continue, estava indo muito bem!
— Ah, p-pare com isso — e pediu outro drink a uma garçonete que passava, mais para se livrar daquele olhar aparvalhado sobre si.
— Hunf — fungou Milo, aceitando um copo também. Assim que a moça se afastou, segurou o namorado pela cintura e tascou-lhe um beijo no rosto.
— Milo!!!
— Sem problemas, meu anjo... — e deslocou seus lábios para a base do pescoço do francês, fazendo-o se arrepiar — ninguém tem problema com isso aqui não.
— C-como você sabe?!
—Não percebeu que há vários outros casais gays aqui? São milionários... não há muito limite sobre o que podem ou não fazer... — e beijou-o na nuca, apertando-o suavemente pelos quadris.
— Você estava reparando nos outros casais gays, é?
— Você me entendeu, seu ciumento.
— Hunf... mas há de se manter a elegância e a discrição — resmungou o aquariano, no fundo amando aquele contato. Como não havia ninguém por perto, relaxou e permitiu-se admirar a vista com a mão de Milo a acariciar-lhe a cintura.
Ficaram assim, em silenciosa contemplação e comunhão, até que o grego, ao cabo de mais de 5 minutos, disse, em voz baixa, quase emocionada:
— É lindo, não é?
—É sim. E transmite muita paz.
“E é exatamente disso que você precisa”, pensou Milo.
— Olhando a superfície tão plácida, tranquila, dá até para esquecer que abaixo dela existe toda uma imensidão praticamente desconhecida, não? Belo e pacífico por fora, misterioso e indecifrável por dentro... profundo... e muito, muito além do que se vê — divagou Camus, absorto (o discurso fora muito provavelmente pela bebida)
Milo o beijou na face.
— Exatamente como você. O mar é como você. Está em seus olhos, até!
— .... — não pôde deixar de corar. Apontou o céu e disse — Já o céu azul é límpido, aberto, nos abraça e anima porque nos transmite alegria e esperança, nos atrai e nos acolhe, sempre nos vigiando, protegendo com sua luminosidade... e este é exatamente como você, Milo. O céu é como você. E está em seus olhos, também...
O coração do escorpiano aqueceu-se de tal forma que a garganta se fechou. Fitou-o, quase sufocando com aquela emoção tão sublime, e por fim, conseguiu dizer, ainda que por meio de um fraco sussurro ao ouvido do amado:
— Eu nunca vou ter palavras suficientes para expressar o que sinto por você. Por isso, fico com o “eu te amo”, mesmo. Porque ainda não se inventou a expressão que traduz meu sentimento por você, Camus. Não mesmo.
Eles se encararam por uns instantes, cada qual mergulhado na beleza do outro... Camus singrava aquele céu, Milo mergulhava naquele mar... céu e mar diminuíram a distância... lábios se tocaram de leve. O grego levou a mão à nuca do francês, puxando-o mais e inclinando delicadamente seu rosto para aprofundar a invasão àquela boca aveludada. Beijaram-se com a brisa marinha brincando em seus cabelos, que se mesclavam e ocultavam o ósculo apaixonado.
— Camus...
— Milo, quero ver o interior do navio.
O escorpiano piscou, surpreso, Até que enfim o namorado demonstrava interesse pelo cruzeiro. Desde que chegaram, mantinha aquele ar indiferente de quem está indo do banheiro para a cozinha da própria residência.
Deu-lhe um selinho e concordou, animadamente:
— Vamos lá!
*************
O Royal Reflection não era um dos mais caros cruzeiros do mundo à toa. Se Camus havia ficado secretamente impressionado com tudo que o amado lia nos folhetos, ficou muito mais ao comprovar pessoalmente o que o navio oferecia.
— Veja, Milo, um SPA — e aproximou-se para ler o que estava escrito na entrada, que se assemelhava a uma loja requintada de shopping center — ... eles têm tratamento de beleza, acupuntura, massagens relaxantes com...
— Parou, parou, aí você não entra!
— Hã?
—“Massagens relaxantes”, pois sim! Só EU posso fazer “massagens relaxantes” em você. Não quero ninguém botando a mão no meu picolé!
— Droga, Milo — ficou prontamente ruborizado — se alguém te ouve falando assim, vai pensar que está se referindo ao meu...
— AQUILO SIM é legal — e puxou o outro pela mão, avançando pelo largo corredor espelhado, cuja iluminação natural provinha de uma imensa cúpula no centro acima deles — a boate do navio! Tem festas temáticas... vamos dançar muito... não vejo a hora de ver esse seu corpinho gostoso se requebrando!
— Pois essa hora NUNCA vai chegar, ouviu bem? — rebateu o aquariano, com uma careta de desprezo.
Ignorando a expressão queixosa do amado, comentou, diante dos coloridos cartazes das peças teatrais mais à frente:
— Hum, mas o teatro pode ser interessante.
— Eu não sou muito fã de teatro... prefiro cinema.
— Gostar de um não precisa excluir o outro, Milo.
Desceram pelas escadas acarpetadas de corrimões dourados até o pavimento inferior. Os olhos do escorpiano brilharam ao ver o cassino.
— Ei, isso sim é legal!
— Discordo. Você vai ficar bêbado, fazer apostas mirabolantes e sair daí de cuecas.
— Mas que previsões pessimistas, senhor Aquário!
— Gente impulsiva como você e cassinos não combinam nem um pouco.
— Posso ser impulsivo, mas sou excelente estrategista! — retrucou, fingindo indignação.
— Hum, salões de hidromassagem. Parece bom.
— Não precisamos deles, temos no nosso apartamento, bem de frente para o mar, na varanda... lá posso ficar mais à vontade. Aqui eu iria colocar minha mão dentro da sua sunga e você não ia deixar e eu...
— MAS É CLARO QUE NÃO! — o francês corou violentamente — Milo... você... por Zeus!
— Que é, ficou excitado?
—Você... oh...OH!
— Ficou mesmo, né?
—MILO!
—Por isso não, vamos agora mesmo voltar para nosso...
— Milo, OLHA ISSO!
Agora Camus tinha verdadeiro brilho nos olhos. Milo seguiu seu olhar, e falou, com desânimo:
— Uma biblioteca? Ah, é. Tava escrito no panfleto que tinha uma aqui.
— ......
— Hum. Viu só? Você nem precisava ter trazido aqueles livros todos. Se ao menos tivesse olhado os folhetos antes de vir, saberia disso. Mas nãããão, tinha que dar uma de “oh, nem ligo se vou...”, Camus, TÁ ME OUVINDO?
Como que hipnotizado, o aquariano adentrou o requintado recinto, decorado com inspiração inglesa; paredes e teto em madeira nobre escura e lustrosa, finos acabamentos, belos quadros entre as prateleiras recheadas de obras clássicas e contemporâneas, poltronas em couro marrom, tapetes persas genuínos... até mesmo uma lareira havia para dar o clima de uma sala de leitura vitoriana.
— Dizia o panfleto que aqui tem mais de 5 mil obras à disposição para empréstimos. Agora me diz, que DOIDO que em pleno cruzeiro pelo Mediterrâneo, com tanta coisa legal pra se fazer, vai se enfurnar numa biblioteca e... CAMUS, NÃO FAÇA ESSA CARA!
— Que... que cara? — nem se virou para ele.
— ESSA CARA DE CÃO FAMÉLICO QUE CÊ TÁ FAZENDO! Você NÃO VAI ficar entocado numa biblioteca em pleno cruzeiro!!!
— Senhor, por favor... poderia falar mais baixo? — pediu, bastante sem jeito, uma funcionária do local.
— Oh, me desculpe.
— Vamos, Milo, que vergonha — Camus puxou-o pelo pulso, para que saíssem dali. Os poucos presentes não puderam resistir a observar aqueles belos jovens, e até a moça que chamou a atenção de Milo arrependeu-se por fazê-lo... não queria que aquela maravilhosa visão se fosse dali...
*************
Após darem mais algumas voltas e tomarem café num charmoso bistrô no convés, os amantes resolveram voltar para o camarote a fim de se prepararem para o jantar.
Ao entrar no apartamento, Milo jogou os tênis para um canto qualquer e se atirou no sofá, suspirando longamente. Pôs as mãos atrás da cabeça, admirando-se com a visão onipresente do mar. Pegou uma garrafa de champanhe, estrategicamente deixada sobre a mesinha de frente, onde ele pusera seus pés cansados.
— Milo, não beba mais, você já tomou muitos drinks lá fora. Deixe para depois do jantar — aconselhou Camus, desabotoando a camisa azul clara.
— Aah, isto aqui é demais, não é? É incrível! É muito melhor do que eu imaginava.
— É sim, agora que tal você deixar essa garrafa fechada para uma outra ocasião? Vamos nos arrumar.
O escorpiano virou-se para ele, erguendo uma sobrancelha.
— Nada disto aqui te impressiona, não é?
— Por que está dizendo isso?
— Não sei... na maioria das vezes você parece tão animado quanto alguém que está numa farmácia pra comprar remédio.
— Milo... eu só estou um pouco cansado... e suado. Vou melhorar depois do banho — e dirigiu-se à suíte do dormitório. Antes de ir se banhar, separou cuidadosamente a roupa que iria vestir.
Ao entrar no banheiro conteve uma exclamação admirativa. De fato, espetacular... ele podia não ficar empolgado como o parceiro, no entanto, evidente que reconhecia a opulência das acomodações.
A visão do oceano se fazia presente em todos os ângulos do recinto, pois os banheiros das suítes Owner foram construídos em formato de diamante, incrustados no navio; paredes e tetos de vidros especiais e com luminosidade regulável permitiam total comunhão com a paisagem. Além do chuveiro dentro de boxes de vidro, uma escadinha conduzia à grande banheira, quase uma piscina, que se estendia para o lado de fora da embarcação. Seria sensacional banhar-se ali tendo o mar como cenário!
Sorriu, atestando facialmente o que ele já sabia: que estava muito contente por estar ali. Ainda que Milo lhe acusasse do contrário.
Despiu-se e tomou uma deliciosa ducha enquanto a banheira enchia rapidamente. Saiu do box, desceu os pequenos degraus e deixou-se acolher pela água morna.
Era realmente incrível, ficar imerso diante das vagas azuladas que agora eram tingidas de laranja pelo sol que tocava o horizonte. Uma imensa paz apoderou-se do seu ser... paz esta que foi momentânea, pois logo ouviu o som do chuveiro atrás de si.
— Milo, eu ainda não terminei — queixou-se.
— Ainda bem.
— N-não está pensando em... em entrar aqui comigo, está?
— Mas É CLARO que estou.
— Milo... mas... OK, eu já vou sair.
Quando ia se erguer, o escorpiano fechou a torneira do chuveiro, deixou o box e, segurando delicadamente o namorado pelos braços, fê-lo voltar para a banheira, com gentileza.
— Senta aí, Camus.
— Não! Eu... eu... — temia que o namorado tentasse algum contato mais íntimo e que mais uma vez uma das horríveis e vexatórias crises viesse atrapalhá-los bem no primeiro dia de viagem.
— Camus... senta, vai — ordenou, surpreendentemente sério. Aquilo foi tão inesperado que o aquariano obedeceu, sem mais recusas.
Ambos ficaram sentados, imersos na água, diante da vastidão do oceano. Por longos minutos nada foi dito. A tensão de Camus amainava à medida que o tempo passava. Então o grego proferiu, no mesmo tom baixo da ordem que dera:
— É lindo, não?
Hesitando uns instantes, o francês concordou, mais calmo:
— É sim.
Milo fez menção de pôr um dos braços por sobre os ombros do namorado.
— Eu posso?
Camus assentiu com a cabeça e se aproximou mais dele, encostando naquele corpo forte e moreno.
— Camus. Não precisa ter receio de minha proximidade.
— Eu? Mas eu…
—Teve medo de que eu entrasse nesta banheira com você. Achou que eu viria só pra fazer sexo. Que eu não faria isso meramente por querer estar junto do meu namorado.
O rubor do outro confirmou suas suspeitas.
— É claro que quero fazer amor com você. Mas não é só isso que quero de você, e muito menos o tempo todo. Achei que a essa altura já soubesse.
— Eu... eu... me desculpe, Milo, não foi por você. Tenho medo de que eu...
— Eu PRECISO de você, Camus — cortou o jovem, mirando-o gravemente.
O aquariano perdeu completamente a fala.
— Agora... apenas relaxe, OK? A noite é longa — voltou a fitar o mar, suas feições suavizando-se novamente — e é apenas a primeira.
— Sim — balbuciou o francês, aninhando-se nele. Pousou sua cabeça na junção do ombro e do pescoço do amado, voltando a sentir aquela doce paz de antes.
Não.
Era MUITO MAIOR.
Em cúmplice mudez, contemplaram o pôr do sol mais estupendo de suas vidas, desejando que assim como aquele sol sumia pouco a pouco no limiar do oceano agora escuro, também seus fantasmas desaparecessem de suas vidas.
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