Grilhões Eternais
1 O pedido à deusa
Notas iniciais
Capítulo 1 – O PEDIDO À DEUSA
— Seiya, eu te concedo um desejo.
Os raios alaranjados da manhã que nascia banharam o rosto alvo de Saori Kido, que tinha diante de si o líder de seus mais fiéis protetores. Este mantinha a expressão surpresa, não se sabia se pela oferta ou se pela estupefação em ver seus companheiros ali, vivos como ele. Como sofreram! Não duvidaram do sucesso de sua empreitada, pois nunca deixaram de acreditar naquilo que os movera a tal sacrifício. Mesmo assim, parecia incrível a manifestação real da divindade da garota que eles apoiaram. Nada mais esperado que a Deusa ressucitasse aqueles que a salvaram, e a custa de tantas dores... físicas e, sobretudo, mentais. Ouvia-se ao longe o canto de inúmeros pássaros, que ecoava pela imensidão do Santuário.
Todos olharam para o rapaz. Seus jovens amigos de batalhas não invejaram-lhe a dádiva concedida: tinham certeza de que o que o Cavaleiro de Pégaso pedisse não seria apenas em benefício próprio. Seu pedido, certamente assim como o calor de seu cosmo e de seu coração, se estenderia àqueles com quem partilhava a vida. Sempre fora dessa forma, e por isso, nem sombra de insatisfação passou por aquelas jovens almas, tão precocemente acorrentadas a responsabilidades inimagináveis por simples mortais. Os demais presentes, os imponentes Cavaleiros de Ouro, tampouco experimentaram semelhante sensação. Malgrado fossem a mais alta patente dos Defensores de Athena, não cabia exatamente a eles o grande feito de haver salvado a Deusa da Guerra, pelo menos não desta vez. Era justo que o Cavaleiro de Bronze fosse agraciado por tal privilégio.
Seiya coçou o nariz e encarou a todos, ansiosos por ouvi-lo. Apesar de não temer ser o centro das atenções – muito pelo contrário, até! – foi com voz baixa e tímida que começou:
— Saori... Athena. Eu agradeço por ter nos revivido. Essa já foi a maior recompensa que eu poderia querer, ter aqui, de volta, meus irmãos de bronze – seus olhos marejaram e sua voz tremeu levemente. Controlou-se, fazendo-se mais firme. O que iria pedir poderia ser considerado um abuso:
— Alcançamos o Sétimo Sentido, tão necessário para nossa luta, graças aos ensinamentos de Mu. Mu, que é um Cavaleiro de Ouro, que deveria ficar contra nós, a mando de Ares... nos ajudou desde o início. Reviveu minha armadura e a de Dragão, quando Shiryu foi a Jamiel. Consertou as cinco armaduras de bronze quando chegamos à Casa de Áries. Ele se arriscou muito, tanto quanto nós... – um sorriso terno se desenhou na face de Mu. Realmente, tinha mesmo que ter feito aquilo. Aquele garoto... o lemuriano já antevia seu pedido — ... e Aldebaran também nos orientou acerca do Sétimo Sentido, e de como vencer as próximas batalhas, sendo que ele mesmo nos deixou passar, nada me tira isso da cabeça.
Aldebaran pôs a mão por trás da cabeça, e fechou os olhos, enquanto dava um sorriso maroto.
— E eu não estaria aqui se não fosse por Shaka. Afinal, ele pediu que Mu me trouxesse também do estranho mundo no qual nós dois fomos parar – declarou Ikki, voltando-se para o Cavaleiro de Virgem, de quem foi a vez de sorrir ternamente, embora de forma mais discreta do que Mu.
— Nem eu estaria aqui se não fosse pelo Cavaleiro de Ouro de Capricórnio, já que... – Shiryu olhou para o céu enquanto falava, resolutamente – Shura salvou meu corpo, enviando-me de volta à Terra, protegido por sua própria armadura. Se ele não tivesse feito isso, como Saori poderia me trazer de volta à vida?
— E... meu Mestre Camus... – Hyoga inconscientemente olhou para o Cavaleiro de Escorpião, que sentiu-se estremecer dos pés à cabeça — ... ensinou-me sobre o Zero Absoluto, sem o qual eu não poderia aprender seu golpe mais poderoso, a Execução Aurora... ele, que me ensinou tantas coisas, ensinou-me a última lição à custa de sua própria vida...
O coração de Milo disparou dolorosamente, ao ouvir menção a seu adorado Camus na voz de quem o matou. A quem esse moleque pensava que enganava? Aquelas lágrimas não lhe diziam nada, aquela voz embargada não lhe dizia nada! Encarou o Cavaleiro de Cisne, esforçando-se muito para não deixar transparecer seu ressentimento... não, o seu ódio! Mas... por que disfarçar? Ah, sim… tudo fora em prol do salvamento da Deusa. De sua Deusa. Da Deusa de Camus. Sim, tudo fora vontade de Camus, não fora? Então aquele sentimento que fazia sua pulsação acelerar-se além do normal era errado... muito errado. Voltou a prestar atenção em Seiya, e perguntou, sem conseguir disfarçar, contudo, certa impaciência:
— O que quer dizer ao iniciar esse discurso, Cavaleiro de Pégaso? Aonde querem chegar, Cavaleiros de Bronze?
Surpreendentemente, o impulsivo Seiya não se abalou perante aquele tom autoritário. Manteve a serenidade ao mirar o magnânimo semblante de Athena, e continuar:
— Se estou me estendendo, é porque entendo que o que vou pedir poderá exigir muito de você, Sao... Athena. Porém... se for possível... e se houver algo em que eu possa ajudar para isso, eu... eu gostaria que os Cavaleiros de Ouro que morreram na Batalha das Doze Casas TAMBÉM pudessem ser revividos. Como nós.
Um murmúrio de surpresa correu entre os presentes.
— Não conseguiríamos sem eles. Mesmo os que estavam abertamente contra nós. Mesmo Afrodite... Máscara da Morte... até porque – e concluiu, num fio de voz – eles estavam cumprindo ordens... à maneira deles, mas estavam.
A respiração de todos manteve-se suspensa. Grossas lágrimas verteram pelo delicado rosto de Shun. Ele, que sempre fora tido como o mais bondoso dos cinco Cavaleiros de Bronze, aliás, de TODOS os cavaleiros, não havia pensado naquilo. Lamentaria, sim, porém talvez não teceria a linha de pensamento do amigo, o qual todos julgavam meio “descerebrado”. Ficou sinceramente comovido. Ousou inquirir: “Mas… e Saga?”
— Shun, fui testemunha da luta de Saga contra seu lado perverso quando cheguei à Sala do Patriarca. Mesmo em grande sofrimento, ele me disse como tirar a flecha dourada do peito de Athena. Contou-me sobre Niké, a Deusa da Vitória, que estava sob a forma do báculo de Saori. Mesmo em meio a uma terrível agonia, ele me contou. Posso imaginar como não devem ter sido os dias de Saga, sofrendo daquele jeito... ele também merece reviver.
Enfim, fez-se silêncio no antigo pátio. Shiryu olhou novamente para o céu; seus negros cabelos dançando ao sabor do vento suave, que também balançou as madeixas douradas de Hyoga, ocultando-lhe os olhos úmidos. Ante aquela visão, Milo sentiu a garganta fechar. Crispou as sobrancelhas azuis, e sentiu as unhas enterrando-se nas palmas das mãos, tão forte cerrava os punhos. Encontrava-se incerto de seus sentimentos. Ele era só dor. Não havia raciocínio. Apenas dor. Ikki olhou para Shaka, que sorriu levemente para ele. Os olhos de Fênix cintilaram. E ele sabia que mesmo com sob as pálpebras, o loiro possuía igual centelha nos ocultos olhos da cor do céu. Os Cavaleiros de Ouro permaneciam imóveis, admirados tanto com a nobreza daqueles jovens guerreiros, quanto pela magnitude do pedido. Foi Mu quem quebrou o silêncio:
Seiya… suas razões são nobres. Porém, eu não creio que tal feito esteja ao alcance de Athena...
Está, Mu de Áries.
Todos se voltaram na direção de onde viera a voz cansada, contudo decidida. Firme.
– Mestre Ancião! – surpreendeu-se Shiryu.
A pequena figura caminhou até Athena, que saudou-o com um menear de cabeça. Ele cumprimentou-a da mesma forma. O Cavaleiro de Libra prosseguiu, fazendo-se ouvir por todos, boquiabertos.
– Reviveu os jovens Cavaleiros de Bronze de maneira instintiva, não foi, Minha Senhora?
– Sim, Dohko. Somente agora várias lembranças retornam à memória de Saori Kido. Muito de minha energia foi empregada devido a essa ação imprudente, de forma que agora deverei recorrer aos procedimentos sagrados.
– É natural, Athena. A consciência divina pode demorar mais tempo para aflorar em certas reencarnações.
– Mestre, parece que está chamando Saori de burra...
– Seiya!!! – os quatro adolescentes quase gritaram. A jovem e o ancião deixaram escapar uma risada.
– Eu a guiarei, Athena. Tenho a experiência de já a ter auxiliado antes... há mais de duzentos anos...
– Duzentos anos??? – os quatro quase gritaram de novo. Quatro, não. Cinco, desta vez, incluindo o Pégaso.
Saori parou de sorrir. Disse, considerando seus Cavaleiros com carinho:
– Entretanto, preciso de certos preparativos... peço que me dêem doze horas. Mestre Dhoko...
– Sim, Athena – o Velho Cavaleiro encarou seriamente seus companheiros de patente – Por favor, levem os que ainda dormem o Sono Eterno para suas respectivas Casas. Cuidem para que seus corpos sejam lavados cuidadosamente, e depois tratados com o óleo que prepararei com ervas especiais dos jardins de Afrodite.
Temeroso, Shiryu deixou escapar: “Mas... Shura...”
– Shaka e Mu podem cuidar disso. Vai exigir bastante de vocês dois também, meus amigos – anunciou Libra, muito grave.
Ikki olhou para o loiro, preocupado. Este apenas respondeu, imperturbável como sempre:
– Não importa. Eu farei o que for preciso.
– Shaka, você acabou de trazer a nós dois de um outro mundo! Mesmo que Mu tenha te ajudado, sei que custou muito de sua energia! Não será perigoso?
– Preocupado comigo, Ave Fênix? – provocou Shaka, discretamente.
O jovem de cabelos azulados contraiu as grossas sobrancelhas, ao mesmo tempo que abria a boca para responder atrevidamente. Foi prontamente cortado pela voz suavizada de Virgem, que agora postara-se diante dele, bem perto:
– Sim, será perigoso... assim como tudo, Fênix. Eu não te disse que o próprio Céu é o lugar mais perigoso que existe?
– Mas...
– Mas é possível... Ikki.
O nome fora pronunciado de forma tão suave que apenas o irmão de Shun escutara. Sentiu o coração disparar.
– Pois eu irei ajudá-lo.
– O quê? Ikki…
– Não se esqueça de minhas asas de Fênix, Shaka. Você conhece o poder delas. Auxiliadas pelo seu cosmo supremo, elas certamente poderão voar a qualquer lugar do universo.
– Ikki!
– Não aceito um “não”, Cavaleiro de Virgem – e presenteou o outro com um de seus sorrisos cheios de sarcasmo e altivez. Shaka teve que se controlar para não sorrir também ao garoto. Nunca iria admitir, pelo menos não com tanto público, o quanto era tocado por aquele rosto moreno, tão belo em seu furor de juventude e decisão. Apenas murmurou, de forma quase inaudível:
– Teimoso.
O sorriso de Ikki apenas ficou maior.
Em meio àqueles sorrisos, decisões, murmúrios animados, Milo sentiu-se perdido. Deslocado. Por que sorriam? Acreditavam assim… tão facilmente? Instintivamente ergueu um pouco as mãos, como se fosse gritar “Parem!”. Ao invés disso, dirigiu-se à jovem cujos cabelos violetas serpenteavam vigorosamente na direção do vento cálido da manhã. Também os cabelos azuis escuros de Milo revolveram-se, quase cobrindo seu rosto desfeito pela dor. Súbito, ajoelhou-se perante a Deusa e agarrou-lhe a ponta do longo vestido branco, sujo de terra e areia. Todos emudeceram ante aquela cena.
– Athena... pode mesmo fazer isso? – sua voz saiu mais trêmula do que ele mesmo ouvira.
Ela sorriu, docemente. Sua mão alva pousou nos azulados cabelos revoltos.
– Você acredita que eu posso, Cavaleiro?
– Sim... sim, eu acredito!
– Então eu o farei.
Fale com o autor