Grilhões Eternais
3 O estrangeiro e a maçã
Notas iniciais
— Não confia em Athena, Cavaleiro?
Num sobressalto, virou a cabeça para trás, já se envergonhando por não ter sentido a aproximação do Mestre Ancião. Por Zeus... imperdoável para qualquer guerreiro, quanto mais para ele, um Cavaleiro de Ouro! Ou a pequena figura ocultara seu cosmo ou...
Que bobagem. Por que ele teria feito isso? Não: sua dor é que havia distraído seu espírito. Preferiu fingir não ter reconhecido seu deslize perante o experiente chinês.
— Mestre Ancião...
— Pode me chamar de Dohko, Milo.
— Eu...
— Diga-me, Milo de Escorpião. Não confia em Athena?
— Eu… quando o senhor… você...
— Vim trazer o óleo de que falei. Feito com as ervas especiais dos jardins de Afrodite. Esqueceu-se de que eu disse que iria até cada um dos que estão cuidando dos corpos de nossos companheiros, para entregar este que é item essencial do ritual de Athena?
— Claro... ou melhor, não... eu só...
— A perturbação em seu cosmo é tão imensa que resolvi vir aqui antes de qualquer outra Casa. Na verdade, até me apressou, hehe.
Abaixando a cabeça, Milo tencionou esconder o que o Cavaleiro de Libra já havia visto: suas lágrimas abundantes, dolorosas.
— Estou esperando a resposta.
— Eu sequer entendi a pergunta – murmurou o jovem, levemente irritado, extremamente cansado.
— Ora... Athena prometeu reviver nossos companheiros. E eis que aí está você, ainda como uma viúva pranteando por sobre o corpo do marido, enquanto o prepara para o velório!
— Mestre...!!!! – os olhos azuis faiscaram de indignação.
— Sim, sim! Ah, ah, ah, essa sim é a expressão digna de um Cavaleiro que prefere lutar a esmorecer sob o desânimo e o desespero!
Milo conservou as sobrancelhas franzidas e o rosto contorcido de genuína raiva por alguns segundos. Enfim, sua fisionomia suavizou-se, e ele tornou a olhar o homem inerte em seus braços.
— Sempre confiarei na Deusa. Esta é a razão de ser quem sou. – respondeu, finalmente, com voz baixa e incrivelmente firme.
— Então reconheça que seu desespero é infundado e sem sentido.
Os lábios de Milo fremiam. Estava consciente disso! Como proferido, a fé na Deusa moldou-lhe a existência, o caráter. Como seria Cavaleiro de Athena se não confiasse em Athena? De fato, um paradoxo...
— Embora não inexplicável – disse Dohko.
— Como? – o grego fez cara de quem não havia entendido.
— Afinal... o amor sobrepõe-se à razão, muitas vezes.
Milo estremeceu ante aquela afirmação. Encarou o ancião, com os olhos tão arregalados que o outro teve que se controlar para não rir. Não queria estressar mais ainda o rapaz atormentado.
— Eu não... o que o senhor quer dizer?
— Exatamente o que eu disse. Agora recomponha-se. ELE precisa de que você faça isso.
Levou a mão enrugada até os ombros tensos do guerreiro.
— Milo. Confie em Athena. Confie em Camus. E sobretudo, confie que você PODE confiar.
Fechando os olhos com força para impedir nova torrente de lágrimas, Milo permaneceu em silêncio por uns instantes, até que pôde mirar o rosto do Velho Cavaleiro e forçar um sorriso.
— Eu confio, Dohko. Eu confio.
— Ótimo. Aqui está o óleo. Passe pelos pontos que mandei: na testa, nas mãos e nos pés. E, Milo... após terminar, coma alguma coisa. Não vai recepcionar bem o seu amigo se estiver desfalecendo de fraqueza. Já está sem se alimentar há muito tempo.
Não deduzia, afirmava. Não era tido como sábio em vão. Mesmo de volta ao Santuário há tão pouco tempo, era como se conhecesse cada um daqueles jovens, pertencentes a uma geração muito posterior à de Dohko.
— Vista-o com uma roupa clara e aguarde meu retorno.
— Para quê? Há mais algum procedimento, Mestre… Dohko?
A voz de Libra abaixou-se consideravelmente. Percebia-se tensão, pela primeira vez em seu tom, sempre equilibrado e quase bonachão:
— Sim. Mas por hora, faça o que eu disse. Acomode Camus no leito e aguarde. E acalme seu coração.
Milo apenas assentiu com a cabeça. Pensou em perguntar como o ancião havia desvendado seus reais sentimentos, os quais ele julgava ocultar tão bem. Mas concluiu que deveria ter sido pela cena de pura angústia testemunhada por Libra, aliada à famosa sabedoria atribuída ao mestre de Dragão. Com passos lentos, Dohko retirou-se do Templo de Aquário.
O jovem retirou o amigo da água. Depositou-o num balcão de carvalho e pôs-se a enxugá-lo, delicadamente, com uma toalha felpuda e perfumada. A sensação conservava-se muito perturbadora, malgrado as sábias palavras do experiente visitante. Aliás... como poderia encará-lo daqui por diante, agora que... que seu “segredo” fora descoberto? E... seria isso realmente um grande problema? Não acreditava que o mestre de Shiryu fosse espalhar seu “segredo” pelo Santuário, como se fosse algum colunista fofoqueiro de celebridades. Ainda assim, não se sentia muito à vontade...
Bom, havia questões mais urgentes no momento.
Camus.
Começou a passar o óleo nas áreas recomendadas, ainda um pouco úmidas. Começou pelos pés. Em seguida, esfregou nas mãos, sem perceber, demorando-se mais do que gostaria. Enfim, a testa larga e lisa. Retirou a franja molhada, deixando a fronte livre. O delicado aroma acalmou-lhe um pouco os sentidos... suave e reconfortante. Após aspergir-lhe a testa, reparou como Camus era perfeito. Seu nariz afilado e aristocrático, seus lábios finos, a pele imaculada e um pouco mais clara que a dele. As sobrancelhas peculiares que lhe conferiam uma aura de mistério. Os cabelos molhados pareciam negros, e não mais possuidores daquele enigmático tom de azul, que oscilava entre o fundo do oceano e o céu que precede a aurora. Acariciou-lhe o rosto, lutando para não derramar mais lágrimas. Por fim, vestiu-o com uma túnica branca de linho sedoso. Carregou-o para o quarto e o acomodou na enorme cama, coberta com lençóis tão alvos quanto a veste que envolvia o belo corpo nela depositado.
Abriu um pouco as cortinas cor-de-vinho para deixar entrar mais claridade no aposento. Queria evitar um ambiente tristonho, deprimente.
“Quero pensar que você está dormindo... Kamyu...”
Sabia que o Mestre Ancião tinha razão sobre ele precisar nutrir seu organismo. Entretanto, não havia nem fome, nem vontade de sair de perto do Cavaleiro de Aquário. De seu grande amor. De seu secreto amor.
“Sim, você dorme, Kamyu. Dorme... porque no final do dia, vai acordar.
Confio em você.
Confio em Athena.
Confio em mim.
Não vou ceder.
Não vou. Eu juro!”
Aquele rosto sereno reforçava a ideia de que tratava-se se um sono... temporário.
“Você parece tão mais... leve, Camus. Digo, sem aquela expressão dura, carregada de sempre. É estranho. Parece doce.”
Os longos e curvados cílios sob as exóticas sobrancelhas, que já tinham sido alvo das provocações de Milo, quando crianças e adolescentes. Gostava de provocar Camus, dizendo que lhe daria de Natal um kit de corte e costura para “costurar” aquela sobrancelha no lugar. Ou uma tesourinha para tirar aquele “rabinho de peixe” fora. E ria, ria... ria das próprias piadas.
Camus não ria.
Camus não ria nunca.
Pelo menos, não das piadas... será que ele ria de algo? Como é que alguém não ri NUNCA? Bom, sorrir... um sorriso não muito expansivo ele até se permitia. E chegava perto de rir. Mas nunca um riso autêntico, divertido... Milo provocava-o e esperava, tenso. Preocupado. Queria tirar dele ALGUMA reação. O outro encarava-o, impassível, o olhar plácido e indiferente. Perturbadoramente... indiferente. O jovem grego chegava a temer que a qualquer momento o francês lhe desse as costas, que se afastasse dele, abandonando aquele bobo infantil. Seu coração parecia parar nesses instantes. Mas... eis que Camus franzia o cenho e dirigia-lhe AQUELE olhar. Então tudo mudava. Parecia dardejá-lo com cristais de gelo. Olhar de raiva... olhar de quem mordera a isca! Milo só faltava bater palmas. Ria, deliciado, arrancara uma expressão irritada daquele rosto impassível, gélido... que conseguia assim ficar ainda mais atraente.
Obviamente, um sorriso seria um prêmio ainda maior, mas uma expressão de irritação era 10 vezes mais valiosa do que a indiferença...
Há dezesseis anos, ele treinava numa clareira, não muito longe da arena principal. As crianças, notadamente os meninos, executavam exercícios ainda não muito pesados naquela manhã de quinta-feira. O desjejum fora tomado há pouco tempo, por isso ainda estavam aquecendo. As amazonas treinavam num espaço à parte, e só depois de alguns anos, poderiam eventualmente realizar algumas disputas mistas. Mesmo recebendo ordem de não exagerar com os colegas, o pequeno Milo já demonstrava uma grande ferocidade em campo. Os instrutores ali presentes chamaram-lhe a atenção algumas vezes. Ele até tentava se controlar, mas quando menos percebia, já estava “pegando pesado” de novo, mesmo contra meninos mais velhos que ele.
Malgrado fossem oito horas da manhã, o calor já abrasava. As sombras das enormes árvores conferiam certo alívio, porém o menino não se importava com isso. Fora levado para o Santuário havia seis meses, e possuía uma desenvoltura e familiaridade com o local maiores do que muitos há mais tempo que ele ali. Os mais experientes observavam-no, com misto de admiração e, claro, atenção para que o afoito garoto não machucasse desnecessariamente os companheiros.
— Milo! Milo, venha cá!
— Sim, Saga! – ele prontamente atendeu, eufórico por ter sido chamado pelo nome por um dos mais respeitados Cavaleiros dali. Aos 17 anos, o belo jovem de cabelos azulados já possuía a Sagrada Armadura de Ouro de Gêmeos, e há dois anos! Ele era um prodígio, e um exemplo para todos.
— Milo, temos aqui um recém chegado, vai treinar para ser cavaleiro como você, pode recepcioná-lo, por favor?
— Ah, mas bem no meio do treino... – resmungou, fazendo beicinho. Logo tratou de mudar aquilo: não queria que o poderoso Saga achasse que era um garotinho birrento! -... mas tudo bem, Saga, esses molengas aqui não tão me ajudando muito mesmo.
— Assim é que se fala. Mas, Milo, não deve ser tão duro com seus companheiros, hoje está muito quente, e todos acabaram de tomar a primeira refeição do dia.
— Isso não deve ser problema pra um guerreiro! – retrucou. Saga achou graça e bagunçou o cabelo volumoso do garoto, de um tom de azul quase índigo.
— Não... mas faz parte do dever de um guerreiro ser paciente para com aqueles que não têm a mesma força que ele, não é verdade? Um Cavaleiro de Athena é, antes de tudo, um defensor da Justiça.
A criança saboreou com prazer infindo aquelas palavras. O grande Saga estava reconhecendo que ele era forte! Mas... paciência não era lá muito com ele, mesmo.
— Aqui está ele. Seu nome é Camus. Veio da França, e é só alguns meses mais velho do que você. Tem sete anos. – e eis que de trás do Cavaleiro de Gêmeos saiu uma curiosa figura.
Ele era mesmo um menino? Será que Saga não se enganara com os recém chegados? E disse que era meses mais velho do que ele? Baixinho e magrinho daquele jeito?
— Mas... Saga... – fez, um pouco confuso, sem contudo ter coragem de perguntar se o grande Saga... havia cometido um engano.
— Por que não mostra os arredores para ele? Podem ir até a arena principal, mas não se aproximem muito dos treinos. Ouviu bem, Milo? Posso confiar em você?
— Sempre, Saga! – sorriu.
Satisfeito, o geminiano retirou-se. O recém-chegado era franzino, muito delicado, e certamente seria um alvo para provocações dos meninos mais velhos e experientes. E pelo que pode sentir daquele infante cosmo, apesar de JÁ SER capaz, ele NÃO iria revidar.
Ninguém melhor que um dos aspirantes mais briguentos e fortes para evitar que tentassem incomodar o pequeno francês. Ninguém teria coragem de enfrentar Milo. Camus estava em boas mãos.
Assim que o mais velho se foi, Milo deu uma boa olhada no novato. Decididamente... ele parecia uma garota! Mais baixo e magro, de feições delicadas, pele clara... não clara e rosada quanto a pele feminil do Afrodite ou do Mu. Mas pálida. Os cabelos lisos, de um azul que Milo nunca tinha visto, caíam por sobre seus frágeis ombros, cujo tom contrastava com o tecido lilás da camisa rústica. Os olhos chegaram a lhe assustar um pouco: eram enormes, muito brilhantes, fulgorosas íris de uma cor índigo, que estariam melhor em seu rosto, para combinar com os cabelos daquela tonalidade. Milo achava seus olhos claros demais para a cor de cabelo que tinha. O menino, estranhamente, ainda não havia aberto a boca, conservando uma expressão distante.
Alguma coisa nele intimidou o efusivo grego. E isso o perturbou. Milo NUNCA se intimidava. Não importasse quem estivesse diante de si! Mas aquele garoto... e nem era forte, ou ameaçador, nem nada. Muito pelo contrário!
— Hum... qual é mesmo o seu nome?
— Camus. Pronuncia-se “Kamyu”. – respondeu a delicada figura, numa voz que surpreendentemente não era NADA delicada. Nem servil... baixa, grave... aveludada.
Altiva. Hum. Aquela voz não combinava com aquele boneco de porcelana. Não mesmo. Ele iria arrumar problemas, logo logo.
— Kamyu... que raio de nome estranho é esse?
— É francês.
— Há! Não me diga? – riu – Você é francês, não é estranho que seu nome seja francês!
— Então por que achou estranho? – indagou num sussurro. Impertubável.
— Bom... sei lá, a pronúncia. É meio afrescalhado.
— Meio o quê?
— Ah, parece nome de mulher!
— Mas é de um homem. Um escritor francês.
— Ah, é? – Milo parou de rir – Que tipo de escritor? Do tipo que escreve histórias legais de guerras, monstros, combates, essas coisas?
— Hum... não, receio que não. Quer dizer, ele era um militante... mas não como você deve estar imaginando.
— O que é “militante”?
— Bom, ele foi muitas coisas: poeta, jornalista, filósofo...
— E você era parente dele, era? Por que ganhou o nome dele?
— Porque meu pai era um admirador dele. Tinha todas suas obras.
— Entendi – os dois caminhavam agora, na direção dos outros campos de treinamento. Os gritos dos outros meninos foram ficando para trás – E... você já leu alguma coisa dele?
— Ainda não, mas vou ler, um dia.
— Por quê? Não sabe ler ainda?
— Sim… inglês, francês, um pouco de italiano... e um pouco de grego, agora.
— Tudo isso??? – Milo arregalou os olhos, quase gritando de surpresa – E... por que não leu o escritor que “te deu” o nome?
Camus abaixou a cabeça. Uma sombra passou pelo seu rosto, e por um momento, a franja cobriu-lhe totalmente o olhar.
— São livros para gente mais velha. Um dia vou ler.
— Você pode pedir pro seu pai te mandar... vai ficar aqui por uns 6 anos, até ir para outro local de treinamento mesmo! Vai ter tempo...
— Meu pai morreu.
Isso não era incomum, muito pelo contrário. A exceção ali eram os que ainda possuíam família. A grande maioria era órfã, enviada de todas as partes do mundo. Contudo, a neutralidade com que Camus disse aquilo surpreendeu um pouco o grego. Para ele ter chegado apenas agora... aquela perda deveria de ser... recente. E ele falou como se estivesse dizendo “está ventando”.
— Sua mãe também? – indagou o seu guia.
Camus abaixou ainda mais a cabeça. Virou o rosto para o lado. Uma libélula passou por eles.Por um momento, o único som foi os das folhas secas sob suas sandálias de couro cru.
— E o seu nome, qual é mesmo?
— Hã? Ah, Milo! Eu já tô aqui faz seis meses. Eu sou órfão desde muito novo, mas antes de vir para cá vivi com um tio distante, ele que soube daqui e me trouxe pra ser cavaleiro, porque ele não tinha condições de me criar, e eu sou bem combativo desde cedo, e...
— Como você fala.
O novato continuou a andar, sem se dar conta de um grego extremamente exasperado, que chegou a ficar vermelho de raiva:
— COMO É QUE É??????
— E o seu nome, quer dizer o quê?
— Hã...
— Estou aprendendo grego, mas pelo que estudei, “Milo” quer dizer “maçã” – e Camus fez uma cara adoravelmente confusa.
— Hã...
— Não pode ser “maçã”. Quem se chamaria “maçã”?
— POIS É MAÇÃ MESMO!!! – vociferou o outro, ofendido.
— Oh.
Os dois pararam de andar e ficaram um de frente para o outro. Milo ficou bufando de raiva. De repente... Camus fechou os olhos... pôs a mão na boca... e sorriu.
E o sorriso se tornou uma risada. Baixa, contida. Mas divertida. E ele riu deliciosamente, sem aumentar o volume. Milo ficou paralisado ante aquela imagem. Parecia ofuscar a luz do dia, o brilho do sol, a beleza das flores...
Milo, em sete anos de vida, nunca tinha visto nada mais lindo.
Milo soube, e depositou essa descoberta no mais profundo de seu ser, que naquele breve e inesquecível instante, descobrira o que era o amor.
Milo apaixonou-se por Camus naquele exato momento.
*********************************************************************
Passou a mão pelas mechas escuras, já quase secas. Quase secas? Deus. Por quanto tempo estivera ali? Ao pé da cama, naquele tamborete? Só então se deu conta da dor nas costas. Contemplou o homem deitado à sua frente. Estremeceu ao achá-lo parecido com uma estátua cemiterial.
Imóvel. Inexpressivo. Majestoso.
Inexpressivo.
“Camus... e se... e se você voltar... não. SE, não. Você VAI voltar. E se eu te dissesse a verdade? Se eu dissesse que te amo… que sempre te amei, de toda minha alma, de todo meu coração, qual seria a sua expressão?”
Ele poderia ter uma nova chance...
*******************************************
Fale com o autor