Notas iniciais
Hello a todos Gostaria de pedir desculpas pelo longo silêncio. A fic "Grilhões Eternais", que se encontrava concluída no Spirit, foi excluída daquela plataforma, após denúncias. Tentarei ser mais rápida em concluí-la aqui também. Boa leitura!

O grande dia chegara. Naquela noite haveria a maior festa das últimas décadas no Salão Oval do Templo do Papa, talvez a mais feliz ocasião de todos os séculos, pois que pela primeira vez desde tempos imemoriais não ocorreria a Guerra Santa no intervalo previsto. Fora adiada pela expulsão precoce de Hades do receptáculo que ocupara, e a Terra se veria livre daquela ameaça por mais 250 anos. Tratava-se de uma ocasião auspiciosa, e a celebração certamente seria à altura. Aliada a isso, a escolha definitiva do novo Patriarca pela própria Deusa encarnada.

Desde cedo fogos de artifício explodiam, e ao chegar o crepúsculo, pincelavam nos céus as cores e o brilho daquela alegria que contagiara toda a Terra Santa. Os servos trabalhavam animadamente desde a véspera na preparação dos festejos, tanto nos templos quanto em suas residências, no Santuário e em Rodório, onde também haveria comemorações.

Milo subia as escadarias rumo ao local da festa. Porém, ao contrário da última vez em que esteve em situação semelhante, decidiu passar antes no décimo primeiro Templo.

Desta vez faria tudo certo!

Trazia consigo um grande buquê de rosas vermelhas, envolto num papel prateado com fita púrpura. Passou a mão pelos fios arroxeados que caíam-lhe sobre a testa e ajeitou um pouco as mechas laterais. Levou os pulsos ao nariz para se certificar de que não exagerara no perfume. Ao que parecia, não. Olhou os sapatos de couro para ver se não haviam se sujado de poeira ou terra no caminho ascendente. Trajava um belo terno cor de chumbo, adquirido sob supervisão de Camus, muito mais entendido nesse tipo de indumentária do que ele. Ficou apreensivo ao adentrar Aquário. Estaria realmente apresentável? Curioso como em seus anos de conquistador, tais elucubrações jamais encontraram lugar em sua mente, acostumada com adulações e entregas apaixonadas.

Com Camus era diferente. Por vezes achava que não estava à altura dele. O francês era lindo demais, elegante demais, inteligente demais, fino demais, sexy demais... nunca imaginaria que na cabeça do namorado passavam os mesmos questionamentos: Milo era lindo demais, atraente demais, vigoroso demais, carismático demais, sexy demais.

Subiu pelas escadas rumo aos aposentos do aquariano, sorrindo ao ouvir vozes animadas e risos. Chegando ao quarto, viu o amado ajeitando a gravata de Hyoga, enquanto Shun, sentado na cama, ria com eles, de algo que falaram antes da chegada do escorpiano.

— A festa começou mais cedo, foi? — indagou, para se fazer anunciar.

— Milo! — Camus falou, seu olhar se iluminando.

— Oi, Milo — cumprimentou Shun, reparando nas flores e sorrindo.

— Oi, Shun.

Caminhou até o francês e estendeu o buquê para o loirinho.

— Isto aqui é pra você...

— Pra mim? — Cisne perguntou, mas os demais se surpreenderam como ele.

— ...pra você colocar num jarro pro Camus.

O garoto bufou, injuriado, indo, entretanto fazer o que lhe fora ordenado. O aquariano sorriu, agradecido.

— São lindas, obrigado...

— Estava com medo de que não gostasse. Que achasse... exagero.

Ele balançou a cabeça.

— Gostei, sim — disse, simplesmente.

— Milo, meu mestre está ajudando a gente a se arrumar — comentou o russo.

— Não me diga que ele VESTIU vocês! — fingiu horror, olhando para os adolescentes.

— Não seja bobo, seu bobo — respondeu Hyoga, entredentes. Camus e Shun riram das caras dos dois.

— É a primeira vez em que eles usam esse tipo de roupa — explicou o francês, com uma doçura no tom de voz e na expressão facial que impressionou o grego.

Era como se estivesse falando de um filho!

Ou melhor...

— Quer dizer que ganhamos “mais um filho”, Camus? — perguntou o escorpiano, bagunçando os cabelos do japonês, que gemeu “meu cabeloooo...”.

— Como assim, Milo? E pare com isso — bronqueou com ele.

— Ora, quem se casar com “nosso filho” vira nosso filho também, é assim na tradição das famílias, não é?

— Não fale bobagens... — volveu Camus, sem jeito, agora indo pentear o cabelo de Shun, desgrenhado por causa da brincadeira do grego.

— Camus, depois penteie o meu também... — resmungou Hyoga, ao ter seus cabelos remexidos pelos dedos travessos de...

— MILO! Pare de atazanar os meninos!

— Esses chatinhos tinham nada que estar aqui. RUA! CHISPA! XÔ, XÔ... — e fez gestos com as mãos como se estivesse enxotando algum bichinho, tocando-os para fora do quarto.

— Ainda diz que somos seus filhos... — choramingou Andrômeda, entrando na brincadeira.

— Estamos indo! — exclamou o loiro — E... Milo... parabéns!

— Por quê?

Cisne sorriu, malandramente.

—Por desta vez fazer a coisa certa… enfim aprendeu!

— SAI DAQUI, antes que eu...

— Vamos, Shun — riu, puxando o namorado, apressando-se.

Camus aproximou-se dele, com dúvida no semblante.

— Do que vocês estavam falando?

— Nada não... — fitou o amante — Por Zeus... você está lindo!

O jovem, trajando um terno preto com risca de giz, como gostava, mantinha os longos cabelos azuis petróleo soltos, tal qual o grego. Por dentro, uma camisa de seda branca. Ruborizou levemente: ainda não aprendera a ouvir aquilo sem se envergonhar um pouco que fosse.

— Até pintou as unhas... adorei — ajuntou, tomando as mãos do amado nas suas e contemplando as unhas impecáveis numa coloração azul próxima à das melenas.

— Você também está lindo, Milo.

— Obrigado, mas sabe... falta uma coisa em você.

— Hein? Uma coisa? O que falta?

O escorpiano apertou os olhos, como que focando sua atenção na aparência do namorado. Olhava-o de alto a baixo, concentrado.

— O que falta? — insistiu, piscando os olhos curiosos.

Milo sapecou um beijo nos lábios do amado, que teve um leve sobressalto de surpresa.

— Isto. — respondeu, sorrindo maroto.

— Milo! Você me enganou!

— Enganei nada. Faltava um beijo meu.

Sorriram um para o outro.

— A vontade que tenho é te jogar na cama e desfazer todo esse belo trabalho... — comentou o grego, comendo-o com o olhar.

— Nem ouse, estamos em cima da hora.

— Você manda... — ofereceu-lhe a mão — vamos?

Camus pareceu em dúvida sobre o que fazer. A causa de seu constrangimento residual era puramente pessoal: como nos tempos mitológicos, o relacionamento amoroso entre homens não era tabu no Santuário, desde que se respeitasse, claro, o decoro e a discrição. Regras aplicadas, não obstante, também a relacionamentos heterossexuais.

Enfim, após momentos de hesitação, respirou fundo e pôs sua mão na mãos cálida do amado, que lhe sorriu lindamente. O aquariano foi invadido por uma felicidade imensa... como Milo era lindo... como era perfeito...

... e era seu.

— Vamos — disse em voz baixa, tentando não corar.

Partiram, escoltados pelas luzentes estrelas do céu outonal.

*************

Como esperado, a festa estava cheia e muito animada, ainda que sob aquela atmosfera formal. Dúzias e dúzias das mais belas flores enfeitavam o salão intensamente pelos lustres de cristal e pelos círios nas mesas ricamente ornadas, sobre as quais dispunham-se uma infinidade de iguarias. Uma equipe de músicos executavam belas melodias com instrumentos tradicionais como cítaras, alaúdes e harpas.

O casal mais esperado adentrou o salão sob uma salva de palmas. A tentativa de Camus em não ficar vermelho foi por água abaixo. Milo ria da expressão envergonhada do outro. Certo, não se podia conseguir todas as vitórias de uma vez. E, na verdade... esse recato lhe conferia graça maior, não podia negar! Pelo menos sua mão não fora abandonada. Isso muito o alegrou.

— Milo! Camus! Vocês estão lindos! — elogiou Afrodite, abrindo os braços ao ir até eles. Seu terno lilás longe de ser destoante, assentou-lhe muito bem.

— Você também, Dite! — respondeu Milo, simpático.

— Ei! — fez Máscara da Morte, vestindo um terno azul escuro.

— Você também está lindo, Carlo — brincou o escorpiano. O outro coçou a cabeça.

— Tô me sentindo aqueles bonequinhos que ficam em cima de um bolo de casamento — resmungou o canceriano.

— Que grande ideia, Maskinha... quando a gente se casar, faço uma cópia sua e coloco em cima do bolo! — falou o sueco, apertando a bochecha do namorado.

— Faz isso e eu não volto da despedida de solteiro.

— O QUÊ? ORA SEU…

—Vem, Camus — Milo puxou o francês — vamos deixar os pombinhos acertarem os preparativos do casório.

— MILO, SEU... — tentou disparar algum impropério, mas já era todo beliscado por um indignado Peixes.

Os dois atravessaram o salão, cumprimentando de quando em quando seus companheiros.

— Ah, oi, Milo! Oi, Camus! Bom ver vocês aqui — saudou Shura, acompanhado por uma moça lindíssima, cujos longos cabelos loiros caíam-lhe pelo corpo, estonteante num longo prateado — Esta é a June, minha namorada.

— Muito prazer — disseram os rapazes, ao mesmo tempo.

— Muito prazer em conhecê-los — respondeu a jovem, seus doces olhos azuis pousando no francês — Mestre Camus, fico muito feliz que tenha retornado em segurança ao Santuário.

— Obrigado, senhorita June, é muita gentileza sua.

— Eu lamento que tenha sido o meu mes... — sua boca foi subitamente coberta pela mão do espanhol, rindo, sem graça.

— Ah, ah, June, nossa música! Vamos dançar!

— Mas eu nem conheço essa música! E... EI, VOCÊ QUERENDO DANÇAR? — surpreendeu-se a loira, sendo puxada pelo capricorniano.

Camus piscou várias vezes, sem entender. Milo pensou “Ufa... essa foi por pouco... valeu, Shura!”. Ao contrário de seu acompanhante, que não conhecia a jovem, Milo sabia exatamente o que ela esteve prestes a dizer.

E a ÚLTIMA coisa de que precisavam num noite tão festiva era qualquer alusão a Albiore.

Para fazê-lo esquecer a estranha cena, acenou em uma direção para a qual o aquariano acabou olhando: uma mesa onde estavam Aioria, Marin, Seiya e Shaina. Com eles também estavam Shiryu e sua esposa Shunrei.

— Ah, aquela deve ser a esposa do Dragão. Como é bonita! — comentou Milo.

— Sim. Na verdade, parecem irmãos, não?

— Foram criados juntos. Vai ver, por isso se parecem tanto — respondeu o grego, aceitando uma taça de vinho oferecida por um garçom. Camus fez o mesmo.

— Milo, Camus — Mu, acompanhado de Aldebaran, aproximou-se deles — Como vão vocês?

— Muito bem, carneirinho — o escorpiano notou as mãos do ariano e do taurino entrelaçadas — bem, acho que devo parabenizá-los, não?

O tibetano corou fortemente e o brasileiro riu, pondo a mão em seu ombro. Camus secretamente desejou-lhes felicidades. Não se sentia à vontade para fazê-lo verbalmente, preferindo dar apenas um leve aceno com a cabeça. A mensagem foi recebida com satisfação pelo novo casal.

— Tem muitas pessoas nas varandas e nos jardins, por isso ainda não vimos todos — falou Milo, conduzindo o parceiro até a mesa reservada para eles.

— É... onde estará Hyoga?

—Deve estar com aquele verdinho dele.

— É... eles estão “sérios”, não é? — inquiriu o francês, aceitando canapés de caviar oferecidos por um garçom.

— Passaram por muitas coisas — Milo recusou aquilo com uma careta, preferindo rosbife ao molho de mostarda.

— Passaram por muitas coisas. Podemos achar que são jovens demais, mas são quase como nós, dadas as responsabilidades com as quais tiveram ou têm que lidar.

Camus lançou-lhe um olhar admirativo e, por que não dizer, orgulhoso.

— Verdade — deixou escapar uma risadinha.

— O que foi?

—Você está ficando muito analítico, Cavaleiro de Escorpião.

— É a sua companhia; acho que turbina os meus neurônios, sabe? Mas... voltando ao pato e à alface em questão… eles devem é estar lá fora dando uns amassos.

— Amassos? Como assim, amassando a roupa?

O grego teve que se controlar para não gargalhar alto e se engasgar com a comida. Chegou mais perto da orelha do namorado, que preservava uma adorável expressão de desentendido.

— Não, meu anjo... “amassos” é uma gíria. Uma gíria para... — e cochichou no ouvido do outro, passando os dedos travessamente pelo queixo que só “caía”. Novo rubor do aquariano, e agora, um olhar exasperado.

— HYOGA! Ele que NÃO esteja fazendo isso! Aqui não é lugar para essas atitudes indecorosas! Eu vou ver se...

— Senta aqui e para de bancar o papai protetor — riu o escorpiano, segurando-o para que não saísse da mesa intempestivamente, como quase fez.

— .....

— Relaxa! O loirinho é responsável, não vai causar nenhum escândalo, não! Que tal jantarmos? A comida está ótima. Ah, muito obrigado — agradeceu ao garçom que reabastecia sua taça com vinho tinto.

— Certo... mas eu vou ter que ter uma conversa séria com ele depois... — murmurou, enfiando um vôngole na boca.

*************

As horas passaram suaves e deliciosas: aqueles jovens livres de um destino cruel a isso brindando, celebrando inéditos tempos de paz. Em determinado momento anunciou-se: o nome do novo Patriarca seria revelado. Quem seria o escolhido por Athena? Saga, Mu ou Shaka?

Aquilo era mais empolgante do que final de Copa do Mundo. Todos aguardaram, ansiosos, respirações suspensas, a pronunciação da Deusa.

Não surpreendeu, em absoluto, a escolha de Shaka de Virgem para o cargo. Mu já havia dado mostras de sua preocupação, uma vez que a função não comportava o pesado fardo de ser, na atualidade, o único a poder consertar armaduras, e a necessidade de preparar outros para tal ofício.

Ovacionaram longamente o Santo indiano, que limitou-se a abaixar a cabeça, num agradecimento humilde e silencioso a todos. Era a primeira vez em que viam-no de terno, de um tecido cor cáqui e camisa verde clara por dentro.

— Shaka... você... — balbuciou Ikki, incrédulo. Os olhos azuis pareciam que saltariam, tão arregalados estavam.

— Quer dizer que a partir de hoje VOCÊ namora o Papa do Santuário, Ikki? Se já te achavam o mais fodão de nós, agora então... — brincou Seiya.

Fênix logo se empertigou perante os amigos adolescentes, que riam do comentário de Pégaso.

— É isso aí! Sou eu que deterei o posto de comedor da bundinha branca do grande Patriarca do Santuário! — chasqueou para eles, logo recebendo um puxão de orelha bem doloroso do virginiano, que com seus ouvidos apurados ouviu aquilo assim que se aproximava do namorado.

— Aaaaai! CARALHO, SHAKA!

— Cuidado, Fênix, ou te mando para o Cabo Sunion por blasfêmia — ameaçou o loiro, sorrindo sadicamente. Os meninos se arrepiaram ante a cena.

— Ai, caralho! Agora vai ser difícil zoar ele... — choramingou o japonês, que “carregado” dali pela orelha pelo loiro, que ainda abriu um dos olhos ao completar:

— E você sabe MUITO BEM que entre nós esse posto do qual você falava há pouco aos seus companheiros não é ocupado APENAS por você...

— SHAKA! CALA ESSA BOCA!

— RESPEITO, MOLEQUE, OU EU...

E assim o belicoso casal se retirou dali, deixando Seiya, Shaina, Shiryu, Shunrei, Hyoga e Shun praticamente em choque com o que viram e ouviram. Dir-se-ia que tinham sido atingidos por um Pó de Diamante, “congelados” daquela maneira...

— OK, isso foi MUITO estranho — Shiryu deixou escapar, ainda estremecendo só de imaginar o que Virgem revelara.

— Viu só, Shun — disse Cisne, apontando os dois ao longe, ainda trocando alfinetadas — agora você é o cunhado do Papa!

— É, este mundo dá voltas, mesmo!

— Por falar em voltas... — afundou o rosto nos macios cabelos verdes que cheiravam a frutas cítricas — que tal darmos mais uma “voltinha” pelos jardins?

— Hyoga, você fica muito saliente lá. Melhor ficarmos por aqui um pouco, antes que haja um escândalo. Seu mestre iria ficar danado contigo.

— Por falar nisso... cadê ele?

O menor virou a cabeça para os lados.

— É... não vejo ele nem o Milo.

Sob o estupendo luar, os dois de quem o jovem casal de namorados falava caminhavam pelos jardins. De vez em quando, nos céus da Terra Santa explodiam fogos de artifício. Eles se detinham e contemplavam os desenhos formados. Pararam junto à fonte onde há alguns meses estiveram sob circunstâncias não tão agradáveis: fora ali que Milo dera um tapa no rosto de Camus, quando este disse ter sido a ressurreição dos Santos de Ouro uma insensatez. O grego sentiu um aperto no coração: pensar que em agredira o amante! Ele, que sofrera tanto... e que ainda viria a sofrer mais ainda, depois daquilo.

Como que adivinhando os pensamentos do companheiro, Camus mirou-o com ternura, tirando-lhe do rosto uma mecha que ali se instalara pela ação da brisa noturna. Milo correspondeu aquele olhar doce. Levou as mãos ao seu queixo, erguendo-o amavelmente enquanto tocava aqueles lábios adorados com os seus. Abandonando-se, o aquariano cerrou os olhos e permitiu a passagem da língua do amante, saboreando aquele calor lento que aos poucos tornou-se mais vibrante, mais ardente, mais urgente.

Quando enfim se separaram, Milo sussurrou, acariciando-lhe a face:

— Estou feliz de que esta seja a primeira festa aqui no Grande Salão em que não brigamos.

— De fato — sorriu o aquariano — tempos de paz... em todos os sentidos.

Milo não respondeu. Um certo peso se abateu sobre ele.

Não havia paz ainda.

Não com Camus e seu... como Shaka chamara? Estresse pós-traumático.

— Milo?... — chamou baixinho, vendo-o reflexivo.

— Eu só vou ter paz quando você tiver paz, Camus.

O francês virou o rosto, subitamente incomodado. Disfarçou como pôde.

— Não se preocupe com isso. Eu estou bem.

— Bem? Não, Camus, você NÃO está bem.

— Milo... não vamos falar sobre isto agora. Está tudo tão agradável. Pretende estragar este clima?

O grego premiu os lábios, tenso. Balançou a cabeça levemente e sorriu:

— Tem razão. Falamos sobre isso uma outra hora.

— Obrigado — murmurou Camus. Seu rosto, tão belo, imerso em sua dor secreta... Milo levou a mão até sua nuca e tomou-lhe os lábios outra vez.

— Vamos tomar alguma coisa?

—Posso te esperar aqui? O salão está muito cheio... prefiro ficar mais um pouco, antes de...

— Tudo bem, meu amor — beijou a fronte do aquariano — Eu já volto.

E deixou-o encostado junto à fonte. Ao vê-lo longe, Camus suspirou longamente. Cruzou os braços e fitou o reflexo da lua na água tremulante.

“Milo está preocupado comigo. Não sem razão. As malditas imagens NÃO me deixam... nem mesmo durante meu sono. Apesar que querer... de lhe ter desejo... não consigo me entregar a ele sem lembrar de todo aquele horror... eu preciso lutar contra isso! Milo lutou por mim... esta será a minha luta por ele!”

O som de folhas secas se partindo fizeram-no virar na direção de uma alameda oposta. Um cavalheiro se aproximava, revelando sua identidade sob a luz da lua e das tochas.

— Saga — balbuciou o francês, surpreendido.

— Olá, Camus. Veio tomar um ar fresco também, não é?

O mais novo lembrou-se de que o geminiano, assim como ele, não era entusiasta de festas e aglomerações.

— Sim. Por um tempo, apenas... eu...hã... Saga. Sinto muito por não ter sido você o escolhido para...

— Sente mesmo? Pois eu não sinto.

Ele sentou-se perto do aquariano.

— A minha indicação não ocorreu por minha vontade. Saori Kido assim o quis. Acho que foi mais por eu estar atuando como conselheiro e assessor da garota, entende? Enfim, foi um alívio para mim e para todos — disse, de forma neutra.

— Não diga isso. Eu acho que vocês três eram bastante aptos, se equivaliam em capacidade, apenas diferenciando-se em alguns setores — retrucou Camus, quase que efusivamente.

Saga sorriu: tal reação naquele guerreiro do gelo era deveras incomum.

— Bem, agradeço suas palavras.

— Não é só isso, Saga. Eu quero agradecer pelo que fez por mim... Milo me contou sobre como você o enviou para... para sondar meu cativeiro — só em falar naquilo desatava a taquicardia — e isso lhe pôs em coma... eu... muito obrigado. Se não fosse por...

— Foi o mínimo que eu poderia fazer — observador como era, percebeu o custo daquela lembrança a Camus e o interrompeu — e ainda falta muito... muito para que eu possa me redimir, um pouco que seja, com cada de um de vocês que sofreu por minha causa... por eu ter sido fraco e ter deixado me dominar pelo meu lado mais obscuro.

— Saga...

O mais velho passeou os dedos na superfície da água.

— Não faça como eu, Camus. Não seja fraco. Não se deixe dominar por um lado seu que não te serve.

— O... o quê...?

Saga tornou seus olhos para o céu, onde cascatas de luz desciam após estrondos.

— Você sofreu muito em sua prisão. Milo sofreu muito aqui fora. Ele te ama muito, Camus. Mais do que tudo nessa vida. E se você sofre, ele também sofre. Se você não sair do despenhadeiro em que sua alma se encontra, ele também ficará preso lá. Não estou dizendo para fingir o que não sente, ou que é culpado por ainda estar sofrendo pelo que houve. Digo apenas isso: aquele homem te ama mais do que tudo na vida. E por ele TAMBÉM, você deve se permitir querer sair desse despenhadeiro. O tempo não é relevante. Relevante é a certeza de que você vai se erguer, Camus. Você vai?

O jovem desviou daqueles olhos esverdeados que a tudo pareciam desvendar. Apertou o tecido da calça com as mãos tensas.

— Eu vou sim. Por mim. E por ele — sentenciou, com a voz baixa.

— Obrigado. Eu... Milo e eu nos afastamos através dos anos... depois do que eu fiz. Mas eu o tinha, num passado distante, como um irmão mais novo.

— Ele era louco por você quando éramos crianças — riu o francês — era o modelo de Cavaleiro dele!

Saga se levantou e pôs a mão no ombro de Camus, antes de partir.

— Não. Ele apenas me admirava. Louco ele sempre foi por VOCÊ, meu amigo. Apenas por você. E continua assim — sorriu de forma branda, e então se retirou.

*************

De volta ao salão, Milo dirigia-se a um garçom para pegar duas taças de vinho quando foi interpelado por ninguém menos que o recém escolhido Patriarca.

— Milo. Será que podemos falar uns minutos?

— Shaka! Er... e agora, como devo chamá-lo? — coçou a cabeça, confuso — Grande Mestre? Mestre Shaka? Papa Shaka? Hum, “Papa Shaka” ficou estranho...

— Esqueça isso. É sobre Camus.

O semblante do grego nublou instantaneamente.

— Sim, claro.

— Venha comigo.

Seguiu-o pro um corredor até chegar a uma sala reservada, fechada atrás de si por um servo que permaneceu no corredor, do lado de fora. Entraram. Athena estava sentada num sofá Luís XV em veludo bordô.

— Senhorita Kido... — disse Milo, intrigado.

— Sente-se, Escorpião — apontou uma poltrona à sua frente, em veludo negro. O rapaz obedeceu, curioso — Diga-me, como está o Mestre Camus?

— Fisicamente, cada dia melhor. Mas psicologicamente... nada bem, Senhora — confessou, desanimado.

—É possível sentir a perturbação do cosmo de Aquário — ajuntou Virgem — Ele está em grande tormento psíquico. Eu creio numa recuperação, contudo.

— Verdade? Isso… isso é muito bom. Eu... tenho andado muito preocupado com isso, você sabe... até pelo que conversamos — arrematou o grego.

— Milo, Shaka me contou sobre seu desejo de tirar uns dias de folga com Mestre Camus para que ele possa se distrair e relaxar... se recuperar do que viveu — falou a Deusa, com serenidade.

— Oh, sim?...

—Acredito que seria bom para você também. Em sua preocupação com Aquário não percebe a devastação em que se encontra seu próprio espírito, Escorpião.

— O... o meu...?

Ela assentiu com a cabeça, pacientemente.

— Sim. Também você precisa se recuperar dos danos de sua mente.

Sem entender aonde a Deusa e o Patriarca queriam chegar, só restou ao Santo manter-se quieto.

— Milo, concordamos que você e Camus viajem por uns dias. Você almeja mostrar as Ilhas Gregas a ele, por certo? Será uma excelente higiene mental — anunciou Shaka, ante a expressão iluminada do outro.

— Isso... isso é sério? — sorriu, maravilhado — Eu... eu nem sei como... como...

— Há um porém — cortou o indiano.

Não foi apenas a fala do escorpiano. Até sua respiração parou.

— Athena e eu concordamos que uma semana é um tempo inadequado para essa folga de vocês dois. Eu diria até um ABSURDO, Milo.

O grego engoliu em seco, constrangido com a mensagem e seu tom. Preparou-se para dizer que desconsiderassem seu anseio, que esquecessem daquilo, e pedir perdão pro tamanha insolência, mas ao abrir a boca, o loiro ergueu a mão num gesto para que nada dissesse. A jovem Deusa levantou-se e anunciou:

— Não vão ficar uma semana. Ficarão um mês.

Quase que o queixo de Milo se desprendeu da face atônita!

— O... o quê?!?

— Sinceramente, o que estava pensando? Uma semana é um tempo pífio para tal ação. Permitiremos que tirem férias de um mês a fim de tratar suas feridas na alma, distraindo-se e... amando-se — sorriu Shaka.

Milo volveu o rosto eufórico para Saori.

— Isso... isso é mesmo possível? UM MÊS? Mas…

—Sim, Milo — a jovem sorriu também, e estendeu a ele um envelope grande em papel branco — através da Fundação Graad, ofereço a vocês passagens num cruzeiro pelo Mediterrâneo, com partida daqui a dois dias de Athenas até as Ilhas Gregas, sul da Itália, França e por fim Espanha. Será interessante Camus pisar novamente em sua terra natal, não vai lá há muitos anos. Aqui está.

— Não, não! Eu vou pagar! Eu...

— Escorpião — Virgem interrompeu-o — Esta é uma decisão de Athena em pessoa. Não deve contestá-la.

— É meu presente a vocês que trouxeram essa era de paz, Milo. Não rejeite. Mereciam mais. Entretanto, não posso deixar que se ausentem de seus postos por um período superior a este. Espero que entenda.

— M-mas claro... claro... afinal... mesmo em tempos de paz, precisamos permanecer no Santuário em alerta para...

— Isso é importante. Mas a saúde espiritual e mental de meus Cavaleiros é crucial para tal. Estarei torcendo para que restaure o Mestre Camus, Milo... e para que também SE restaure, curando as feridas de sua preciosa alma, meu Santo guerreiro.

Emocionado, deixou-se cair ajoelhado diante da garota.

— Nem sei como agradecer, Athena. Era meu sonho!!!

Ela abaixou-se e tocou o rosto do fiel Cavaleiro.

— A melhor maneira de agradecer é aproveitar bem a viagem... e trazer vocês dois fortes e renovados de volta ao nosso lar, à nossa Terra Santa, para prosseguirmos juntos em nossa missão pela paz e pela justiça nesta era.

*************

Na ala oeste do extenso jardim central, perto da fonte onde fora deixado, Camus tamborilava os joelhos com os dedos ao som da música que se ouvia de longe.

“Milo está demorando tanto... deve estar falando com meio mundo!”, pensou, entre aborrecido e enciumado. Então viu-o caminhando rapidamente pela alameda florida em sua direção. Trazia além da garrafa de vinho e das duas taças em suas mãos um largo sorriso no rosto.

— Que demora, Milo!... — reclamou, cruzando os braços.

— Me desculpe... — e o sorriso alargou-se mais ainda.

O aquariano encarou-o, desconfiado.

— Que foi?...Que é esse sorriso bobo? E para que essa garrafa de vinho? Não iria trazer apenas duas taças de bebida?...

— Quando eu te contar por que demorei, vai concordar que precisamos da garrafa inteira para brindar!

*************

Notas finais
Obrigada por prestigiarem, e até a próxima!