Grilhões Eternais
23 A Visita do Juiz
Notas iniciais

Sua mais notória característica: a frieza, notadamente a emocional. Poucos sabiam que na verdade tratava-se muito mais de controle do que ausência de emoções. Fruto tanto da necessidade inerente a um Cavaleiro do Gelo quanto das duras experiências que tivera na vida.
No entanto, jamais fora tão difícil evocar tal frieza. Mesmo que julgasse forçoso fazê-lo, temia falhar... ver o espectro que o violentara há apenas algumas horas de pé diante de si, com uma garrafa na mão, o olhar estranhamente vidrado,em meio à penumbra de sua cela, enquanto ele estava ali acorrentado a uma parede, impossibilitado não apenas de usar seu cosmo como até mesmo de se defender usando os punhos ou os pés... encontrou reais dificuldades em ocultar o tremor de seu corpo, o pavor em sua face, o horror em seu coração disparado.
Radamanthys, porém, viu a imagem do cativo impassível, como se não tivesse o menor temor. Encarava-o diretamente, os olhos azuis marinhos desafiando-o... mesmo numa posição tão desvantajosa!
— Vim ver como você está. — anunciou o Juiz, sem entender as próprias palavras.
Sem responder, Camus sustentou o contato visual: o loiro percebeu que ele tiritava. “Sem poder usar seu cosmo gelado, deve sentir frio como um homem comum. E esta prisão é bem gelada.”, pensou, tomando um gole de uísque diretamente do gargalo. Estendeu a garrafa ao prisioneiro.
— Quer?
Nenhuma resposta. Apenas uma encarada gélida como as rochas seculares da masmorra. Radamanthys abaixou-se, posicionando o gargalo na boca do Cavaleiro.
— Beba.
O aquariano virou o rosto, indiferente. Retirando a garrafa de perto dele, o Juiz bebeu mais, num gole bem demorado. Ao terminar, sorriu e disse:
— Você é francês, certo? Bem de acordo… não consegue ser despojado e beber diretamente no gargalo da garrafa que outra pessoa está bebendo, ainda mais de um inglês como eu — e bebeu mais um pouco.
— O que quer? Se é me torturar, vamos logo a isso — rosnou o cativo.
— Ei, ei, ei... você realmente tem traços masoquistas, hã? Prefere ser torturado a conversar comigo?
Camus calou-se, com medo de sua própria fala. Na verdade, estava tão extenuado... não raciocinava muito bem. Só sabia que não queria a presença daquele espectro ali, muito menos dialogar com ele. Virado para o lado, não percebeu o olhar faminto sobre sua figura, vestida apenas com a capa do visitante, parte de uma coxa à mostra, as mãos e os pés algemados, os hematomas em sua pele acetinada, os longos cabelos escuros caídos em desalinho.
— Agora você deve odiá-lo.
— Hã?
—Escorpião. Agora você deve odiar seu amante, o Escorpião.
Um sorriso de deboche brilhou no semblante do prisioneiro.
— Eu NUNCA vou odiar Milo. NUNCA. Não importa o que aconteça comigo. Não é culpa dele eu estar aqui e sim da alma apodrecida de Albiore.
— Como pode dizer isso? — retrucou o outro, um tanto alterado — É por causa DE SEU AMANTE que você está aqui!
— Não, não é. E mesmo que fosse, meu amor em nada diminuiria.
Radamanthys sentiu uma raiva surda a martelar seus nervos. Repleto de acidez, disparou, calmamente:
— Vocês são mesmo uns tolos. Falam desse “amor” como se fosse uma tábua de salvação de suas existências mesquinhas e finitas. No entanto, você está passando por tudo isto... ainda vai ser torturado mais vezes... e no fim, MORTO em nome desse amor... para que serve no final?
Camus pareceu refletir por uns instantes. Arrepios insistentes varriam-lhe o corpo. Um grande mal estar, tão incômodo quanto inexplicável, se apossou dele. Suas órbitas ardiam, e algo parecia ferver em seu interior, ao mesmo tempo que o frio o castigava por fora.
— Eu... eu não tenho uma resposta. Só sei que ele existe... só sei que sinto... — confessou, com voz cansada.
O inglês considerou-o, desconfiado. Estendeu a mão para ele, que teve um brusco frêmito de autodefesa. Pousou-a na fronte do aquariano e confirmou sua suspeita, franzindo a sobrancelha:
— Você tem febre. E é febre alta — declarou, ainda com a mão na testa ardente do cativo, cujos olhos se voltaram para ele, semicerrados.
Retirou a mão e, para a surpresa de Camus, fez menção de enfiá-la por dentro da capa.
— NÃO! O QUE VAI...
— Fique quieto — ordenou, colocando por dentro da veste negra a outra mão também. Passou-as pelas costas do francês. Isso fez com que se aproximasse mais e pudesse falar praticamente encostando sua boca na boca dele, após estalar a língua, aborrecido:
— Tsc! Os ferimentos... estão infeccionados!...
Camus riu, sarcástico. Falou, bem baixo:
— Que bom, tomara que eu morra.
— Como se eu fosse deixar você morrer.
Ergueu-se num impulso e pegou a caixa de primeiros socorros que havia levado para lá anteriormente. Tirou dela um vidro com pílulas escuras. Encheu um copo com água e o pôs perto da boca de Camus, segurando o remédio com a outra, já o empurrando contra os lábios descorados.
— Abra a boca. Isto é um anti-inflamatório antipirético. Depois vai tomar um antibiótico.
O aquariano abaixou a cabeça, se recusando a tomar o medicamento. Só restou ao loiro abrir a boca do prisioneiro à força, enfiar logo os dois remédios e, em seguida, forçá-lo a beber a água. Aquilo o fez tossir um pouco, enquanto Radamanthys apertava o dispositivo das correntes, aumentando sua extensão, a fim de que pudesse deitar Camus de bruços. Ao sentir-lhe a resistência já esperada, anunciou:
— Vou limpar as feridas e fazer um curativo. Fique quieto.
— Não preciso de sua “ajuda” — frisou bem a última palavra, ironicamente.
— Cale a boca — o Juiz se impacientou e, por fim, após abrir-lhe rispidamente a capa, empurrou-o no chão com muito menos gentileza que planejara. Camus sufocou um gemido ao tocar aquela superfície gelada com o tórax nu. Sentiu que a capa era levantada por trás, rasgada para ser completamente retirada, e começou a entrar em desespero:
— O QUE VAI FAZER? NÃO, NÃO ME TOQUE!!!
— Idiota, como vou tratar suas costas se estiver com esta capa por cima? Pare de agir como criança — enquanto falava, desinfetava as próprias mãos com álcool em gel.
— NÃO! EU... — até tentou ficar quieto, mas fracassou ao sentir a primeira ministração do medicamento em uma das chagas — Uhnnnnn!!!
Cerrou os olhos com força ante aquele desconforto. Radamanthys embebeu com soro fisiológico um grande pedaço de gaze e começou a limpar os fluidos amarelados que indicavam infecção.
— Colabore e não demorará muito.
Enquanto limpava as lacerações, não deixava de reparar na perfeição daquelas nádegas, no volume das coxas, nas pernas esculpidas. Seu membro começou a pulsar imediatamente.
— Agora sente-se — ordenou, engolindo em seco.
O Santo de Athena obedeceu mais porque queria sair do chão do que por subserviência. O espectro pôs-se a aplicar um unguento especial preparado pelo seu próprio boticário infernal. Este era refrescante e deu um bem estar que há muito Camus não sentia. Por fim, Radamanthys envolveu o torso do cativo com bandagens, apertando firmemente e colocando esparadrapos. O francês ficou surpreso com o fato de a dor amainar significativamente: o remédio e a firmeza do curativo realmente lhe proporcionaram conforto.
— Deixe-me ver os outros machucados...
— Eu estou bem — Camus tentou se esquivar e, ao mesmo tempo, cobrir sua nudez. As correntes tilintaram sonoramente.
— Não estou pedindo permissão, Cavaleiro — replicou o Juiz, impacientemente, segurando o braço do prisioneiro com força. Percebeu que isso causou-lhe dor — Parece que não está tão bem assim.
— Não importa, não quero que me toque!
— Não percebeu ainda que o que você quer já não tem a menor importância?
E ao avançar sobre ele, o loiro chegou a ser golpeado em tentativas tão desesperadas quanto infrutíferas.
— MALDITO! Se quiser me matar, ME MATE, não me importo!!! MAS NÃO ENCOSTA EM MIM!
Seus braços foram agarrados com rispidez e ele foi levado ao chão, contido com facilidade pelo espectro. Por cima dele, Radamanthys o observou longamente, embriagando-se com aquela beleza indomável. Mesmo fraco, ferido e febril, o Cavaleiro NÃO se entregava, debatendo-se como podia.
— Você não comeu nada desde que chegou há quatro dias. Acha que vai morrer assim? Ninguém morre por um jejum de tão pouco tempo — falou Radamanthys, num tom zombeteiro — Tudo que vai conseguir é ficar pateticamente fraco... como está agora.
— Que “desvantagem” para vocês, não? — ironizou o Santo, semicerrando os olhos novamente. Uma vertigem apoderou-se dele. O loiro sentiu-o amolecer em seus braços.
— Não me confunda com Albiore, Aquário. Eu não precisaria te prender com correntes, nem enfiar essa coleira mística no teu pescoço para te dominar.
Camus riu fracamente, destilando desdém. Seu olhar febril cravou-se no olhar sequioso do Juiz, ao dizer num tom sombrio:
— Se eu não estivesse com isto... te mataria instantaneamente... você nem saberia por que morreu...
— Sua febre não está abaixando. Está delirando.
— Vai... embora... ser desprezível...
Não suportando mais, Radamanthys abaixou-se até o rosto de Camus e passou a língua, lascivamente, pelos lábios do aquariano, que fez uma careta de repulsa.
— Não gosta mesmo que eu te toque, hã? — disse, agarrando-o pelos braços, fê-lo sentar contra a parede, e após dar uma golada no uísque, brandiu a garrafa em sua direção — Pois veja como sou misericordioso: vou te ajudar a me suportar: abra a boca.
— Vá para o inferno, desgraçado — disse, entre dentes, repleto de ira.
— Para alguém LITERALMENTE fodido, você tem uma língua bem ferina...
— Me solte... não me toque... maldito...
— Está com medo de sentir tesão? — riu o loiro.
— Hunf... você me dá apenas nojo...
O inglês novamente pôs o gargalo na boca e sorveu o uísque. Com a garganta incandescente e o calor aflorado em vários sentidos, apertou o queixo de Camus com uma das mãos, levando até seus lábios o gargalo úmido:
— Será mesmo? Isso nós vamos ver...
— Uhnn... me... solta...
— Você vai beber o MEU uísque, de onde esteve MINHA boca...
— Deixe-me em paz, bêbado patético! — não foi um grito, nem um clamor: Camus proferira o comando com desprezo gélido na voz.
Radamanthys arregalou os olhos, possesso. Agarrou o rosto do Santo, com vigor e pôs o gargalo na em sua boca machucada. O contato do álcool com a mucosa ferida doeu como o inferno.
— BEBA! É uma ORDEM, prisioneiro! — vociferou, tapando-lhe o nariz para forçar a ingestão. Quase sufocando, Camus acabou bebendo. O Juiz forçou mais, de tal forma que o Cavaleiro ingeriu grande quantidade de uma só vez.
Liberto das mãos do inglês, tossiu, meio engasgado.
— Assim que eu gosto. Nada de fazer desfeita ao seu anfitrião — provocou, bebendo outra vez. E repetiu a aproximação da garrafa — Beba mais.
— N-não... — entretanto, o loiro repetiu também o processo da ingestão forçada. Após alguns minutos, o estômago vazio de Camus ressentiu-se da invasão da bebida, e ele achou que fosse vomitar — Che... Chega.
— Quando EU QUISER, sim — tomou uma talagada. E levando de novo o gargalo aos lábios molhados do aquariano, murmurou, fitando-o — Isso... é um beijo indireto...
Após ser obrigado a beber mais, Aquário balbuciou, sem força alguma:
— Por que... por que não me mata?
— Por quê? Eu vou te mostrar.
Sem compreender, o francês o viu se levantar e ir até o dispositivo dos grilhões. As correntes foram sendo recolhidas, obrigando-o a ficar bem rente à parede, e por fim, fazendo-o ficar de pé, sem poder se mexer.
— O que está fazendo?!?
— Primeiramente, vou te dar prazer... e depois, você me dá prazer... que tal assim? Estou sendo gentil…
E abaixou-se entre as pernas de Camus, que parecia em choque. Espalmou as mãos nas coxas rijas.
— Sinta-se honrado, Cavaleiro... é a segunda vez que me ajoelho perante você...
— NÃO!! Não... afaste-se! Não!
Hipnotizado pela rigidez e formas daquelas coxas, Radamanthys mordeu-as de leve, sem deixar de apertá-las com os dedos longos. Sua língua traçou caminhos pela carne tenra, até dançar próxima à virilha do homem que se movia como pôde, sem no entanto, livrar-se do contato libidinoso.
— Pare!!! Não!...
A língua deu lugar aos lábios que colaram-se ali como ventosas, chupando com ânsia feroz. Camus sufocou um grito. Não daria aquele gosto para o maldito! Os dedos de Radamanthys seguraram-lhe o sexo flácido, conduzindo-o à boca. Cobriu-o de saliva e chupadas vorazes. Massageou-lhe por baixo, percebendo que agora o francês não emitia mais nenhum som.
“Está querendo dar uma de resistente... vamos ver até onde vai aguentar, Camus de Aquário... sei que posso fazê-lo SENTIR”, pensou, maldosamente, lambendo o membro com lascívia punitiva.
Embora o jovem sequer demonstrasse algo, sentia-lhe o tremor através das contrações nas coxas. O Juiz ficou longos minutos utilizando suas mais renomadas técnicas de sexo oral, famosas por levar todos seus parceiros à loucura.
Não seria diferente com aquele homem, de quem já arrancara tão doce néctar anteriormente.
Camus cerrou os olhos com força, desesperado por nada poder fazer. Estava à total e irrestrita disposição, para que Radamanthys fizesse o que quisesse com ele, e por quanto tempo desejasse. Mordeu os lábios no afã de reprimir qualquer som que pudesse ser tomado como uma traição de seu corpo. Todo seu pênis agora estava na boca ávida do espectro, cuja sucção ininterrupta atemorizou-o: ainda que enojado, ferido, ultrajado… sensações indesejáveis começavam a se apossar dele.
Não era possível!
— Daqui a pouco não cabe mais na minha boca... veja como já está — provocou o Juiz, estimulando o órgão dilatado.
— Uhnn!
Odiava-se: por que tinha que sentir aquilo com alguém que lhe fazia tão mal? Reconhecia ser apenas um reflexo fisiológico. Ainda assim, julgava-se culpado por nem isso controlar. A febre debilitava-o mais, e Radamanthys percebeu isso, até pela temperatura incrivelmente alta daquela carne. Intensificou a sucção no membro inchado e latejante do prisioneiro. Pôs-se a massagear ora o interior das coxas ora as bolas, saboreando os primeiros fluidos que minavam da glande intumescida. Em agonia, o aquariano cerrava os punhos e os dentes. Um filete de sangue correu-lhe pelo queixo: o esforço de suprimir gemidos abriu o ferimento causado pelo Juiz.
O formigamento aumentava em seu ventre à medida que a língua do loiro explorava mais e mais o centro de sua masculinidade. Algo começou a estalar ali dentro. O espectro interrompeu subitamente a felação e se ergueu. Posicionou seu rosto bem próximo ao rosto de Camus, mergulhando naquele olhar tão furioso quanto sensual.
— O... o quê...?
— Eu quero olhar bem esse seu lindo rosto quando você gozar.
— Eu não vou... não...
Agarrou-lhe o membro com firmeza e masturbou-o, de início lentamente, atendo-se a cada ponto daquela face, daquela respiração que era controlada com determinação, mas que por vezes mostrava-se irregular. Em seguida, aumentou a velocidade dos movimentos, na expectativa de ver o Cavaleiro de Gelo derreter-se. Ficaram nessa batalha por longos e longos minutos. Azul fundindo-se no âmbar, o âmbar invadindo o azul.
— Você é mesmo admirável, Aquário — sussurrou — Mas quanto mais você se segurar, mais forte vai ser seu orgasmo. Inclusive, já deve estar sentindo dor por estar retendo-o por tanto tempo...
O francês permaneceu em silêncio, prendendo até a respiração, que começara a descompassar-se. Continuava lutando. Percebeu, porém, que a derrota se aproximava. Seus lábios foram invadidos pelos lábios do outro, num beijo selvagem e inevitável. Ao perceber que um gemido invadiu-lhe a boca, Radamanthys interrompeu o beijo para voltar a mirar o rosto do cativo. Sem deixar de manipular-lhe habilmente o órgão em ponto de ebulição e erupção, sentiu-o tremer mais. Foi brindado com o rubor intenso, os lábios entreabertos e úmidos, o som do gemido aprisionado na garganta que lutava por sair, assim como a tensão dentro de suas entranhas, de seu ventre eletrizado, de seu sexo inflamável:
— Nnngg...
O Juiz sentiu a mão encharcar-se de líquido grosso e quente. Rejubilou-se como quem recebe um prêmio. Sorriu, beijando-o próximo à orelha.
— Você é delicioso, Santo de Aquário — disse-lhe ao ouvido, sentindo-o ofegar.
Camus queria gritar de raiva. De ódio. De nojo.
Mais de SI MESMO do que do seu algoz.
— Está na hora de me retribuir por isto — sentenciou, mostrando-lhe a mão batizada com o sêmen.
— N-NÃO! — foi mais uma fala maquinal do que um apelo real. Não havia como escapar. Sabia disso. Radamanthys lambeu seu rosto, deliciado com aquele corpo à sua espera. Até a coleira negra coroava a visão. Percorreu seu peito, frustrado por não poder chupar aqueles mamilos tentadores, agora cobertos pelas bandagens.
Bem, oportunidades futuras não faltariam.
Não mesmo.
Ainda mais que agora tomara SUA DECISÃO.
Foi até o dispositivo das correntes, e deixou maior mobilidade para as pernas.
Iria possuí-lo ali mesmo.
Mal cabia em si de excitação.
— Não! Não!! — Camus virou o rosto, repleto de repulsa, ao senti-lo colar a si, as mãos descendo-lhe pelos flancos, numa carícia ameaçadora.
— Se é tão sofrido para você que eu te foda, por que não imagina que sou seu amado Milo? — debochou, cruelmente, enquanto erguia uma das pernas do cativo — Não vou me ofender se você me chamar pelo nome dele...
Lágrimas de ódio, asco e desespero rolaram pelas faces do Santo, por mais que ele tivesse lutado para que isso não acontecesse:
— Não ouse... NÃO OUSE tocar no nome dele... — rosnou, sem se importar mais com o que pudesse acontecer — sua boca pútrida não tem o direito de pronunciar o nome dele! Eu nunca chamaria um ser podre e nojento como você pelo nome dele!!!
Sua resposta foi um sorriso raivoso. O peso de sua perna concentrado na mão que premia-a por baixo do joelho fê-lo perceber o que viria a seguir. Antes mesmo que gritasse, a outra mão de Radamanthys conduziu o pênis muito ereto até a entrada do aquariano. Introduziu-se de uma só vez, experimentando incrível resistência, mesmo após tê-lo possuído há algumas horas!
— AAAAAHHHN!!! — A dor varou todas as fibras do ser de Camus, que desejou mais que nunca a morte súbita, o completo esquecimento. Era como ser empalado com um bastão de ferro em brasa!
Já para o espectro, era um sonho. Era um verdadeiro sonho. Como ele nunca havia experimentado: Radamanthys temeu sucumbir ao prazer quase doloroso de ter seu enorme falo engolido por aquele lugar tão magicamente quente e apertado.
— NNNNGG... por Hades... que-quero... quero foder com você por... por TODA A ETERNIDADE!
— Aaaaah!!! — gemeu o Cavaleiro, ao receber as primeiras estocadas, esmagando-o, rasgando-o por dentro.
— Ooooohh... huumm... — o loiro suspirou, a cabeça latejando de tão intenso êxtase.
Agarrou-o com ansioso ardor: segurou-o pelo queixo e forçou um beijo. Após muito lutar, apertando o rosto do francês conseguiu entrar naquele domínio desejado... Camus percebeu que doía muito menos se deixar ser beijado, caso contrário suas bochechas seriam perfuradas por aquelas unhas pontiagudas.
Aquele prisioneiro inebriava os cinco sentidos de Radamanthys como nunca nada o fizera: seu tato deliciava-se com a pele macia e a rigidez de seus membros; o paladar com o sabor daquela boca, daquele corpo, e de seu gozo; o olfato com o cheiro embriagante de sua carne, de seus cabelos, de seus fluidos; a audição de sua voz grave e sensualmente profunda, de seus gemidos, fossem de dor ou prazer, a ele isso não importava nem um pouco; a visão com a imagem do mais belo e fascinante ser a quem já possuíra...
Queria-o por toda a eternidade.
Este pensamento fixo na cabeça, estocou-o com furor, agarrando-o ora pela cintura, ora pela nuca, cravando seus dentes por onde conseguisse... Camus chorava copiosamente agora, seus gritos mudos enlaçados na garganta sufocada, liberando-se por vezes como o grunhido de um animal abatido. Lambendo cada uma das cristalinas gotas, o Juiz saboreou-lhe as lágrimas, sorrindo, ensandecido, ao perceber seu próprio interior ser invadido pela poderosa energia que clamava por se abrigar dentro de sua presa.
— AAAH! N-NÃO! NNNG!
— AAAAH... Aquário...CAMUS!!! — e foi dizendo este nome pela primeira vez que ejaculou fartamente dentro do homem subjugado, gemendo exultante como se fosse transportado aos Elíseos. Atordoado pelo forte orgasmo, agarrou a nuca do francês e colou seus lábios ao ouvido dele, numa promessa ofegante:
— Você... será... MEU...
Chegou a relutar em retirar-se dele. Porém, percebeu que o jovem estava quase perdendo a consciência.
— Ca... Camus?
A cabeça do aquariano pendeu para o lado, os olhos úmidos cerrados.
Teria desmaiado?
Retirou-se daquele calor sublime e tocou-lhe a testa, intrigado:
— A febre ainda...
— Uhnn...
— Camus! Está consciente?! Espere, vou lhe aplicar uma injeção. Aquele remédio não fez efeito — disse o loiro, em sua obsessão sem admitir o que ocasionara a piora do prisioneiro.
— N-não!... v-vá embora... — foi-lhe mesmo difícil ouvir o que dizia.
— Olhe para você. Está desfalecendo — preparou a seringa com o medicamento — Está muito debilitado. Mandarei que meu próprio cozinheiro prepare suas refeições de agora em diante. E trarei roupas para você.
— Maldi...uhn... maldito... ahn! — a agulha penetrou-lhe a veia do braço de forma certeira mas não pouco dolorosa — Me... me deixa morrer... desgraçado!!!
O espectro acariciou-lhe o rosto, depositando nos lábios frementes um inacreditavelmente suave beijo.
— Não vou perdê-lo para uma febre, Cavaleiro...
Do lado de fora da cela, o guarda tentava “se aliviar” rapidamente: aqueles sons, aqueles gemidos e gritos deixaram-no extremamente excitado. Era melhor resolver aquilo antes que o temível Juiz saísse...
Ocupado com seu problema, não reparou que perto dali, num canto do corredor, um espectro de cabelos espetados rosados, mais compridos atrás, vertia dos olhos violetas abundantes lágrimas, enquanto crispava as mãos com tanta fúria que feria-lhe as palmas.
“Como pôde fazer isso, Radamanthys? Pude tolerar todos seus caprichos e desmandos, todas suas escapadas... por você ser um Juiz do Inferno! Ser um superior a mim, e dono do meu coração! Por ter direito de ter quem quisesse, no Mundo dos Mortos ou em outros mundos... mas um Santo de Athena? Um prisioneiro? Um inimigo? UM HOMEM QUE NÃO TE QUER? Você NUNCA forçou quem quer que fosse! Chegou a esse nível a SUA PAIXÃO por esse homem? Você que nunca... verdadeiramente... soube o que era isso...”, pensou, retirando-se silenciosamente dali, tão abalado quanto rancoroso.
Certo. Tinha sido paciente ATÉ ENTÃO.
Medidas teriam que ser tomadas.
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