Grilhões Eternais

28 A Missão Final


Notas iniciais
(gente, desculpe a demora, esqueci de continuar postando!!!) Bem vindos ao vigésimo oitavo capítulo de "Grilhões Eternais". No último capítulo, Athena decide quais Santos partirão para o resgate de Camus, preso no Castelo de Wyvern, numa remota região da Escócia. Milo, Hyoga, Shun, Afrodite e Máscara da Morte são teleportados por Mu, graças ao artefato de sincronia com a localidade por ele confeccionado. Valentine, porém, invade a cela do aquariano e, movido pelo ciúme destrutivo que sente por Radamanthys, tenta matá-lo, sugando seu sangue. O espectro aproveita-se do fato de que Albiore e o Juiz estão empenhados nas defesas da fortificação. Desta vez fiz a capa, graças à ShunreiSuiyama, que disse estar com saudades das minhas pobres fanarts (nas quais os personagens NUNCA ficam parecidos com os que querem retratar, hahahaha, é uma deficiência grave para quem se arvora fanartista T.T). Estou muito enferrujada. A única coisa de que gosto no "meu" Camus é o corpo. Ainda não acertei o cabelo... e ele ainda tá a cara de um personagem meu, kkkkk, parecem irmãos :v Boa leitura!!!

Postado junto a uma imensa janela na sala anexa aos aposentos de Radamanthys, Albiore contemplava as hordas de espectros evadindo-se do castelo de Wyvern rumo à floresta. Notícias da invasão de cinco Santos de Athena puseram todos em alarme. O Cavaleiro de Prata passou a mão pelos cabelos loiros, nitidamente nervoso. Não sabia precisar o que sentia. Então seu maior inimigo conseguira encontrá-lo. Sabia que malgrado a superioridade numérica dos espectros, a presença de três Cavaleiros de Ouro configurava um grande perigo.

Não seria impossível que chegassem até ali.

— O que pretende fazer caso os invasores cheguem até aqui? — Radamanthys parecia ter adivinhado seus pensamentos.

— Acha que eles têm essa chance? Confia tão pouco assim nos servos de Hades?

— Temos que ficar um passo à frente dos Santos de Athena. Isso significa cogitar todas possibilidades para então estipular as ações.

Albiore pôs as mãos para trás, considerando a pertinente fala do Juiz, agora trajando sua súrplice. Também ele usava sua armadura negra de Cefeu das trevas.

— Quer saber se pretendo executar Aquário caso eles alcancem a fortaleza?

— Exatamente.

Ante o silêncio do outro, o espectro insistiu:

— Em outras palavras, vai levar a cabo o que planejou para o prisioneiro? Ou pretende entregá-lo a eles?

Matar Camus?

Sim, esse era o planejado.

Mas... por que... por que Agatha vinha à sua mente, e com aquela expressão tão... reprovadora?

No sonho (fora mesmo um sonho?) a amada dissera que a vil vingança, servindo-se do flagelo de um inocente, não permitia que nem ela nem seu filho encontrassem pleno descanso. O ódio, a injustiça, o negror de sua alma corrompida alcançara as almas puras de seus amados no pós morte. Fechou as mãos, sob extrema tensão.

Radamanthys percebeu a hesitação do traidor de Athena. Sorriu internamente.

Não importa sua decisão. Ele será MEU. Sua decisão, Albiore, apenas apressará ou adiará tua morte!

— Eu pretendia executá-lo no final dos 12 dias, diante dos olhos de Milo. E tão somente diante dos olhos dele. Não tenho a pretensão de matá-lo fora desse contexto. Nunca tive.

— Vai entregá-lo ao Escorpião?

— Se Milo chegar até aqui... e puder assistir... aí sim, vou MATAR Camus de Aquário.

É o que você pensa”, pensou o Juiz, um brilho malicioso no olhar ambarino.

— Talvez seja melhor transferir o prisioneiro para outro lugar. Há celas na torre do castelo também, não é verdade?

— Há sim.

— Por favor, leve-o para lá. Não podemos deixá-lo no subsolo. Conheço Milo; vai torturar quem lhe cair nas mãos para saber onde o namorado está.

— Entendido — foi uma ordem a qual ele não se importou nem um pouco em obedecer. Queria mesmo, ardentemente, ver o aquariano. Caminhou, resoluto, até as escadas. Desceu-as, ansioso. Nem ele se entendia. A expectativa de possuir aquele homem para toda a eternidade o incendiava. Levando-o ainda com vida para o Inferno seria como parar o tempo de Camus. Nunca envelheceria, nunca morreria, nunca perderia a magnética beleza que tanto o embevecia. Nunca escaparia de seu domínio, nunca. Sem falecer, não iria nem para os Campos Elíseos, nem para nenhum dos céus ou qualquer outro destino, tampouco reencarnaria. Seria seu, somente seu... até o fim dos tempos.

Passou a língua pelos lábios, já sendo tomado pela luxúria. A chama do desejo acendeu-se, e ele apressou a descida no afã de tomá-lo nos braços, nem que fosse rapidamente. Entrar naquele corpo seria um revigorante para a batalha que se aproximava.

Quando chegou aos subterrâneos, surpreendeu-se ao ver um guarda caído. Conferiu seu pulso: morto. Levantou-se, intrigado. Um golpe certeiro no peito… não houve resistência. Logo... não houve luta... mas o que...

Apressou o passo: mais adiante, outro morto. Estraçalhado. E à frente da cela, outros dois.

Não! Não pode ser! Será que... Escorpião já...”, e correu rumo ao que acreditava ser seu despojo. Qual não foi sua surpresa ao arrombar a porta e ver, ajoelhado sobre o prisioneiro...

— VALENTINE?!?!?!!

Por milésimos de segundos, Radamanthys achou que o parceiro estivesse molestando sexualmente o francês. Entretanto, assim que, movido pelo susto, Harpia virou-se para ele, o Juiz percebeu que não se tratava disso, o que a bem dizer já o exasperaria sobremaneira... sangue espesso, escuro, abundante, descia dos lábios de Valentine. Ao entreabri-los, a visão da boca cheia de sangue golpeou o recém-chegado. Horrorizado, viu o pescoço do aquariano quase dilacerado.

— SEU MALDITO!!! — um poderoso soco foi desferido na mandíbula rubra de Valentine, que foi se chocar com força contra a parede de pedra.

O Juiz apressou-se em retirar a mordaça do cativo. Viu que a coleira havia sido abaixado o suficiente para que os caninos assassinos atingissem a jugular. O sangue não parava de jorrar!

— Camus!... — aturdido, tocou o ferimento, premindo os dedos para conter a hemorragia. Pela primeira vez na vida se viu sem ação, sem chão, à beira do desespero. O jovem já estava completamente inconsciente.

A gargalhada histérica de Harpia ecoou pela cela. O sangue que fluía de sua boca agora já não era apenas de Aquário. Erguendo o tronco com dificuldade, sob fortes dores, ele gritou, alucinado:

— Hahahahahahahahahahahaha!!! O seu novo brinquedo VAI MORRER, Radamanthys! Vai morrer! Você NUNCA vai ficar com ele! HAHAHAHAHAHAHAHAHA!...

O Juiz cravou nele um olhar furioso; porém sabia qual era a prioridade do momento. Ignorou Valentine e pôs-se a acionar o dispositivo que abria as algemas.

— O que vai fazer? Esse verme já está quase morto! Ele está MORRENDO, Radamanthys! Desistaaa!!! — vociferou, mais ferido pelo desprezo do outro do que pelo golpe que recebera.

Tomando Camus nos braços, o loiro ajeitou-o da melhor maneira possível: segurava-o como a carga mais preciosa que já tivera em seu poder, pela parte posterior dos joelhos e pelas costas, cuidando para que a parte superior do corpo inerte ficasse bem apoiada em seu peito. A visão daquele cuidado deixou Valentine totalmente ensandecido.

— Por quê? POR QUÊÊÊ? EU SEMPRE AMEI VOCÊ! Sempre fiz TUDO por você! Eu me dei por inteiro a você!!! — chorava copiosamente, a amargura mesclando-se com o ódio — Está me preterindo por... por um... por um Santo de Athena!!! Radamanthys!!!

Sem nem ao menos se dignar a olhar para o ser em frangalhos no chão, o Juiz proferiu, com voz inabalável:

— Torça para que ele não morra, Valentine. Se isso acontecer... não terei piedade alguma de você.

E saiu da prisão, deixando para trás o amante destruído física e emocionalmente. Sequer subiu as escadas: abriu as asas de sua súrplice de dragonete e alçou voo, levando consigo o prisioneiro à beira da morte. Ainda ouviu o berro que atestava um esfacelamento de sanidade:

— RADAMAAANTHYYYYYYS!!!!!

*************

Longe dali, sob um céu argênteo do início de uma fria e cinzenta manhã, cinco Cavaleiros mandavam pelos ares vários espectros que ousaram atacá-los, sem sequer despender esforço. Hyoga congelou alguns com o seu Pó de Diamante, e Shun atingiu outros com suas correntes. Percebendo movimentos nas copas das árvores, Afrodite apenas enviou para cima suas Rosas Diabólicas Reais, e meia dúzia de espectros caíram como frutas podres.

— Vocês jamais sairão daqui vivos, seus miseráveis!!! — gritou um deles, brandindo a palma para o chão e fazendo surgir dele enormes rochas pontiagudas, que foram se multiplicando na direção dos cinco. Eles saltaram, escapando com agilidade. Milo nem usou suas Agulhas; valendo-se de sua velocidade, alcançou o oponente antes que ele piscasse, e agarrou-lhe pela garganta. Um gemido surdo foi o último som da vida que se foi, precedido pelo som de um pescoço sendo quebrado. O escorpiano viu três espectros correndo para socorrer o companheiro já morto, e exclamou:

— RESTRIÇÃO!

Imediatamente foram paralisados, e assim Milo pôde se deliciar com a imagem da agonia com que em seguida receberam apenas algumas Agulhas Escarlates. Gritaram por uma misericórdia que nunca chegaria...

— Hah, vai ser engraçado mandar seres infernais para o Inferno! — riu Máscara da Morte, erguendo o braço.

— ONDAS DO INFERNO!!! — Ondas avermelhadas partiram de seu indicador em riste, e levaram consigo outros três espectros num turbilhão demoníaco. Regozijava-se em poder lutar daquela forma novamente, não podia negar...

Afrodite, no entanto, comentou, desconfiado:

— Não estou gostando disto, está fácil demais.

— Tem razão. Na certa, a frente de batalha é formada pelos mais fracos. Não é uma estratégia incomum. Preservam os mais poderosos para as imediações do castelo e acham que vão nos cansar — raciocinou o escorpiano, esganando outro que ousou atacá-lo pelas costas.

— Nos cansar? Com estes insetos medíocres? — disse o canceriano, chocando a cabeça de dois espectros uma na outra. Haviam saltado sobre ele do alto de um carvalho — se é intenção nos causar tédio, aí sim vou concordar.

— Não importa. O resultado será o mesmo — declarou Escorpião, posicionando-se tal qual o animal que nomeava sua constelação e erguendo o punho no ar: cinco espectros que corriam em sua direção nem puderam se aproximar. Foram atirados longe, já sem vida.

— Precisamos nos apressar. Eu sei onde Camus está.

— Milo, espere.

— Que foi, Hyoga?

— Acha mesmo que eles o estarão mantendo no mesmo lugar, sabendo que estamos aqui?

Eles se entreolharam, ponderando aquelas palavras. Faziam sentido.

— Não precisam se preocupar com isso, pois JAMAIS chegarão ao castelo! — uma voz cavernosa os desconcertou brevemente. Não viram ninguém.

— Quem...

E sob um grandioso estrondo que chegou a fazer os cabelos dos guerreiros esvoaçarem, surgiu à frente um clarão carmesim, em cujo centro se podia ver cinco vultos. A atmosfera ficou subitamente pesada e opressiva. Podia-se ver no firmamento escuro revoadas de grandes bandos de pássaros, e até as árvores pareciam mover-se de maneira misteriosa.

— Hum. Até que enfim vão nos deixar ter alguma emoção? — sorriu Máscara da Morte — Tava muito sem graça.

— Hyoga, Shun, tomem cuidado, por favor — advertiu Milo, inconscientemente assumindo uma postura protetora na frente dos dois. O russo sorriu. Era como se tivesse, realmente, alguém da sua família diante deles. Seu “tio”.

— Não se preocupe conosco, Milo — respondeu Shun, ativando suas correntes.

Os adversários que acabaram de chegar, cujas fisionomias pouco a pouco se desvendavam, realmente pareciam ser mais fortes do que os anteriores.

— Guerreiros de Athena, ao invés de se conformarem em perder um de vocês, vieram oferecer suas vidas ao exército de Hades. Não são muito inteligentes, por certo — zombou o maior deles, que possuía um olho dourado em seu capacete cor de vinho.

— Não duvido de que vocês abandonariam um companheiro à própria sorte. Mas nós somos diferentes — rebateu Afrodite, fazendo pose — e MUITO mais bonitos...

— Huhuhuhuhuhu, vamos ver de que isso adianta... eu, Niobe de Deep, vou calar a boca desse efeminado!

— Eu, Ivan de Troll, vou despedaçar esse que diz mandar as almas para o Inferno!

— Eu, Giganto de Cíclope, vou esmagar o tal Escorpião, inimigo do Lorde Albiore!

— Eu, Myu de Papillon, vou embrulhar o garotinho das correntes!

— E eu, Gordon de Minotauro, vou cuidar do Cavaleiro de Gelo ali!

— Bom, já que fizeram suas escolhas, arquem com as consequências — disparou Milo, sem se importar com as tolas apresentações. Os cinco Santos assumiram posição de luta. E então seus adversários partiram com tudo para cima deles.

*************

—Radamanthys? O que aconteceu? — perguntou Albiore, ao ver o Juiz entrando nos vastos aposentos carregando o aquariano.

— Valentine tentou matá-lo. Ele não tem muito tempo.

— O quê? — o Cavaleiro de Prata estremeceu. De fato, Camus perdia muito sangue. A mão do espectro comprimia o ferimento, numa tentativa de conter a insistente hemorragia.

— Guarda! Vá já chamar o médico! Sabe onde encontrá-lo, não? — demandou, dirigindo-se a um sentinela que ficava na porta de seu quarto.

— Sim, senhor, agora mesmo! — respondeu o espectro, correndo imediatamente.

Albiore observou, confuso, Radamanthys adentrar a alcova, com o prisioneiro desmaiado no colo. Percebeu o cuidado com que fora depositado no leito.

— Parece que o ferimento é bem sério — comentou, vagamente.

Sem responder, o Juiz afastou os cabelos azulados do belo rosto de sua obsessão. Por baixo das pálpebras cerradas e imóveis, sombras arroxeadas reforçavam com a palidez da pele para dar a Camus a aparência de quem se aproxima dos portões da morte. Cerrou os dentes, irritado.

— Onde está o médico?!? — rosnou, impaciente. O Cavaleiro de Prata aproximou-se da cama, contemplando o resultado de sua nefasta trama. Um homem inocente alquebrado, humilhado, destruído até a alma, e que agora sangraria até morrer. Uma gota de suor escorreu por sua face lívida.

Camus deitado por sobre seu sangue.

Como ele vira no sonho. Primeiro Agatha... depois Camus... e depois Agatha se transformava em Camus... e Camus em Agatha...

... aquele sangue... tão inocente quanto o sangue de seu sangue.

Tão inocente quanto Agatha.

— Agatha... — balbuciou, presa de forte impressão.

— O quê? — fez o outro loiro, erguendo a sobrancelha.

— Com sua licença, Lorde Radamanthys — o médico anunciou sua chegada, trazendo consigo uma pequena arca. Era alto e magro, de pele acinzentada e com grandes olhos roxos, a mesma cor do cabelo curto e espigado. Usava calça e blusa de tonalidades escuras.

— Peço perdão pela demora, meu senhor.

— Ande logo, veja o que pode fazer por ele — ordenou.

O médico trocou de lugar com seu senhor, que estava sentado na beirada da cama, próximo ao Santo. Engoliu em seco ao ver a quantidade de sangue que vertia do pescoço daquele homem: ensopava o lençol e as fronhas dos travesseiros prateados. Não acreditava que pudesse fazer muita coisa... porém desagradar ao Juiz não lhe parecia boa ideia. Olhou-o de soslaio, e o olhar ardente, maníaco que viu ratificou sua impressão. Chegou a tremer.

— Ande logo! — repetiu Radamanthys.

— S-sim, meu senhor — pôs a mão no local ensanguentado, medindo a extensão dos danos. Percebeu que estava além do que poderia tocar, devido ao artefato supressor do cosmo.

— Lorde Radamanthy, eu... eu vou ter que... teremos que tirar essa coleira do pescoço dele...

— O quê?!?

—C-caso contrário... não poderei...

— Isso está fora de cogitação — cortou Albiore, subitamente firme.

— Ele não foi apenas mordido, entendam... teve o sangue sugado, sim, mas a pele e os tecidos foram PUXADOS para fora da coleira... o ferimento é maior do que podemos ver, pois p-parte dele... está por baixo desta coleira... muito provavelmente a jugular foi seriamente atingida. Ele morrerá em minutos se eu não... não cauterizar a lesão. E não tenho como fazer isso com esta coleira aqui...

O Juiz e o Cavaleiro de Prata refletiram uns segundos.

— Vai anestesiá-lo antes de retirar a coleira?

— Isso não será possível, Lorde Radamanthys. Este homem está prestes a sofrer um choque hipovolêmico. Preciso fazer isso JÁ. E ele corre sério risco de não resistir à anestesia nestas condições... — explicou o doutor, como quem pede desculpas.

— Isso jamais — o argentino mostrou-se irredutível. Radamanthys virou-se para ele, indignado:

— Vai deixá-lo morrer? Achei que não quisesse matá-lo, a menos que fosse na frente do Escorpião!

— Eu disse que não o mataria a não ser que fosse sob determinado contexto. Mas no caso presente... não terei sido eu a matá-lo!

— Como é? — inquiriu o inglês, num tom baixo e desdenhoso.

— NÃO FUI EU quem o feriu de morte! — riu, nervosamente, gesticulando de modo lunático — Agatha me perdoará! Ela e meu filho repousarão em paz, enfim! Eles vão entender que não fui eu quem matou Aquário!!!

— Senhores... estamos perdendo ele... — disse o médico, apertando gazes na diminuta parte livre da garganta do aquariano, e tentando enfiá-las por baixo do objeto que o impedia de atender adequadamente aquela emergência.

— Então vai deixá-lo morrer...

— Será seu DESTINO! EU NADA FIZ! É a sina dele!!! — retrucou Albiore, o olhar aparvalhado, febril de excitação.

Sobre ele pousou apenas um olhar frio de desprezo infinito. Radamanthys não olharia um inseto de jeito menos respeitoso. Virou-se para o médico e estendeu-lhe um anel que retirou do dedo. Era a cópia da chave de Albiore, a única capaz de abrir o artefato, ao ser inserida num pequeno espaço ao lado.

— Retire a coleira — ordenou, enérgico.

— O QUÊ?!? — surpreendeu-se Albiore.

— Não há risco de e-ele reagir, Lorde Albiore... está... está inconsciente... — apontou o jovem estirado no colchão ensopado de sangue — mesmo que estivesse consciente, no estado em que está... veja... não aguentaria utilizar o cosmo.

Por mais que desconfiasse SIM de um risco, a atitude do Juiz dizia-lhe que PRECISAVA fazer aquilo. Nunca que iria contra suas ordens!

— Está indo contra as minhas ordens, Radamanthys?

— Nunca lhe devi obediência, e sim a Lorde Hades. A partir do momento em que descaracteriza sua vingança, não é preciso mais que eu o sirva.

— O que... o que isso quer dizer? Você vai desafiar o Deus que ORDENOU que me obedecesse?

— Estou certo de que Lorde Hades não se agrada de um servo que não leva a cabo o plano original de sua missão.

— O que você diz não tem sentido! — gritou Albiore. E voltando-se para o médico — VOCÊ! NÃO TIRE ESSA...

Não pôde terminar. Foi jogado com violência contra a parede apenas com o olhar do Juiz. Chocou-se com força, caindo no chão acarpetado, levando consigo um imenso quadro contra o qual suas costas bateram. Atordoado, testemunhou o médico pôr o anel, feito do mesmo material que a coleira e de mesma tonalidade, na concavidade que desativava o aparelho.

— N-não... não f-faça isso... aaaahhh... — Albiore tentou se levantar, contudo caiu de joelhos, afetado pelo poder do espectro.

A coleira de obsidiana foi retirada, deixando à mostra a marca púrpura decorrente de seu uso ininterrupto por seis dias.

O dano causado por Valentine era enorme. Havia tanto sangue que seria primeiro necessário limpar a ferida para analisar com exatidão a extensão e a gravidade. Para o médico, porém, estava claro que havia perigo de morte se não fizesse o curativo imediatamente.

— É pior do que imaginei — declarou, temeroso — foi muito profundo. Não sei se posso restaurar os tecidos de maneira efetiva a tempo... e... e ele precisa de uma transfusão de sangue...terei de fazer uma autotransfusão, já que não há tempo de fazer um exame para saber qual tipo e...

— Quer calar a boca e salvá-lo de uma vez? — interrompeu o Juiz, ríspidamente.

— Você... você está realmente... apaixonado por ele... — falou Albiore, finalmente conseguindo ficar de pé.

— Não seja tolo! Isso não...

— AAAHH!!! — o grito de dor do médico chamou a atenção de ambos — AAAAHHHH! MINHAS...

Os antebraços do doutor estavam CONGELADOS.

Até um pouco acima dos cotovelos. Gemia e pulava de dor, enquanto Camus continuava deitado, desacordado.

— Mas o que... — e foi então que o inglês percebeu, planando no ar...

... CRISTAIS DE GELO.

— NÃO PODE SER! Ele está praticamente morto! Como... — apavorou-se.

De repente uma fortíssima corrente de ar gelado atirou os três presentes para longe. Não houve chance de defesa. E perceberam que o francês estava se erguendo. Sentou-se na cama e enfim pôs-se de pé, inacreditavelmente augusto, soberbo. Assemelhava-se a uma aparição fantástica.

— Impossível!!! — berrou Albiore. Preparou-se para atacar, juntamente com o Juiz, mas foram detidos pelo estrondoso impacto que se seguiu após Aquário enunciar, vivamente:

— PÓ DE DIAMANTE!!!

— AAAAAAAAAAAHHHHHH!!! — os três foram novamente arremessados contra a parede, desta vez quebrando-a totalmente, indo parar no cômodo ao lado, em cuja parede ficaram presos, cobertos por uma espessa camada de gelo. O intenso vento ártico não permitia sequer que abrissem os olhos. Sob a incessante corrente ficaram grudados ali.

Foi a deixa para Camus virar-se num trôpego rodopio e dirigir-se para a janela, onde subiu no balcão.

— NÃO!!! — gritou Radamanthys, em meio à horrível dor — Tolo! Você vai morrer!!!

O aquariano apenas voltou seu rosto mortalmente abatido na direção do Juiz, os cabelos azul petróleo cobrindo-o momentaneamente por causa do vento do exterior. Sorriu fracamente para ele, e com voz débil, o olhar mortiço, respondeu:

— Eu já estou morto...

E voltando-se para frente, após um breve impulso, saltou, ganhando o ar frio da manhã cinzenta.

O cosmo novamente ativo em seu corpo fê-lo atingir o solo sem maiores dificuldades, embora não tenha conseguido fazê-lo sem tombar e rolar, sentindo que lesionara um tornozelo.

— Aaahhk!... — gemeu, a dor explodindo por todos os lados. Grossas gotas de sangue caíram no chão. Teria que fazer alguma coisa com aquele ferimento na garganta, ou ele não conseguiria...

— VOCÊ AÍ! — gritaram vários espectros, precipitando-se sobre ele. Tudo que podia fazer por hora era apertar o local o mais firmemente possível, e com a mão livre lançar outra corrente de ar gelado, limpando o caminho para fora do castelo.

Pôs-se a correr tanto quanto podia, consciente de que em seu estado não poderia lançar ataques mais incisivos. Felizmente foi o suficiente para efetuar sua fuga.

Cauterizar o local... o médico disse que deveria cauterizar... se eu puder ter um tempo, poderia usar meu ar gelado para...”

— Parado!!! — mais seis espectros avançaram sobre ele. Desta vez, Camus foi atingido por um golpe certeiro na altura do peito, o que o fez cair. Os guardas aproveitaram para pular em cima dele, no afã de imobilizá-lo.

— Pegamos ele!

— Hehehehehehe, achou mesmo que iria escapar?

Seguraram-no pelos braços e pernas. Notaram, porém, que ele não se movia nem se debatia como o esperado.

Seus olhos brilharam ao ativar repentina e vigorosamente o cosmo.

— Aaahhhh!! — bradou, gerando uma verdadeira nevasca. Esta atirou para longe seus adversários, deixando por toda parte rastros de destruição.

Livre, enfim, tentou se erguer. Sangue aspergiu o solo daquela fria terra. Não mais se ouviu um grunhido sequer dos espectros.

— Uuuhn!! — gemeu, caindo de joelhos. Ficava mais fraco a cada minuto que passava. Se por um lado ter o cosmo de volta ajudava-o a não mais sentir frio e a lhe conferir vitalidade necessária à sobrevivência, por outro usá-lo para desferir suas técnicas exigia muito de seu organismo debilitado. Cambaleando, procurou sair dos limites do castelo.

Nesse meio tempo, Radamanthys e Albiore se libertavam da manta de gelo na qual ficaram presos. O médico não tivera a mesma sorte... perecera pela fúria do ataque do paciente aparentemente moribundo. O Juiz foi até a janela procurar o francês e viu pelo menos uma dúzia de soldados caídos em meio a gelo, sangue, árvores partidas, rochas, paredes quebradas... cerrou os dentes, com ira. Albiore vociferou, fora de si:

—A culpa é toda sua!!! Eu avisei para não tirar a coleira dele! Viu o que fez?!

—O que aconteceu aqui? — Aiacos, Verônica e Zeros surgiram à porta do quarto, alarmados pelo barulho e pelos gritos.

— AQUÁRIO FUGIU, isso que aconteceu! — respondeu, colérico — graças à insensatez do “grande juiz” aqui!

— O quê? — espantou-se Aiacos.

— Ah, nããão!... eu queria me divertir com ele mais uma vez... — Verônica fez um muxoxo. Gelou ante o olhar tenebroso de Wyvern.

— Vamos nos dividir e ir atrás dele. Está indo para a floresta — disse Radamanthys, sem se importar em esclarecer o ocorrido — Mas mesmo que agora possa usar seus poderes, está fraco e muito ferido. Ele não vai longe.

— Se fraco e ferido ele fez este estrago aqui... — Aiacos admirou-se, olhando ao redor: os aposentos de Radamanthys pareciam ruínas agora.

— Ele só nos pegou de surpresa! Agora vamos logo!!! — cortou o loiro, queimando de raiva e vergonha.

— Não se preocupe, senhor Radamanthys! Eu, Zeros de Sapo, vou trazê-lo de volta. Não escapará do grande Zeros, não senhor!

— Bem lembrado, Zeros... a ordem é TRAZÊ-LO VIVO.

— Então agora é você quem dá as ordens, não é, caro Juiz? — murmurou o Cavaleiro de Prata, percebendo-se esquecido.

— Já os Santos de Athena que encontrarem pelo caminho... a ordem é ACABAR COM ELES. Matem todos!

— Nem precisava dizer isso. Será um prazer... mexer um pouco os ossos... o exercício será bem vindo! — atinou Verônica, jogando os belos cabelos dourados para o lado, enquanto umedecia sensualmente os lábios.

*************

A quilômetros dali, Milo suspendeu a respiração ao sentir algo muito familiar. A princípio, julgou ser mera impressão. Deu um salto para trás, evitando o punho monstruoso de Giganto.

— Ei! Pare de fugir, seu verme de Athena!

CAMUS!”, não, não era impressão... por um breve momento...

Amigos, vocês sentiram isso? Ou estou ficando louco?”, comunicou-se com os companheiros através do cosmo. Com apenas uma das mãos, bloqueou um soco do maior. Este urrou de dor ao ter o punho esmagado pelo escorpiano.

Não, Milo, você não está louco! Eu TAMBÉM senti... o cosmo de meu mestre!!”

Exultante com o que sentira, o golpe de Hyoga foi potencializado pela esperança renovada, e deu um fim à luta com o espectro de Minotauro.

Camus... posso sentir... ainda sinto o cosmo dele! Ele foi magnificamente elevado há alguns minutos!”, Afrodite também derrubara seu oponente, cravado de caules de rosas venenosas.

“Isso quer dizer que a maldita coleira foi tirada dele! O que pode ter acontecido?”, questionou Máscara da Morte, fazendo o inimigo ser sugado pelo terrível Ondas do Inferno.

Isso é ótimo! Podemos achá-lo agora!”, alegrou-se Shun, utilizando toda carga da corrente triangular em Papillon, que caiu derrotado.

Sem poder demorar mais, o grego direcionou todas as suas Agulhas de uma só vez direto no ponto onde já abrira um rombo na sapuris do espectro de 1,97m: no coração. Ciclope tombou, morto na mesma hora.

Camus! Camus, pode me ouvir?

E o chamado de Milo atravessou os campos, a matéria, os céus, ligando-se diretamente ao espírito do Santo que mancava ao mesmo tempo em que segurava o pescoço aberto.

Milo?”

CAMUS? CAMUS!!! POR ATHENA!!!”

— EU CONSEGUI! ESTOU FALANDO COM ELE! — gritou o escorpiano, o que levou os amigos a comemorarem.

“Milo... você...”, uma vertigem o levou ao chão. O grego sentiu o cosmo do amado fraquejar.

“Por Zeus, Camus!! FALE COMIGO! CAMUS!”

“.....”

“CAMUS!!!”

— Ooohh... uhhn... — a visão do francês ficou turva. Sua boca, muito seca. Estava muito... muito fraco...

... estava morrendo... o sangue... precisava fechar o ferimento.

Sequer poderia avisá-los sobre...

Cauterizar. O médico disse para cauterizar.

Mirou sua mão, receoso... o gelo poderia fazê-lo. O suficiente para não morrer nos próximos minutos.

Seu receio é que doeria como o inferno. Não poderia gritar... poderia ser encontrado pelo som. Já era perigoso manifestar o cosmo.

Levou a mão à garganta lacerada, sentindo-a empapada de sangue. Fechou os olhos e conduziu para a ferida uma quantidade de ar gelado suficiente para que os cristais de gelo queimasse as bordas dos tecidos fragmentados, unindo-os. Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ele rangeu os dentes, sob uma dor enlouquecedora. Grunhiu como um animal, mas não gritou. Conservou-se abaixado perto de uns arbustos até sentir que conseguira seu intento. Lutou para não desmaiar de dor. Cobriu com mais uma camada de gelo, até sentir a área insensível. Bom. Arrancou uma das ataduras que envolviam seu torso. Amarrou-a no pescoço, dando voltas, e deixando bem firme o curativo improvisado.

Não era nada adequado, muito menos higiênico: as bandagens estavam sujas de sangue e emplastro, o risco de causar uma infecção seria quase certo! Contudo... ele não iria viver muito mesmo...

... em verdade nem fazia questão de continuar vivo.

Eu já estou morto”.

Não foram estas suas últimas palavras para Radamanthys?

Só precisava aguentar mais um pouco... não podia perder a consciência agora... NÃO! Tinha uma missão a cumprir, antes de se entregar à morte. Sim, sua missão final.

Dois comunicados.

Não podia ser interrompido agora. Recostou-se à árvore, recompondo-se para prosseguir com seu dever.

— Uhnnn — gemeu, forçando-se a permanecer consciente.

Precisava contar resumidamente sobre Shun... seu terrível fardo... sua responsabilidade... que a Deusa o ajudasse... e então...

... não havia sido assim que sonhara...

... não havia sido assim... não era o que queria.

Mas era o que estava em seu alcance.

Dizer a Milo que o amava.

Que sempre amou.

E então... partir...

Preparou-se para ativar o cosmo e falar com o amado.

— Enfim achei você, Camus de Aquário.

Aquela voz fê-lo virar-se de súbito.

Surgindo por trás das árvores, trajando sua armadura reluzente, o espectro que fez Camus balbuciar, desnorteado:

— Va... Valentine...

Os cabelos rosados dançaram ao sabor do vento. Seus olhos violetas deliciaram-se com a lastimosa figura que precisava de um tronco para se apoiar.

— Amado por tantos, sepultado na solidão... esse é o seu destino. Ninguém vai chorar por sobre seu corpo retalhado, Cavaleiro... pois aqui será o seu túmulo... bem debaixo de minhas garras de Harpia...

*************

Notas finais
lá vem Valentine perturbar o coitado. Que encosto... Que será de nosso cubinho de gelo favorito? Mais quebrado que arroz de terceira e tendo que lutar com um espectro de armadura, que está fervilhando de ódio por ter sido trocado por ele no coração de Radamanthys... Muito obrigada por lerem. Beijos carinhosos :x