Grieve
1 Capítulo único
Chovia mais naquela manhã do que em qualquer outra. Pelo menos pelo que Dipper podia se lembrar, já que ele nunca se preocupou em classificar chuvas. Os seus olhos ardiam um pouco, assim como a fumaça do cigarro que roçava em sua garganta. Ele sentia um nó imenso no peito e sabia que isso não desapareceria tão facilmente.
Estava sentado na varanda, por mais frio que estivesse sentindo naquele momento. Ficou observando o vento carregar o filete de fumaça que soprou, sem dar atenção ao redor. Seus pensamentos vagavam por tantos lugares que quase podia sentir uma pressão no ouvido ficando mais forte.
— Posso saber que merda você está fazendo?
Mabel surgiu e com raiva, arrancou o cigarro da boca do irmão e pisou em cima. Até os atos espalhafatosos dela hoje pareciam mais pesados. Tinha uma expressão firme, enquanto lutava contra uma careta que parecia ser de dor. Encarou-o, bufando, e Dipper quase se engasgou com a fumaça.
— Você está fumando? Justo hoje, Dipper? Como você pôde?
Ele se deu ao luxo de observar a irmã por alguns instantes. Ela trajava um suéter preto, que não combinava em nada com a Mabel colorida e alegre de sempre. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Talvez aquela fosse a visão mais dolorosa de todas, afinal.
— Desculpa. — Ele respondeu baixinho.
— Eu não posso perder você também… Não posso. Ouviu?
As lagrimas voltaram a rolar pelo rosto de Mabel e Dipper a envolveu em um abraço apertado. Não podia chorar. Não agora. Não na frente dela.
— Como você ousa… fumar? A mamãe… — Mabel forçou os braços contra o peito do irmão, na busca para se livrar de um aperto, entre tapas e choro. Dipper a abraçou com mais força e enterrou o rosto em seus cabelos longos. Tinham um cheiro bom. Cheiro de conforto.
— Desculpa.
— Para de pedir desculpas! Isso não vai trazer ela de volta. — Sua voz soou mais alta que o normal. Mabel passara a soluçar.
Dipper segurou o rosto da irmã delicadamente e fez com que ela o encarasse. Vê-la daquele jeito só aumentava a sua dor, mas ele sabia que precisava ser forte. Olhou por cima do ombro de Mabel para certificar-se que não havia ninguém por perto. Talvez não precisasse mais fazê-lo, mas o habito o vencera. Sentiu ela relaxar um pouco com o leve toque entre lábios. Era o máximo que poderia fazer agora.
— Eu vou estar com você para sempre, Mabel.
E aquilo era uma promessa de dois órfãos de mãe aos 17 anos chorando na varanda. Dipper se sentia nauseado ao pensar no mundo à sua volta. O enterro, a chuva, familiares que ele nem conhecia… Aquela manhã estava sendo a mais pesada de toda a sua vida.
Fale com o autor