Greggory Field: A Vingança
15 Capítulo 15 - Histórias Sobre a Fogueira
Notas iniciais
Todos passaram a tarde procurando por algum lugar para que pudesse se refugiar durante a noite. Dylan carregava a mochila com os mantimentos que tinham retirado no ônibus, Greggory tentava manter pensamento positivo; Sabrina tentava se concentrar em alguma coisa para fazer enquanto caminhava, tal como contar quantos passos eles davam, ou quando o suspiro de frustração de todos vinha em hora sincronizada; Srta. Sanders estava desamparada e tentava engolir o choro em meio ao silencio. Mason tentava não sair de perto dela, na esperança de confortá-la. Sr. Payne e Sra. Brown conversavam em silencio por olhares, pensando no que vinha agora. Uma coisa, todos tinham em comum: A apreensão. Às vezes, a apreensão é pior que o medo, porque você não sabe a hora do susto, então é melhor ficar sempre alerta. Suspense demais não é nada bom quando você tem de permanecer focado nisso.
– O que é isso? – perguntou Dylan, quando sentiu algo em seu rosto. Já escurecia e ele estava exausto de andar.
– Eu também senti... – falou a Srta. Sanders, tocando em seu próprio braço e vendo o que era. – Está chovendo.
– Crianças, não podemos pegar nenhuma doença ou algo do gênero, precisamos de todos sadios. – disse a Sra. Brown, com uma voz arrastada.
– Vou dizer do que precisamos. Precisamos de um abrigo! – Sr. Payne falou, e começou a trovejar e mais pingos caiam com mais rapidez. Eles apressaram o passo.
A paisagem ainda era o campo de Ervas, porém, agora havia mais montes e silhuetas rochosas, que começavam a ser difíceis de identificar por conta da escuridão.
– Que tal lá? – Dylan apontou para uma pequena montanha onde havia uma espécie de caverna.
– Parece ótimo para mim. – falou Sabrina, com uma voz pouco satisfeita.
– Acho que para passar a noite hoje está bom. – Mason concordou. Então, em silencio todos assentiram e começaram a andar em direção a montanha.
A chuva apertava cada vez mais. Quando se deram conta, gotas mais grosas e geladas — daquelas que chegam a doer quando entram em contato com a pele-, já estavam caindo. Dylan controlava a água, porém, a chuva era um trabalho de quem tinha o poder de mexer com o tempo, logo, ele não podia fazer nada a respeito. Em poucos minutos, todos já estavam ensopados.
Subir a montanha foi a pior parte. Apesar de não ser tão alta e nem tão íngreme, a chuva tornava as pedras escorregadias, o que fazia a simples tarefa de chegar a uma caverna, um feito muito árduo. Mas, como não tinham opção, não desistiram, e um ajudava o outro. Jogavam as comidas e suprimentos antes de si mesmos, depois subiam, então, e carregavam até o próximo nível. Em seguida, o faziam novamente.
Devagar, todos conseguiram subir. Em meio a um escorregão ou outro, um trovão ou outro, eles chegaram à caverna, exauridos.
A caverna não era tão pequena quanto pensavam. Era grande o suficiente para todos e ainda sobrava espaço. Era bem funda, talvez um pouco úmida, bem escura, mas aconchegante. Eles mal conseguiam enxergar uns aos outros, imagine quando anoitecesse por completo.
Quando só faltava Mason para entrar na caverna, Greg disse ao Sr. Payne:
– Precisamos de lenha. O fogo pode deixar comigo.
– Certo, e onde você espera que eu consiga lenha com essa chuv... – Roger ia dizendo, quando apareceu a lenha de que ele precisava bem no meio de todos.
– Tá, Greggory, agora nos aqueça. – Sabrina disse, e tossiu ainda deitada.
Instantaneamente, uma faísca brotou em meio à lenha e foi se espalhando pela fogueira. Então, todos puderam enxergar melhor. Sombras dançavam nas paredes e nos rostos um do outro, enquanto se aqueciam e suspiravam.
Apenas Greg, Sr. Payne, Sra. Brown e Dylan permaneciam sentados. O resto estava deitado, uns talvez até dormindo.
– Eu estou terrivelmente apavorada com o que pode acontecer. Veja só, esse foi o primeiro dia, e já não temos mais meio de transporte, o nosso motorista está morto e lá em baixo tem um campo de flores soníferas. Que faremos? – Ágata disse, e então colocou a mão na boca, como se não tivesse a intenção de dizer isso.
– Thomas matou meus pais por ciúmes de mim. – Greggory falou sem pensar.
– Tá bem... O que está acontecendo aqui? – o Sr. Payne perguntou, confuso.
– Eu acho... Acho que sei... – Dylan disse, sem ter muita confiança. – Antes afogarmos Rose, ela disse “Mesmo se eu morrer vocês ainda irão sofrer o poder da verdade... Ainda que eu perca, eu saio ganhando!” e com isso, ela quis dizer que se ela morresse, as Ervas estariam programadas para liberar uma espécie de “Pó da Verdade” ou algo do tipo. Por isso não conseguimos nos controlar. Eu não gosto de Jason, porque ele parece interessado demais na Sabrina.
Ignorando a ultima sentença de Dylan, Sr. Payne disse:
– Então é melhor ficarmos em silencio para não falar nada comprometedor, certo? Eu já amei a Srta. Evans mais do que qualquer mulher que eu amei na minha vida. – falou, em seguida arregalou os olhos.
– O QUE? – Greg perguntou, também espantado.
Ágata deu um sorrisinho.
– Hm, nada. Olha só crianças, eu sou uma figura profissional para vocês, falar da minha vida pessoal pode arruinar isso. Além do mais, precisamos descansar...
– Sr. Payne, você é minha maior inspiração de Herói. Agora nos conte! Não temos nada para fazer mesmo. Estou cansado, não com sono. Contanto que eu continue sentado, por mim está ótimo. – falou Dylan, ajeitando sua posição.
Greggory nada disse.
– Eu não devia...
– Ora, Roger, pelo Santo de Capa! É só uma história para eles! Nunca foi a um acampamento? As pessoas sentam em volta de uma fogueira e cantam ou contam histórias. De terror ou não, da vida cotidiana ou não. Apenas jogam conversa fora. Além do mais, só tem a gente acordado. – Sra. Brown disse, olhando para ele. De repente, ela parecia uma adolescente na casa da avó, louca para saber a história de como seus avós tinham se conhecido. Um brilho de curiosidade jovial passou pelos seus olhos.
– Está bem. – ele concordou. – É uma longa história, e foi há muitos, muitos anos... Tudo começou na escola, no St. Burguins, mesmo. Nós estudávamos lá. Ela era chefe das líderes de torcida do time dos Buldogs, e eu era apenas um cara estudioso e ridículo. No mesmo dia em que eu entrei no colégio, eu me lembro, tinha sido no outono... Eu a vi, pelo corredor. Ela conversava e ria, ria bastante... Era o sorriso mais lindo e verdadeiro que eu já tinha visto.
“Nesse momento, eu derrubei todos os meus livros, porque era como se eu estivesse vendo um anjo a minha frente. Por alguns segundos, eu tinha esquecido todos os meus problemas, de tudo que me fazia mal no mundo, e só ela me importava. Então, ela olhou para mim e riu mais ainda. E eu lá, feito um bobo agachado e tentando achar os livros no chão, apenas pelo tato, porque eu não conseguia tirar meus olhos dela. Eu também imaginava o porquê dela estar rindo. E então, o sinal bateu, e todos foram para as suas respectivas salas e eu meio que despertei do transe.”
“Arrumei meus livros rapidamente, e fiquei de pé. E nesse curto período de tempo que eu estava concentrado nos livros, percebi que nossos olhares se cruzaram, e Cassie vinha em minha direção. Seus cabelos eram claros e brilhantes, como o sol. E o movimento era tão natural...”.
– MEU DEUS, HOMEM VOCÊ VAI NOS MATAR, CONTE O QUE ACONTECEU DEPOIS! – Ágata disse, frustrada.
– Ok, ok. Bem, depois ela veio até mim e falou: “Você deve ser o novato. Chamo-me Cassie, e sou a Chefe do Comitê de Boas-Vindas da escola, e é minha função mostrar a escola para você...”. Seu olhar tinha um brilho que mesmo que eu quisesse explicar, não poderia. E ela ainda tinha um leve sorriso nos lábios, dando-me ainda alguma esperança...
– Ué, mas no St. Burguins, quando eu entrei, não tinha Comitê de Boas-Vindas. – Dylan falou.
– Mas não existe mais isso, é coisa antiga, mesmo. – Sr. Payne falou, ainda meio abobado por conta da história.
– Certo. Dá pra continuar? – falou Greg, que assim como todos, já estava praticamente seco por conta da fogueira. Lá fora, já tinha escurecido um bocado desde o momento que eles tinham entrado na caverna. Ainda chovia bastante, então, por ora, não tinham nada mais para fazer além de ouvir a história. Mas Greggory, assim como o restante dos ouvintes, realmente estava interessado. Era bacana conhecer um pouco mais sobre sua “mãe”.
– Ok, onde eu parei? Ah, sim, na parte em ela falou comigo pela primeira vez. Oh, aquele foi um momento único. Sua doce voz soando em meus ouvidos, ecoando na minha mente e penetrando nos meus sonhos... “Hm... Olá?” Foi o que ela disse em seguida, balançando a mão enfrente aos meus olhos. Então, novamente, eu despertei daquela mágica que ela, e apenas ela, fazia comigo só pela presença. “Ah, certo, tudo bem. Me eu, chamo, eu... Eu meu, meu nome... É... Hm, Roger.” Foi tudo que eu consegui dizer, meio atrapalhado. E ela girou os olhos e falou que iríamos nos atrasar para a classe, mas ela entrou em uma sala diferente da minha.
“Depois de várias e várias aulas insuportavelmente exaustivas (ela não estava na sala de aula), no final do dia, Cassie veio me procurar. Nunca fui bom em fazer amigos, logo, nem me preocupei com isso. Ela me mostrou toda a escola, e parecia bem menos feliz do que quando a vi no inicio do dia e bem mais entediada também. Eu perguntei se algo estava errado e ela disse que sim, eu estava errado. Então eu perguntei o porquê. Essa foi a resposta dela: ‘Uns amigos apostaram comigo para eu dar em cima de você. E eu odeio perder’. Sei que tinha sido apenas um dia, mas aquelas palavras não me doeram nada. Eu queria estar ao lado dela, não importava a circunstância. E eu falei para ela: ‘Então vamos fingir que somos namorados’. E ela topou. Durante toda a semana, andamos juntos e consequentemente acabamos conhecendo mais, mas acabei percebendo que ela era daquelas que se importam com o que todos dizem e que ela dependia disso.”
“Houve um dia em que as pessoas que andavam com Cassie perguntaram o porquê da gente nunca se beijar. E ela disse que a gente se beijava, mas que eu era tímido demais para fazê-lo em publico. Mas a verdade era que ela nunca tinha me pedido isso e eu não sabia se era o certo. Só que naquele dia eu estava ali, ao lado dela, cara a cara com os amigos dela. Então, não perdi tempo: Com um puxão dei um beijo terno nela. Foi como ir a lua com fogos de artifício e depois voltar para a terra, ainda com a outra gravidade. Quando terminei, não queria me afastar dela, que tinha ficado mais vermelha que eu. Os amigos dela se calaram, e eu falei que iríamos nos encontrar à noite.”
– O que você quer dizer com encontrar a noite? – Sabrina perguntou. Ela prestava atenção na história fazia algum tempo, mas todos estavam tão fissurados em ouvi-la que ninguém percebeu que ela tinha acordado.
– Apenas para conversar sobre o ocorrido, nada demais. Tínhamos a idade de vocês, crianças, não levem isso para outro lado. É que na escola, todos olhavam, Cassie era muito influente, e mal dava para conversar, pois todos queriam a atenção dela. – Sr. Payne falou, com um olhar perdido, como se revivesse tudo. Então, ela apareceu na minha casa (ainda não sei ao certo como ela tinha pego o endereço), e estava deslumbrante. A lua refletia seus cabelos loiros e realçava o brilho em seus olhos claros.
“Ela entrou e nós conversamos por um bom tempo, e ela me contou que tinha havido uma tragédia na família dela, a mãe dela tinha a abandonado, e o pai dela cuidava dela. Ele se esforçava, mas ela tinha mudado desde que a mãe tinha saído de casa. Prometeu para si não parecer fraca, e então, virou líder de torcida. Queria parecer forte, mesquinha, poderosa, popular, ser a líder da escola, e tinha conseguido. Mas ela não era como todos pensavam, ela não era vazia por dentro. Cassie se importava com muitas coisas, era bem inteligente e ela é linda por dentro e por fora. E em seguida ela começou a chorar, depois de me contar a história. E eu a consolei... E então ela me disse que eu era a única pessoa que realmente sabia da história, e então ela me beijou. Beijou de verdade, não tinha ninguém por perto, não era cena. Era real. Aquilo aconteceu. E foi a partir desse dia que nosso namoro verídico começou.”
“Mas, como tudo que é bom acaba rápido, não chegamos a ficar juntos por nem seis meses. O ex namorado dela, boxeador titular do time de Boxe da escola, falou de propósito quando eu estava perto: ‘A Aposta acabou, agora larga esse perdedor e volta para o que te faz bem’. E depois, puxou o braço dela com força, arrastando-a para o seu lado. EU, é claro, mesmo sem condições de defendê-la, fiz o que pude. ‘Me desculpe, mas, o que eu e Cass temos é real, diferente de certas pessoas’, eu disse. E nesse momento, eu apanhei. Ha, só dele? Queria eu. De todo o time de boxe. E ele levou a garota, e eu era apenas um idiota no chão. Era apenas um perdedor insignificante.”
– NÃO PODE TERMINAR ASSIM! – falou Sabrina, sonhadora.
– Mas é como termina. Na verdade, alguns anos depois, eu conheci uns amigos, que tenho até hoje. – Sr. Payne olhou para Ágata, e essa sorriu, enquanto fitava o chão, timidamente.
– Mas você ainda convive com a Sra. Evans. O que te impede de tentar conquista-la? – Dylan perguntou.
– Um marido, talvez?
– A Sra. Evans é viúva. – Greggory disse.
– E porque você a chama de Sra. Evans? – a Sra. Brown rebateu.
– Ela é viúva. – disse o Sr. Payne, tristemente. – Porém, ela ainda ama seu marido. Muito mesmo.
– Não dá certo esse elo como passado. Ela tem de cortá-lo. – disse Sabrina.
– Concordo, mas só o tempo vai curá-la. E ela é viúva há dezessete anos... – Roger disse, mais triste ainda.
– Bom, crianças, acho que já falamos demais por hoje, hora de dormir, todos nós estamos cansados... – Srta. Brown disse, cortando todos.
Apenas na hora de deitar eles viram: Mason e Srta. Sanders dormiam abraçados. Sabrina soltou um risinho e Dylan olhou maliciosamente para ela. Ela deu um soco de leve no ombro dele e Greg girou os olhos.
Então, todos deitaram sob a luz da fogueira. O cansaço era grande, e a insônia pior ainda. É, parece que seria uma noite difícil.
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