Notas iniciais
Bom, não é que eu curta esse casal, mas eles originaram o Dante e o Vergil, então eu acho que merecem crédito... n.n
Espero que gostem! XD
A vida no Mundo da Luz era muito mais simplória do que a que possuíra anteriormente, mas estava convicto de que fizera a coisa certa. Freqüentemente vinha se perguntando esse tipo de coisa, então ia para o parque, onde podia ver crianças sorrindo e pais que realmente se preocupavam com a felicidade do próximo.

Talvez fosse isso que faltava. Filhos. Uma esposa bondosa. Alguém por quem pudesse nutrir algo mais do que mera confiança, como seus aliados na batalha de milênios atrás.

-Senhor... Pode jogar a bola de volta...?- o homem virou-se para a menina que pedira corajosamente a ele.

-Claro. –respondeu, erguendo-se do banco no qual estava sentado e chutando a bola para a menina, que agarrou a bola no ato e sorriu, acenando de longe.

-Obrigada, senhor!

-... –não era do seu feitio sorrir de volta, portanto limitou-se a acenar. Sparda era um homem alto que se destacava na multidão pelos seus cabelos anormalmente branco-prateados penteados para trás e suas roupas nobres que poderiam ter sido iguais a de algum conde da Idade Média.

Usava um monóculo elegante e ressaltava sua postura imponente. Era um demônio. E abdicou de seus poderes para selar o outro mundo na torre Temen-ni-gru. Estava quase que completamente vulnerável e o fato de ter vivido daquela forma há tanto tempo o atormentava.

Desejava mudar.

Então ela veio.

*****

Enquanto caminhava por uma rua no subúrbio de San Francisco, notou algo que nunca havia notado anteriormente: uma biblioteca. Ficou observando o lugar e constatou que não deveria haver muito movimento por ali há um bom tempo.

Não poderia haver problema se ele entrasse um pouco. Pelo menos poucas pessoas se incomodariam com seu modo de se vestir e falar.

-Oh...! Muitíssimo boa tarde...!- ouviu e notou que quem falara aquilo foi uma moça de cabelos louros atrás do balcão.

-Boa tarde- respondeu por mera formalidade. Sua vontade era de passar direto para poder pesquisar sobre alguma coisa interessante. –A senhorita poderia, por obséquio, me dizer aonde é a ala de ficção histórica...?

-Ah... –ela corou um pouco ao fitá-lo. –Desculpa, mas aqui não é uma biblioteca... É uma livraria.

-Então poderia me sugerir alguma obra interessante para que eu pudesse comprá-la...?- perguntou, polido.

-Ah, claro...! –o rosto dela se iluminou com um sorriso e ela saiu detrás do balcão pra guiá-lo pelo cotovelo até uma estante, sem se intimidar com o seu estranho figurino. Ela o guiou até a sessão de livros italianos. –Olhe... Aqui eu tenho romances históricos como a Arte e Guerra de Maquiavel, a série dos Senhores de Roma de Allan Massie e também há o meu preferido: Divina Comédia de Dante Alighieri.

-Hm... Parece-me que a senhorita tem certa preferência por romances italianos clássicos... –comentou e, apesar de já ter lido todos, pegou o livro de capa preta que possuía dizeres em letras folhadas de ouro. –Então, creio que levarei este. Disse-me que Divina Comédia é o seu preferido, correto...?

-Sim- ela afirmou com a cabeça. Então o acompanhou até o balcão e começou com os procedimentos padrões de pagamento.

-Sem querer parecer inconveniente, senhorita... Por que essa livraria está tão vazia? –perguntou, olhando em volta.

-O movimento daqui diminuiu muito depois que abriram a biblioteca municipal... –a moça comentou, parecendo ligeiramente deprimida. –Mas os serviços continuaram. Então, recentemente, abriram uma Lan House nesse bairro e ninguém está mais interessado em comprar nossos livros quando podem pedir pela internet.

-Que sacrilégio- o demônio comentou, tentando parecer comovido com aquelas palavras.

-Aqui está o seu livro- a loira lhe entregou uma sacola. –São dezessete dólares.

-Muito obrigado, senhorita- ele disse, pagando-a e indo em direção à porta.

-Ah...!- ela exclamou e Sparda a olhou. Notou que ela se esforçou para imitar o modo dele de falar. –Sem querer parecer inconveniente, mas eu posso saber o seu nome?

-Eu sou Sparda. –ele disse simplesmente, deparando-se com um sorriso enorme da moça.

-Eu sou Eva. –disse.

-Foi um enorme prazer conhecê-la. –e saiu.

*****

E fora assim que a conhecera. Eva. Sempre bela com o seu sorriso iluminado que parecia acabar com a maldade de todo o espaço. Quase o fazia se esquecer de que era um demônio.

Fora visitá-la mais vezes, sempre com a desculpa de que queria um livro. E, depois de um mês, começou a ir todos os dias, sempre comprando algo para que pudesse agradá-la.

Acostumara-se tanto a vê-la sorrir que sequer cogitou o fato de que ela nem era sua e isso veio à tona como um soco na cara.

-Marido...? Mas a senhorita é tão jovem. –comentou, franzindo o cenho para examinar a expressão de deleite no rosto de Eva.

-Ah, é verdade... Eu me casei há um ano. –ela contou. –No momento, meu marido está numa viagem a negócios, mas ele chega depois de amanhã...! Estou tão contente...

Ela revelou-lhe este fato durante uma tarde, quando ele foi visitá-la com a desculpa de que queria comprar um livro de Dostoievski, e ela lhe ofereceu chá para que ficasse por ali um tempo.

-E... Se me permite, gostaria de saber como é o seu marido. –pediu. Sentira um pouco de ciúmes, porque aquela era a moça com quem flertara sutilmente durante todo aquele mês, mas sabia que não tinha motivo para sentir aquilo.

-Ah, ele é um homem legal. Nós fugimos para nos casar e vivemos muitas dificuldades, mas ele é trabalhador e nunca me deixou faltar nada, só que... –o rosto dela perdeu a luz por um segundo, para então aparecer um fraco sorriso. –Ele não pode me dar filhos. Consultou um médico e ele disse que meu marido era estéril...

-E isso significa que você não pode ter filhos. –constatou, franzindo o cenho.

-É. Mas... Isso não faz diferença se nós estamos gostando de uma pessoa, faz?- perguntou, desviando o olhar.

-Para a minha pessoa faz muita diferença. –disse e ela o olhou. –Não gostaria de viver com uma pessoa de que apenas gosto. Não é isso que todos procuram...? Um amor?

-Você não entende, Sparda... Não é algo tão simples. –a loira mordeu o lábio inferior.

-Eu entendo, sim. –disse, sem querer parecer descortês. –Perdoe-me, mas eu preciso sair. Tenho um compromisso.

-Aqui está o seu livro... Boa leitura- ela se ergueu e acenou para o homem, mas ele não olhou para trás e retribuiu como sempre fazia.

Sparda passou a mão pelos cabelos e dirigiu-se até o parque, onde sentou-se em um banco qualquer e iniciou a leitura do livro Crime e Castigo que comprara. Não tinha muito o que fazer, então lia todos o livros que comprava de Eva.

-O senhor sempre vem aqui, não é...?- ouviu e viu a menina que sempre jogava bola naquela praça.

-Sim. –respondeu.

-Sabe... A mamãe diz que eu não posso mais me aproximar de estranhos, mas... Acho que o senhor já não é mais tão estranho já que eu o vejo todos os dias, lendo neste banco. –ela sorriu.

-Creio que sim. –concordou, marcando o livro e guardando-o. –Gostaria de um sorvete?

-Sim- afirmou, o sorriso se alargando.

Crianças costumam ser muito inocentes. Constatou quando pagou dois sundaes de morango e acenou para a menina ao longe. Não sabem diferenciar o bom do ruim e o bem do mal. Às vezes, gostaria de poder criar meus filhos... Certamente que terei alguns um dia. Suspirou, provando o sorvete.

Nossa, aquilo era delicioso. Se tivesse filhos, prometeu, deixaria que eles tomassem sundaes de morango todos os dias.

*****

Voltara na livraria de Eva somente depois de dois dias, certo de que o marido dela já teria voltado. Desta vez, não entrou e solicitou algum livro específico, como geralmente faria. Ficou parado, fitando o homem da vitrine.

Era alto e tinha seus traços humanos. Vestia-se de forma descontraída e sorria como ele nunca poderia sorrir algum dia. Parecia alguém nobre.

Vendo-o, Sparda chegou à conclusão de que ele próprio não era tão nobre quanto se julgara há anos atrás, quando selara o mundo dos demônios. Na verdade, estava mais vulnerável aos pecados capitais do que qualquer outro ser humano por ser um demônio.

Huh... Até mesmo o poderoso Sparda cobiçou algo que não devia. Riu sem esboçar uma emoção. Um riso vazio, mas que estava pronto para ser preenchido.

-Eva...?- chamou, entrando na loja.

-Oh...! Você veio! Fiquei preocupada por não ter aparecido ontem! –ouviu, vendo-a caminhar em sua direção. –Ernest, este é o senhor de quem eu lhe falei...

-Sparda, hã? Como o homem da lenda?- o homem chamado Ernest sorriu, apertando sua mão amigavelmente. –Eva falou muito de você ultimamente.

-Sinto-me honrado em conhecê-lo... Eva também me falou do senhor- disse, esboçando uma expressão amena.

No período de uma semana, Sparda visitou-os todos os dias, fosse comprando livros ou sendo convidado para tomar chá. No fim de semana, Ernest teve que viajar novamente, mas por um período mais curto. Neste dia, Eva parecia um pouco deprimida.

-Algo lhe aflige, senhorita...?- perguntou.

-Desejo tanto ter filhos, Sparda... –confessou-lhe. Provavelmente era a figura mais próxima de um amigo que ela tinha naqueles dias. –É definitivo. O médico disse que o caso de Ernest não tem tratamento.

-Eu sinto muito. –disse, sem que fosse realmente verdade.

-E você, Sparda...?- ela perguntou, com os olhos marejados que ele não havia percebido. –Não tem uma esposa? Não tem filhos...? Você conhece toda a minha vida, mas eu sequer sei onde você mora, com o que trabalha.

-Eu sou solteiro e não tenho filhos. –disse. –E era sobre isso que eu gostaria de conversar com a senhorita.

-Por quê?- ela pareceu curiosa.

-Case-se comigo, Eva- pediu e viu-a arregalar os olhos. –Separe-se do seu marido e fique comigo. Eu a amo. Posso lhe dar filhos e acredito ser capaz de fazê-la feliz.

-Quanta prepotência... –ela disse, enxugando os olhos marejados. –Gosto do meu marido. O que o faz pensar que eu poderia largá-lo para ficar com o senhor...?

-Eu preciso de você- confessou, desta vez um pouco menos confiante. –Cobiço-a mais do que qualquer coisa e não suporto que esteja nos braços de outro homem.

-Não, Sparda- ela disse. –Não sei nada de você... Por mais que eu tenha gostado dos momentos que passamos juntos... Não posso trair o meu marido. Ele não mereceria isto.

-Eu posso esperar por você, Eva. –o demônio se inclinou e beijou-a antes que pudesse impedi-lo. –Quero somente você. Que case comigo e me dê herdeiros. Então lhe direi quantas palavras desejar ouvir, lhe contarei tudo que desejar saber.

-Sparda, eu não... –ela se afastou dele, com as mãos cobrindo a boca.

-Eu volto. –disse e saiu.

Voltou no dia seguinte, mas a livraria estava fechada e assim ficou até o retorno de Ernest, três dias depois. Sparda decidiu que não queria vê-lo e não foi à loja. Caminhou pela praça e terminou a leitura de Crime e Castigo. Então, como uma aparição, viu a figura de Eva se aproximar, falar com a menina que sempre estava na praça e a viu apontar para ele.

-Senhorita Eva... –surpreendeu-se.

-Eu... Resolvi procurá-lo na praça que você disse que costumava freqüentar... –a loira disse, hesitante. –Queria dizer que... Que pedi a separação para Ernest.

-... –o demônio arregalou os olhos de leve, surpreso.

-Ele já sabia o motivo da separação- a moça confessou, sentindo os olhos marejarem. –Perguntou se eu já tinha aceitado o seu pedido de casamento... E eu disse que não.

-Eva, eu...

-Você estava certo, Sparda... Eu não quero ficar com alguém que apenas gosto. –ela disse. –Tenho medo que o que sinto por você seja apenas uma paixão passageira.

-Pode aprender a me amar- disse, segurando-a pelos ombros. –Por favor, Eva... Case-se comigo.

-Sim- ela sorriu, com os olhos marejados. –Eu me caso com você.

Sim, era verdade que o poderoso Sparda cobiçara algo que não devia. Eva era casada com um homem que não podia engravidá-la; seria tão ruim se ele pecasse somente para realizar os sonhos dela?

Notas finais
A próxima fic será uma espécie de continuação desta. Espero que tenham gostado! n.n
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!