CAPÍTULO I — ❝Wild Birds Fly

Um ano depois

Rowan esticou os braços acima da cabeça até escutar o crack satisfatório dos cotovelos. Seu corpo esguio se curvava como um arco, pronto para atirar uma flecha num inimigo desavisado, e o grunhido de prazer que soltou entre os lábios se comparava ao estalar da madeira tensa. Bocejou, apertando os lençóis brancos entre os dedos enquanto deslizava uma perna para envolvê-la ao redor da cintura de Lorcan, se aninhando contra o corpo quente dele.

Ela o observou por alguns segundos, o queixo apoiado em seu peito, e se deliciou ao comparar as duas versões do mesmo homem; quando acordado, permanecia a mil por hora, os olhos espertos e inquietos, sempre pensando sobre mil e uma coisas que faziam sentido apenas para aquela mente específica, e brilhante.

Percebeu também como seu rosto mudava; os traços eram simétricos, perfeitamente balanceados entre o suave e o masculino, ideais em qualquer tempo ou era. Os olhos fechados e músculos faciais relaxados lhe davam um ar pacífico que raramente se permitia exibir, com a mandíbula forte destravada, e os lábios ligeiramente entreabertos, dando-lhes um ar mais cheio. Quando estava acordado, tudo aquilo enrijecia, fazendo com que aparentasse ser muito mais velho que meros trinta e dois anos de idade.

— Acho que estou atrasada, — declarou Rowan com um suspiro pesado, numa voz abafada.

Um sorriso surgiu no canto de seus lábios e ele a puxou para mais perto num abraço apertado, como se pudesse fundir seu corpo ao dele. Não disse nada, nem abriu os olhos. Estava semi-acordado, ela percebeu. Naquele estado de transe em que você está consciente, mas ainda experimentando as sensações do sono recente.

— De verdade, — ela reforçou, lutando contra o braço pesado dele, tentando se livrar. Parou de se debater, e partiu para uma alternativa mais racional. — Lorcan.

Ele fingiu não ouvir.

— Lorcan Schreave.

Ele disse algo ininteligível.

— O quê? — se aproximou para escutar melhor

— Lorcan Illéa, — repetiu ele, os olhos claros se abrindo para encarar o teto. — É Lorcan Illéa, não Schreave.

Ela sorriu, e apoiou os dedos sobre o peitoral bem definido dele.

— Seu registro diz outra coisa, querido.

— Você olhou meu registro? — ele voltou os olhos claros para ela, indecifráveis.

Ela deu de ombros, subindo os dedos até seu colarinho.

— Eu não saio com homens que não conheço, — afirmou, sem levantar a cabeça. — E além do mais, você tem uma página no Wikipédia, Vossa Alteza, o Duque da Cambria, Lorcan Theodore Illéa-Schreave. O que torna tudo mais fácil.

Ele grunhiu, esfregando uma das mãos sobre o rosto.

— Você checa o background de todos os seus amantes?

Ela ergueu os olhos, e resistiu ao impulso de corar.

— Só os que tem algo a contar.

Ele bufou.

Eu não tenho nada a contar, — ele apoiou os antebraços no colchão e se ergueu de leve. — A não ser que você considere meu passado médico, ou ascendência real. Mas isso, como você colocou, já tem uma página no Wikipédia.

Rowan piscou duas vezes, se levantando junto com ele. Roçou os lábios no pescoço de Lorcan e murmurou em seu ouvido.

— Ah, mas quando você passa cinco anos escrevendo para a coluna de fofocas… — ela abaixou o tom de voz conforme se aproximava de seu ouvido. — … Você aprende que todos têm alguma coisa pra contar.

Ele balançou a cabeça e se sentou no colchão, levando ela junto. Ali estava, o rosto rígido, os olhos cansados, mesmo que tivesse acabado de acordar.

— Vamos nos atrasar.

O príncipe-regente, pensou Rowan, emanava liderança dos pés à cabeça. Os olhos claros fulminava-os todos no centro da testa, sua voz se impunha acima das demais e a postura dos ombros desafiava qualquer um a pisar fora da linha. Era bonito, e ela podia ver claramente o parentesco entre ele e Lorc.

Os flashes cegavam-no enquanto caminhava para seu lugar no palanque, logo no centro dos microfones. Rowan se aprumou na beirada do assento, enquanto inclinava o corpo para frente para que pudesse ouvi-lo melhor.

Flanqueando os lados do príncipe-regente, estavam a rainha Alina e a Marechal Cassandra Schreave. Ele se colocou na frente dos microfones e engoliu em seco. Rowan não pôde deixar de lançar um olhar a Lorcan, que se encontrava embaixo do palanque com alguns membros do Conselho Real, e observava o primo atentamente.

— Boa noite, — o tenente-coronel começou. — Vou primeiro dar alguns anúncios, depois abrirei espaço para as questões. Qualquer dúvida, guarde para o final.

Os flashes diminuíram enquanto Cassian ajustava a altura dos microfones e um silêncio caiu sobre o salão, todos ouvindo atentamente ao comunicado do Tenente-Coronel. Lorcan não lhe dissera nada acerca da coletiva, o que era previsível —era um acordo implícito que eles não falavam disso. Se preocupavam com outras coisas mais relevantes quando estavam juntos.

Como botões.

Céus. Botões.

— É de conhecimento geral que o soberano dessa nação, o Rei Orion, meu pai, não se encontra em seu melhor estado de saúde. Há um ano, tem sofrido com problemas de coração que a medicina ainda não é capaz de resolver — ele não estava lendo anotações, percebeu. —Recentemente, venho tomando seu lugar nos assuntos do Estado. Depois de muita deliberação do conselho, ficou decidido que assumirei, oficialmente, o trono de Illéa em dois meses, passando de Príncipe Regente a Rei.

Até aí, nenhuma surpresa. Estavam todos esperando pelo anúncio da coroação, e algumas pessoas já andavam por aí chamando-o de Rei Cass. A ausência de Orion foi definitivamente notada.

— Também temos tomado providências quanto aos recentes ataques em Cambria, e pedimos que qualquer um que tenha informações sobre esses bárbaros venha à frente e se pronuncie às autoridades locais. Estamos fazendo o possível para combater o grupo terrorista Veritas, mas precisamos da colaboração do povo. Perguntas?

Rowan foi a primeira a levantar a mão.

— Sua Majestade, — ela chamou, sobrepondo-se aos demais. — Sua Majestade, aqui, por favor!

Os olhos do príncipe vasculharam a multidão, e quando encontraram os dela, fez uma expressão que ela interpretou como completo desgosto. Bem, não era nenhum segredo que ela e a Família Real de Illéa não se davam bem.

— Senhorita Goselyn, — ele exibiu um sorriso forçado de canto de boca. — Vamos, estou ansioso para escutar sobre seu descontentamento com nossas políticas.

Ela quase pôde ver Lorcan se revirar, desconfortável. Ela molhou levemente os lábios e lançou ao Príncipe Cassian aquele sorriso.

— Você mencionou táticas de repressão, — ela começou. — O mesmo vale para as manifestações que ocorreram neste sábado contra a sua ascendência ao trono de Illéa?

Ele se inclinou sobre o microfone, e embora não parecesse desprevenido, a mandíbula travada, como a de Lorcan, mostrava um tipo de desconforto.

— Não posso impedir que o povo manifeste suas opiniões, Senhorita Goselyn, — seus olhos eram como duas facas afiadas. — Mas sabemos que os protestos de sábado saíram do controle, e até que promovam um movimento limpo e livre dos vandalismos barbáricos que presenciamos, infelizmente não terão, e não têm, credibilidade alguma. E é de conhecimento geral que as “manifestações” são de caráter político, não social.

Verdade.

Seus olhos queimaram por alguns segundos antes que fossem interrompidos da árdua tarefa de explodir um ao outro telecineticamente.

— Sua Majestade! — alguém chamou do fundo. Cassian se voltou para o barulho, se desviando os olhos semicerrados de Rowan. — Será o primeiro Rei de Illéa em duzentos anos a assumir o trono sem uma Rainha ao seu lado?

Ele sorriu para o jornalista da coluna de fofocas, um pouco mais descontraído. Rowan se lembrou de uma época, há não muito tempo atrás, quando seria ela fazendo aquela pergunta.

— Eu não creio que minha vida romântica esteja em pauta. Mas sim, a rainha continua sendo minha mãe, e não tenho prospectos de desposar alguém até a oficialização.

— E quanto ao Projeto Neoma II? — O repórter do lado de Rowan questionou.

— O Projeto Neoma II ficará em suspensão até que ocorra a troca do governo.

— E mais quantos milhões serão investidos? — Rowan levantou a questão, se adiantando na frente do outro repórter.

— O necessário para garantir ao povo de Illéa o melhor que uma estação tem a oferecer.

Ao povo de Illéa? Ou a uma minoria elitizada? Porque o dinheiro que está sendo arrancado dos impostos-

O príncipe se inclinou sobre o microfone. Se olhos pudessem lançar adagas, estariam os dois esfaqueados.

— Senhorita Goselyn, as contas do Reino são de caráter público. Se há qualquer dúvida quanto ao destino dos impostos do povo de Illéa, então esta será sanada nos aplicativos de transparência, — ele explicou pacientemente, embora ela pudesse ver a máscara diplomática do príncipe quase cair. Cassian Schreave não era um político, ela sabia. Ele era um homem sem quaisquer aptidões para aquele jogo que faziam os poderosos. Ela sabia que, se apertasse um pouquinho, ele daria exatamente o que ela queria. — E estamos trabalhando para que a estação espacial de férias seja um bem comum a todos.

— Enquanto isso nossas escolas-

— Somos o país número um no quesito educação, Goselyn.

— Isso são estatísticas!

Ela viu o príncipe abrir e fechar o punho, observando-a atentamente, antes de continuar, pacientemente. Às vezes, Rowan sentia pena dele. Não era sua culpa ter sido surpreendido pelo fogo-cruzado entre a imprensa e a realeza, e ele parecia alguém genuinamente interessado em fazer as coisas certas.

— Nós estamos com mais projetos direcionados à área da educação para serem divulgados muito em breve. Os avanços não podem parar.

Ela se silenciou, aceitando a trégua oferecida pelo homem. Ficou ali, observando-o enquanto respondia às outras perguntas. Ele parecia cansado, talvez até mesmo exausto, e firme como se estivesse sendo suportado por hastes rígidas.

Um boneco de marionetes, pensou.

Cassian jogou a jaqueta de couro do outro lado do quarto e se atirou na poltrona, apoiando os cotovelos nos joelhos e enterrando a cabeça entre as pernas.

Mal conseguia respirar, e tudo que conseguia escutar era o sangue pulsando em suas orelhas.

Ah, céus!

Não percebeu quando Lorcan entrou no quarto — não chegou a se preocupar em trancar a porta — e com certa dificuldade arrastou um banquinho até que estivesse frente-a-frente com a poltrona e se sentou nelas, libertando os antebraços das muletas e as descansando no chão.

Ele não percebeu nada disso, porque estava muito ocupado em manter a própria maldita sanidade.

— Cass. — Lorc chamou, colocando uma mão no braço dele.

O príncipe não se assustou, apenas balançou a cabeça.

— Quando eu for rei… — ele começou. — Isso vai acabar. Eu juro, vai acabar.

Lorcan engoliu em seco e perguntou com cautela.

— Isso o quê?

— Toda essa palhaçada, — ele esboçou um sorriso fraco com o termo, e ergueu a cabeça para encarar o primo nos olhos. — Meu pai foi um bom governante, mas ele só seguiu o protocolo, como o pai dele, e o pai do pai dele. Eu quero mudar as coisas por aqui, Lorcan. Esse espetáculo. O terrorismo. As ameaças cegas de um público alienado — e alienado por quem? Eu quero dissolver o Conselho-

Lorcan segurou a respiração.

— Dissolver o Conselho?

Os olhos de Cassian brilharam. O Conselho de Illéa funcionavam como a união das principais cúpulas de Illéa, e tomavam as decisões mais importantes do Reino. Era um cargo não-remunerado, composto pelos Duques e Duquesas, — que regiam, cada um, um ducado bem delimitado de Illéa —, outro por quem quer que passasse numa prova inteiramente sobre a legislação federal, uma parte pelos representantes das Forças Militares de Illéa, e por representantes escolhidos pelo povo. No total, eram 24 membros, mais o Rei e a Rainha, que contavam como um só. Para que se aprovasse uma lei constitucional, por exemplo, 70% do Conselho + os soberanos teriam de concordar.

— De cima à baixo. Não podemos fazer nada quanto aos Duques e Duquesas, mas eles estão velhos e certamente morrerão logo… — ele notou o olhar de Lorc. — Bem, não você, obviamente. Mas todo o resto. Os filhos deles serão melhores. Tem gente que está lá há muito tempo, e oferecem uma visão de um mundo que eles nem conhecem mais. Parece que estacionamos, e estamos esperando o restante nos acompanhar. Não regredimos, mas também não damos grandes passos. Eu não quero isso.

Ele escutou o monólogo apaixonado do príncipe. Sentia algo crescendo dentro do peito, mas não tinha certeza do quê.

— Você quer uma corte de sonhadores.

Os olhos de Cass brilharam.

— Eu quero uma corte de revolucionários, Lorcan. O sonho é apenas o primeiro passo.

O jovem duque sorriu para seu futuro soberano.

— A Corte dos Sonhos.

O príncipe sorriu de volta.

— A Corte dos Sonhos.

Notas finais
HOLA! Entonces, desculpas pela demora. Eu já tinha esse capítulo escrito há tempos, mas infelizmente não tive como postar (até hoje, EBAAA). Estou esperando as fichas de vocês, e esse capítulo serviu para explicar um pouco mais como funciona Illéa. E Rowan, com suas garras jornalísticas, atacando nosso príncipe que gosta mais de ação que de planos, mas que dá nomes frusfrus à corte. aishdaisduhahsd Espero que tenham gostado. Beijos.