Gravity

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Fic feita de presente para uma amiga muito, muito especial. Angelique, esta é a minha forma de te agradecer por todo o carinho, todo o apoio, a doçura e a amizade que você me dedica. Obrigada por estar sempre ao meu lado e por sempre ver razão nas minhas atitudes, mesmo quando os outros me acham meio louca. Adoro você! Beijão!!!
AVISOS: *Conteúdo yaoi, ou seja, relacionamento amoroso entre homens. Se você não gosta, não leia.
*Se você é muito fã de Ikki x Shaka, provavelmente não gostará desta fic. Caso se aventure a ler e se sinta ofendido de alguma forma, peço desculpas antecipadamente por isso. Se mesmo assim ainda sentir vontade de me xingar, lembre-se de que cada um tem suas próprias preferências e somos absolutamente livres para expressá-las como bem entendermos.
*A música inspiradora dessa fic é a Gravity, da cantora Sara Bareilles. Aconselho que a escutem enquanto leem, pois foi o que fiz enquanto escrevia. Eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=J0x7CN7NhS8

(Hyoga’s pov)

Something always brings me back to you.

(Algo sempre me traz de volta pra você.)
It never takes too long.

(Nunca demora muito.)
No matter what I say or do

(Não importa o que eu diga ou faça)
I'll still feel you here

(Eu ainda sentirei você aqui)
'til the moment I'm gone.

(Até o momento que eu partir.)


Está chovendo.


Vejo as espessas gotas batendo contra a janela do quarto e me pergunto se deveria acordá-lo, já que Ikki gosta tanto de observar a chuva. Mas já está tarde e eu sei que logo ele vai embora, então... Não faria muito sentido chamá-lo agora, certo? Não é como se ele fosse se sentar comigo diante da janela, me abraçar e observar a chuva fina caindo. Não, ele não fará isso e eu estava certo de que esse tipo de coisa não me afetava mais; eu sempre tenho a certeza de que não me deixarei abalar, mas isso só dura até o momento em que ele me toca.


Ikki tem a estranha habilidade de transpor minhas defesas com os mais simples gestos. Um olhar, um sorriso, um beijo... E então eu estou entregue. Isso basta para me deixar abandonado em seus braços, a mercê de seus caprichos, seu desejo, sua forma louca de me amar.


E não adianta negar, dar um basta, mandá-lo embora ou dizer chega. De uma forma ou de outra, eu sempre cedo. Ele se aproxima de mim e eu perco a capacidade de raciocinar; quando recupero a sanidade, eu estou assim, acordando numa cama de motel no meio da madrugada.



You hold me without touch.

(Você me segura sem tocar.)
You keep me without chains.

(Você me prende sem correntes.)
I never wanted anything

(Eu nunca quis tanto algo)
So much than to drown in your love

(Quanto afogar no seu amor)
And not feel your rain.

(E não sentir a sua chuva.)


A última vez que eu o tinha visto, disse que iria me afastar. Tive razões irrefutáveis para isso. Eu me lembro de lhe explicar que, se quisesse ser um bom cavaleiro de cisne, não poderia me deixar dominar por sentimentos não resolvidos e escândalos. Ele riu daquele jeito dele, como se soubesse algo que eu não sei. Talvez ele soubesse que o meu fim não era realmente um fim, afinal.


Ao menos, eu tentei.


Eu realmente tentei. Fui voluntário numa missão em outro país por quatro longos meses. Não liguei, não escrevi, não dei notícia alguma. Após certo tempo, eu pude dizer que estava bem. Eu estava imune a ele e todo o seu charme. É, fui tolo o suficiente para acreditar nisso.


Na noite do dia em que retornei da minha missão, Saori estava oferecendo um jantar para alguns amigos e Ikki apareceu na mansão. Coincidência, creio eu. De todo modo, coincidência ou não, ele me olhou a noite inteira. Perdi a conta de quantas vezes nossos olhares se cruzaram e ele me sorriu daquele jeito sedutor que sempre me faz estremecer, embora eu não sorria de volta. Meus esforços em disfarçar sempre o fazem rir mais, porque ele sabe bem do poder que tem sobre mim, nunca precisou dos meus sorrisos para notar.



Set me free, leave me be.

(Liberte-me, deixe-me estar.)
I don't want to fall another moment

(Eu não quero cair mais uma vez)
Into your gravity.

(Na sua gravidade.)
Here I am and I stand so tall,

(Aqui estou e eu estou tão erguido,)
Just the way I'm supposed to be.

(Assim como eu deveria estar.)
But you're on to me and all over me.

(Mas você está em mim e ao meu redor.)


Eu não esperei o fim do jantar; estava fugindo dele, confesso. Se eu sabia não ser capaz de resistir àquele moreno lindo, era melhor me manter o mais distante possível. Infelizmente, ao chegar ao pátio onde havia estacionado, eu o encontrei escorado em meu carro.


– Oi, Hyoga!


– O que faz aqui? – fui propositadamente antipático.


– Vim me certificar de que não vai embora sem se despedir, pato. – Ikki sorria e se mantinha em meu caminho, impedindo-me de abrir a porta do carro e sumir dali.


– Tchau, Fênix. – evitei olhá-lo, minha única alternativa de defesa a essa altura.


– Como foi sua missão? – ele me questiona com casualidade, ainda sem me dar passagem.


– Você vai mesmo fazer isso? Porque é ridículo agir como se nada tivesse acontecido!


– O que foi? Ainda está chateado pelo que houve da outra vez?


Eu ri com sarcasmo e o nervosismo momentâneo me impediu de notar que ele se aproximava perigosamente.


– Não, Ikki, eu não estou chateado pelo que houve da outra vez, porque eu finalmente terminei com você. Eu dei um fim ao que nós tínhamos, embora eu não saiba o que é que nós tínhamos, então... – suspirei. – Olha, eu não quero mais falar disso.


– Ótimo! Eu muito menos.


Nesse momento, fui puxado pelo cinto e dominado por um beijo quente, molhado e arrebatador.


– Vem comigo. – Fênix sussurrou contra meus lábios, depois de romper nosso beijo.


– Não.


– Eu não te vejo há quatro meses, Hyoga. Vamos dar o fora daqui!


– Não.


– Você quer vir, pato. Por que negar?


– Porque não podemos continuar fazendo isso com o...


– Shhhhh... – ele calou minha boca com o dedo e me beijou novamente, um beijo tão gostoso quanto o primeiro. – Vem...



You loved me 'cause I'm fragile,

(Você me amava porque sou frágil,)
When I thought that I was strong.

(Quando eu achava que eu era forte.)
But you touch me for a little while

(Mas você me toca por alguns intantes)
And all my fragile strength is gone.

(E toda minha força frágil se acaba.)



Quinze minutos depois eu estava neste quarto de motel, tendo minhas roupas arrancadas e cada centímetro de minha pele beijada por ele.


– Seu marido não vai gostar nada disso. – lembro-me de ter dito num tom de provocação em meio aos beijos que distribuía por seu pescoço, mas ele apenas riu e continuou me apertando, lambendo, mordendo e beijando, sem dar importância às minhas palavras.


Nossa relação não é mais antiga que o casamento dele, embora provavelmente seja mais intensa. Eu o conheci primeiro, claro, mas só depois de quatro anos dele fazer os votos foi que nossa paixão explodiu, enquanto estávamos numa missão de reconhecimento na América do sul. Já se passaram dois anos e ainda estamos presos nesse ciclo vicioso que não faz bem a mim, a ele e muito menos a Shaka.


Ikki não fica comigo por maldade ou mau-caratismo. Acho que ele também não consegue resistir e acaba cedendo à tentação, simples assim. É difícil admitir, mas não penso que para ele nossa relação signifique algo mais do que sexo. Satisfação carnal, única e simplesmente. É essa a conclusão a que cheguei, pois nada mais justifica uma situação assim, depois de dois anos. Nós passamos bons momentos juntos e isso é tudo; faço bem a ele de alguma forma e é difícil se desprender de algo tão gostoso.


É embaraçoso e provavelmente desonroso, mas ter conhecimento disso nunca foi razão suficiente para ficar longe dele. Eu nunca entendi direito porque não consigo me controlar e partir pra outra relação. Tentei de várias formas aceitar o fato de que ele é apenas um homem e é proibido pra mim; mas isso também não adiantou.


Algo na forma com que ele me toca faz com que todo o resto pareça menos importante do que realmente é. Quando estou com Ikki eu não sou um cavaleiro de Atena, eu sou o Hyoga. Apenas o Hyoga. Um homem dominado por uma paixão sem fim.


Então, foi inevitável. Nós transamos de novo. Mesmo depois de eu ter dito que não o faria novamente, eu fiz. E seria hipocrisia da minha parte negar que fiz com gosto, com todo o fogo e intensidade que sempre acontece quando estamos juntos.



Set me free, leave me be.

(Liberte-me, deixe-me estar.)
I don't want to fall another moment

(Eu não quero cair mais uma vez)
Into your gravity.

(Na sua gravidade.)
Here I am and I stand so tall,

(Aqui estou e eu estou tão erguido,)
Just the way I'm supposed to be.

(Assim como eu deveria estar.)
But you're on to me and all over me.

(Mas você está em mim e ao meu redor.)



Eu o vejo se remexer na cama e um nó se forma em minha garganta. A cada vez, é mais difícil saber como agir depois que me entrego a ele. O que eu deveria dizer? Depois de tanto tempo em uma situação assim você se acostuma com o que tem. E eu me acostumei a vê-lo se arrumar apressado e me pedir, geralmente com um olhar, que faça o mesmo. É nesse momento que a realidade desaba sobre mim como uma rocha e eu me pergunto o que estou fazendo. A crise vai além e algumas vezes eu termino; outras não. Na última vez, eu pedi que ele saísse da minha vida em definitivo. Eu fui raivoso; fui bastante claro; e olha só onde estou agora...


– Está tarde... – não escondo minha tristeza, mas não me sinto com disposição suficiente para dar novo fim a tudo isso. Nós dois sabemos que eu ainda não sou capaz de me libertar, então é melhor poupar saliva.


Ikki suspira e se espreguiça, esticando o corpo perfeito sobre os lençóis amarrotados da cama redonda. – Está com fome? – ele me pergunta ao se adiantar para o frigobar, de onde retira uma garrafa de água mineral. – Quer alguma coisa?


Nego a oferta, balançando a cabeça de um lado para o outro, mas não o olho. Continuo encarando a chuva lá fora, ouvindo a sinfonia envolvente que os pingos criam ao tocarem o solo.


– O que há com você? – ouço a voz dele novamente e, quando olho, Ikki vem em minha direção com a água e alguns chocolates nas mãos. Ele é como uma miragem; parece a personificação de um Deus, caminhando displicentemente, sem se importar com seu glorioso falo à mostra.


Ele é minha perdição, minha maior fraqueza. Tornei-me, há muito, escravo de sua presença, seus carinhos e seus beijos. Ao vê-lo se aproximar, eu não consigo pensar, apenas sentir. Hesitante, eu prendo meus olhos nos dele e os fecho momentos antes de minha boca se render à invasão de sua língua.


Sinto gosto de chocolate branco, mas consigo facilmente distinguir o sabor próprio de Ikki misturado à doçura da iguaria. Uma de suas mãos segura minha nuca, enquanto a outra me ergue do móvel em que estou sentado e se agarra em minha anca, puxando-me para perto, bem perto.


Nossos sexos se encontram num contato íntimo que já conhecemos tão bem e ele ri quando, mesmo assim, eu suspiro. Cada toque dele tem um quê de novo, parece único. Meu corpo sempre reage com a surpresa e excitação da primeira vez em que nos tocamos; o que é meio impressionante, depois de tanto tempo.


A mão dele se enrosca em meus cabelos e impõe ao beijo o ritmo que ele gosta, ora lento, ora profundo; eu simplesmente me deixo levar, sabendo que Ikki é a única pessoa capaz de me dominar assim.

O sabor do chocolate se finda e, com ele, o beijo. Ele permanece próximo, ainda me tocando, cheirando, roçando minha tez avermelhada... Eu seguro em seus braços, mas não estou menos arredio e Fênix nota imediatamente.

­– O que há com você? – olhando em meus olhos, ele repete a pergunta que havia feito antes.

– Estou pensando.

– Em quê?

– Incertezas, inseguranças...

– Não acha que pensa demais nessas coisas? – Ikki diz isso enquanto beija meu pescoço, o que me desarma bastante. Usualmente, é aí que eu deixo fluir meus pensamentos e termino nosso relacionamento, mas não hoje. Hoje eu estou com saudades demais e convicção de menos para tomar qualquer atitude que não envolva me entregar a ele.

– Você não tem que ir embora? – fujo descaradamente de sua pergunta.

­– E você quer que eu vá?

– Desde quando o que eu quero importa?

– Desde sempre. Ainda mais quando eu não tenho que ir, se você não quiser. – eu olho com curiosidade para meu amante e ele compreende minha dúvida de imediato: – Eu estou livre hoje.

A explicação dele não é das melhores, mas entendo que sua liberdade durará apenas esta noite. Shaka deve estar cuidando de algum assunto para Atena ou algo assim...

– Quer conversar? – Ikki oferece, voltando a beijar meu pescoço, mas visivelmente incomodado com minha quietude.

Não digo nada e ele interrompe o que fazia para me encarar. Continuo sem responder e, ainda não saciado, envolvo seu pescoço com meus braços e ataco sua boca com outro beijo quente.

Logo em seguida eu estou novamente sobre a cama redonda, gemendo o nome dele e delirando de prazer enquanto Ikki me possui mais uma vez. Chego ao paraíso, sem sair de seus braços fortes, seu agarre possessivo e selvagem. Quando ele desaba sobre mim, ofegante e cansado, eu ergo sua cabeça e o forço a encarar meus olhos. Não digo nada, não consigo dizer. Mas quero que ele compreenda, nos espaços ocupados pelo meu silêncio, o quanto eu o amo. Não é a primeira vez que faço isso e, como já esperava, ele não responde, apenas retribui meu olhar revelador com um beijo intenso. É essa a sua forma de demonstrar carinho e já estou tão adaptado a ela que não o imagino tendo uma atitude diferente.

Minutos depois, deitado sobre seu peito e recebendo um cafuné nos cabelos, eu ainda não tenho o que dizer. Sinto-me cada vez mais preso a ele, ao seu toque, seu cheiro... A todo o momento, eu repito em minha cabeça que devo me vestir e ir embora de uma vez por todas, mas não sou sequer capaz de me mover.

– Eu estava na Nova Zelândia. – sussurro contra seu peito, referindo-me ao local onde estive em missão.

Ikki ri e beija o topo da minha cabeça, acariciando minhas costas.

– Acha mesmo que eu não procurei saber onde você estava? – eu olho para ele e o vejo suspirar. – Por que tanto tempo?

– Era uma missão complicada.

– E por que essas missões sempre vêm pra você?

– Porque não há mais ninguém que as faça. É o tipo de missão em que Saori prefere enviar cavaleiros que não possuem laços maiores do que amizade e, convenhamos, não existem muitas opções além de mim. Se há um cavaleiro competente, sem amarras e sozinho no mundo, porque Atena se preocuparia em dar missões longas e perigosas a outras pessoas? – minha sinceridade o incomoda e ele se remexe um pouco, mas não deixa de me acarinhar.

– Você não é sozinho no mundo.

Eu sempre me encabulo com o quanto ele me abala sem precisar de muitas palavras. Ikki não disse nada demais, mas, dentro de mim, é como se ele tivesse dito muito. Borboletas voam de um lado a outro do meu estômago, fazendo brotar em meu rosto um sorriso irreprimível.

Aconchegando-me ainda mais, eu beijo o peito dele e suspiro, enquanto que dentro de mim uma voz baixinha ecoa que talvez, quem sabe, um dia eu poderei permanecer assim por muito tempo sem me sentir culpado ou inseguro. Sua mão ainda acaricia minhas costas, seus dedos indo e voltando, subindo e descendo lentamente por toda a extensão da minha coluna. E então eu me dou conta do quanto me sinto quente. Não no sentido sexual ou literal da palavra, mas num sentido que nem consigo explicar com clareza; é aconchegante, cálido, algo como ser envolvido pelo cobertor mais quente em meio ao pior inverno russo.

É uma sensação maravilhosa, que eu inconscientemente busco a cada segundo do meu dia e, percebi faz tempo, só a alcanço quando estou com ele. Seria perfeito se eu pudesse me sentir assim com muito mais frequência do que realmente o faço, mas isso não é possível, simplesmente porque ele não é meu. Ikki não é meu. Não como eu sou dele, não como eu gostaria que fosse.

Ele não é meu.

Esse pensamento me soa quase desesperador, mas, antes que pudesse crescer aos poucos e, do mesmo modo, levar o calor embora, sou tragado por uma banheira abarrotada de gelo, ao ouvir o telefone dele vibrar sobre a mesinha ao lado da cama.

Eu conheço esse som. Odeio, pra ser honesto. Foram incontáveis as vezes em que, após ouvir esse mesmo barulho irritante, Ikki saiu de meus braços às pressas, sem que eu pudesse fazer algo a respeito.

Ele me afasta cuidadosamente de seu corpo e vai até o telefone. Eu soube, antes mesmo que ele conferisse o visor do aparelho e me olhasse com aquela expressão culpada na face, que a nossa noite havia acabado.

– Pensei que hoje você estivesse livre. – a cobrança saiu de minha boca antes que eu pudesse impedir.

– Eu estava, Hyoga, mas…

– Tudo bem. – não consigo olhá-lo, mas ouço seus passos em minha direção. – É melhor você ir logo, não é bom deixá-lo esperando. – saio em busca de minhas roupas, esperando que ele entenda que não quero conversa.

Dou-lhe as costas e ele se aproxima hesitante. Ikki envolve minha cintura com um de seus braços e tenta beijar meu pescoço, mas eu me esquivo do beijo. Cheirando meu cabelo, ele solta um suspiro cansado, enquanto intensifica o aperto para que eu não fuja dele.

– Eu sinto muito. – ele murmura em minha orelha.

– Vá embora, Amamiya!

– Pato…

– Vá logo!

Ele finalmente me soltou, se vestiu em silêncio e saiu.

“Ah, Hyoga... Quando é que você vai aprender?”, suspiro enquanto vejo Ikki se afastar apressado, sem olhar para trás.


I live here on my knees

(Eu vivo aqui de joelhos)
As I try to make you see that
(Enquanto eu tento fazer você ver que)

You’re everything I think
(Você é tudo que eu acho)

I need here on the ground.
(Que eu preciso aqui no chão.)

But you're neither friend nor foe
(Mas você não é nem meu amigo, nem meu camarada)

Though I can't seem to let you go.
(No entanto, eu não pareço poder deixar você partir)

The one thing that I still know
(A única coisa que eu ainda sei)

Is that you're keeping me down.

(É que você me mantém pra baixo.)

Foi estupidez, eu sei. Eu não podia ter cedido, eu... A quem quero enganar? Isso está além de minha capacidade, eu simplesmente não consigo rejeitá-lo. Por mais mal que toda essa situação me faça, eu o amo. Estou preso a ele de um modo que não sei explicar. Ikki faz com que eu me sinta vivo. Quando ele me toca e tudo em volta desaparece, a minha vida realmente faz sentido.

Mas ele não é meu. O homem que eu amo não me pertence e só me são oferecidas migalhas dele; eu as aceito na esperança de que, um dia, eu não tenha mais que dividir seus sorrisos, seus beijos, seu toque...


Então, ao vê-lo partir, eu me chateio; porém, sei que quando ele voltar, eu vou ceder. Tentarei resistir, mas, no fim, eu cederei e viverei mais uma noite maravilhosa em seus braços.

Sem muito ânimo, eu vou para casa. Chego ao apartamento que divido com Shiryu e, claro, o chinês já está dormindo àquela hora da madrugada. Fico feliz com isso, pois não estou com paciência para inventar uma desculpa descente sobre meu mais recente sumiço. Até onde ele e os demais cavaleiros sabem, eu não estou me relacionando com ninguém, o que levanta ainda mais suspeitas sobre o modo como me afasto de todos e desapareço por horas, escondendo o meu cosmo.

A verdade é que manter segredo a respeito de minha relação com Ikki sempre foi difícil e, por conta de nossa desonrosa situação, eu sempre me esforcei ao máximo para que ninguém soubesse. Durante esse processo, acabei me afastando dos amigos, até mesmo sem perceber. Agora, todos sentem meu cosmo triste, por muitas vezes enfraquecido, mas não conseguem entender absolutamente nada e sequer se sentem suficientemente confortáveis para me perguntar a respeito. Eu deixo assim porque não quero ser questionado, prefiro não ser. O que eu diria? A quem eu confessaria minha paixão pelo cavaleiro de Fênix?

Sentindo um aperto sufocante no peito, sigo direto para minha suíte. Tomei banho no motel e não acho que eu precise de outro, mas, dominado pela angústia, enfio-me debaixo do chuveiro por puro impulso. Quando me dou conta, meus soluços já ecoam pelos azulejos do cômodo, enquanto minhas lágrimas se misturam ao forte jato d’água e eu levianamente prometo a mim mesmo que me manterei longe do homem por quem tenho verdadeira loucura.


Keeping me down.

(Me mantém pra baixo.)
You're on to me,
(Você está em mim,)

You’re on to me,
(Você está em mim,)

All over me.

(ao meu redor.)

Eu não sou do tipo fraco para bebidas, mas definitivamente sou um bêbado chorão e carente. Então, posso facilmente constatar que extrapolei na vodca, tanto por estar escorado no balcão de um barman desconhecido e entediado, lamentando pela enésima vez a morte precoce de minha mãe; quanto por estar discando pela terceira vez o número do celular de Ikki, mesmo sabendo que não há qualquer possibilidade dele me atender ou, caso isso aconteça, eu realmente ter a coragem de dizer alguma coisa.

Já é madrugada e eu não acredito que estou me prestando a um papel desses, mas, como o Shun sempre me disse, as minhas fossas costumam se tornar bombas atômicas, quando misturadas com álcool.

Depois do episódio do motel, passei uma semana inteira fugindo, literalmente, de Ikki. Ele ligou, eu não atendi; Tentou falar comigo nos corredores da mansão, mas eu praticamente saí correndo. Eu me mantive firme no propósito de me afastar, embora já tivesse uma vaga noção de que isso não duraria até o domingo à tarde.

Como já esperava, eu não suportei e fiz um pequeno tour da minha casa até o bar onde estou, com direito a paradas estratégicas em dois outros para me reabastecer de vodca. É claro que, a esse ponto, devidamente bêbado e totalmente sem noção, eu estou com uma puta vontade de ver o Ikki. Isso não seria exatamente um problema, tendo em vista que sinto esse desejo o tempo todo, mas tenho a certeza de que a vontade de ver o marido dele junto e, numa conversa a três, pedir que Fênix escolha entre um de nós dois não é lá o pensamento mais sensato que já tive esta noite. Infelizmente, a coisa só está piorando e eu oscilo entre o choro e o riso, ao me lembrar de Shun dizendo: “Bomba atômica, Hyoga! Bomba atômica!”.

Já havia perdido a noção da hora, do ridículo e de bom senso, quando Isaac se senta ao meu lado. Conversamos bastante e ele sorri o tempo todo, esforçando-se para parecer encantador. Há certo charme ali, confesso, mas a única coisa em que consigo pensar é que nem em mil anos ele será um Ikki Amamiya.

De todo modo, eu estou tão bêbado que começo a achar sua atitude uma graça. Passo longe de ser um puritano e minha carência, a essa altura bastante perceptível, encoraja Isaac, que me faz uma daquelas propostas indecentes e absurdamente tentadoras quando se está numa situação como a minha. Talvez eu esteja agindo como um porco egocêntrico, mas depois de tanta vodca eu estou determinado a me agarrar a qualquer coisa que me faça esquecer o Fênix. Se isso significa transar com alguém por quem não nutro qualquer sentimento além de admiração e amizade, é exatamente o que vou fazer, já que não estou em condições de ponderar agora.

***

Foi um desastre. Era suposto que eu me entregasse e curtisse o momento, mas eu não consegui; não como deveria. Eu senti prazer, claro, mas até esses momentos acabaram sendo estranhos e complicados, já que eu tive de me esforçar para que o nome de Ikki não saísse por entre meus lábios cerrados.

Quando o porre passa e eu me dou conta da dimensão de minha tentativa frustrada, eu posso ver o quão estúpido fui. Simplesmente arrumei mais encrenca e, como se não bastasse, Ikki parece estar ainda mais impregnado em mim do que antes, se isso realmente é possível.

Saio da casa de Isaac e vou direto para a minha, louco de vontade de tomar um banho e dormir por, sei lá, algo em torno de três dias seguidos. Eu estou de ressaca e mal- humorado, acreditando que nada poderia tornar minha manhã mais complicada, até que me deparo com Ikki no corredor do meu apartamento e descubro que sim, as coisas podem facilmente piorar.

– Bom dia! – ele fala com cara de poucos amigos. – Dormiu bem?

– Não tanto quanto deveria. O que faz aqui?

– Vim falar com Shiryu. – Ikki me olha de cima a baixo, analisando minhas roupas amarrotadas e as bolsas arroxeadas abaixo dos olhos. – Shaka delegou uma missão a ele e eu vim ajudar a organizar uma estratégia.

Ele poderia organizar a tal estratégia na sala de reuniões da mansão Kido; aliás, o certo seria elaborar um método de ação lá, mas não quero confrontá-lo a respeito, pois minha cabeça dói e eu preciso manter a promessa que me fiz.

– E o Shiryu não te atendeu? – pergunto retirando as chaves de meu bolso e abrindo a porta para nós dois, correndo meu olhar pela sala de estar, em busca de meu amigo.

– Não só atendeu como ele já partiu há quase uma hora. Onde você dormiu, Hyoga? – não é uma pergunta casual, seu tom de voz firme e seu olhar inquisidor deixam isso bem claro.

– Por aí. – provoco enquanto ele me segue apartamento adentro e tranca a porta atrás de si.

– Vai ficar de brincadeira comigo? – Ikki segura meu braço e me força a olhá-lo.

– Eu não quero você aqui! – cuspo as palavras com raiva, externando toda a minha frustração pela vontade de beijá-lo que começa a tomar conta de mim.

– Foi você quem me ligou, pato!

– Eu não estava em meu juízo perfeito! Estava bêbado demais para raciocinar! Com a mente sã, eu nunca teria te ligado.

– Mas ligou. Por quê?

– Já disse, eu estava bêbado demais pra raciocinar. – liberto meu braço e saio andando pela sala, tentando evitar que seu olhar me hipnotize.

– Errado. Você estava bêbado demais para se controlar, o que é bem diferente. – ele se aproxima e me prensa contra a parede. – Fala, Hyoga! – Ikki grita enquanto usa seu corpo para me manter onde estou.

– Na primeira vez, eu estava com saudade, ‘tava carente. Na segunda, estava com raiva e querendo revelar tudo para o seu marido. Na terceira, foi novamente por carência. Eu estava confuso, Ikki! Confuso e bêbado. Não leve a sério as atitudes de um bêbado.

– Sério?! O fato de você dormir com outro também está incluso nesse pacote?

– Eu não...

– Não me trate como um idiota, pato! Você está fedendo! – ele se afasta brevemente, para logo voltar a me prensar no mesmo lugar, mantendo uma mão agarrada à gola de minha camisa. – Você fede a suor, cigarro e outro homem, não negue isso. Transou com ele?

Eu olho em seus olhos e ele está tão ferido e magoado que, por alguns instantes, eu me sinto verdadeiramente culpado pelo que havia feito, pelo menos até me lembrar de que ele é casado e que dormir com outro não apenas faz parte da rotina dele, como também constitui uma obrigação matrimonial.

– Isso não é da sua conta, Ikki! – esbravejo.

– Não é da minha conta? – Fênix torce mais a gola de minha camisa em suas mãos, aproximando nossos rostos. – Isso é da minha conta! Você é da minha conta! Transou com outro?

– Sim.

– Você é inacreditável, Hyoga! – ele se afasta, passando as mãos nos cabelos e bufando.

– Você é que é inacreditável! Eu não sou casado, Ikki, você é. Eu não tenho compromisso com absolutamente ninguém, posso ficar com quem bem entender, porque sou solteiro, consegue compreender isso?

– E o compromisso com você mesmo? Como ficam seus sentimentos nessa história?

– Como você ousa falar de sentimentos? Como... Eu não acredito que você está usando isso como argumento. Dois anos! Dois anos e nós nunca sequer mencionamos isso, Ikki. Nunca! E agora você quer falar sobre os meus sentimentos?

– E como você quer que eu reaja, pato? Você passa dias me evitando e agora isso? – ele se vira pra mim e seu olhar começa a me desarmar, exatamente como eu já imaginava que aconteceria em algum momento.

– Isso tem que acabar, Ikki... – sussurro, recostando-me novamente na parede.

– Acha que eu não sei disso? Acredite, loiro, eu sei. Mas como? Como nós podemos ignorar isso? – ele começa a se aproximar e eu sei bem onde isso acabará, caso eu não tome nenhuma atitude.

– Você pode ir embora e não me procurar mais. Eu prometo ficar longe e não ligar em hipótese alguma; se tivermos sorte, não teremos que nos falar nem mesmo para assuntos profissionais.

– Tem razão, nós poderíamos fazer isso. Mas o problema é que eu não quero, Hyoga. Eu... – Ikki se aproxima mais e toca meu cabelo, uma carícia suave e totalmente contrastante com o momento tenso que estamos vivendo. – Eu não quero perder você.

– Me perder? Você não me possui, Fênix. – retruco, embora a minha descrença no que digo ressalte a falsidade de minhas palavras.

– Eu não o possuo? – ressaltei a negação, balançando a cabeça de um lado para o outro, mas o sorriso zombeteiro na face dele me diz que já não consigo disfarçar minha entrega. – Você não é meu?

– Não.

– Os seus olhos me dizem o contrário, loiro. – ele diz com aquele sorriso de sempre, pouco antes de me beijar.


Something always brings me back to you.

(Algo sempre me traz de volta pra você.)
It never takes too long.

(Nunca demora muito.)

Com todas as razões para não ceder, eu acabei cedendo. Só de olhar para ele eu já sinto minhas defesas ruírem e toda a racionalidade se esvair de minha mente como se nunca tivesse estado ali. Ele me toca e eu me perco, abandonando-me em seus braços; porque Ikki é minha fraqueza, ele é a minha maior dádiva e o meu maior erro, minha felicidade e meu pecado mais vergonhoso, reunidos num só homem.

Eu não fujo de seus carinhos e, ao invés disso, retribuo-os com vigor, transmitindo em meus gestos a mesma paixão alucinante com que ele me toca. Não luto quando ele me arrasta para debaixo do meu chuveiro, nem quando arranca minhas roupas e, enquanto a água retira de minha pele o cheiro de outro homem, ama-me ali mesmo.


Something always brings me back to you.

(Algo sempre me traz de volta pra você.)
It never takes too long.

(Nunca demora muito.)
No matter what I say or do

(Não importa o que eu diga ou faça)
I'll still feel you here

(Eu ainda sentirei você aqui)
'til the moment I'm gone.

(Até o momento que eu partir.)

Ikki me marca com arremetidas selvagens, beijos despudorados e mordidas dolorosas. Ele me toca com destreza, habilidosamente me levando às nuvens sem a menor dificuldade. Fênix conhece meu corpo como ninguém; ele sabe todos os meus desejos, conhece o meu prazer e sabe exatamente o que fazer para que eu atinja o ápice rápida ou lentamente, dependendo de sua vontade.

Ele me tem e sempre faz questão de provar isso. Tomado por gemidos incontroláveis, eu nada lembro a frieza inerente a um cavaleiro de gelo, enquanto cavalgo em seu colo e trato de obter mais de seu pênis em mim.

Mais forte.

Mais fundo.

Mais.

Eu quero mais dele, sempre quis. Quero-o por inteiro, tudo; e não me refiro ao membro que, agora com Ikki ajoelhado atrás de mim, adentra-me com investidas potentes. Quero dormir ao seu lado sem me importar com a hora; quero acordar ao seu lado e não esconder de ninguém o quanto o amo. Eu quero fazer parte de sua vida, quero que ele faça parte da minha, quero ser feliz.

Apoio minha mão na parede azulejada, enquanto Ikki continua me penetrando cada vez mais firme. Toco a mim mesmo, sentindo meu orgasmo se aproximar e ouvindo meu amante rosnar indecências em meu ouvido.

Não se passa muito tempo até que eu sinta meus músculos se contraírem e meu esperma jorrar de meu pênis, juntando-se rapidamente à água que escorre pelo ralo. Logo depois, é a vez dele gozar dentro de mim, preenchendo-me com sua semente.


You hold me without touch.

(Você me segura sem tocar.)
You keep me without chains.

(Você me prende sem correntes.)
I never wanted anything

(Eu nunca quis tanto algo)
So much than to drown in your love

(Quanto afogar no seu amor)
And not feel your rain.

(E não sentir a sua chuva.)


Ele me abraça, depois que fazemos amor. Senta-se no box, vira-me e me põe sobre seu colo, beijando-me com carinho. Ikki é maravilhoso e nesses momentos eu quase sinto como se ele fosse meu. Este é o nosso mundo, onde somente nós dois existimos e eu não tenho que me preocupar em ser honrado ou com qualquer outra coisa.

Abraço-o com força e ele acaricia meu rosto, erguendo-o com um toque delicado em meu queixo para que nossos olhares se encontrem. Por alguns segundos, ele não diz nada, permitindo que apenas o barulho da água escorrendo ecoasse pelo ambiente. Quando finalmente falou, os olhos dele estavam tão doces como eu jamais tinha visto, embora suas palavras não combinassem com tanta meiguice.

– Eu fiz votos. – declarou ele, ainda me acarinhando e com um quê de lamento na voz.

– O quê?

– Eu fiz votos. – Ikki franziu o cenho e eu soube de imediato que não gostaria nada do que ouviria em seguida. – Quando me casei com Shaka, eu fiz votos, Hyoga. Eu disse que iria amá-lo e respeitá-lo, disse que me manteria fiel e permaneceria ao lado dele até o fim dos meus dias. Eu fiz votos.

Ele parou de falar e me olhou, talvez esperando que eu dissesse algo, que concordasse ou rebatesse sua afirmação, mas eu não senti a menor vontade de dizer nada. Permaneci estático, apenas olhando profundamente em seus olhos.

– Votos são promessas e, quando as fiz, jamais pensei que algum dia iria quebrá-las. – Fênix continuou. – Mas eu quebrei tais promessas. Eu as quebrei por você, loiro, uma a uma. Quando não consegui resistir ao desejo que sentia por você, achei que assim que obtivesse o que queria tudo voltaria ao normal. Mas não foi assim que aconteceu e meus sentimentos continuaram crescendo, a nossa história continuou tomando um rumo inevitável, incontrolável... Eu ainda tentei impedir, mas não sabia como e tudo chegou num ponto em que desisti. Eu me apaixonei por você, mesmo quando não devia. Vi-me te amando ao invés de atender suas súplicas e te deixar em paz. O pouco de racionalidade que há em mim gritava para que eu me afastasse, mas nunca consegui. Acho que nunca conseguirei, porque te amo como nunca amei ninguém em minha vida.

Ikki faz um novo carinho no meu rosto, sorri tristemente e deposita um beijo em minha testa, logo em seguida fazendo o mesmo em meus lábios. Eu ainda não compreendo perfeitamente o que está acontecendo, o que ele está me dizendo. Ele pretende me deixar ou quer apenas justificar suas atitudes dos últimos dois anos?

– Você está terminando comigo? – sinto-me enrubescer após fazer uma pergunta tão patética.

– Eu fiz votos, Hyoga. – ele suspira, demonstrando cansaço. – Foram votos ditos de coração; votos que não deveriam ter sido quebrados e que um cavaleiro honrado não deveria permitir que fossem reduzidos a palavras levianas. Eu quero você, quero muito, mas não vou deixar o meu marido porque eu prometi a ele que seria para sempre. E ao menos esse voto eu pretendo cumprir, loiro.


Set me free, leave me be.

(Liberte-me, deixe-me estar.)
I don't want to fall another moment

(Eu não quero cair mais uma vez)
Into your gravity.

(Na sua gravidade.)
Here I am and I stand so tall,

(Aqui estou e eu estou tão erguido,)
Just the way I'm supposed to be.

(Assim como eu deveria estar.)
But you're on to me and all over me.

(Mas você está em mim e ao meu redor.)


Passei um minuto inteiro em silêncio, sem saber o que dizer. Os olhos de tempestade me encaram, exigindo de mim uma compreensão que já não me sinto capaz de oferecer. Ele não está terminando comigo, está apenas esclarecendo minha posição em sua vida.

– Jamais passarei de um simples amante, não é? – minha voz soa firme, enquanto eu me levanto e desligo o chuveiro.

– Você é importante pra mim.

– Mas Shaka é mais.

– Não se trata disso, Hyoga. Acabei de te explicar que...

– Você fez votos. – completo sua frase num tom exageradamente duro.

– Sim. – ele se levanta, chateado com minha reação.

– E eu, Ikki? Devo me contentar com essa situação? Devo aceitar minha condição sem reclamar?

– Você alcançou um nível de importância pra mim que não permite mais mentiras, loiro. Então, serei bem sincero. Sim, eu quero que sejamos amantes, mas, mais do que isso, estou te oferecendo o meu coração.

– Não, Ikki. Você está me oferecendo algumas transas esporádicas e sigilosas, que deverão ocorrer a cada vez que o seu pau sentir falta de mim. Desculpe-me, amigo, mas isso não é o suficiente.

Ele tenta me segurar, mas eu me afasto, saindo do box. Caminho para a porta, disposto a sair dali e não vê-lo nunca mais, mas me detenho quando toco a maçaneta. Virando-me para ele, com meus olhos cheios de lágrimas entregando meu sofrimento, digo:

– Eu te amo, Ikki. Eu te amo de verdade. E você me ama também, então... – suspiro. – Eu quero mais. Eu quero e mereço mais. Se isso é tudo o que tem a me oferecer, se é só até aí que o seu amor por mim permite que você vá, é melhor vestir suas roupas e, por favor, fechar a porta ao sair do meu apartamento.


I live here on my knees

(Eu vivo aqui de joelhos)
As I try to make you see that
(Enquanto eu tento fazer você ver que)

You’re everything I think
(Você é tudo que eu acho)

I need here on the ground.
(Que eu preciso aqui no chão.)

But you're neither friend nor foe
(Mas você não é nem meu amigo, nem meu camarada)

Though I can't seem to let you go.
(No entanto, eu não pareço poder deixar você partir)

The one thing that I still know
(A única coisa que eu ainda sei)

Is that you're keeping me down.

(É que você me mantém pra baixo.)

Minutos depois, eu o ouço saindo, pois ele passa por mim quando sai do banheiro e começa a deixar o quarto. Sinto que ele estanca o passo diante de minha figura deprimida sobre a cama, talvez pensando em algo que dizer, mas não diz, provavelmente porque nada lhe vem à mente.

Ikki bate a porta ao sair e eu, embora desolado, não choro. Não derramo uma lágrima sequer, apesar de estar em frangalhos por dentro. Eu sou um cavaleiro de gelo, jamais deveria me meter numa situação como essa, mas, já que me meti, devo ao menos sair dela com dignidade. Sem choro. Eu não me permito chorar hoje.


Keeping me down.

(Me mantém pra baixo.)
You're on to me,
(Você está em mim,)

You’re on to me,
(Você está em mim,)

All over me.

(ao meu redor.)


Eu me transferi para a Sibéria. Eu realmente fiz isso, embora ainda duvide quando penso na rapidez com que decidi o que deveria fazer e principalmente com que a Deusa aceitou meu pedido. Em menos de uma semana após minha última transa com Ikki, eu estava de malas prontas para vir para cá.

A readaptação não foi difícil, claro que não. O que realmente pesou, o que me incomodou mais do que qualquer outra coisa, ainda incomoda e acho que sempre irá incomodar é a solidão, ou melhor, a falta que sinto dele.

Já se passaram três meses e, mesmo eu não me mantendo nada casto, Ikki continua a reinar sozinho em minha mente e coração. É como se ele estivesse entranhado em mim ou tatuado sob minha pele, eu simplesmente não consigo deixá-lo ir; meus pensamentos me levam até ele, minha vontade é estar com ele; e os homens com quem me deito – todos cópias mal feitas de seu físico ou jeito – são a maior evidência disso.

Um sujeito estranho me olha do outro canto do bar e eu, enfadado, desvio os olhos e suspiro. Hoje eu não vim buscar companhia, vim beber. E quando sinto o último gole do meu Long Island descer queimando pela minha garganta, aquecendo o meu peito de dentro para fora, sinto-me fugazmente confortado. Ainda não fui tomado pela euforia, razão pela qual visito este bar quase todos os dias, mas aguardo ansiosamente o momento em que essa sensação se fará presente em mim.

O homem que me observava se levanta de sua mesa e, olhando em minha direção, começa a caminhar ao meu encontro. Meu semblante se fecha e já começo a pensar na melhor forma de afastá-lo de mim, mas o sujeito estanca o passo de repente, enquanto ainda me olha. Não tenho tempo sequer para cogitar a possibilidade de que meu olhar irritado o tenha desanimado, pois logo ouço uma voz muito familiar.

– Oi. – Ikki surge em minha frente com um copo de uísque nas mãos e um sorriso hipnotizante no rosto. – Este lugar está ocupado?

– Sim.

Ele ri daquela forma que tão bem conheço, como se já soubesse qual seria minha resposta e, mais que isso, a falta de convicção dela.

– Então, está esperando alguém? – ele me pergunta.

– Eu... – suspiro. – Não. Não estou esperando ninguém, mas prefiro ficar...

– Nesse caso, com licença. – Ikki me interrompe e, ignorando minha vontade, senta-se diante de mim.

– O que você quer aqui, Amamiya?

– O que eu quero? – ele toma um gole de sua bebida e coça a cabeça displicentemente. – Bom, no momento, quero conversar e te pagar outro desses, posso? – aponta meu copo vazio.

– Conversar?

– É, conversar.

A casualidade com que ele fala me desconcerta e por alguns segundos eu não sei o que dizer.

– Ikki... – falo delicadamente, como quem explica algo muito complexo a uma criança. – Nossa história acabou. Você tomou sua decisão e consequentemente eu tomei a minha. Não estamos mais juntos e eu estou tentando seguir em frente; eu preciso que você me deixe seguir com a minha vida.

– Lembra-se de como conversávamos? Mesmo antes do nosso primeiro beijo ou de nos darmos conta de que havia um interesse maior entre nós dois, lembra-se de como era? – seus olhos fitam os meus e há tanto amor ali que eu me sinto eufórico e, ao mesmo tempo, confortado. – Passávamos horas conversando, muitas vezes divergindo sobre determinado assunto; mas era bom, era divertido... Você com suas tiradas irônicas e eu com um talento impressionante para te irritar. – ele ri e suspira saudosamente. – Era maravilhoso, Hyoga. E depois que ficamos juntos... Uau! Nunca compartilhei de tanta intimidade com alguém, nunca me senti tão relaxado ao jogar conversa fora na cama, depois do melhor sexo de todos. Era incrível! Nós éramos incríveis!

– Ikki, se você veio tentar me convencer a...

– Eu sinto a sua falta. – ele toca a minha mão sobre a mesa, mas eu a recolho automaticamente. – Eu sei que acabou e que cada um tem sua parcela de culpa nisso. Cometemos erros, Hyoga, começamos nossa relação de uma forma totalmente errada e não víamos como consertá-la; melhor dizendo, eu não via como consertá-la. Por mais que tenha sido maravilhoso enquanto estávamos juntos, sei que não era a melhor forma de te amar. Não era justo com você; não era justo comigo e não era certo o que fazíamos com o Shaka. Ele merecia respeito e, não por maldade, negamos isso a ele.

– Ikki, quer me dizer logo o que você está fazendo aqui?

– Recomeçar, loiro. Eu vim recomeçar.

– Ainda não entendo. – ele sorri pra mim e volta a tocar minha mão, acariciando-a com o polegar.

– A penúltima vez que você terminou comigo, pouco antes de partir para aquela missão na Nova Zelândia, disse-me que o que começava errado não daria certo nunca. Lembra-se disso?

É claro que eu me lembro e confirmo isso a ele com um movimento de cabeça.

– Pois bem. Se o que começa errado não pode dar certo, é melhor que se comece novamente, mas fazendo da maneira correta, não?

Eu provavelmente continuo com um ar confuso no rosto, mal acreditando no que ele está dizendo, pois Ikki sorri ainda mais e aperta a minha mão.

– Tudo bem, eu vou simplificar as coisas, pato. – ele se aproxima de mim, apoiando os cotovelos na mesa e sussurrando, como quem conta um segredo. – Meu nome é Ikki Amamiya, eu sou divorciado, acabo de ser transferido para a Sibéria e estou querendo pagar um drink para o homem mais lindo deste bar, você acha que isso é possível?

Meu sorriso começa discreto, mas logo toma conta de toda a minha feição. Algumas lágrimas escorrem por meu rosto e a minha voz soa trêmula, quando digo:

– É um prazer conhecê-lo, Ikki. O meu nome é Hyoga e eu... – minha voz estremece ainda mais. – Eu adoraria que você me pagasse um Long Island.

Eu não preciso ser nenhum adivinho para saber que a noite seguirá com um bom papo, beijos deliciosos e o sexo mais quente da minha vida. Não é nenhuma novidade; foi assim que começamos, é assim que nós somos e creio que nunca deixaremos de ser. A única diferença é que agora eu não me sentirei culpado; tampouco serei abandonado no meio da madrugada.

Agora, ele é meu.

A partir deste momento, já não somos “eu” e “ele”, dois corações separados desejando ardentemente estarem juntos.

De hoje em diante, somos livres o suficiente para sermos “nós”.


Something always brings me back to you.

(Algo sempre me traz de volta pra você.)
It never takes too long.

(Nunca demora muito.)


FIM

Notas finais
Obrigada a todos que lerem!
Beijos!
Mamba
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!