Maio, 1976

Mais de um mês havia se passado. Em meio às preparações para os exames, aulas e tarefas diárias, Barty insistia que eu deveria fazer algo. Falar com alguém. Com meus pais. Por mais que explicasse, ele não desistia. Quando achei que teria uma trégua, afinal estávamos perto do meu aniversário, fiquei desconfiado quando entrei nosso quarto e vi Barty com Severus ali dentro, as expressões graves.

— Por que ele está aqui?

Não queria soar acusatório, mas Barty estar com Snape no nosso quarto não poderia ser boa coisa.

— Trouxe ele para pedir ajuda pra você. Podemos ver se tem alguma poção ou coisa assim...

Barty cruzou os braços, me fazendo franzir o cenho.

— Se é por poções eu posso fazer sozinho. — resmunguei, sentindo meu orgulho ferido. Mesmo mais novo, eu era tão bom em poções quanto Snape!

— Acontece que você não parece muito disposto a resolver seu próprio problema!

Barty disparou irritado, lambendo os próprios lábios e passando as mãos pelos cabelos em seguida. Ele contou a Severus o que estava acontecendo comigo, omitindo a parte de que podia me levar à morte, mas de todo jeito me deixou irritado. Já podia ouvir o riso de desdém de Snape, me chamando de fraco por ficar doente por causa de um amor não correspondido, e a simples imagem mental me dava vontade de acertá-lo.

Contudo, ele me surpreendeu simplesmente me olhando de modo ininteligível. Eu não conseguia ler sua expressão, mas talvez fosse reconhecimento que perpassou por seus olhos escuros. Me envolvi em vergonha e desviei o olhar, percebendo que eu estava irritadiço demais ultimamente.

— Já tentaram uma poção do amor? — Severus sugeriu, a voz geralmente arrogante soando quase suave.

Barty e eu nos entreolhamos. Não havíamos pensado naquilo, mas eu não achava que resolveria o problema. Se era necessário que o amor fosse retribuído de modo profundo e verdadeiro, não seria algo fabricado por uma poção que daria o efeito desejado.

— Não vai dar certo. Não cumpriria os requisitos.

Respondi simplesmente, a voz desprovida de emoção. Estava cansado.

A poção do amor foi descartada, porém Severus passou o restante do dia aparecendo aleatoriamente com sugestões. Uma delas foi uma poção utilizada geralmente para se livrar de ervas daninhas; quando bebi, apenas me fez correr para o banheiro para vomitar. Dessa vez, só o meu almoço, não havia nenhuma flor junto.

— Vocês vão me matar! — resmunguei uma vez que estava recuperado do enjoo, e fui para longe dos dois.

Ainda me sentia um pouco enjoado, então queria sair do salão comunal e tomar um pouco de ar fresco na área externa do castelo, mas Barty segurou meu braço antes que saísse da área das masmorras. Não tinha ouvido ele vindo atrás de mim, porém me virei mesmo assim, encarando-o ainda irritado com toda aquela confusão.

— Reg! Espera!

— Pra vocês acabarem me envenenando? — disse com rispidez e ironia na voz, sem esperar que ele começasse com o discurso que eu já conhecia de cor.

— Eu não disse nada! — ele se defendeu, o toque hesitando por um momento, cedendo levemente sobre meu braço. — Não brigue comigo porque estou tentando te salvar!

Me senti desarmado pela expressão de Barty. Beirava o desespero e eu não gostava de ver aquilo. Era como se deixasse a situação ainda mais grave: se ele perdia as esperanças, eu não tinha salvação. Ele sempre foi o mais otimista de nós dois, afinal. Minha visão sempre pendia para a realista (pessimista, sendo sincero), então mesmo clamando que não queria ajuda, mesmo que estivesse conformado, senti o peito doendo e apertei os lábios, a realização me acertando pesadamente. Eu estava o machucando.

— Barty… — chamei, o tom cauteloso de quem temia piorar a situação, sem saber o que dizer, mas não precisei.

— Porra, Regulus! — interrompeu minhas palavras não ditas, a face alva dele se tingindo de vermelho de raiva. — Você não está nem tentando! Seu idiota egoísta! Como acha que me sinto? Se não quer ajuda, então se apaixone por mim!

As palavras dele não precisaram ser gritadas para que ecoassem por meu cérebro, meu olhar atônito enquanto o observava com a respiração acelerada devido à raiva, aos poucos se acalmando ao mesmo passo em que ele arregalava os olhos, ficando mais uma vez violentamente corado. Barty não disse mais nada. Se dando conta do que havia falado, soltou meu braço de súbito e correu de volta para a comunal.

Me sentia desnorteado. Ele achava que se eu pudesse escolher, amaria alguém que nunca olharia para mim? Sinceramente, eu sabia que a única opção que levemente aceitável era fazer Remus se apaixonar por mim. Mas eu não tinha como competir… acabei suspirando pesadamente, me vendo na área externa do castelo como havia pretendido fazer desde o início, então me sentei e recolhi uma pedra, atirando-a na água, vendo-a saltar três vezes na superfície do lago antes de afundar. Se eu pudesse escolher, não sentiria nada. Ou, se aquilo tivesse mesmo sido uma declaração, não seria ruim estar com Barty. Mas não era uma opção: eu não tinha direito de escolher. Infelizmente, não tinha controle sobre meu coração.

— Essa foi boa.

O susto me fez levantar em um pulo, o coração acelerando com o sobressalto. Remus definitivamente precisava parar de ficar aparecendo do nada! Quando o mirei, ele me fitava na maior confusão, embora eu percebesse que ele queria rir da minha reação exagerada.

— Não pretendia te assustar.

Agora mais calmo, franzi o cenho mediante o sorriso enviesado de Lupin.

— Você precisa fazer um pouco de barulho antes de se aproximar por trás de alguém se não quiser assustá-lo.

Bufei baixo, sentindo o rosto esquentar. Dessa vez, a risada dele foi ampla, gostosa e sem contenções, e eu nem mesmo conseguia me irritar com ele. Era como se todos meus problemas sumissem e os sons do mundo se calassem apenas para que ele risse. Puta merda, como eu te amo. Foi o que pensei, e foi por pouco que as palavras não se tomaram forma.

— Você pode ser surpreendentemente engraçado, Reg.

Parecia que estava tirando sarro, porém seu tom era casual. Ele acabou imitando meu gesto, atirando uma pedra que deu dois pulos antes de afundar. Remus torceu os lábios, como se frustrado.

— Eu não sou engraçado. — disse com displicência, cruzando os braços, não sabendo se deveria levar aquilo como um elogio. — Não sou um palhaço. O palhaço da família é o Sirius.

Remus riu de modo mais discreto, balançando a cabeça em uma negativa.

— Não te acho um palhaço. Você é engraçado de outro jeito. Se me perguntasse, você não tem nada a ver com Sirius. É só que às vezes você vem com algumas falas ou reações que não se esperaria de você.

Ainda não sabia como interpretar o que ele dizia, mas a simples percepção dele — de que eu não tinha nada a ver com Sirius — me deixava surpreso e ao mesmo tempo satisfeito. Sempre ouvia, afinal, como éramos parecidos. Cabelos escuros, os mesmos traços dos Black… Se quando mais novo eu gostava de parecer com o irmão mais velho que eu tanto admirava, os anos me fizeram criar ódio daquilo. Eu não queria ser parecido com Sirius, nem com ninguém. Queria apenas que me vissem como quem eu era.

— Isso é bom ou ruim?

Perguntei sem pensar muito, atraindo o olhar de Remus para mim. Ele sorriu de canto, e talvez fosse minha imaginação, mas possuía ares de mistério.

— Eu gosto. Se é bom ou ruim, você decide.

Meu rosto esquentou. O coração acelerava, espalhando calor por todo meu corpo; tudo que pude fazer foi virar a face, esperando que ele não percebesse o estado que me deixou com palavras tão simples. Pela visão periférica, percebi que ele se aproximava, e sentia como se pudesse vomitar um buquê inteiro só por aquilo. Quão patético eu poderia ser?

— Preciso ir agora, Reg. Nos vemos depois.

Aparentemente, muito.

Tudo que pude fazer foi me virar tardiamente, assistindo-o se afastar.

Cada passo que ele dava, o levava para longe de mim. E não era só em um sentido físico. Cada momento que eu não fazia nada, ele se apaixonava mais por Sirius. Eu estava morrendo. Barty estava se machucando. E ele estava certo: eu não estava tentando. Eu estava sendo egoísta. Talvez não fossem muitas pessoas, mas algumas sentiriam minha falta. Remus estaria entre elas? Ele sentiria saudades, quando eu me fosse? Eu não tinha pretensões de vencer aquela disputa. Não tinha como haver um vencedor ou perdedor.

Mas eu podia tentar. Mesmo que por um instante, por um único instante, mesmo com o risco de rejeição completa, eu precisava falar com ele. Ele precisava saber, antes que eu levasse meus sentimentos para o túmulo.

Ao menos não iria me arrepender de não falar.

Antes que aquele lapso de coragem se esvaísse, me apressei, correndo na direção que Remus havia ido. Precisava encontrá-lo! Precisava falar o que sentia, mesmo que ele me desprezasse no fim.

Estava ofegante quando finalmente ouvi a voz dele.

— Do que está falando?

Soava como um sussurro que vinha de dentro de uma sala de aula vazia. Acabei detendo minha mão a caminho da porta, parando ao reconhecer a segunda voz.

— Pensei sobre o que disse. Por que não? Foi o que concluí.

Era a voz de Sirius. Não importava as mudanças no tom ou que a puberdade causava, eu a reconheceria em qualquer lugar. Meu sangue gelou no mesmo instante, embora meu coração martelasse violentamente nos meus ouvidos, como se quisesse me ensurdecer e impedir de ouvir o que se seguiria.

— Se me chamou aqui para mais uma de suas brincadeiras, Sirius Black, eu-

— Santo Merlin, relaxa um pouco, Aluado. Não precisa vir com quatro pedras na mão!

Remus não respondeu. Sabia, de antemão, por uma força maior, que iria me arrepender daquilo, mas espiei dentro da sala através do vidro que ficava na parte superior da porta. Eles estavam de costas para onde eu estava, Remus sentado sobre uma carteira, Sirius atrás dele, massageando-lhe os ombros lentamente, e apesar do ângulo não favorecer, era claro que ele estava dando um beijo no pescoço de Remus.

Eu não queria ver aquilo. Mas era como se meu corpo tivesse sido congelado.

Sabia dos sentimentos de Remus há muito, ao mesmo tempo que sabia que Sirius nunca retribuiria. E isso era o suficiente. Uma visão egoísta? Sim. Mas era difícil aceitar que a pessoa que você gosta é apaixonada pelo seu irmão mais velho, aquele que sempre se sobressaiu e foi o favorito. Agora tudo ruiu frente a meus olhos.

Minhas pernas tremiam quando recuei e podia ouvir o som de algo dentro de mim se quebrando em mil pedaços. Estava frio e eu não conseguia respirar. O ar não chegava a meus pulmões e, mesmo com todo nervosismo, meu coração parecia incapaz de bater. Não o ouvia mais.

Cambaleando, me apoiei na parede quando meu corpo me forçou a me curvar para frente, e uma rosa caiu no chão, salpicada por pequenas gotículas de sangue.

Minha visão estava turva. As lágrimas se acumulavam nas pálpebras e não sei de onde tirei forças para correr. Ouvi vagamente Remus se sobressaltar, perguntando quem estava ali, e eu poderia arrumar várias desculpas para estar naquele corredor em específico naquele instante específico, mas não queria encará-lo quando ele abrisse a porta, pois ouvia seus passos de dentro da sala. Não queria que ele me visse naquele estado, então apenas saltei pela rosa caída no chão, fugindo como se minha vida dependesse disso; como se também pudesse fugir daqueles sentimentos.

Meus pés estavam no piloto automático, não conseguia ver o caminho que seguia através das lágrimas quentes, embora ouvisse ao longe cochichos provenientes dos quadros do castelo à medida que o atravessava, e logo me vi desabando sem ar no topo da Torre de Astronomia. Eu nunca havia chegado em um lugar tão rápido. Assim, ofegava, meu corpo reclamando do esforço, mas a dor maior vinha do meu peito. Caído no chão, debilmente apoiado nas mãos, rosas inteiras escapavam de meus lábios, os espinhos ferindo minha boca fazendo com que minha língua se inundasse com o gosto de sangue.

— Regulus!

Eu estava alucinando. Podia jurar que estava ouvindo a voz de Barty me chamando. Eu não conseguia mais respirar. Faltava oxigenação e meu corpo latejava pelo esforço. A respiração estava excessivamente ruidosa, chiada, o ar incapaz de preencher meus pulmões por mais que o sugasse. Estava sufocando, não conseguia nem mesmo cuspir as pétalas e flores que entalaram na minha garganta, e minha consciência se esvaía junto. Mesmo o chão parecia girar enquanto minha visão escurecia.

Quis me debater quando meu nariz se fechou, mas por mais que estivesse consciente das sensações, não conseguia mover meu corpo. Estava me esforçando para mexer os dedos, e nada. Era desesperador. Aquilo era morrer? Se sim, era dolorido. Uma grande merda.

Quando algo quente cobriu meus lábios em um toque aveludado, achei que era o fim. Estava me sufocando com aquelas flores. De súbito, no entanto, meus pulmões forem preenchidos por um sopro de ar, me fazendo engasgar quando finalmente fui capaz de inspirar fundo, tossindo diversas vezes enquanto me norteava.

Quando consegui focar minha visão, percebi que não era alucinação. Barty estava envolvendo-me pelas costas, ajudando que ficasse sentado, e fazia sentido. Nós dois sempre fugíamos para aquele lugar, e provavelmente ele não suportou ficar no Salão Comunal ouvindo perguntas sobre mim, ou por que sai tão descontrolado, afinal as pessoas pareciam ter acreditado que éramos um casal apesar de eu sempre desmentir. Ele me observava, apreensivo, preocupado, e mesmo assim eu não conseguia parar de chorar.

— O que houve, Reg? O que está sentindo? Fala comigo, Regulus!

Ele estava frustrado. E eu, desesperado.

Agarrei-me à frente das vestes dele, puxando-o para baixo enquanto soluçava, porém Barty estava claramente em um melhor estado e tudo que acontecia era eu pateticamente me escalar nele, o assustando com meu gesto repentino.

— Barty… faça eu me apaixonar por você… por favor…

Pedi, minha voz rouca e fraca. Não passava de um fio frágil. Não conseguia deixar de pensar na imagem de Sirius e Remus juntos. Eu só queria esquecer aquilo.

Ele engoliu a seco, mas as mãos que envolveram minha face eram firmes ao mesmo tempo que suaves, e espelhei o gesto quando ele fechou os olhos, concentrando-me apenas no contato entre os lábios.

Era um beijo triste. Por mais delicado e superficial que fosse, tinha gosto de sangue e lágrimas.