Corremos até que suas pernas de humana não agüentassem mais, eu a vi caindo ofegante enquanto se escorava nas paredes da cachoeira, e então, me puxou para perto. Eu não tinha um pulmão, mas fazia questão de puxar o ar apenas para sentir nossas respirações se misturarem. Apesar de todo aquele ar falsamente inocente, eu podia sentir por trás daqueles olhos castanhos um medo inigualável do que poderia acontecer.

— Que merda você fez, Frisk? – Uma onda de preocupação tão grande dominou meus pensamentos quase desesperado, pude sentir a fumaça vermelha saltar de minhas órbitas enquanto encarava fixamente a pele morena daquela garota.

O maior erro que ela pode cometer foi ter desistido dos humanos para viver no subsolo.

Aos poucos eu vi Frisk parou seus risos, o tom de sua voz mudou de uma doce risada para soluços chorosos enquanto lágrimas humanas escorriam pelos seus olhos. Se eu tivesse um coração, certamente ele estaria sendo esmagado.

Com carinho estiquei os dedos em seu rosto, acariciei com as pontas dos ossos a bochecha macia e desejei que aquele momento nunca tivesse um fim. Aliás, por que ela estava chorando? Enquanto me afogava em pensamentos que jamais deveriam ter voltado, eu senti os braços quentes envolverem meu pescoço, seu rosto delicado afundou nos pêlos do meu casaco escuro.

Foi então que eu percebi, nada nem ninguém poderia acalmar minha alma ferida. Ao menos nada além daquela garota. Minha garota.

Frisk havia crescido desde que caiu aqui no subsolo e embora tenha sido atacada por uma onda de assassinos tentando destruir seu corpo para drenar a sua alma, eu pude defendê-la de todos durante cinco anos. Mas havia apenas um que tinha determinação o suficiente para levar minha garota embora.

Meu irmão.

E foi justamente isso que fez com que eu me tocasse: Papyrus havia se soltado e estava a cercando. Afundei os dedos forte o bastante nos ombros daquela mulher e a chacoalhei, não podia ser verdade. Não podia ser real. Eu ouvi seu choro se transformar em gritos desesperados enquanto sua cabeça balançava em negação. Sem medir o tom; eu gritei.

— Que inferno você fez? Qual o seu problema? Frisk, olha pra mim!

Ela apenas gritava e negava com a cabeça. Àquele ponto eu não podia mais enxergar os lindos olhos castanhos, e se pudesse, tenho certeza que aquele brilho apaixonado não estaria mais dirigido a mim. Soltei seu corpo, eu não podia acreditar que ela havia feito aquilo. Vi ela se afastar ao arrastar o corpo no chão, quase como uma criança indefesa que ela não era mais, encolheu seu corpo e escondeu seu rosto nos braços, parecia querer acordar de um sonho ruim.

— Desculpe... Sans... Me desculpe... Eu só achei que... Mesmo os piores monstros podem mudar com um pouco de amor. Você mudou, Sans! Eu não agüentei ver a frieza que vocês dois se tratavam, pensei que seriamos amigos se eu o soltasse. Eu só... Pensei que tudo seria resolvido com um pouco de paz...

Maldita filha da puta! Levantei com tanto ódio que o choro de Frisk se tornou mudo quando soquei a cabeça contra a parede de concreto, isso era mentira. Não podia estar acontecendo, não podia ser tão imbecil. Senti meu crânio ser rachado a cada novo golpe até que um Gaster Blaster destruísse o teto da cachoeira.

— Você não sabe o quanto eu sofri nas mãos daquele filho da puta pra te salvar, Frisk! Você não sabe quantas vezes eu morri e distorci as linhas do tempo apenas para voltar e te proteger! Eu destrui universos paralelos que meu pai construiu, eu condenei o subsolo inteiro apenas por sua causa. E quando finalmente eu consigo poupar sua vida trancafiando meu irmão, você o solta?

Uma tontura forte fez com que eu perdesse o ritmo, ainda assim, quando voltei a realidade eu pude ver minha garota amedrontada com seus lindos olhos saltados me encarando. O Gaster Blaster apontava para sua cabeça e foi então que me arrependi. Eu não iria me transformar mais uma vez no monstro que já fui um dia. Então eu me aproximei, mas era tarde demais.

— Sans! Me ajuda! Sans... Eu... Eu te amo.

“Eu te amo”

Foi a última coisa que eu ouvi.

Papyrus parecia se divertir enquanto pisava nas costas da mulher que um dia eu amei, então como se o tempo estivesse congelado eu vi aquela cena deplorável em câmera lenta. Com seu riso maníaco ele agarrou os cabelos escuros daquela que um dia poderia ter sido a embaixadora dos monstros, o joelho esquerdo forçava a nuca de Frisk contra o chão, um últmo grito. Um coração partido.

Ele puxou com tanta força os cabelos da minha garota que sua cabeça foi arrancada do corpo. A pele separando seu pescoço e a o sangue tingindo a água da cachoeira de vermelho.

Adeus, adeus.

Eu prometo que tudo ficará bem.

Adeus, adeus.

Eu prometo estar sempre ao seu lado.

Mas não espere que eu coloque a porra de uma flor no seu túmulo.

— Sans?

— Sim, mestre?

— Monstros como você devem queimar no inferno.

Notas finais
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