O forte odor de ferro adentra minhas narinas, atiçando e satisfazendo necessidades intrínsecas do meu ser, as quais nem mesmo lembrava que existiam. Completamente envolvido neste momento de transe, meus olhos são capturados pela origem do cheiro, e quase posso sentir como se não apenas meus olhos, mas também o receptáculo que é meu corpo ser preenchido. Uma reação instantânea e rápida, se assemelhando a um gatilho sendo puxado. A causa, agora em minha frente, é uma figura sem forma que como de uma fonte, escapa um fluído. Logo, não sou o único a ser absorvido, e talvez nem mesmo tenha sido o primeiro.

Durante os momentos de liberdade que minha mente obtém, pergunto-me quando me tornei assim. Se, desde o começo de minha existência, este instinto nasceu como parte de mim, ou se fui vítima de algum feitiço transportado pelo ar, como aquilo que inicialmente me prendeu. Quando fui transformado em uma criatura atraída por sangue? Humano algum devia enxergar beleza em feridas, e no que vem delas. O que seria eu, então, se não um vampiro? Seduzido pela dor, embora eu devia ser aquele que hipnotiza. Sendo o certo ou não, este líquido carmesim causa-me admiração. Este fragmento, carregando a sua essência, parece afogar as palavras em minha mente. Um vórtice engole minha alma, carregando-a para o meu peito. O que você possui, que este vislumbre de seu ser torna-se livre? Incapaz de ser preso por este mundo, senão por uma única, imensa e vaga palavra…

"Bonito."

Aproximo meu rosto do solo, com meus olhos vidrados em uma recém formada poça de sangue, inspecionando-a minuciosamente em uma tentativa de compreender o que vejo. Seria este forço apenas para me satisfazer, ou traços de minha humanidade? Independentemente de minha motivação, o resultado será o mesmo; pois neste líquido é refletido o meu rosto. Estamos fadados a manchar aquilo que vem de outros; são estrangeiros em nossos corações, e operamos em diferentes frequências.

Do meu bolso, retiro uma lâmina que há muito tempo não vê a luz. Fecho meus olhos, como se para buscar em algum lugar da minha mente e coração não só a coragem, mas o conhecimento adormecido também, enquanto aproximo este instrumento da palma de minha mão. Este será o meu pincel. Profundo, mas preciso; é assim que este corte deve ser. Mesmo que acabe ficando completamente seco, mesmo que toda esta vitalidade me deixe, este líquido que corre em minhas veias há de voltar para o seu lugar de direito: Este solo, o qual ao mesmo responsável por lhe dar cor, pertence. De uma maneira que parece levar dias, minha pele é rasgada, e então, o fluído que tanta beleza carrega é libertado, embora deturpado com a minha essência. O líquido o qual me pertence, agora escorrendo por meu corpo, embora indesejável, antes de qualquer coisa, carrega esperança. Esperança de que minha mensagem lhe alcance, no lugar mais profundo de teu ser.

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