Brad ouvira no noticiário algo sobre uma morte, os policiais suspeitavam que o motivo tivesse sido acerto de contas. Algo sobre um envelope de dinheiro, ele não sabia ao certo. Estava muito ocupado jogando seu novo game de ação, matando zumbis, esqueletos, alíens e outros monstros, enquanto sua mãe gritava pedindo para que baixasse o volume do vídeo game. Já eram 19:30 e Brad estivera jogando desde que chegara do colégio. Seu dia no colégio Preston tinha sido bom. Viu a namorada, a prova havia sido cancelada e ele pôde nadar antes de voltar para casa.

Passa um tempo e sua mãe o chama para jantar. Ele desce e todos estão esperando por ele. Sua mãe, seu pai e os dois irmãos mais novos, um de 8 anos e um de 12. Todos com aquela mesma cara de desaprovação devido ao atraso. Brad ri, como se fosse algo normal para aquela família. O jantar era bife com legumes, massa, refrigerantes e vinho, o que não era muito comum. Vinho.. fez Brad lembrar-se de algo que estava tentando esquecer. Um verão.. um verão bem distante.

Há 3 anos, quando Brad ainda tinha 12 anos, presenciou uma cena que o seguiria para o resto da vida. Os meninos mais velhos da Preston reuniram todos os mais novos para uma festa de boas vindas. Bom, pelo menos era o que eles pensavam. Na festa, tinha todo tipo de coisa. Bebidas, comidas, cigarros e outras coisas que não merecem ser citadas. Os veteranos decidiram fazer uma “brincadeira” com os calouros. Reuniram todos na sala e obrigaram cada um a beber uma garrafa de uísque e os que não fizessem seriam perseguidos pelo resto da sua estada na Preston.

Brad tomou, foi um dos primeiros. Demorou mas conseguiu terminar uma garrafa, mas isso não satisfez os mais velhos. Eles queriam mais diversão, então obrigaram alguns calouros a tomar mais garrafas, entre eles estava Brad. Ele nunca tinha tomado álcool antes, mas gostara da sensação de ardência que a primeira garrafa causou, mas as outras estavam dando enjôo e muita sonolência.

– Agora a melhor parte – gritou um dos veteranos – todos para o lago!!

E todos obedeceram, os calouros na frente e os veteranos atrás, para impedir que os mais novos fugissem. Quando chegaram ao lago, um dos veteranos subiu em uma das mesas de picnic e gritou:

– Essa é uma tradição dos alunos da Preston. Ai de vocês se não a passarem adiante. É o seguinte.. todos os calouros devem tirar as roupas e pular do cais. Devem ficar pelo menos 3 minutos pelados dentro do lago. – Alguns calouros contestaram com vaias e negações, o que fez o veterano mudar a expressão facial – Isso não é uma escolha, terão que fazer.. querendo ou não.

Brad viu que os olhos dele estavam muito vermelhos, ele com certeza estava fora de si, o álcool já havia tomado conta do rapaz.

– Formem uma fila. E acho bom vocês cooperarem.

Brad queria correr, mas a dor de cabeça era mais forte, então foi empurrado para o meio da fila por um dos garotos mais velhos. E, sem saber o que fazer, permaneceu lá, cabisbaixo e com muita tonteira.

– Podem tirar as roupas – gritou alguém, depois se ouviram várias gozações por parte dos mais velhos.

Eles obedeceram, todos tiraram e ficaram apenas com suas roupas de baixo. A vez de Brad estava próxima. Ele queria sair dali, deitar e dormir, o frio estava insuportável. O garoto atrás dele não parava de tossir e rir.. pelo visto ele não era novato nessa coisa de bebida, como Brad era.

E finalmente chega a vez de Brad, que hesita muito em pular. Devido a dor de cabeça, não prestava atenção nas vaias e gritos dos mais velhos e dos novatos que já haviam saído do lago. Quando toma coragem pra acabar com aquilo tudo, sente algo quente em sua costa. O garoto risonho havia vomitado em sua costa nua e gelada, ele se afasta fazendo cara de nojo.

– Ah, mano, sai daí. Deixa que eu vou. – diz o garoto, pulando no lago.

Brad estava tentando se limpar enquanto os outros riam. Foi nesse instante que Brad ouviu um barulho que nunca mais esqueceria. A luz de uma lancha, seguida de sua buzina.

O dono estava bêbado, não viu as crianças brincando e, antes que o garoto que fora na vez de Brad pudesse sair da água, ela passa. Todos ficam estáticos.

– Cadê o garoto? – grita o garoto que subira na mesa.

– A lancha.. matou? – diz uma veterana, meio tonta.

– Minha nossa.. cadê? – fala um calouro na fila.

Uma novata grita apontando para um círculo vermelho que está se formando no meio do lago. E, subitamente, um garoto gorducho e branquelo aparece de costas boiando no centro do círculo de sangue. No mesmo instante, todos correm. Brad sai em disparada pelo mato, vendo apenas clarões por causa da bebida. Gritos, esbarrões, xingamentos, vômitos, desmaios. Isso é tudo que Brad consegue lembrar. Ele desmaia em um monte de grama, apenas com suas roupas de baixo.

Quando acorda, está em casa. Sua mãe conta a história do acontecimento. O garoto, chamado Tommy, realmente morreu. Sofreu traumatismo craniano e não resistiu. O dono da lancha foi preso e os veteranos acabaram sendo suspensos e obrigados a cumprir trabalho comunitário.

A cabeça de Brad ainda dói. Ele discerne pouco, mas de uma coisa tem absoluta certeza. Seria ele a morrer se Tommy não tivesse vomitado.

– Querido? Tudo bem? – pergunta a mãe

– Oi? S-sim, está tudo bem, mãe.

– Você não comeu nada.

– Não estou com muita fome hoje, mãe. Vou subir, depois como alguma coisa.

Sempre que lembrava o incidente, não conseguia fazer mais nada. Algo daquele incidente ainda o assombrava. Ele sentiu remorso pela morte de Tommy e o único jeito que encontrou de esquecer a culpa foi o álcool. Ele se tornara um viciado desde então, sem que ninguém nunca descobrisse.

Brad já perdeu a conta de quantas vezes chorou com uma garrafa de uísque na mão, lembrando da “noite do lago”. Agora, com 15 anos, tinha decidido dar um basta no assunto e estava destinado a parar com a dependência da bebida, mas era difícil, sempre que algo ruim acontecia, Brad recorria a isso.

Sem resistir à tentação, ele abre a bolsa escondida embaixo da cama e pega uma garrafa de vodca. Desce pela janela e corre sem saber aonde ir. Acaba parando em um parque, soluçando e lagrimando, ele senta no chão e encosta-se a um banco do parque. Depois de uma hora, termina a garrafa e volta para casa.

– Uma garrafa não faz mais efeito como antes – diz ele para si mesmo, tropeçando em algumas pedras.

Brad volta e sobe pela parede até seu quarto. Como sempre, a mãe não suspeita de nada. Ele deita e demora, mas consegue dormir. Acorda no outro dia com o estômago roncando e com dor de cabeça. Ainda dá tempo de ir à aula. Desce e devora três pães com queijo e presunto, depois sai e caminha para a parada de ônibus, pois o carro do seu pai deu problema. Enquanto caminha, pega sua garrafa esportiva e engole dois comprimidos para ressaca.

Ele chega à escola 10 minutos atrasado para o primeiro tempo, mas não vai direto à sala. Sente um enjôo no estômago e resolve ir ao banheiro. Sente a acidez perto da boca, o vômito está vindo. Ele larga sua mochila antes de entrar em um dos boxes do banheiro. Brad se agacha e começa a vomitar em uma das privadas, parando quando ouve alguém entrar, mas depois escuta a porta bater novamente e continua.

Ele sai e escova os dentes, indo à sala do segundo tempo, que já começou. Ele entra e vai até o meio da sala, onde sempre sentou. Encosta-se na carteira e finge prestar atenção na aula, lutando contra o impulso de não dormir.

Quando a aula termina, resolve ir à piscina. Mesmo não tendo natação naquele dia, Brad se achava merecedor de um descanso. Então foi ao vestiário e tirou as coisas da mochila para pôr no armário. E percebeu que havia algo estranho lá. Algo de vidro e de tamanho médio.

Uma garrafa.. uma garrafa de vodca, da mesma marca que Brad bebera noite passada. E havia um bilhete colado na garrafa, Brad leu:

Quer um drinque?

Só para relembrar os velhos tempos.

–A