Grande inauguração
1 Ponta de Estoque
“Venham, venham todos! Grande lançamento da mais nova revolução industrial. Preços e condições especiais de lançamento. Não percam! Venham, venham todos...”
O homem no alto da plataforma bradava a plenos pulmões essas e outras expressões que exaltavam as supostas qualidades do produto. Equilibrando-se numa plataforma pouco acima das cabeças dos transeuntes e usando um terno amarelo mostarda, a única coisa pior que sua roupa era sua cara. Aquele rosto lamacento com a expressão de quem está tentando segurar, de maneira desesperada, a vontade de ir no banheiro e fazer o que deve ser feito. Mesmo travando essa pequena batalha ele continua a atrair multidões, como um mestre de cerimônias anunciando as atrações e atrocidades de um circo itinerante.
Antes que me desse conta já estava no meio da massa de gente que se dirigia pra a entrada da loja. Meus compromissos, que antes pareciam tão importantes e urgentes, já estavam esquecidos. A multidão em polvorosa parecia atraída pela fala do homem amarelo e depois sugada violentamente pelos atrativos desse maravilhoso produto.
Produto do qual não tinha certeza de ter ouvido suas especificações ou atributos. Seria uma estupenda gravata autolimpante? Ou talvez um magnífico separador de claras automático? Tive a esperança que fosse, vendo meu reflexo na porta automática e constatando que meus cabelos já fugiam da testa, a cura definitiva para calvície.
Apesar de ser anunciada como a mais nova maravilha tecnológica da era moderna não havia indicação clara de onde o produto estava em exposição, por isso a multidão se dispensava pelos longos corredores. Consegui dar alguns passos distraídos indo em direção aos eletrônicos, onde achava mais provável que ele estivesse. Mãos nos bolsos e passos lentos, mas podia sentir a tensão crescendo no ar. Passos furtivos e pupilas dilatadas encarando os enormes corredores fracamente iluminados. Eu mesmo podia sentir meu ritmo cardíaco acelerando cada vez mais e meus pulmões se contraindo sobre a camisa. A emoção de uma caçada, pensei com um misto de excitação e constrangimento. Quando acharmos a presa nossos cartões que serão dilacerados. Quem é a caça e o caçador então?
Viro num corredor qualquer e finalmente o encontro. Caixas prateadas dispostas numa pirâmide com uns dois metros de altura. Uma lagoa no meio da planície árida. Sem avisos ou cartazes mas sei que são o que procuro. Sinto isso. Percebo que outros já encontraram e avançam velozmente para o objetivo. Tento parecer indiferente, mas antes que perceba já estou andando mais depressa. Correndo, na verdade. Meu paletó balança frouxamente enquanto desvio dos retardatários. No meio da corrida percebo que o produto também ocupa as prateleiras do corredor, onde alguns consumidores apanham caixas e voltam ilesos.
Por um breve momento penso em fazer o mesmo, mas antes que possa realmente pensar no assunto já estou atracado com desconhecidos que desmantelam a pirâmide furiosamente. Os leões mais valentes merecem a carne mais tenra. Os que pegaram as caixas das prateleiras observam a contenda. Alguns devolvem a caixa para as gôndolas e entram na disputa, outros simplesmente vão embora. Recebo uma cotovelada enquanto me estico. O ar falta nos pulmões mas não há tempo a perder. Avanço aos esbarrões e sinto a mão tocar a superfície prateada e fria da caixa. Sucesso. Agarro a caixa firmemente e me lanço para trás para escapar da multidão cada vez mais exaltada.
Aos tropeções me afasto e assisto às cenas da balbúrdia que, até momentos atrás, era participante. Longos e desconhecidos fios loiros jazem no chão esquecidos. Tento localizar sua dona mas a massa de gente é tão inquieta e compacta que é impossível diferenciar um par de peitos sequer.
Já não há mais nada para ver. A pirâmide já foi desmantelada por completo. Alguns ainda tentam tomar a caixa das mãos do seleto grupo de vencedores, do qual faço parte, enquanto outros admitem a derrota e esvaziam as gôndolas. Poucos saem da loja com as mãos abanando.
A fila dos caixas está assustadoramente quieta. Como se a tensão da batalha ainda não tivesse se dispersado por completo. Como se a verdadeira vitória só se confirmasse quando nosso dinheiro fosse aprisionado naquela masmorra de metal. Mal vejo a hora de ouvir a tão querida pergunta. Dinheiro ou cartão? Armas do homem moderno contra a batalha diária.
Cartão entregue e números digitados chegou a hora da verdade. O que diabos acabei de compra? Me acomodo numa mesa da praça de alimentação e estudo a embalagem. Um cubo de madeira com uns quinze centímetros de lado. Julgando pelo peso as paredes da caixa são muito finas ou o produto muito leve. Dou uma leve balançada e não escuto nada, deve haver algum protetor ou ele ocupa todo o volume da caixa. Peço um café antes do grande momento, abrir a caixa.
O café chega no exato momento que estou abrindo a caixa. A atendente olha curiosa, mas espero ela se afastar para continuar. Esse é um momento íntimo, quase um atentado ao pudor. Tampa levantada e... nada. Uma massa cinzenta com alguns pontos vermelhos. Ocupa metade da caixa, maleável em sua maioria mas com algumas áreas extremamente duras. Percebo que ela tem certa porosidade mas, derramo um pouco de café quente para atestar, incapaz de absorver líquidos. Um cheiro de queimado sobe. A triste realidade. O leão obrigado a comer carniça. Vejo outras pessoas decepcionadas com a descoberta. Pelo menos posso aproveitar a caixa. Não sei exatamente para que, mas posso. Termino meu café e vou em direção às lixeiras de lixo seletivo. Gostaria de jogar essa massa fumegante fora. Se ao mesmo soubesse exatamente o que isso é. Ainda não inventaram a lixeira específica para ações impulsivas.
Fale com o autor