Gota a gota [HIATUS]
5 Verdades
Notas iniciais
Mikoto levantou devagar encarando o marido e escondendo o espanto provocado pela frase. Uma chuva de ideias lhe ocorreu sobre qual seria o conteúdo da conversa e a ânsia por descobrir aumentou junto à quantidade de minutos que se acumulavam enquanto Fugaku não prosseguia com a fala.
Ele se aproximou o suficiente para ficar em frente a ela e ao lado do lago que ondulava calmo apesar da ausência de correntes de ar. Desviou seu olhar para o movimento das águas, vislumbrando uma parte de algo branco, laranja e escamoso que depois de alguns minutos, sacudiu-se com vigor como numa apresentação ao senhor da casa.
Fugaku piscou surpreso tentando se lembrar de ter visto o animal alguma vez. “Não”, pensou convicto. Então desde quando havia peixes naquele lago? Ele fitou Mikoto procurando a resposta, logo recordando do bilhete que avisava sobre a compra deles e a razão por não tê-los achado na geladeira.
— Há quanto tempo você sabia do casamento? — questionou sério, cravando os olhos frios nos dela.
— Soube alguns dias antes.
A voz de Mikoto soou serena, no entanto em um dado instante o tom se enfraqueceu minimamente, dando a Fugaku a certeza de que existia mais por trás daquela simples afirmativa.
— E que meu pai a escolheu para ser minha esposa?
O timbre dele guardava um traço de desconfiança aliada a uma acusação pronta para se mostrar no momento oportuno. Aquilo não só a inquietou como irritou mesmo desconhecendo o que se passava na cabeça do marido.
— Há meio ano — exprimiu com frieza, suspeitando do rumo que o diálogo tomaria.
Fugaku engoliu a raiva por se sentir enganado. Todos sabiam de seu destino, exceto ele. As escolhas foram tomadas, os personagens de sua vida, selecionados, e ele foi apenas mero espectador dos acontecimentos.
— Por que aceitou? — questionou baixo e devagar como se exigisse sinceridade.
Mikoto segurou uma réplica ríspida com muito esforço, quase não podia acreditar que algo tão absurdo cruzara o pensamento dele. Não havia outra explicação para aquele olhar senão a que feria seu orgulho, minando deste a mágoa que roçava as pontas dos dedos em seu coração. Ela precisou controlar a respiração que ameaçava se acelerar devido à revolta e devolveu o mais suave que pode:
— A resposta está debaixo do seu nariz.
Um instante de silêncio preencheu o enfrentamento entre os olhos negros que carregavam uma dureza acusadora. Mikoto decidiu seguir caminho antes que os seus lhe traíssem externando a decepção que sentia, porém foi impedida pelo braço de Fugaku que numa ordem implícita bloqueou sua passagem.
— Seja direta.
Ela não rebateu, apenas o encarou novamente. Os minutos escorreram enquanto o impasse não se dissolvia, aumentando a tensão que pesava o ar. Fugaku estava disposto a arrancar a réplica da boca de Mikoto e a impassividade dela o enervava de um modo que parecia impossível. Quando, por fim, ele tencionou fazê-la falar, uma ideia cruzou sua mente, deixando-o perplexo.
— Não me diga que... — engasgou ainda processando a possibilidade. — por acaso, você sente algo... — A voz se perdeu na certeza da expressão dela.
Fugaku abaixou o braço, vendo-a se afastar com um sentimento indecifrável no rosto. Permaneceu estático juntando os pensamentos que corriam em seu cérebro, maldizendo sua ignorância. Como pôde não ter cogitado a mais simples das razões? Como se deixou levar pelas piores, criando uma imagem terrível da mulher com a qual dividia o mesmo teto? Quando se tornara tão ruim em reconhecer o caráter das pessoas? E quando passara a desconfiar de qualquer um que se aproximasse?
Encostado no umbral da cozinha observando Mikoto, ele mal podia conter a irritação que sentia de si. Talvez o título de idiota completo tivesse vindo junto com o de líder do clã Uchiha.
— Você quer jantar? — Ela indagou de costas.
— Sim... — Limitou-se incerto sobre como deveria se portar.
Poucas situações tinham o poder de fazer Fugaku se sentir desconfortável e o primeiro jantar com sua esposa mostrou sua capacidade de deixá-lo sem saber como agir. Ele demorou muitos minutos até conseguir levar uma porção de comida à boca e outros tantos mastigando. Fitou Mikoto de esguelha algumas vezes, cuidando para que o ato passasse despercebido, ruminando sobre a conversa de outrora e a razão que levara a ela.
A jovem engoliu um naco de atum, inquietando-se com os olhares recebidos, tentando imaginar o que passava pela cabeça dele e se arrependendo do que fizera. Comer sozinha era bem mais agradável que na companhia do marido e se soubesse que ele aceitaria, não teria questionado. Apesar disso, não conseguia negar que a afirmativa lhe trouxera um risco de alegria e o momento dividido com ele, amplificava esse sentimento.
— Eu pensei que havia aceitado por interesse... — Fugaku derramou sua voz sobre o silêncio despedaçando a harmonia entre o casal.
Mikoto se enrijeceu mirando a parede, seus tendões se evidenciavam na pele branca que segurava o hashi com igual força a que segurava os vocábulos na garganta. Trincou os dentes deslizando uma arcada sobre a outra duas vezes e deixou sair:
— Sempre vivi muito bem com o que tinha e não seria dessa forma indigna que buscaria por mais.
Ela tentou voltar a comer, mas o alimento não descia, tencionou sair da presença dele, contudo se manteve ali sentindo a dificuldade de controlar as emoções que borbulhavam em seu íntimo, proibindo-se de externá-las e revestindo o peito com uma armadura de frieza.
— Desculpe. — O murmúrio soou forte e débil ao mesmo tempo. — Eu pensei em várias razões e nenhuma parecia ser a verdadeira... Não vou me perder em justificativas rasas. — Sacudiu a cabeça devagar. — Acredito que você é uma mulher que decide os passos de sua vida, por isso não aceitaria um casamento imposto, logo possuía algum interesse.
Mikoto se dividiu entre a horrível frase que ouvira e o pedido de desculpas. Havia uma parte de si que desejava perdoá-lo, a outra lhe advertia que não deveria fazer isto de modo precipitado. Deixou a mesa sem revidar qualquer palavra. Ele não as merecia naquele momento. A resposta poderia esperar até o dia seguinte, talvez a empurrasse para o outro ou pelo tempo que sentisse vontade. Preocupar-se com isto não seria problema dela.
Na semana que se seguiu, Fugaku suportou a indiferença da esposa. Nada de olhares, palavras ou dividir o mesmo ambiente além de cinco segundos. Mikoto o ignorava com uma maestria que incomodava e enchia sua cabeça de dúvidas quanto ao que fazer.
“Merda!”, bufou. Como se já não fosse difícil cuidar do clã e da polícia tendo que enterrar sua dor, ainda havia aquele casamento que jogaram em seu colo. Fugaku não sabia lidar com ele, que dirá um desentendimento. Preferia a convivência fácil com seus subordinados, resumida em ordenar e vê-los acatarem suas ordens. Sem tensão, situações desconfortáveis, pedido de desculpas e sem se sentir um patife por ter atirado sua sinceridade na cara de alguém.
— Capitão. — Yashiro chamou, percebendo que havia desperdiçado sua saliva. Fugaku tinha uma estranha habilidade de parecer atento quando estava absorto. — Problemas em casa?
O líder Uchiha estacou o passo com força, virando o rosto com o semblante carregado.
— Por que diabos acha que tudo se relaciona ao meu casamento?! — bradou provocando um arrepio na espinha de Teru, que os acompanhava em silêncio até então.
— Ele não disse por mal, capitão... — O soldado falou baixo, levantando as mãos em sinal de rendição após receber um olhar fulminante.
— Foi apenas uma pergunta. Desculpe se o ofendi.
— Uma pergunta... — Fugaku remendou. — Tenho cara de quem está com problemas em casa?
Yashiro e Teru se olharam rapidamente, concordando em ficarem calados. A dose de mau-humor recebida fora suficiente e continuar a conversa não renderia outra coisa além de dor de cabeça.
Fugaku teve vontade de mandá-los para o inferno, porém se conteve, não queria explicitar os infortúnios de seu matrimônio. Continuou o caminho tentando não alimentar a irritação provocada pelo par de intrometidos num mutismo que os deixou igualmente tensos e aliviados.
Kagami aguardava o líder na sede da polícia, observando os detalhes do cômodo de forma distraída, às vezes, concentrava-se num detalhe, mas logo os pensamentos dispersavam para longe. Embora sua presença ali não passasse de um bunshin, a tranquilidade falhava em abraçá-lo. Ainda estava se acostumando a se distanciar do filho e mal podia pensar no dia em que teria de deixá-lo sob os cuidados de outra pessoa.
Ele percebeu a surpresa de Fugaku ao vê-lo e mostrou uma expressão amigável que foi recebida com seriedade junto ao franzir de cenho que indicava um questionamento.
— Sinto por não ter vindo até você antes. Ser pai exige muito de mim.
— Você tem a sua própria vida para cuidar. Não se preocupe com a minha.
Kagami piscou devagar avaliando a hostilidade do jovem líder. De fato ele havia mudado como ouvira falar, pouco lembrava o rapaz que cumpria seus deveres sem mergulhar neles a ponto de permiti-los moldar seu espírito. Quem o olhasse agora jamais diria que era alguém que pudesse inspirar simpatia ou manter uma conversa agradável.
— É verdade, eu tenho, mas isso não me deixa cego para as outras. Mesmo que a minha esteja ruindo, não deixarei de olhar por um amigo.
Fugaku sentiu a saliva descer pesada diante da fala e os olhos serenos de Kagami, havia neles a compreensão e empatia próprias daqueles que bem sabiam o gosto de perder quem se ama, e isto perturbou a solidez de sua máscara.
— Tem o direito de perder tempo com o que quiser.
— Não considero perda — rebateu calmo. — Se precisar de mim... — Meneou a cabeça em despedida e sumiu em uma nuvem de fumaça.
A solidão se aproximou de Fugaku tornando a ausência de Kagami um desconforto inexplicável, apontando a realidade irrefutável e amarga que se apoderara da vida do primeiro, facilmente descoberta pelo último.
Voltar para casa e encontrar Mikoto foi a cereja do bolo de um péssimo dia. O clima parecia ter piorado, pesava e se arrastava pela casa marcando os móveis e objetos, engasgava com a certeza de uma situação insustentável e fez Fugaku se esquecer de procurar o melhor modo de falar com a esposa. Ele parou em frente à porta do quarto convicto quanto à atitude, contudo a passagem dos minutos minou a firmeza de sua decisão. O que diria? Que não aguentava mais se sentir um intruso dentro do próprio lar, que a raiva dela estava beirando ao exagero? Não. Porque em suas mãos não cabia julgar a última circunstância nem reclamar da primeira, ambas foram consequências de sua estupidez e deveria aprender a suportá-las.
Respirou resignado, esperaria o momento em que ela voltaria a lhe dirigir a palavra através de bilhetes, virou as costas percorrendo o curto trajeto até seu quarto e fitou de esguelha a porta que abandonara antes de abrir a sua.
— Espere. — Mikoto pronunciou decidida. — Você vai me ouvir.
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