Ele olhou nos meus olhos novamente, eu vi. Apesar de tentar esconder-se de mim, de tentar esconder aquele desejo seu, eu sabia que ele estava afim de me ter naquela noite. Observava meus modos, meu sorriso e tudo o mais. Mas eu não estava nem aí pra isso, havia outra coisa me incomodando: a demora de Paulo.

Já estava ali para há vinte minutos e nada de Paulo. Simplesmente não aguentava mais o tiquetaquear irritante do relógio na minha cabeça. (Eu também não entendia por que diabos aquela merda de relógio estava ali, mas também não me importava muito com porquês e nem teria percebido a presença dele ali, se não fosse a merda da demora).

Pedi uma taça de vinho ao garçom que passava por ali lá pela quinta vez perguntando se eu queria alguma coisa. Ele sorriu, divertido, com a rispidez com que eu respondi.

— Ela está atrasada? — perguntou ele. — Meu filho, não se aflija...

Eu sorri, constrangido. Não era ela. Odiava esse tipo de saia justa e me envergonhava de verdade quando isso acontecia, mas já havia aprendido a lidar com a situação.

— Claro — respondi e dei um sorriso. Eu sabia que o sorriso havia saído amarelo e, por isso, o desfiz rapidamente.

O garçom ficou com aquele sorrisinho no rosto e logo saiu para pegar minha taça. Nesse meio-tempo, meu celular vibrou na mesa. Eu o peguei de lá; era uma mensagem de Paulo:

“Amor, estou preso no trabalho. Não vai dar pra te ver hoje, mil perdões.”

Eu suspirei. Tudo bem.

O garçom trouxe minha taça de vinho e eu bebi de um gole só, visivelmente irritado. Pedi a conta e o garçom trouxe rapidamente. Paguei e saí do restaurante, caminhando com cuidado pelas mesas. Atravessei a rua e mal estava entrando no meu carro quando ouvi um psiu forte. Claro que eu já imaginava quem era, mas olhei mesmo assim.

Era o garoto do restaurante que vinha atravessando a rua. Ele tinha um sorriso bonito e o trazia estampado no rosto quando me cumprimentou.

— Olá, boa noite.

— Oi. O que você quer?

— Eu vi você me olhando lá dentro. — disse, sinicamente. — Então resolvi vir perguntar o que queria.

— Ah meu Deus... — eu disse, suspirando. — Olha, eu não estou bem agora. Se você está realmente interessado em mim, me liga.

Eu abaixei para pegar meu cartão de visitas de advogado — que eu era — dentro do carro e entreguei. Ele sorriu fracamente, pegou, guardou no bolso e depois voltou para dentro do restaurante. Eu suspirei, entrei no carro e voltei para casa, chateado. Novamente, Paulo furara comigo.