Got My Heart In Your Hands
119 Vitória ou derrota?
Notas iniciais
Desisti. E isso é a coisa mais triste que tenho a dizer. A coisa mais triste que já me aconteceu. Eu simplesmente desisti. Não brigo mais com a vida, não quero entender nada. Vou aos lugares, vejo a opinião de todo mundo, coisas que acho deprê, outras que quero somar, mas as deixo lá. Deixo tudo lá. Não mexo em nada. Não quero. Odeio as frases em inglês, mas o tempo todo penso “I don’t care”. Me nego a brigar. Pra quê? Passei uma vida sendo a irritadinha, a que queria tudo do seu jeito. Amor só é amor se for assim. Sotaque tem que ser assim. Comer tem que ser assim. Dirigir, trabalhar, dormir, respirar. E eu seguia brigando. Querendo o mundo do meu jeito. Na minha hora. Querendo consertar a fome do mundo e o restaurante brega. Agora, não quero mais nada. De verdade. Não vejo o que é feio e o que é bonito. Não ligo se a faca tirar uma lasca do meu dedo na hora de cortar a maça. Não ligo pra dor. Pro sangue. Pro desfecho da novela. Se o trânsito parou, não buzino. Se o brinco foi pelo ralo, foda-se. Deixa assim. A vida é assim. Não brigo mais. Não quero arrumar, tentar, me vingar, não quero segunda chance, não quero ganhar, não quero vencer, não quero a última palavra, a explicação, a mudança, a luta, o jeito. Eu quero não sentir. Quero ver a vida em volta, sem sentir nada. Quero ter uma emoção paralítica. Só rir de leve e superficialmente. Do que tiver muita graça. E talvez escorrer uma lágrima para o que for insuportável. Nada pessoal. Algo tipo fantoche, alguém que enfie a mão por dentro de mim, vez ou outra, e me cause um movimento qualquer. Quero não sentir mais porra nenhuma. Só não sou uma suicida em potencial porque ser fria me causa alguma curiosidade. O mundo me viu descabelar, agora vai me ver dormir. Eu quis tanto ser feliz. Tanto. Chegava a ser arrogante. Tanta coisa dentro do peito. Tanta vida. Tanta coisa que só afugenta a tudo e a todos. Ninguém dá conta do saco sem fundo de quem devora o mundo e ainda assim não basta. Ninguém dá conta e quer saber? Nem eu. Chega. Não quero mais ser feliz. Nem triste. Nem nada. Eu quis muito mandar na vida. Agora, nem chego a ser mandada por ela. Eu simplesmente me recuso a repassar a história, seja ela qual for, pela milésima vez. Deixa a vida ser como é. Desde que eu continue dormindo. Ser invisível, meu grande pavor, ganhou finalmente uma grande desimportância. Quase um alívio.
POV: David
Já era noite, e então, deitei-me na cama e comecei a ler os poemas em meu diário.
“Como um fantasma, desapareceu. Levou consigo histórias, sonhos, planos e esperanças. Deixou mágoa, lágrimas e saudades. A dor da falta de presença é diferente da dor do fim. Quando resolvemos um caso, terminamos uma história, sabemos que vai doer, mas vai passar. Mas a dor dos sonhos interrompidos, sem saber que vai continuar, da falta da presença sem saber se vai voltar, do abraço que não sabemos se vamos dar ou o olhar que não mais nos verá; essa dor não tem prazo para acabar. O sonho colorido que saíra de trás do arco-íris acabou. O mocinho acordou e ao olhar para os lados viu apenas solidão. Seu conto de fadas embaralhado agora é pesadelo e escuridão. Tentando procurar a luz, achou um apoio, uma vida, uma esperança. Achou uma vida diferente, na fé, onde a tristeza não tem lugar. Achou amigos, música e ação. Achou de novo esperança e emoção. O sorriso voltou a reinar, as lágrimas foram deixadas no passado e a nuvem que o seguia se dissipou. Ele viu a luz, viu o sol e chorou. Chorou porque se livrou da dor que sentia, chorou porque sentiu mais uma vez a energia fluindo pelo seu corpo, chorou porque a falta daquele que um dia lhe fez muita falta acabou e ele ainda estava aprendendo a lidar com isso. Ele entendeu que a dor da falta de presença nunca acaba, mas se transforma. E entendeu que depende apenas dele essa transformação. Podemos ter lembranças saudáveis e felizes ou apenas um passado, que fizemos força para mudar, aprender e esquecer.”
Sem querer, deixei derrubar lágrimas de meus olhos, que estavam escorrendo pelo meu rosto e molhando o meu pescoço. Pierre veio até mim e afagou meu cabelo com uma das mãos.
─ Por que está chorando?
─ De felicidade, Pierre. Você se livrou.
─ Mas meus pulsos estão doendo muito.
─ Claro, você se cortou. Me promete uma coisa?
─ O que você quiser.
─ Promete que nunca mais vai se cortar?
Pierre pensou um pouco para me responder.
─ Eu não sei, David... Cortar os pulsos é uma dor muito menor do que a dor que eu sinto no peito. A dor dos pulsos é suportável.
─ Mas eu não acho suportável. Eu não consigo vê-lo assim.
─ Eu vou melhorar, eu prometo. Quando eu sentir dores, vou recorrer a você, e não as lâminas.
─ Isso.
Outra vez eu estou caindo de joelhos
Eu tento escapar, porque não consigo agüentar
Agora esse sentimento está se espalhando como uma doença
Eu forjo outro dia e a vida continua
Esse lugar é tão patético
Ninguém entende?
Tem alguém em casa?
Nada restou
Nós somos apenas uma sombra do que éramos antes
Na noite, há um fogo nos meus olhos
E esse paraíso se tornou um lugar em que viemos a chorar
Quando abro sua carta, as palavras me deixam melhor
Leva tudo embora
Isso me faz continuar agüentando firme
Aqui estamos nós, fingindo que estamos bem
Você pode falar o que quiser, mas ainda não consegue me enganar
A vida que estamos vivendo é tudo um disfarce
Eu tento sorrir, mas não consigo me lembrar como
Então, como ficamos tão desgatados?
É tão complicado
Não desistir de mim?
Na noite, há um fogo nos meus olhos
E esse paraíso se tornou um lugar em que viemos a chorar
Quando abro sua carta, as palavras me deixam melhor
Leva tudo embora
Quando eu precisar de você
Pra onde quer que eu corra
Eu sei onde te encontrar
Isso me faz continuar agüentando firme
Quando eu precisar de você
Pra onde quer que eu corra
Eu sei onde te encontrar
Isso me faz continuar agüentando firme
Na noite, há um fogo nos meus olhos
E esse paraíso se tornou um lugar em que viemos a chorar
Quando abro sua carta, as palavras me deixam melhor
Leva tudo embora
Isso me faz continuar agüentando firme
Quando eu precisar de você
Pra onde quer que eu corra
Eu sei onde te encontrar
Isso me faz continuar agüentando firme
Quando eu precisar de você
Pra onde quer que eu corra
Eu sei onde te encontrar
Isso me faz continuar agüentando firme
─ Eu canto essa música toda vez que me sinto mal.
Suspirei fundo ao ouvi-lo.
─ Ela te ajuda? — Perguntei.
─ Sim, David. Eu escrevi quando eu estava derrotado, e então quando canto ou escuto, essa música me ajuda, mesmo sabendo que é de minha autoria.
─ Então agüente firme. Continue agüentando firme, mesmo se houver fogo em seus olhos à noite.
─ David...
─ Sim?
─ Eu te amo.
Sorri e o beijei.
POV: OFF
Hayley estava em sua casa vendo um filme com o Patrick quando decidiu ir ao banheiro. Deu um último selinho em Pat e foi até as escadas, mas de repente, torceu o pé e acabou caindo escada abaixo. Patrick escutou o ruído das escadas, e foi verificar. Ao descer as escadas, avistou Hayley no chão, desacordada.
─ O bebê! — Gritou ele.
Saiu depressa de casa com Hayley no colo e a levou até o carro, correndo imediatamente para o hospital. Não ficara tão longe, e ele dirigiu bem até lá. Foram atendidos rapidamente, e Hayley foi acordando aos poucos.
─ O que houve? Ai, que dor de cabeça.
─ Você caiu da escada, meu amor. — Respondeu Patrick.
─ Meu bebê! — Gritou Hayley desesperada.
─ Não vai acontecer nada.
─ Doutor... Eu perdi o bebê?
Hayley olhou para o médico, aflita.
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