Got My Heart In Your Hands
162 Viagem inesperada
Notas iniciais
Pierre’s pov
Flashback
Aquela monotonia de Montreal já estava me deixando exausto. E, de alguma forma, aquela tranquilidade me inquietava. Despertei naquela manhã de sexta com um mau presságio... Excelente maneira de dar início ao fim de semana.
David estava alongando-se na cama. Ficamos assistindo filme até tarde no dia anterior, abraçados próximos à lareira e deitados no sofá, cobertos por um cobertor felpudo. Estava tudo lindo, até eu acordar hoje com dores no peito... Mas acho que não é nada, talvez seja um lembrete para que eu improvise algo para aperfeiçoar o meu dia.
Caminhei até o banheiro cautelosamente para não acordar David — ele havia voltado a dormir logo que esticou o corpo — e tranquei a porta. Despi-me, pendurei a toalha sobre o box e liguei o chuveiro. Encostei minha cabeça na parede enquanto a água quente escorria por todo o meu corpo, e em seguida decorri aos meus férteis pensamentos... Pensei na vida, nos amigos, na minha antiga escola... Que saudades! Eu podia estar em uma faculdade agora, sim, eu podia... Eu queria dar orgulho aos meus pais, apesar de ambos falarem que o fato de eu estar fazendo sucesso no mundo inteiro já era o suficiente para eles se orgulharem de mim, e é isso que me faz seguir em frente.
Eu estava sonhando acordado, literalmente, e quando saí de meu transe, espalhei sabonete pelo corpo. Quando retirei o mesmo, coloquei o shampoo Dove em meu cabelo e esfreguei. Esfreguei até retirá-lo inteiramente de minha cabeça, e depois desliguei o chuveiro.
Apanhei a toalha que eu havia depositado antes no box e me sequei. Saí de lá após dois minutos e David ainda estava em um profundo sono. Não quis acordá-lo, então me vesti em silêncio. Deitei na cama novamente e me encolhi sob as cobertas, envolvendo um dos braços ao redor do corpo de David... Seu corpo estava quente, o que me deu mais vontade de agarrá-lo. Dominei meu desejo, e fiquei o observando dormir. Ele era admirável dormindo... Aliás, quando que ele não fica assim? Parece um neném, um anjo. Um anjo de cabelos negros.
Depositei vários beijos em seu rosto, percorrendo um caminho até chegar a seus lábios, onde era o meu destino final. Deixei um selo demorado em sua boca, e voltei a fitá-lo... Ele realmente tinha sono profundo, não despertava por nada nesse mundo.
Olhei no relógio e já era onze da manhã... Quase tarde. Aproveitei que David ainda estava praticamente babando em seu travesseiro e fui tomar conta de Melanie, Lennon, Delilah e seus filhotes. Lennon já estava grandinha, sabia andar e falar. Melanie era esperta, e Delilah... Bem, eu ainda tinha que discipliná-la. Só essa semana perdi dez sapatos, tudo porque a danada comeu.
Levei-as até a cama, e como por encanto, David abriu os olhos... Acredito que ele ouviu a Lennon gritando...
─ Papai!
─ Oi princesa. — Ele murmurou sonolento.
─ Não vai cumprimentar o seu príncipe? — Sacaneei.
─ Oi príncipe! — Ele selou os meus lábios.
─ Vou pra casa do meu avô...
...
– O que é isso? — Ele disse colocando os dedos por cima das cicatrizes.
– Ah, são só. — Eu hesitei ao falar. – problemas. — Eu disse escondendo meu braço.
– Pierre, você nunca foi de fazer essas coisas. — Ele disse olhando nos meus olhos.
– Eu sei vovô, e te prometo que nunca mais vou fazer isso. — Eu disse sorrindo.
– Promete?
– Sim.
– Pierre... — Ele me olhou com um ar de desconfiança.
– Vamos lá, eu sou um Bouvier também!
– Sei disso, vou confiar em você.
– Tá bem.
...
– Não vou quebrar a promessa vovô. — Eu disse sorrindo e largando o caco de vidro.
...
– Pierre, lembra de mim? — Aquele jeito, era...
– Marcela?
– Eu mesma.
– Por que está no corpo do meu avô?
– Pra te fazer sofrer, é claro.
– Deixa ele em paz!
...
E agora? Meu avô está morrendo... Não! Não! Não!
Morreu em meus braços.
Flashback off
Decidi voltar para a minha casa, depois de um dia muito perturbador. Enterrar uma pessoa que representa tudo em sua vida é complicado. David percebeu que eu estava chorando, assim que abri a porta, e então ele perguntou:
─ Pierre, o que aconteceu?
─ Eu prefiro não falar sobre isso. Depois te conto. — Sussurrei, em meio a alguns soluços.
─ Fique bem... — Ele acariciou o meu rosto.
─ David...
─ Que foi?
─ Você se lembra de um dia ter me falado que queria ir a Portugal?
─ Sim...
─ Pois então eu vou realizar o seu sonho. — Disse mostrando duas passagens para ele.
─ Como assim, Pierre? — Ele se animou e pegou as passagens de minhas mãos, ficando encantado ao ver “Portugal” escrito ali.
─ Vamos tomar vinho do Porto, conhecer Lisboa, a Ilha da Madeira... Vamos desfrutar das terras portuguesas.
─ Mas você me parece triste, Bouvier.
─ Eu sei, mas eu preciso de algo para me distrair. E prefiro não pensar no que aconteceu.
─ Está bem.
Pude perceber os pontos de interrogação que se formavam em volta da cabeça de David, procurando um jeito de entender o que estava acontecendo comigo, e também por curiosidade. Eu apenas ri, tentando de alguma maneira esquecer o que ocorreu, e eu até estava alcançando esse objetivo, se não fosse pelas apunhaladas no coração. Mas pelo menos os prantos havia se acabado.
─ Venha, Pierre... Vamos arrumar as malas.
─ Já fiz isso.
─ Como?
─ Eu planejei tudo antes de ir à fazenda.
─ Espertinho... — Ele apertou o meu nariz.
Eu ri por mais uma vez, e fui trocar de roupa. Vesti-me depressa, e David também. Apanhei as malas e fui levando-as até o carro. Como eram malas grandes, decidi colocar no porta-malas, e também, Melanie e Lennon iriam conosco, então obviamente, não daria para pôr as malas no banco traseiro.
Enquanto terminava de posicionar a bagagem no porta-malas, David foi trazendo Melanie e Lennon. Melanie foi colocada no banco traseiro, com um cinto de segurança prendendo o seu corpo, e Lennon foi colocada sobre a cadeirinha própria para ela. Logo em seguida, David a prendeu com o cinto de segurança também. Era magnífico ver o cuidado que ele tinha com elas.
Quando ele finalizou, fechou a porta, e direcionou-se até a porta do passageiro. Sentou no banco com cuidado e envolveu o cinto de segurança em seu corpo. Por Deus, até o modo com que ele se sentava era lindo.
Sorri de forma boba, e fui até o lado do motorista, abrindo a porta e me sentando sobre o banco. Passei o cinto de segurança em volta de meu corpo e girei a chave na ignição. David me olhava atentamente... Aqueles lindos olhos que quando brilhavam ficavam esverdeados.
Liguei o carro, rindo baixinho ao escutar o barulho do motor potente. Carro que meu pai me deu de presente. Assim que eu retornar a Montreal, vou visitá-lo, porque estou com saudades e eu não o vejo há muito tempo. Muito show para fazer, e também agora morando com David, a responsabilidade aumenta, juntamente com a falta de tempo. E por falar em David, ele estava lindo me observando pelo retrovisor do lado de fora, pude perceber enquanto desviava meu olhar para lá também.
Ele jogou um beijo para mim, e eu o retribuí, deixando que um sorriso doce e largo se formasse em meus lábios. Voltei a prestar atenção ao trânsito, girando o volante para fazer a curva, e logo acelerei um pouco o carro, parando o mesmo quando cheguei ao semáforo, que estava no vermelho.
David segurou uma de minhas mãos, que estava quente, enquanto a dele estava fria. Trocamos olhares, e ele indagou:
─ Aonde você vai deixar o carro?
─ Em algum lugar.
─ Não vão roubar?
─ Acho que vou deixar na casa do Joel, é mais seguro.
Ele assentiu com a cabeça, e enfim cheguei à casa de Joel. Julie acenou para mim quando me avistou pela janela, e eu estacionei o carro na garagem, tendo a certeza de que estaria em boas mãos.
Retirei Melanie, Lennon e Delilah com seus filhotes em uma caixa própria para levar ao avião, após retirar as malas, e fui caminhando até o aeroporto com o David. Por sorte, não era tão longe.
Quinze minutos depois, chegamos ao nosso destino. Enfrentei uma fila assombrosa para o check-in, mas após tanto tempo de espera, eis que surge a nossa vez. Apresentei os nossos passaportes e coloquei as bagagens para despachar, deixando apenas as de mão perto de nós. Agradeci e entrei, sentando-me nos bancos e aguardando o nosso vôo. Melanie olhava em volta, enquanto Lennon dormia no colo de David.
─ Ainda não acredito que vamos para Portugal. — Cochichou David, o que me fez sorrir.
─ É o mínimo que posso fazer por você. — Cochichei também.
Ele sorriu, e eu logo ouvi o número do nosso vôo sendo anunciado. Apanhamos as bagagens de mão e corremos. Apresentei novamente os nossos passaportes e adentrei ao avião, sentando-me no assento correspondente ao que estava na passagem. Coloquei as bagagens no guarda-volumes acima e prendi o cinto de segurança em minha cintura. David fez o mesmo, enquanto segurava Lennon de maneira firme. Delilah ficou próxima aos outros animais, em outro departamento.
Enquanto as aeromoças davam instruções de como usar as máscaras de oxigênio e colocar os cintos de segurança, David, ao meu lado, não conseguia parar de rir.
─ Para, David! — Exaltei e cutuquei a lateral de seu corpo com o meu cotovelo.
─ Isso é engraçado.
─ Eu sei, mas para.
Quando o avião levantou vôo, após acelerar contra a pista, senti um frio na barriga. Melanie reagiu bem a essa primeira experiência, e Lennon nem se importou, continuou dormindo no colo de David.
─ Não vai roncar, Pierre.
─ Eu não vou dormir, estou ansioso.
─ Portugal, nos aguarde...
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