Sexta-feira, 13 de Julho de 2012


Narração: Pierre

Nunca acreditei em azar. Depois do que me aconteceu hoje, confesso que vou repensar isso. Como de costume, acordei às seis horas da manhã. Não tinha energia elétrica, tive que tomar banho frio. Quando fui tomar meu pingado, o leite estava estragado. Quando fui calçar meu tênis, arrebentou o cadarço e demorei meia hora para encontrar outro. E agora onde está a nossa cachorra?

Narração de Pierre: OFF


– Delilah! – Gritou Pierre ao ver que sua mascote havia fugido pela janela.

Saíram correndo para procurar a nova mascote da banda. Ela estava querendo mostrar alguma coisa a eles. Decidiriam seguir a cachorra, e então, ela começou a latir muito, mostrando algo que estava escondido nos fundos do hotel.

– Delilah está muito desesperada.

– Ela está querendo nos mostrar algo, Pierre.

– Sim, David.

O ruído do vento, os galhos das árvores batendo umas nas outras... Era tão assustador. Continuaram fixados em Delilah, que ainda latia, quando de repente, uma senhora se aproximara:

– Meus jovens, por que estão aqui nos fundos do hotel?

– Nossa cachorra escapou e estamos procurando. – Respondeu Pierre.

– Vocês não deviam estar aqui.

– Por que não? – David ficou curioso.


O motivo era que toda sexta-feira 13, um homem mascarado escolhia as suas vítimas, e depois de escolhida, suas partes do corpo eram arrancadas e ingeridas por este. Órgãos como coração, olhos, cabeças, orelhas, e muitas outras coisas. Mas o ato durava apenas neste dia, que era considerado o dia do terror, o mais sombrio e macabro do planeta. As melhores vítimas eram aquelas que possuíam muito medo.

– Pierre, atrás de você. – Chuck falou assustado.

Pierre olhou para trás e o homem mascarado estava com um machado na mão. Se Bouvier não tivesse olhado rapidamente, sua cabeça teria sido arrancada. Todos começaram a correr, mas o monstro era forte e rápido. Ele obtinha asas, e através do olfato, ele conseguia perceber quem estava com muito medo, fazendo assim, escolher a sua vítima pelo cheiro do pavor.

– Por que ele está atrás de nós?

– Pierre, você não prestou atenção na história? Toda sexta-feira 13 ele vem para se alimentar.

– Sébastien, e se ele arrancar as partes do nosso corpo e comer?

– É por isso que temos que correr.


O homem, que avistou Laurence correndo, desceu rapidamente e a raptou, tentando arrancar algo dela. Ouviram-se gritos de socorro, e também Laurence chamando pelo namorado.

– Laurence?

– Sébastien, olha ali. – Apontou Avril.

– Laurence! – Sébastien saiu correndo para tentar impedir a morte de sua namorada. – Ela está grávida.

– Seb, cuidado. – Disse Laura, também apavorada.

– Amor, me ajuda. – Laurence gritava, pois o homem estava farejando para ver se ela era uma boa vítima, ou seja, se estava com muito medo.

Pierre avistou o machado que ele usava para matar as pessoas, e então apanhou o mesmo e acertou-o na cabeça, fazendo o homem cair ao chão. Laurence pôde sair dali com segurança e ficar perto do seu amor. De mãos dadas, eles saíram correndo, acompanhados dos outros que estavam atrás. Mas, pela surpresa de todos, o malvado não havia morrido, e livrou-se do machado em sua cabeça, arremessando ele longe, acertando a perna esquerda de Joel, que o fez gritar de dor e ajoelhar-se no chão.

– Joel. – Avril aproximou-se do rapaz, que gemia de tanta dor.

– Vá. Eu fico aqui, não arrisque sua vida.

– Eu não posso lhe deixar sozinho, somos amigos. – Avril colocou Joel em suas costas.

– O que está fazendo? Você não vai suportar.

– Eu já carreguei o David nas costas. Vamos, eu não deixarei você aqui.

Avril tentava correr com Joel em suas costas, mas devido ao peso, ela teve que diminuir os seus passos. Viram um carro abandonado e imediatamente pensaram em quebrar o vidro para entrar, mas alguém o havia deixado aberto. Pierre se ofereceu para dirigir, porém a marcha estava emperrada.

– O que eu faço? A marcha está emperrada.

– Força. – Chuck tentou ajudar, mas realmente estava difícil.

– Vamos tentar todos. No três, todos puxam. Um... Dois... Três. – Todos puxaram a marcha, e finalmente, ela desemperrou. Puderam sair dali salvos. Mas, eles estavam longe do hotel, pois tiveram que correr muito. E o que eles iriam fazer com o segundo show no Brasil? Isso era o que menos importava no momento, eles só queriam sair daquele pesadelo vivos.

O vento soprava, tão gélido que atingia a alma. As árvores, até então normais, balançaram fantasmagoricamente. Eles escutaram um barulho que parecia o de cães correndo pela reserva.

– Deve ser ele se aproximando. Acelera aí, Pierre. – Implorou David.

– Não dá.

– Por que não?

Pelo azar de todos, a gasolina havia acabado, e não havia nenhum posto por perto para abastecer. Pensaram em empurrar o carro, mas isso iria levar séculos, e o monstro poderia pegá-los. Então, decidiram correr o mais rápido possível. Joel ainda permanecia nas costas de Avril.

– Por que temos que dar a volta? Vamos andar o dobro do caminho! – Queixou-se David. – Podíamos pegar a trilha na reserva.

Pierre suspirou. Já havia anoitecido. A enorme lua cheia, normalmente grande e redonda no céu, com seu brilho prateado, estava encoberta por nuvens espessas desde que nascera.

– Nem pensar! – Gritou Patrick lá de trás.

– Por aqui é mais seguro.

– Como pode ter certeza disso, Pierre? Ele deve estar aqui por perto.

– Odeio andar à noite no meio de árvores assim. – Confessou Jeff uma hora. – E ainda por cima andar numa floresta à noite, sexta-feira treze e lua cheia...

– A lua nem está aparecendo. – Respondeu Pierre, rindo um pouco tenso.

– Eu sei, mas é estranho. Me lembra aquele filme Lobisomem, onde o cara se transforma e arranca as tripas das pessoas.

Dessa vez Pierre riu de verdade.

– Você assiste filmes demais. Acho que está viajando!

Jeff o olhou de esguelha.

– Admita, você também está com medo.

– É, estou. O lobisomem vai me pegar. – Disse Pierre.

– Você não leva nada a sério mesmo. Quando se der conta, vai ser raptado pelo monstrinho.

– Eu não. – Na mesma hora que Pierre o reprimiu, o homem o agarrou pelo ombro. Ele possuía garras fortes e unhas afiadíssimas, que estavam machucando Bouvier. Já estava sendo levado para cima, quando David teve a brilhante idéia de puxar Pierre pelas pernas, e por sorte conseguiu, mas o ombro de Bouvier estava sangrando muito, e parte da sua camiseta havia se rasgado.

– Vamos fazer uma fila, e assim veremos qual de nós ele quer. – Disse Chuck.

Todos concordaram e fizeram a fila. Avril foi a primeira, e o homem rejeitou. Chuck foi o segundo, e também foi rejeitado. David foi o terceiro, e o mascarado piscou para ele, mas ainda assim, chamou pelo próximo. Jeff, Joel, Laura, Laurence, Patrick e Sébastien foram rejeitados por ele, mas quando chegou a vez de Pierre, a face dele começou a se transformar, e a saliva já se escorria. Bouvier parecia ser quem ele queria.

– Pierre, ele quer você. – David se apavorava, pois sabia que podia perder o seu namorado a qualquer momento.

– Calma. Eu vou fazer de tudo para permanecer ao seu lado, não vai me acontecer nada. – Pierre tentou acalmá-lo.

Sébastien olhou para trás, decidido a ver o que tinha acontecido com os outros. O vento continuava a soprar até que um ruído nauseante percorreu todo o espaço onde eles estavam. Pareciam panos molhados atingindo algo. E depois outro ruído. — Esse ele reconheceu. Era o mesmo som que escutara aos quinze anos, quando caíra de skate e quebrara a perna. Só que esse parecia milhares de pernas sendo quebradas.

– Laura! – Gritou ele. Olhou para trás para pedir a Laurence para não sair de perto dele, mas ela já não estava mais lá.

Em pânico, não sabia para qual lado ir. Ele ainda podia escutar passos e, um instante mais tarde, tudo voltou ao silêncio habitual. Ele escutou apenas um curto gemido, e o que poderia ser milhões de tecidos se rasgando. Mas era a sua namorada, machucada, pois ele havia tentado pegá-la novamente, e Laura estava dolorida tentando salvar a vida de sua irmã, porém tudo ocorreu bem novamente.

Eles correram através dos galhos e dos troncos, cada vez mais rápido, sem encontrar nada. Chegaram a pensar que talvez estivessem andando em círculos quando novamente ruídos de passos começaram a se aproximar, cada vez mais fortes. Eles continuavam correndo. Sem pausa, sem pensar. Olharam um instante para trás e, quando se viraram, o corpo de Pierre estancou no lugar, rígido como um pedaço de rocha.

Aquele monstro era a coisa mais horrível que já haviam visto em todas as suas vidas. Mais de dois metros, corpo deformado... Existia a lenda de que ele foi queimado por ácido sulfúrico. O fôlego de morte bateu contra o rosto de Pierre, pois havia sido escolhido, e ele sentiu como se fosse desmaiar. A coisa se levantou e avançou contra ele, que tentou fugir, rezando para ser rápido o suficiente.


Algum tempo depois...

– Tem certeza que está bem? – David perguntou.

– Estou bem, sério. – Respondeu Pierre.

David, que sempre foi o mais coração-mole, estava muito preocupado com Pierre, com medo de que ele ficasse traumatizado. Mas era apenas sexta-feira 13, e todos eram cientes. Segundo eles, isso não iria estragar o show. Já que eles estavam no Brasil para isso, que aconteça o show, afinal, era o único jeito de esquecer-se do pesadelo e encher de energia. O dia já havia se acabado, era meia-noite. O monstro se fechara, como se estivesse amassando um papel. Era horrível, mas felizmente aquele martírio havia se acabado, e todos voltavam felizes para o hotel. Delilah, que ladrava ao longe, voltou ao encontro dos meninos. Pierre pegou-a no colo e foram caminhando. Sexta-feira 13 é dia do azar e da morte? Não para eles.