Got My Heart In Your Hands
117 Por quê?
Notas iniciais
Quem quiser dar uma olhada no clipe: http://www.youtube.com/watch?v=jHmSyGjf6BA
Eu amo Green Day, e acho que vou ao show em Dezembro. *-*
POV: David
Amanheceu. As coisas não seriam melhores lá fora. Porta entreaberta, relógio indicando oito horas da manhã, roupas e livros por todos os lados. Sinto falta de ter alguém ao meu lado. Não que o Pierre não seja esse alguém, mas de algum modo, eu estou com uma angústia muito grande, o coração aperta só de imaginar. Mas eu sei que devemos seguir a vida, levantar, sair do camarim e encarar o público, como se estivéssemos em um concerto, mas todos dormindo de tanto tédio. Tédio pelo simples fato de estarmos calados e decepcionados. Nada de bom acontece, ultimamente só tenho recebido facadas, daquelas que quando cravada no peito, formam uma enorme ferida. Cotidiano, tudo é igual. Minha vida não é colorida, muito menos feliz. Eu tento ser feliz, e só consigo isso ao lado de Pierre, mas vez ou outra algo nos apunhala pelas costas. Depois que Sarah se foi, tudo ficou cinza, gelado e morto.
Levantei-me, abri as janelas, deixei a brisa matinal entrar... Flores mortas na janela, gente correndo e buzinas de carros por todos os lados. A platéia continua dormindo e eu estou esperando algo de importante acontecer para eu sair do camarim; de repente, o silêncio tomou conta do meu quarto e acabou me machucando tanto... Às vezes o silêncio pode falar mais alto do que alguém com um alto falante. O inverno se tornou presente há alguns dias atrás; cabides, agasalhos, luvas de frio e uma vontade imensa de não levantar da cama. Pássaros, me deixem dormir um pouco mais. Mas de que adiantava? Eu tinha o desperta(dor). Quando tocou, pensei: “Não precisa gritar, eu já acordei.” Esfreguei ambas as mãos em meus olhos por estar um pouco sonolento, preparei o meu café e no primeiro gole percebi que faltava açúcar. Mas o que importava? Tudo estava ficando amargo em minha vida. Um dia, sairei da cama e a platéia aplaudirá, mas, por enquanto, gritam a palavra perdedor e daqui posso escutar. Talvez eu seja mesmo um fraco, mas alguns deviam se colocar em meu lugar só para sentir como é viver nesse pesadelo.
Tomei todo o meu café e voltei para cama. Pierre ainda estava dormindo, feito um anjo... Ele não estava mais roncando, o que para mim, era um milagre. Ao vê-lo dormindo, afaguei seu cabelo com uma das mãos e aproximei meus lábios aos dele, dando um selo rápido, e ele acordou sorridente... Tão bom poder ver esse sorriso novamente.
─ Bom dia. — Falei.
─ Bom dia. — Ele ainda me parecia angustiado.
Fiquei em silêncio e depois nos beijamos, para ver se assim a dor passava.
(...)
“Cai a noite lá fora, ela chega assim tão silenciosa e fria. Aqui dentro sinto um imenso vazio. Com o vento que bate à minha janela, vem a lembrança mais profunda que guardo comigo. Um pensamento que insiste em fixar-se unicamente em tais pequenos detalhes, por mais simples e tolos que possam parecer. Mas significam muito, quase chegam a ser o equivalente ao valor de toda uma vida. Seja de um breve sorriso ou mesmo um choro contido e amargurado, que possa ter tido num canto ali só e isolado. Revelando essa sua outra face, este seu lado obscuro, transmitindo insegurança, medo e dor. Se auto-bloqueando, criando barreiras, impedindo que até quem consideres especial se aproxime. Vivendo numa constante onda cheia de insegurança, já sentindo medo de uma dor que não ‘existe’, não ainda. Ou que passe a existir a partir de então, antecipando assim sua própria dor e sofrimento. Conseqüência fatal para quem busca tanto evitá-la, submergir-se em suas regras e conceitos, a ponto de chegar a um momento em que se encontrará totalmente submerso em teus pensamentos. O arrependimento baterá em sua porta, cabe a você decidir, se o convidará para entrar. Se acaso aceitá-lo saiba que ele só entrará para lhe propor um brinde, um brinde por tudo que estará vivendo neste momento. Mas se o rejeitares, pela mínima percepção que tiveres nesta situação, digo que diminuirá um pouco a pena desse triste e insólito fato.”
Uma semana depois...
POV: Hayley
Estava sentindo enjôos a todo o tempo, e então fui até a casa de Julie, que entendia sobre esses assuntos. Quando ela abriu a porta, pude perceber o seu olhar pálido e doentio.
─ Por que está pálida desse jeito? — Indaguei assustada.
─ Estou sentindo muitos enjôos.
─ Sério, Julie? Eu estou sentindo o mesmo.
─ O que pode ser isso?
─ Há quanto tempo você teve relações sexuais com o Joel?
─ Há uma semana.
─ Isso não é gravidez?
─ Como?
─ Sim, Julie.
─ Então você também está grávida.
─ Eu? — Assustei-me.
─ Você. Venha, vamos comprar um teste de gravidez.
Julie me puxou e nós fomos até uma farmácia. Compramos dois testes de gravidez e fomos ao banheiro urinar. Ao terminar, olhei a fitinha e... Cor de rosa?
─ Julie, o cor de rosa é o que mesmo?
─ Se ficar rosa, é porque você está grávida. Se ficar azul, é que deu negativo.
─ Estou grávida! — Gritei empolgada.
─ Sério?
─ Super sério. Agora vê o seu aí.
─ Cor de rosa também.
Ela saiu do outro banheiro e correu me abraçar. Iríamos ser mães, dá pra acreditar nisso?
─ Vai contar ao Patrick?
─ Ainda não. Quero fazer uma surpresa.
─ Mas ele vai perceber uma barriguinha saliente.
─ Eu falo que comi muito e estou ficando gordinha que nem ele.
Julie riu.
─ Só você mesmo, Hay.
POV: Pierre
Está doendo demais, mas eu ainda estou de pé. Tudo dói. Os pés estão cansados de tanto caminhar em vão. As mãos, embora não estejam vazias, estão cheias de machucados, resultantes de tantas lutas. Os olhos estão se fechando aos poucos para o mundo, para todos, pois estão desistindo de tudo. O corpo, vazio, sem nada, às vezes vinha outros motivos para voltar à vida, nada demais, apenas um só propósito, tão importante que me mantinha vivo. No peito trago uma dor incalculável, que vaga entre cada espaço dentro dele. E se no caminho eu cair, quem vai me levantar? Alguns me culpam por ser fraco, mas acham que eu queria ser? Acham que eu queria sofrer? Ah, vocês não sabem de nada. Não sabem de nada o que passa dentro de mim. Não sabem nem um pouco dos meus sentimentos. Se eu tento ser forte...Claro, tudo que eu mais queria era não depender de nada. Mas como todos sabem, ela me domina de um jeito, vocês sabem que eu querendo ou não ela sempre vai me ter pra ela, né lâmina? Ela consegue me aliviar, pode ser por um minuto ou apenas um segundo. Mas ela consegue. Ela pode te matar, sabia, Pierre? Sabia sim, mas é só mais um favor que ela faz pra mim. Tentei não fracassar de novo. Mas como sempre, fui fraco.
Fui até a suíte e abri o registro da torneira da banheira. A água estava quentinha. Deitei na banheira e fiquei horas ali, suspirando puro cansaço. O bobo ainda estava se sentindo culpado por uma morte. Uma morte tão trágica. Quando eu vou parar de me cortar dessa maneira? Eu estava com tanta coisa na cabeça, eram milhões de sentimentos passando em milésimos, meu coração já não estava mais agüentando. Eu estava morto emocionalmente. Fiquei olhando para a pia do banheiro, já pensando no que ia pegar ali, quando David gritou batendo na porta: “Pierre? Você está bem?” Eu não agüentava mais fingir que estava bem, fiquei apenas quieto esperando David ir. Após a ida dele, levantei-me bruscamente e comecei a abrir o armário da suíte. Parei repentinamente olhando para minha lâmina, parecia ser um alívio ter encontrado, nada além daquilo funcionava mais. Meu quarto já não podia ser mais escuro, meu caderno já não tinha mais folhas. Enquanto eu me enxugava, olhava-me no espelho sem o mínimo de ego. Respirei fundo e novamente girei a lâmina entre meus dedos. “Pierre, abre! Como você está?” Gritou David novamente com ar de preocupação. “Estou bem, David. Estou tomando um banho”, respondi. David por mais que tentasse fingir não estar acontecendo nada, me amava e se preocupava, só que parecia não aceitar o que estava acontecendo.
Depois de meus pensamentos serem interrompidos novamente, toquei a lâmina em minha pele, apertando levemente. Estava lembrando tudo o que passou em segundos sem me dar conta da quantidade de cortes que estava fazendo. A cada gota de sangue que caía de meus pulsos, uma lágrima a menos a ser desperdiçada. Fui parando lentamente dando-me conta de que em minha volta era puro sangue, estava ficando zonzo quando ouvi batidas na porta, o som era distante e estava afundando lentamente conforme o barulho ia aumentando. Eu... Morri?
“Pierre, abre logo a sua porta!” Eu pude escutar o último grito de David, mas eu já estava ensangüentado, e os cortes eram imensos. David arrombou a porta — não sei como, por ser tão pequeno — e me viu estilhado no chão, apenas com a toalha sobre a cintura.
─ Pierre! Você não pensa nos seus fãs?
O som já estava ficando mais perto. Eu estava voltando ao normal.
─ Desculpa, é a única maneira que eu encontro para aliviar a minha dor.
─ Por que isso, Pierre? Eu sempre vou estar ao seu lado, você não precisa disso.
─ Vai passar.
─ Depois que fizer uma reconstituição em seu pulso? Por favor, Pierre.
─ Eu sou um fracassado, David.
─ Pierre, por favor, isso que você está fazendo é cometer suicídio. Sarah já não disse que você a ajudou? Pois então... Você fez muita coisa por ela. Esquece o que passou.
Dei um pequeno sorriso e ele me abraçou. Lavei os meus pulsos e fui até o meu quarto colocar uma roupa quentinha, e depois deitei na cama por estar cansado. Quanta coisa pra minha cabeça... Por que tem que ser assim? Por quê?
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