Got My Heart In Your Hands
133 Mentiras
Notas iniciais
Pierre
Namorar uma pessoa para esquecer outra é o mesmo que enganar a fome com um copo de água. Eu sinto que estou pecando, e muito, pois comecei a namorar a Priscila apenas para esquecer o David. E o pior de tudo: ela parece estar bastante apaixonada por mim. E agora, o que eu faço da minha vida? Ainda não consegui esquecer o David. Foi uma paixão bonita, um amor caloroso, é claro que não iria acabar assim de repente, em um piscar de olhos. E é claro que ele também me ama, afinal, tanto tempo de amor e carinho não se joga fora assim. Mas Priscila era atraente, linda, beijava bem... Só que era menina! Eu já não sei mais beijar menina, perdi o costume. Tenho medo de acabar me apaixonando por Priscila, pois dizem que depois que beija, você aprende a gostar da pessoa, e eu já não sei se termino com ela ou continuo nessa farsa. Só sei que se ela descobrir, vai ficar muito magoada... “Pierre, você é um burro”.
─ Por que você é um burro? — Indagou Priscila. É claro que ela me ouviu pensando. Nunca sei pensar baixo mesmo. Ela me olhava confusa, e passava a mão entre as mechas de meu cabelo, enquanto os afagava delicadamente... Eu estava quase adormecendo, mas aí criei coragem para responder.
─ Não é nada, esquece. E então, o que vamos fazer hoje? — Disse desviando totalmente do assunto. Eu não saberia o que dizer... E como eu iria contar pra menina que estava usando-a apenas para esquecer uma pessoa? E um homem? Ai meu Deus, eu preciso me livrar disso.
─ Está chovendo... Vamos assistir a um filme e ficar abraçadinhos debaixo das cobertas.
Eu suspirei fundo e suei frio quando ela disse isso. Eu havia feito a garota ficar apaixonada por mim, mas que droga... Vou magoar uma garota, agora.
─ Eu estava pensando... Quando sua turnê acabar, eu vou pra Montreal com vocês. Posso?
Pronto, estou na fossa... Colocaram-me entre a parede. David e Priscila, o que eu faço agora?
─ Melhor não, Priscila. Você tem a sua vida aqui no Brasil, não acho que vá querer abrir mão de tudo.
─ Eu não tenho ninguém aqui, Pierre. Só você, agora.
Isso chegou a cortar o meu coração. Ela só tinha a mim, e meu coração pertencia ao David. Mas tudo que era doce se acabou... As pessoas tendem a acreditar que os relacionamentos serão eternos. Claro que existem exceções, mas não acontece com a grande maioria. E cá estou eu, vendo que aquele amor lindo se transformou em amizade. Aliás, transformou-se mais em algo sobre trabalho, pois só nos víamos por causa da banda, e conversávamos uma vez ou outra para discutir a setlist, os acordes e só. Eu pisei na bola, e sei que não daria para continuar assim. Por mais que você ame a pessoa, você sabe que deve deixá-la... Mas como fazer isso? Eu não consigo esquecê-lo.
O mais complicado é seguir em frente, deixando para trás tudo aquilo que nós vivemos. Eu diria que não se esquece um amor, apenas pensa nele como uma passagem em sua vida. Quando percebe isso, a coisa começa a fluir. Ninguém é capaz de esquecer uma traição, por exemplo. Os que optam por perdoarem o parceiro(a) aprendem a aceitar a vida e deixar o passado no passado, mas a lembrança ruim sempre estará lá. E eu aprendi que quando resolver terminar um relacionamento, seja ele breve ou longo, muitas coisas devem ser pensadas e pesadas. “Vai valer à pena?” e “Será que estou fazendo a coisa certa?” são perguntas que povoam uma mente conturbada, feito a minha.
Você se acostuma com a presença de uma pessoa, e quando está sem ela, sente a maior falta do mundo. Mais do que isso, você ainda vai ficar pensando se a pessoa está pensando em outra ou se você ainda tem alguma importância na vida dela. Falo isso por experiência própria. Não paro de pensar nisso... Será que David encontrou outra pessoa na vida dele? Bom, o que vai importar agora, eu também já encontrei. Na verdade, estou fazendo isso para esquecê-lo, ou talvez fazer ciúmes. Sim, eu sei que sou um perfeito idiota. Aliás, só idiota, e não perfeito.
E por mais que machuque admitir que o melhor seja dizer “fim”, é preciso ter consciência de que, primeiro, você vai sobreviver. Vai chorar, sentir saudades, ficar isolado do mundo, mas isso o tempo ‘ajuda’ a amenizar. Claro que pra mim é quase impossível de se amenizar... Eu disse quase. Mas se eu era feliz antes de conhecer David, posso ser feliz sem ele também. Difícil é aceitar que o relacionamento está nos deixando mais infelizes do que felizes. Aliás, eu não tenho certeza se para ele está sendo assim. Acredito que esteja feliz sem mim... Mas não quero saber disso.
─ Pierre, você ficou quieto... Me responda... Posso ir a Montreal? Você parece não ter gostado da idéia, e até hoje não disse que me amava.
─ Priscila, eu não te conheço direito... Acho que não devíamos nem estar namorando, me perdoe por ter sido rápido demais.
─ Não, Pierre... Eu gostei de você.
─ Eu também, você é bacana, mas... Acho que precisamos dar um tempo, e nos conhecermos melhor.
─ Mas eu já disse que gosto de você, e não quero ficar sem você. E foi você que me pediu em namoro, agora está fazendo desfeita?
É, ela estava certa... Eu que provoquei esse mundo de mentiras, e agora terei que tolerar até o fim.
─ Está bem... Vamos ver o filme.
Ela sorriu, e pegou um cobertor do quarto dela. Engraçado estar frio em Teresina. Mas acho que fui eu que trouxe o frio de Montreal para um lugar quente como o Brasil.
Ficamos no sofá, e Priscila deitou em meu peito... Comecei a ter imaginações estranhas, pois David que costumava fazer isso comigo. Lembrei de tudo, desde o início... Época de colégio, hospital... Tudo mesmo. Foi como um filme em minha cabeça, e ah... Como eu estava sentindo falta.
─ Estou ouvindo a sua respiração, e me parece de gente preocupada... O que houve?
O som da minha respiração e de alguns soluços eram audíveis, mas apenas balancei a cabeça negativamente quando escutei a pergunta da Priscila, pois não queria preocupá-la tanto. Mas é claro que eu estava pensando em David, só isso que eu sei fazer. E eu já não estava mais suportando mentir para a Priscila. Uma menina tão bonita, tão doce, uma das únicas pessoas que realmente se preocupam comigo. Só que, sem querer, acabei deixando a aliança aparecer.
“Andei em direção à porta contando os passos. O fim tem oito passos. O adeus tem três lágrimas. O recomeço tem histórias na mala e vidro embaçado. Eu não me enxergo. A porta ainda está aberta e posso ver os seus olhos me observando. A terceira lágrima ainda não secou e ela é a mais amarga de todas, talvez por ser a última. Meus pés pedem pelo retrocesso, mas a gotinha amarga no meu rosto parece pesar mais que o meu corpo e me joga para frente. Tem seu gosto na minha língua e eu não consigo parar de te engolir, de te deixar morar em mim, mesmo que eu vá. As palavras saem descontroladas da boca, sem nada dizer. Eu não faço sentindo. Acho que me distanciei demais, ou enlouqueci. Não tem mais sua mão na minha, nem seu cheiro na minha blusa. A gente se perde cada vez mais, culpa dos meus pés que não voltam. Quantos passos você acha que é capaz de dar? Eu disse adeus por não saber o que dizer. Eu fui por doer demais e não conseguir segurar o choro. As lágrimas me lembram que me despedacei por você, e têm sorrisos seus no canto da minha boca. É diferente te observar de longe. É diferente não me ver mais. Porque algumas pessoas nos completam e agora, sem você, não sou eu. Já não sei o que digo. Desembaça o vidro e alcança meu passo.”
─ Pierre, você está... Noivo?
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