Got My Heart In Your Hands
115 Dia sombrio
Notas iniciais
POV: Avril
Eu recebi alta do hospital e fui para casa com o Charles nos braços. Sorte que tudo ocorreu bem com ele, pois ele nasceu prematuro, os riscos eram maiores. Mas como eu tenho muita fé em Deus, Ele me ajudou. Cheguei em casa e lá estava repleto de flores. Pierre, David, Jeff, Pat... Enfim, todo mundo decidiu me dar flores. Cada uma com uma coloração diferente. Recebi rosas vermelhas, brancas, amarelas... Até azul. Fiquei tão encantada ao ver as flores que quando percebi estava deixando rolar lágrimas pelo meu rosto. Meus amigos são lindos, concordam?
─ Mas esses meninos e meninos são sapequinhas mesmo, hein? — Disse ainda chorando.
─ Eles amam você.
─ Ah, eu também amo aqueles lindos. E amo vocês também. — Respondi olhando para o Chuck, e depois para o bebê.
Ele beijou a minha testa e eu fui descansar, pois o dia no hospital havia sido muito cansativo.
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desses, criatura, por que está sem um amor? Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.
POV: Pierre
Saí do hospital um pouco tarde juntamente com o David e Lennon, e de repente, avistei Sarah. Quando me viu, ela veio correndo, provavelmente querendo tomar a Lennon de mim.
─ O que faz aqui? — Indagou David.
─ Eu moro por aqui. — Sarah respondeu.
─ E por que você quer tomar a Lennon de nós? — Questionei.
─ Porque eu ainda preciso me vingar.
─ Você já não fez isso o suficiente? Desista, Sarah. Nós somos unidos, e nada nem ninguém vai nos abater.
─ Mas eu vou conseguir.
Olhei para ela de uma forma sacana. No dia anterior, eu havia descoberto o seu maior ponto fraco. Os pais de Sarah foram assassinados em uma cabana, e ela não podia visitar lá, pois sempre tinha visões com seus pais. E já morreram várias pessoas lá também, e então Sarah tinha pavor. Mas como ela era má, a levei até a cabana.
─ Por que está fazendo isso comigo, Pierre? — Ela olhava em volta.
─ Filha?
─ Pai?
─ Seu pai está aí? — Perguntei.
─ Eu sempre tenho essas visões estranhas. Tira-me daqui, eu odeio esse lugar.
─ Sarah, eu te tiro daqui. Mas eu só lhe trouxe porque eu quero entender o porquê das suas maldades.
─ Ah, Pierre... Eu não queria ser assim, mas eu já disse, não suporto ver ninguém ao seu lado. Sabe, eu nunca havia me apaixonado dessa forma. É tanto amor que chega a ser loucura, uma obsessão.
Eu não pude evitar chorar. Vi que pelo menos Sarah tinha sentimentos.
─ Eu sei o quanto dói você ver a pessoa que ama com outra, e eu sinto muito, mas não escolhemos como vai ser o nosso destino. E... Você é bonita, vai encontrar alguém que te mereça. Eu não sou a pessoa perfeita pra você. Desculpe-me.
─ Tudo bem, Pierre. Eu vou tentar me conformar com isso.
─ Então... Acabou a maldade?
─ Não sei, Pierre... Quando eu percebo, já fiz maldade. Eu não consigo me controlar. Eu não sou assim. Sempre fui uma menina doce, boazinha, não fazia mal a uma mosca. Mas eu fiquei louca desde que comecei a ouvir Simple Plan. Não conheço tudo sobre vocês, posso não ser uma verdadeira fã, não tenho todos os CDS e confundi o David com o Jeff... Mas meu amor por você é verdadeiro.
─ Se você é fã, por que faz isso? Nunca vi fã agir assim.
─ Desculpa.
─ Sarah, me escuta... Eu te dou mais uma chance. Sei que você pode melhorar, assim como a Lachelle e o Joel melhoraram, e muito. Eu acredito que você possa mudar.
─ Obrigada.
─ Venha.
Levantei-a do chão, mas quando ela começou a ter visões, saiu correndo.
─ Sarah!
Ela não me deu a mínima, e continuou correndo. Porém, ao atravessar a linha do trem, ela não percebeu o trem se aproximando. Gritei o nome dela para que ela pudesse sair dali, mas ela não me deu ouvidos, e acabou acontecendo algo trágico: o trem a atropelou. Foi horrível, parte de seu corpo havia sido esmagado. David e eu ficamos chocados ao ver Sarah estilhada no chão, morta, e com o seu corpo esmagado pelas rodas de cada vagão. Começamos a chorar, e eu apenas deitei a Lennon em meus ombros, para que não visse a situação. Entreguei a menina para o David e fui arrastando Sarah até um matagal, no qual a joguei ali, cobrindo-a com um manto que estava jogado na estrada. Fiz um sinal da cruz e saí andando, olhando para o céu, pedindo a Deus que cuidasse bem de Sarah, mesmo com todas as maldades. Ele estava recebendo mais uma pessoa, que no fundo, tinha um coração puro. Eu acredito na pureza das pessoas.
Cheguei em casa e tomei banho, para relaxar e tirar o sangue de minhas mãos, mas agora aquela imagem não sairia tão fácil de minha memória.
E você se foi, sem deixar marcas, sem deixar rastros de que voltaria a te encontrar. Quando te encontrei, não pensei que seria a última vez que eu fosse te ver, como se ainda tivesse esperança de que você me encontraria de novo. E você se foi, Deus te levou. Um dia isso iria chegar e enquanto isso teríamos que viver, pois o dia de amanhã só pertence a Ele, o todo poderoso Deus, o mesmo que te levou... Você queria que eu me lembrasse de ti e sorrisse, mas a angústia me impede que isso aconteça. Aonde você estiver, quero que esteja sendo bem cuidada.
É aquela velha história. No início, todos vocês vão se sentir culpados. Vão chorar e pensar no que fizeram de errado. Mas vai passar. Vão achar um jeito de me culpar, e dizer que não pedi ajuda. Mas eu pedi. Só que não foi alto o bastante. Vocês ficaram surdos, e se tornaram cegos, carregando na mente a imagem de que eu, por ter tudo, ficaria bem. Eu não tive tudo. Faltou amor, faltou carinho. Faltou alguém segurando a minha mão, e me dizendo pra ser forte. Eu enfrentei tudo sozinha. Estava andando por um barbante, em meio ao precipício, e não tinha ninguém lá pra me segurar. Eu chorei todas as noites, andei por aí carregada de blusas de frio, e com os braços cheios de pulseiras. Vocês nunca me perguntaram porque meus olhos estavam inchados, ou porque eu suava, mas não tirava as blusas compridas, ou não usava shorts. Nunca me perguntaram sobre a minha obsessão de usar pulseiras. Nunca. Então, não vão colocar na cabeça que a culpa foi minha, porque não foi. Dessa vez não. A culpa, foi dessa mania que todo mundo tem, de achar que palavras não machucam. Tudo bem. Eu perdoo vocês. Espero que me perdoem também. Mas vai ficar tudo bem agora. Não convivo mais com a dor. Não me sinto vazia. Aliás, não sinto. Hoje, consegui voar. Voei.
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