Got My Heart In Your Hands
164 A iniciativa
David’s pov
Pierre e eu ficamos em um hotel de muito luxo em Lisboa... Eu achava desnecessário, mas ele disse que eu merecia o melhor, então escolheu um dos hotéis mais caros da capital portuguesa. Olhei pela janela, não mais nevava. Senti um pouco de saudades da neve, porque sempre que isso acontecia, Bouvier me levava para fora e ficava atirando bolinhas de neve em meu rosto. Fazíamos bonecos e enfeitávamos com cachecol e gorro.
Lembro-me do último Natal... Comemos Chester e Pierre pediu o maior pedaço, que já era de se esperar.
─ Que tal aproveitarmos a nossa lua de mel? — Fui interrompido de meus pensamentos... Nem percebi que Pierre estava se aproximando de mim, e então ele mordeu o meu lóbulo após murmurar bem próximo ao meu ouvido... Mordi meu lábio inferior, grunhindo um pouco após liberar um gemido baixinho. Virei o meu rosto para o lado, podendo fitá-lo dessa forma.
─ Aqui no hotel? — Deixei que um sorriso malicioso se formasse em meus lábios, e permaneci observando-o, aguardando uma resposta.
─ Não... Vamos a outro lugar, o que acha?
─ Tanto faz... — Eu dei de ombros.
─ O que foi? Se você não quiser, fala, tem todo esse direito... Eu não vou fazer nada que você não queira. — Ele abaixou a cabeça.
Não há como resistir àquela carinha de bebê querendo colo... Quando ele ficava assim, era absurdamente perfeito. As bochechas ficavam rosadas, seus olhos brilhavam, e o bico em seus lábios... Bom, era de tristeza, mas ainda sim ficava estupidamente lindo.
Permaneci o observando por horas e horas, porque aquilo realmente era a coisa mais delirante de se ver.
Suspirei baixinho.
─ Eu quero, seu bobo... Por que está cismando que eu não quero? Pierre Charles Bouvier, você não me conhece. — Exclamei um pouco para que ele pudesse compreender de que ele, somente ele, era o homem capaz de me levar ao céu.
─ É que você deu de ombros... — Ele contestou com voz angustiada, e manteve a cabeça abaixada. Segurei o seu queixo, e levantei o seu rosto, fazendo-o mirar seu olhar em mim.
─ É o que eu mais quero, Pierre... Vou a qualquer lugar com você. — Sorri de canto.
Ele sorriu de forma maliciosa, e me levantou da cama, segurando uma de minhas mãos e caminhando para fora do quarto.
Trancamos a porta, e fomos andando de mãos dadas para fora do hotel... Passamos perto da piscina, que naquela hora, me controlei para não pular... Estava muito sol em Lisboa, um calor que eu desconhecia há muito tempo.
Eu não fazia idéia de onde Pierre iria me levar, mas apenas o segui. Eu sabia que, de alguma forma, ele me surpreenderia, como sempre fez. Nunca teve dificuldades para isso.
Coloquei o meu óculos de sol, porque os raios solares estavam fortes, e Pierre também pôs o dele. Um Ray Ban escuro. Por Deus, ele ficava muito bonito de óculos. Não que ele não fosse bonito, mas eu não sei, óculos sempre foi o meu ponto fraco. E Bouvier de óculos me fazia delirar.
Dominei as minhas vontades, porque em público isso ficaria meio complicado, e fui seguindo Pierre... Afinal, pra onde estávamos indo? Ele estava caminhando como se conhecesse corretamente as ruas de Lisboa.
─ Pierre, por um acaso você sabe pra onde estamos indo? — Perguntei curioso.
─ Eu tenho um mapa. — Ele me mostrou um mapa, mas não apontou para o lugar aonde íamos, e eu fiquei olhando, tentando descobrir para onde Pierre estava me levando.
─ Legal... — Respondi ainda curioso, e ele riu, apertando a pontinha do meu nariz fracamente. Continuamos andando, até eu avistar uma menina em uma cadeira de rodas, com a boca aberta e sem voz. A mãe estava gritando desesperada. Fiquei aflito, e fomos até lá.
─ Moça, o que houve? — Indagou Pierre preocupado.
─ Eu não sei o que houve... Minha filha está perdendo muito sangue. — Ela disse chorando, e eu a abracei, tentando passar conforto a ela.
─ Será que a cadeira de rodas virou e ela caiu? — Completei, chegando perto da menina e segurando uma das mãos dela. Pierre fez o mesmo. Era uma menina encantadora, e jovem... Eu percebia que tinha muita vida pela frente.
─ Pode ser... Ela precisa de uma transfusão de sangue urgentemente, caso contrário ela morre, mas eu não acho uma pessoa que tenha o mesmo tipo sanguíneo que ela, e preciso encontrar em menos de duas horas.
─ Qual é o grupo sanguíneo dela? — Interroguei.
─ O negativo. — Ela respondeu.
─ É o meu... Eu posso acompanhá-la ao hospital e doar o sangue que ela precisa. — Confortei-a.
─ Você faria isso por mim?
─ Nós faríamos... É uma pena o meu sangue ser AB positivo, mas David vai ajudar a senhora. — Pierre disse sorrindo.
Fomos até um ponto de ônibus e ficamos esperando o mesmo por 15 minutos... Quando chegou, nós entramos. Era um ônibus azul, e a mãe da menina colocou-a sobre o suporte próprio para cadeira de rodas, e sentou-se no banco preferencial. Pierre e eu ficamos de pé, próximos a ela, e observamos a menina tentando falar alguma coisa, mas estava impossibilitada devido à fraqueza.
Enfim descemos do ônibus, em frente a uma clínica, e eu me ofereci para empurrar a cadeira de rodas. Adentramos a porta da clínica, e falamos com a enfermeira, que imediatamente levou a menina para uma transfusão de sangue, e eu a segui. A mãe da garotinha e Pierre me abraçaram, orgulhosos de mim e me chamando de anjo. Eu não sei se era um anjo, eu apenas estava salvando uma vida, e acho que todos precisavam pensar da mesma forma que eu.
A enfermeira amarrou uma fita amarela sobre um de meus braços, muito forte, que por pouco bloqueava a minha respiração. Ela se aproximou com uma agulha grande, e eu fitei a mesma por alguns instantes. Por fora, eu estava tranquilo, mas por dentro meu corpo todo estremecia. Eu tinha pavor de agulhas, mas sabia que eu ia fazer aquilo para ajudar uma pessoa que nessa hora precisava muito de mim.
─ Relaxa... — Disse a enfermeira.
Relaxar? Como? É possível relaxar sabendo que alguém vai enfiar uma agulha enorme na sua veia? Ok, vou manter a calma, porque isso vai salvar uma vida.
Quando ela perfurou a agulha em minha veia, fechei os meus olhos, e espremi os mesmos com força... Não sei se assim evitaria alguma dor, mas de qualquer forma, tentei.
Depois de cinco minutos, o alívio... Ela retirou a agulha de minha veia, e molhou um algodão com álcool, limpando o sangue e fazendo-me pressionar o mesmo em meu braço.
A bolsa de sangue estava cheia, finalmente, e eu saí do quarto, indo agora até onde Pierre estava. A mãe da garota tinha ido ao banheiro, e eu aproveitei a ocasião para ficar perto de Pierre e abraçá-lo forte... Muito forte. Aninhei meu corpo em seus braços, arrepiando-me ao sentir o calor de seu corpo, e ele deu um beijo sobre o topo de minha cabeça, fazendo-me sorrir.
─ Desculpa por ter atrapalhado a nossa lua de mel hoje... — Falei em um tom de voz abatido, porém ainda aninhando meu corpo nos braços de Bouvier.
─ David...
─ Uhn?
─ Nós temos a vida inteira para comemorarmos a nossa lua de mel... Aquela garotinha tem menos de duas horas de vida.
Sorri largamente, e o abracei ainda mais forte... O que ele disse foi lindo, perfeito, maravilhoso, excelente, magnífico, estupendo... Não há adjetivos para descrever essas palavras que saíram do fundo do seu grandioso coração. E ele tinha razão, nós tínhamos a vida inteira para passar o dia juntos, mas a menininha não... Tinha poucas horas para viver, e eu precisava dar um jeito. Estou satisfeito comigo mesmo.
A transfusão foi um sucesso... A menina pôde viver. Mas eu, não contente ao vê-la na cadeira de rodas, ofereci todo o meu dinheiro à mãe da garota.
─ É pra senhora...
─ Por quê? — Indagou ela.
─ Apenas aceite... É um presente. Quero que com esse dinheiro você realize vários exames para que ela volte a andar.
Desviei meu olhar rapidamente para Pierre, e ele estava me olhando de maneira doce. Seus olhos brilhavam, e seu sorriso se alargava ainda mais. Eu não sei se o agarrava ou se continuava conversando com a mulher.
─ Eu também quero te dar todo o meu dinheiro... — Pierre tirou todo o seu dinheiro do bolso e entregou nas mãos da moça.
─ Eu não sei se devo aceitar...
─ Por favor... É uma ordem. — Ri baixinho, e a fitei. Meus olhos estavam brilhando, e ela nos abraçou.
─ Muito obrigada... Por tudo.
Sorrimos e fomos embora da clínica.
─ Eu estou muito orgulhoso de você, Pierre.
─ E eu de você, David. — Ele me deu um beijo.
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