Gostosuras e Travessuras
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Os objetos escolhidos foram: cortador de unhas, esmalte preto, lancheira, papel higiênico, unha postiça e vestido branco.
Espero que gostem.
Mary Anne ansiava pelo Halloween como qualquer outra criança de sua idade, afinal, que criança não gosta de se fantasiar e ganhar inúmeros doces? Essa era a sua época favorita do ano, nem mesmo o Natal a deixava tão animada.
“Não posso comer as meias do Papai Noel, o peru não é feito de caramelo e estou cansada de ganhar roupas”, era o que ela dizia. Jake, seu priminho, costumava dizer que ela não passava de uma menininha mimada. Mary Anne tentava explicar que ele era chato assim por ainda não ter pedido doces no Halloween. A regra da família era clara: as crianças só poderiam pedir doces a partir dos 7 anos, e Jake acabara de completar 7.
— Mary, e se chovesse doces?
— Isso é impossível, Jake! – respondeu ela com ar de superioridade. E, como toda criança, quis mostrar que sabia que as chuvas eram formadas por partículas de água. Mary não sabia explicar o que eram partículas, mas achava a palavra bonita.
— Você ainda não deve ter visto isso na escola, eu tenho 9 anos, aprendo conteúdos que para você são muuuito difíceis.
Jake revirou os olhos, Mary Anne adorava se gabar por ser mais velha. No fundo ele a entendia, não deve ser fácil ser a caçula de 3 irmãos quando os outros dois sempre ganham vantagens por serem mais velhos. Os mais velhos ficam acordados até tarde, podem sair de casa com os amigos sem a vigilância dos pais, eles comem mais bobeiras, sempre ficam com os pedaços maiores das pizzas e sempre a zoam por ser a menor.
— E se o peru fosse de caramelo? – Mary revirou os olhos. Jake tinha perguntas inocentes demais.
— Isso é impossível, Jake. Perus são animais abatidos e assados no forno.
O priminho se engasgou com a água que estava bebendo.
— Os perus são animais? Então quer dizer que matamos um bichinho para comermos no Natal?
— Sim, ora! Como você não sabia dis...
Sua frase foi cortada pelo choro estridente de Jake, que saiu em disparada para os braços da mãe, derrubando no chão a água que restava em seu copo.
Pouco tempo depois, a tia veio lhe dar uma bronca por ter contado algo tão horroroso sem prepará-lo antes. Jake tremia e soluçava como se alguém tivesse lhe dado a pior notícia do mundo.
“Imagina quando ele descobrir que Papai Noel não existe.” Pensou.
Mary decidiu que naquele Halloween ela teria duas missões: pegar o máximo de doces possíveis e mostrar ao Jake que o Halloween era melhor que o Natal.
Mais tarde, Mary entrou escondida no quarto da irmã e pegou um esmalte preto. Ela tinha uma cestinha especial para pegar doces, era em formato de abóbora com olhos e boca desenhados, porém, ela queria deixar a cestinha ainda mais legal. Assim, pintou os olhos da abóbora como se fosse a sombra de uma maquiagem. Jake estava segurando a cestinha para que ela fizesse as pinturas.
— E se você puxar pros lados como a sua irmã faz? Olho de gatinho, né?
— Ótima ideia! Quer fazer?
— Sim!
Jake puxou a pontinha e... pronto! A cestinha estava perfeita.
A porta se abriu e Molly, a irmã mais velha de Mary, deu um grito.
— Mary! Não acredito que pegou o meu esmalte. Já te falei para não entrar no meu quarto sem a minha permissão. Acho bom você ter uma ótima razão para ter pegado o meu esmalte sem falar comigo.
— Você ia dizer não, ué. Aí eu entrei e peguei. – Fechou o vidrinho e o entregou para a irmã, que por sua vez estava incrédula com a resposta sincera da mais nova.
— Pelo menos você tem uma cesta "gótica suave". – Suspirou e fechou a porta, enquanto reclamava com a mãe sobre o que as crianças haviam feito.
Os priminhos se olharam sem entender o que “gótica suave” significava, mas, de qualquer maneira, pareceu um elogio.
Às 17 horas, Mary e Jake já estavam preparando as suas fantasias. Mary pulava enquanto explicava que queria uma fantasia com papel higiênico, seria uma noiva zumbi. Escolheu um vestido branco que havia usado no casamento de alguém da família há dois meses e pediu à mãe que enrolasse o máximo possível de papel higiênico em seu corpo. Por fim, fez a mãe trançar as tiras do papel para que fizesse uma coroa, e a aliança em seu dedo também era de papel higiênico.
— Querida, não sei se a sua fantasia vai durar muito tempo, vou pedir à sua irmã que leve uns rolos por precaução.
— Muito obrigada, mamãe. – disse e saiu correndo, queria encontrar o primo e mostrar a sua fantasia. Encontrou-o na sala ainda terminando de se fantasiar.
— Hey, Mary. Adorei a sua fantasia! A minha já está quase pronta, mamãe logo colocará as minhas presas. Serei o vampiro mais assustador de todos.
Mary viu a tia com o cortador de unhas na mão direita enquanto escolhia cuidadosamente quais unhas postiças iria utilizar. Por fim, cortou e aparou duas delas e as colou nos caninos de Jake com o auxílio de uma cola instantânea.
— Agora é só esperar secar e estará pronto. – A tia falou. Seus dedos seguraram as “presas” por mais alguns segundos para ter certeza de que ficariam no local certo.
— Agora acho que está bom. – deu um beijo na testa de Jake – Divirtam-se.
Os dois riram e pularam, dançando e comemorando por terem as melhores fantasias.
— Fronto. Afora famos.
— Você está falando esquisito, Jake.
— Fão as finhas fresas.
Mary notou que o primo cuspia enquanto falava.
— Melhor lixar mais um pouquinho, querido. – Disse a mãe de Jake.
Depois de ter as “presas” aparadas, Jake voltou a falar normalmente.
— Agora sim. Vamos?
Os dois seriam supervisionados por Molly, que não estava nada contente com a tarefa de cuidar das crianças. Molly dirigiu cuidadosamente até outro bairro, já que Mary fazia questão de não pedir doces na vizinhança por serem mais baratos e menos gostosos. Optou por deixar os dois irem sozinhos, porém observava-os de longe.
Como era o primeiro Halloween de Jake, Mary deixou que o primo tocasse as campainhas. Foram de casa em casa, as cestas se enchendo de doces deliciosos, ambos não puderam deixar de provar alguns dos doces.
Eles estavam adorando tudo: as decorações, os doces, as fantasias das outras crianças, a receptividade dos adultos que enchiam as mãos de doces para colocar em suas cestinhas. Quando quase não cabia mais doces nas cestinhas, Jake se escondeu atrás de um arbusto e mexeu os ombros. Mary ficou confusa, será que o primo estava bem? Foi quando percebeu que ele estava carregando uma lancheira, juntos, colocaram os doces ali dentro, acharam melhor deixar a lancheira no carro e voltar para pegar mais doces.
Porém, assim que saíram do arbusto, viram dois adolescentes tomando os doces de algumas criancinhas.
— Precisamos esconder a lancheira. – Mary sussurrou.
Jake olhou para as decorações que estavam na lateral daquela casa e escolheu o local perfeito: perto das grandes abóboras. Amarrou alguns balões na lancheira para que ela fizesse parte da decoração e saiu. Foram disfarçadamente até a calçada do outro lado da rua. Assim que notaram as crianças, os garotos foram em direção a elas.
— Cadê a sua irmã quando a gente precisa?
— Aquela traíra deve estar falando com alguma das amigas e se esqueceu da gente.
Jake tinha razão, Molly deveria estar ali para protegê-los.
— Pirralhos, acho bom vocês nos darem os seus doces. – Um dos garotos falou e puxou as cestas bruscamente.
— Onde esconderam os doces? – Perguntou.
— Ainda não pegamos – Jake respondeu, tinha certeza de que se o rapaz continuasse o encarando assim iria urinar nas calças.
— Fala a verdade.
— Comemos todos! – Disse Mary, mostrando a língua. Ela não ia deixar barato para eles. Jake tremia feito vara verde e rezava para que a prima ficasse quieta. Desse jeito os garotos não os deixariam em paz.
— Olha, Pete, uma lancheira voadora! – O rapaz comentou.
E lá estava a lancheira, presa em um dos galhos de uma árvore. Os balões a tinham levado para o ar. O tal Pete foi correndo para o local e, como ele era alto, foi fácil puxá-la.
— Pare! São os nossos doces! – Jake gritou.
— Agora não são mais, pirralhos.
Os garotos riam debochadamente, estavam orgulhosos por roubarem mais doces. Mal sabiam eles que Mary havia aprendido uma coisa sendo a irmã mais nova: não há nada que uns bons gritos não resolvam.
— VOCÊS NÃO PODEM LEVAR OS NOSSOS DOCES! SOCORRO! ALGUÉM NOS AJUDE, ESTAMOS SENDO ROUBADOS! AAAAAAAAAAAAAH!
E então vários adultos apareceram em suas portas. Os garotos olharam um para o outro e saíram correndo assustados, deixando a lancheira para trás. Mary e Jake comemoraram, porém, logo o sorriso foi se dissipando, enquanto viam a lancheira subir em direção ao céu. Antes que qualquer um pudesse dizer algo, a lancheira se abriu e os doces começaram a cair, os primos se apressaram em colocar todos os doces em suas cestas.
Alguns adultos se certificaram de que estava tudo bem com eles antes de deixá-los ir embora. E, assim, decidiram que era melhor ir para casa. Haviam ganhado doces suficientes para comer por uma semana.
— Preciso me desculpar, Jake.
Jake estava com a boca cheia de doces e murmurou algo que parecia um questionamento. Mary continuou.
— Eu estava enganada, tem sim como chover doces.
E os dois riram.
— Obrigada, Mary, você tem razão, o Halloween é o melhor feriado.
O feriado foi incrível, mesmo com o aborrecimento com os adolescentes. Contudo, Mary sentia que faltava alguma coisa. Só percebeu o que era quando estavam quase chegando ao carro de Molly.
— Jake, preciso te contar uma coisa.
— Hm.
Mary entendeu que poderia continuar falando, mas como diabos conseguiria dizer isso sem traumatizar o primo? Talvez fosse como arrancar os dentes de leite: melhor de uma vez só, assim a dor seria menor.
— O Papai Noel não existe e todos os brinquedos são comprados pelos seus pais. A boa notícia é que você pode reclamar diretamente com eles e...
Um choro estridente cortou a fala de Mary e ela viu o borrão preto da capa de Jake entrando todo desengonçado no carro, derrubando doces pelo caminho.
— Eu quero a minha mãe! – Berrava o primo – Toda. A. Minha. Vida. Foi. Uma. Mentiraaaaaaa. – A cada palavra, Jake soltava um soluço de choro.
— Não se cansa de destruir a vida das criancinhas, Mary.
— Eu só lhes trago a verdade, Molly. – Disse Mary, enquanto balançava a cabeça, não acreditando como as crianças mais novas podiam ser tão inocentes.
Notas finais
Foi divertido escrever essa oneshot, pois é bem diferente do que estou acostumada a escrever. Por fim, espero que tenham gostado e muito obrigada por terem lido.
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