Gosto Ruim
1 Capítulo Único
Notas iniciais
GOSTO RUIM
Está quase amanhecendo. Consigo ver as horas pelo piscar insistente do despertador ao meu lado.
Está quase amanhecendo e eu ainda não consegui pregar os olhos. Minha cabeça está latejando, meus olhos ardem, a angustia me consome.
Está quase amanhecendo e Sasuke não está do meu lado. Ele dormiu fora essa noite por conta do trabalho, ou talvez tenha passado tempo demais bebendo com Naruto-kun e resolveu ficar por lá. Bem... Na verdade, não tem como eu saber.
Ele não me mandou mensagens ou ligou.
Está quase amanhecendo e a única coisa que eu consigo pensar é no quão horrível eu sou. No quanto deve ser difícil para o meu noivo ficar do meu lado.
Como ele consegue?
Como ele conseguiu até agora?
Quanto tempo até ele me deixar?
Está quase amanhecendo e eu entendo se ele resolver me deixar. Tentar amar uma pessoa depressiva não é fácil, deve ser cansativo. Continuo me perguntando quanto tempo vai levar até que ele desista de mim. A ansiedade faz com que eu me sinta sufocada, que eu não consiga dormir — nem mesmo por um minuto —, que eu duvide de mim mesma — será que as pessoas realmente gostam de mim ou só me suportam? — e deixa meu corpo inteiro tenso.
Está quase amanhecendo e eu não sei mais o que fazer. Eu continuo duvidando e é difícil acreditar que Sasuke me ama quando eu tenho crises de choro sem nenhuma razão, quando sua ausência de apenas algumas horas ou a falta de mensagens e ligações fazem com que minha carência e insegurança falem mais alto e eu comece a pensar que eu não sou o suficiente e nunca vou ser. Eu não quero que ele se sinta um prisioneiro comigo, eu só quero que ele seja feliz, mas às vezes eu sinto que ele nunca vai ser feliz ao lado de uma pessoa como eu.
Está quase amanhecendo e estou me desfazendo em lágrimas mais uma vez nessa noite — mesmo que eu não tenha motivo nenhum para isso. Estou esperando Sasuke chegar, nós não brigamos, estava tudo bem até ele sair mais cedo, e tem que estar tudo bem quando ele voltar.
Finalmente escuto o barulho da porta da frente se abrindo e uma sensação de alívio me consome. Me esforço para esconder qualquer vestígio que passei a noite inteira chorando e o espero deitada na cama em completo silêncio. Engulo meus soluços sôfregos e passo a mão nos meus olhos úmidos. Sasuke não liga a luz quando entra no quarto, eu sei que ele sabe que estou acordada.
— Não dormiu? — ele pergunta. Sinto-o sentar na cama, tirar os sapatos e se aproximar de mim com cuidado. Minha voz não está firme o suficiente para falar algo em voz alta sem ele saber que estive chorando por conta das coisas que criei e fiquei remoendo na minha cabeça. Então, balanço a cabeça em concordância quando ele se aproxima mais. — Desculpe por não mandar mensagens ou ligar, não consegui. Mas estou aqui agora. Você está bem?
Sei que ele não fez por mal, ele não tem nenhuma intenção de me machucar. Sasuke não tem culpa desses sentimentos que insistem em me deixar assim. Sinto sua mão no meu rosto, o polegar passear pela minha bochecha de forma suave, enquanto o restante dos dedos se enterram no meu cabelo bagunçado. Fecho os olhos para apreciar a sensação, o contato, o amor.
Sasuke me ama. E eu não queria duvidar disso às vezes.
Mil coisas passam pela minha cabeça ao mesmo tempo em uma fração de segundo. Eu quero ser uma pessoa melhor, quero que ele seja feliz comigo. Espero que ele não desista de mim. Não quero que ele se preocupe com esses sentimentos em específico, pensando que não pode sair para se divertir, que precisa ficar o tempo inteiro comigo.
Quero que Sasuke viva, se divirta, ria.
Eu o amo, com todo o meu coração, e não quero ser um fardo.
Não quero que ele seja um prisioneiro da minha infelicidade.
Há esse gosto ruim na minha boca. O gosto da mentira. Mas eu o engulo.
Então, me esforço bastante para dizer em voz baixa:
— Bem-vindo de volta, meu amor.
Notas finais
Comentários são sempre bem vindos.
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