Gorgeous
1 Único: Gorgeous
Notas iniciais
You're so gorgeous
I can't say anything to your face
'Cause look at your face
You’re gorgeous
— Taylor Swift
Gorgeous
James não estava tendo a melhor das experiências em seu novo emprego.
Claro que, junto do gordíssimo cheque no final do mês, ser o assistente pessoal de uma celebridade vinha com certas vantagens. Ele agora estava sempre presente nas mais prestigiadas cerimônias, nas mais badaladas festas e conhecia as mais fenomenais e talentosas pessoas. Tudo isso só para ter como função ficar de olho em Lily Evans, o anjinho de Hollywood.
Prodígio da atuação; famosa desde que estrelou o seu primeiro comercial de fraldas aos quatro meses de idade; queridinha da mídia; dona de uma educação e gentileza absurdas; embaixadora da paz na ONU. Lily Evans, que apesar da aparência angelical e comportada, era na verdade o demônio encarnado em ser humano.
Bem que o conhecimento popular já havia estabelecido que quando a esmola é boa demais até o santo desconfia. James quase podia visualizar o universo gargalhando das suas expectativas de uma rotina atípica, porém tranquila e organizada.
Lily escapava de suas vistas mais vezes do que ele imaginava ser humanamente possível. E quando tornava a aparecer, nunca estava sozinha ou sóbria — o que era um enorme problema nos Estados Unidos — já que ela ainda não havia completado vinte e um anos. Organizava festas em suítes de hotéis que não lhe pertenciam e surrupiava garrafas de bebida — junto de moças e rapazes — para aqueles quartos que estavam sim em seu nome. Ela também nunca atendia o próprio celular e só não faltava a todos os compromissos porque alguém — James, no caso — estava sempre em seu pé para arrastá-la até eles.
Ela era, também, insuportavelmente difícil de acordar antes das oito horas da manhã. Em um dos fatídicos dias em que perdera a paciência, James chegou a atirá-la por sobre seus ombros e carregá-la escada abaixo enquanto ela esperneava. Apesar de deplorável e vergonhoso, o gesto dera resultado e Lily agora só precisava ser chamada três vezes — a última delas em um tom de voz mais irritadiço e elevado — antes de finalmente sair da cama.
Agora James entendia exatamente o porquê de nenhum dos outros assistentes ter durado mais de seis meses na função. Descobrir que havia enfrentado uma dezena de entrevistas e testes psicológicos apenas para bancar a babá de luxo podia ser um golpe e tanto no ego de qualquer um. O próprio rapaz só persistia pelos novos contatos que acabava adquirindo todos os dias.
Caso tivesse de ser honesto, no entanto, James não teria muita dificuldade em admitir que não estava de fato surpreso pela imagem da mídia não corresponder à real personalidade de Lily. Quando se tratava de celebridades, eram raros os casos em que isso acontecia. O que o surpreendia mesmo, no entanto, era o fato de que nenhum desses escândalos jamais chegava à mídia. A equipe por trás da carreira dela não parava de trabalhar por um minuto sequer.
— Senhor Potter? — O motorista do uber chamou e pela impaciência no tom de voz, não havia sido pela primeira vez. Ele ergueu os olhos na direção do homem de cabelos grisalhos e pele escura. — Não acho que dê para chegar mais perto do que isso. O senhor quer encerrar a corrida aqui?
James assentiu, agradeceu e esticou-se para destravar a porta e sair do carro. A rua estava completamente tomada pelos mais diversos tipos de veículos — motos, triciclos, carros, caminhonetes e até mesmo uma imitação do trailer de Walter White, de Breaking Bad — e de jovens que perambulavam sozinhos ou em grupos. Alguns dançavam, outros conversavam aos berros devido ao som — alto até mesmo na esquina onde estavam — com garrafas de bebida alcoólicas em uma das mãos e um baseado aceso na outra.
— Merda, Lily. — James praguejou ao tentar abrir caminho em meio a um aglomerado de universitários que andava de skate e receber olhares irritados em resposta.
O celular vibrou em seu bolso no mesmo momento em que ele atravessou a porta da fraternidade.
“Liguei para o hotel e me disseram que vocês ainda não chegaram. Aconteceu alguma coisa?”
Por mais que odiasse o seu atual emprego, notar o quão perto estava de perdê-lo fez com que James tivesse a sensação de que algo comprimia seu peito, impedindo-o de respirar completamente. Ele sentia que faltava pouco para conseguir encontrar-se com Albus Dumbledore, um dos produtores mais conceituados de toda Hollywood, e também um de seus maiores ídolos na área de relações públicas (a fangirl interior de James gritava com a ideia de um dia trabalhar com Dumbledore) e por isso, cogitar a possibilidade de falhar e colocar tudo a perder justamente agora o apavorava tanto.
“Fizemos uma pausa para comer.”
Como afirmar que alguma coisa havia sim acontecido talvez fosse o maior eufemismo já proferido na história da humanidade, James optou por uma resposta indireta. E de qualquer modo, não era uma total mentira. Lily deveria mesmo estar colocando algo para dentro em meio à algazarra presente na república universitária.
“Espero que a Lily não esteja saindo da dieta. Ela tem uma sessão de fotos importante amanhã.”
Isso ele já não tinha como garantir, de modo que James se limitou a enviar um “não se preocupe, está tudo sob controle.” à Daisy Evans, mãe de Lily e também sua chefe.
Obviamente a última coisa que ele tinha naquele momento era controle. Mas admitir aquilo seria tão danoso quanto sucumbir à vontade de gritar em frustração. James sabia que uma vez que a calma fosse perdida, sua sanidade mental não demoraria a seguir pelo mesmo caminho.
Céus, Lily havia dito que ia buscar um romance na casa de uma amiga, mas não que o faria em meio a uma festa de fraternidade repleta de universitários chapados! Tudo bem que a atriz sempre carregava um livro na bolsa e que tinha tantos destes no próprio quarto que se não fosse pela cama e objetos pessoais, ele poderia facilmente se passar por uma biblioteca, mas havia sido ingenuidade demais da parte de James não imaginar que havia algo por trás daquela simples “tarefa” em um sábado à noite.
— Oh, pelos deuses! — Alguém tropeçou ao seu lado e não demorou até que James sentisse algo frio ensopando suas costelas. Olhou para baixo, encontrando uma mancha amarelada disforme no tecido da camisa social branca e não conteve o xingamento. — Eu juro que não te vi!
A moça de cabelos longos e prateados exclamou, a boca entreaberta e os olhos castanhos arregalados em choque. James suspirou e fez um sinal com a mão a fim de dizer que não havia sido nada demais
— Tudo bem. — Disse e ela comprimiu os lábios, como se para indicar que claramente não estava. A menina virou-se e desapareceu por alguns instantes (enquanto James ocupava-se em tentar encontrar a característica cabeleira ruiva de Lily), quando voltou, carregava uma porção de guardanapos nos braços. — Sério, não precisa. — James segurou uma das mãos dela antes que o papel fosse de encontro ao tecido de sua camisa. — Eu falei sério.
A moça fitou-o com mágoa e a sombra de lágrimas nos olhos, parecendo irritada pelo tom pouco receptivo dele. Então, parecendo decidir que não se importava nem um pouco com o bem estar de um estranho qualquer que definitivamente não queria sua ajuda, jogou os guardanapos restantes contra o peito de James e deu as costas.
Balançando a cabeça em incredulidade, o rapaz voltou-se ao seu objetivo original: encontrar Lily.
— Macaco bebe. — Um rapaz de cabelos cor de rosa gritou de repente, assustando-o.
— Macaco não bebe! — Uma garota ao lado dele respondeu no mesmo tom empolgado. — Cobra bebe!
— Lily. — Chamou quando por fim encontrou-a em meio a um aglomerado de jovens embriagados. Lily riu de algo ao seu lado e a perda de concentração fez com que as demais pessoas ao seu redor comemorassem, jogando os braços para cima em meio a gritos extasiados. Percebendo que havia perdido, a atriz juntou-se às gargalhadas, ignorou sua menoridade e entornou um shot de coloração amarelada.
Uma foto da careta que ela fez ao engolir poderia render milhares de dólares àquele que a vendesse. O pensamento causou-lhe arrepios, não queria ser ele o responsável por permitir que Lily arruinasse a própria imagem.
— James! — Ela gritou ao reconhecê-lo e se aproximou tanto que o rapaz pôde sentir o cheiro de álcool em seu hálito. Lily jogou os braços em torno de seu pescoço em um comprimento animado e não característico de pessoas sóbrias. — Você demorou, estava começando a achar que não viria atrás de mim”.
Ele forçou um sorriso, mas tudo em sua expressão denunciava que seu humor no momento não era um dos melhores.
— O que você pensa que está fazendo? — Questionou, desvencilhando-se do aperto. Aquele tipo de proximidade não era nem um pouco profissional. Ou saudável.
— Aproveitando a festa, oras! — Lily apoiou uma mão na cintura e respondeu o que lhe aparentava ser bastante óbvio — Sabia que eu sou a convidada de honra? — Perguntou com entusiasmo e puxou para si uma bandeja repleta de outras doses do que parecia ser tequila. — E é obrigação de todos os convidados virar um shot em minha homenagem.
Ela entregou a James um copinho que ele prontamente recusou. Estava prestes a iniciar um discurso moralista sobre responsabilidade — que eram bastante hipócritas, já que ele mesmo não era nenhum santo e às vezes também passava do ponto nas festas — quando foram interrompidos.
— Ei, Lily! — Chamou um rapaz de olhos e cabelos escuros, presos em um coque samurai. James apostaria num possível vegetarianismo também, dado o seu look alternativo, composto de um shorts cáqui e camiseta de estampa havaiana. — Não vai compartilhar o gato com a gente?
Lily riu e entrelaçou uma das mãos na de James com certa possessividade.
— Mas é claro! — Exclamou, puxando-o para aproximá-lo do grupo. — James, esse é o pessoal. Pessoal, esse é o James, meu acompanhante.
Quatro anos para se formar em relações públicas como o primeiro de sua turma, outros dois para conseguir um emprego decente e três outros para ser contratado em uma das melhores agências do estado. Tudo isso para ter sua carreira e esforços reduzidos a acompanhante. Puta merda, aquilo era deprimente.
— Assistente pessoal. — James corrigiu ao notar a quantidade de olhos que se arregalaram com as palavras da atriz. Tudo o que ele não precisava agora era ser o responsável por uma matéria no TMZ envolvendo as palavras: “Lily Evans” e “prostituição”.
— Mas poderia ser muito mais. — Lily acrescentou e piscou para ele em seguida, dando margem a uma série de gritinhos empolgados por parte da plateia que os assistia.
James separou suas mãos e apertou as têmporas, respirando fundo.
— O que você está fazendo? — Indagou outra vez e ela lançou-lhe um olhar dotado de segundas intenções.
— Flertando com você, docinho. — Lily correu as pontas dos dedos pelo queixo dele e mordeu o lábio inferior antes de continuar. — Sendo gostoso assim, deveria estar acostumado.
Aquela era a última coisa que queria no momento, mas James sentiu o calor espalhar-se por suas bochechas. O rapaz costumava perder o fôlego quando Lily se aproximava demais ou o fitava daquele jeito intenso, causando-lhe uma sensação de hipnose e tornando impossível a tarefa de não retribuir o olhar.
Era demasiado inconveniente que existisse uma cláusula em seu contrato estabelecendo que qualquer envolvimento romântico com Lily acarretaria em sua demissão imediata. A garota parecia não medir esforços para fazê-lo se render a seus encantos.
Não que James não gostasse e correspondesse internamente. Mas, acabava se tornando irritante quando ele sabia que não podia tomar uma atitude plausível a respeito.
— Estou falando disso. — James esclareceu, apontando para a situação caótica ao redor deles. A música eletrônica ressoava tão alto que ele precisou aproximar-se dela para ser ouvido.
— Isso? — Lily indagou com curiosidade. — Estamos jogando “bicho bebe”. — James conhecia bem a brincadeira. Cada participante adotava um animal para representá-lo e então todos se revezavam para escolher alguém para beber, enquanto a pessoa escolhida precisava pensar rápido para passar a bola para qualquer outra pessoa que não ela mesma. Era o tipo de jogo que sempre acabava com a maioria dos integrantes embriagados, já que quanto mais bebiam, maior era a probabilidade de errar e, assim, ter de continuar bebendo. — Quer participar?
— Não.
— Vamos, docinho. — Ela pediu e piscou os longos cílios enquanto corria uma das mãos por sobre seu peito descuidadamente. — Eu sou a cobra, mas posso trocar com você. Isso se você tiver certeza de que sabe usá-la melhor do que eu, é claro.
James pretendia bufar entediado, mas acabou corando outra vez ao notar que o toque havia deixado-lhe arrepiado. Afastou a mão dela, obrigando-se a pensar racionalmente.
— Lily, nós precisamos ir embora. — Tornou a dizer, agora com certa urgência em suas palavras. O celular voltara a vibrar em seu bolso.
A garota soltou o ar com irritação palpável e cruzou os braços, deixando de lado a postura amigável.
— Não seja estraga prazeres, James. Você acabou de chegar.
— Eu nem mesmo deveria ter tido que vir, Lily. — Disse em um tom mais sério e bufou ao vê-la rolar os olhos.. — Inferno, você sabe que não pode vir pra esse tipo de lugar, Lily.
— Você sabe que não pode vir pra esse tipo de lugar. — Lily mimetizou irônica e tomou para si mais um shot que alguém lhe estendera. — Se eu seguisse as ordens da Daisy à risca, eu viveria trancada em uma caixa sempre que não estivesse trabalhando. — Havia tamanho ressentimento e acusação em suas palavras que o rapaz manteve-se em silêncio enquanto ela entornava a dose de tequila que tinha em mãos. — O ser humano precisa viver de vez em quando, Potter. Aliás, recomendo.
James suspirou e fechou os olhos com força pensando no que fazer enquanto a menina chupava um limão a fim de amenizar o gosto forte da tequila.
Não imaginava que arremessá-la por sobre os ombros outra vez e carregá-la para fora a força fosse uma opção plausível, não quando estavam em um ambiente recheado de jovens viciados em redes sociais — ele também não fazia ideia de como a equipe faria para conter essa notícia, mas como preocupar-se com isso não era parte oficial de suas tarefas, deu de ombros. Ao abrir os olhos, instantes depois, deparou-se com as orbes de Lily fitando-o perto demais.
Ele usou as duas mãos para segurá-la pelos ombros e impedi-la de continuar se aproximando.
— O que você está fazendo? — Perguntou incisivo e Lily piscou vagarosamente antes de ignorar seu gesto e envolver sua nuca com os braços.
— Te ajudando a viver um pouco. — Ela respondeu por fim em voz baixa, o álcool em seu hálito preenchendo as narinas de James enquanto ela ficava na ponta dos pés para alcançar sua boca. — Você precisa pensar menos e viver mais.
James empurrou-a gentilmente para trás pouco depois que seus lábios se encontraram. Uma parte em seu interior — aquela totalmente inconsequente e que adoraria ligar o foda-se para as obrigações da vida adulta — protestou pela interrupção, ansiando por mais contato físico do que aquele mísero e breve encostar de lábios. No entanto, para a sorte — ou azar, dependia bastante do ponto de vista. — de James, a porção sensata e racional de seu cérebro continuava no controle.
— E você precisa começar a pensar mais.
Lily, agora com os dois pés no chão, lambeu o lábio inferior e fitou-o com tamanha satisfação que James surpreendeu-se por não ter corado outra vez.
— Mas, meu amor, se eu fizer mesmo isso, o que será do seu emprego? — Perguntou divertida e James sentiu-se compelido a admitir que aquele era um bom ponto.
— Você tem cinco minutos para me encontrar no jardim da frente enquanto eu peço um Uber. — Disse, retomando o controle e a firmeza em suas palavras.
Lily deu um passo para trás, cruzou os braços por sob os seios e fitou-o com petulância.
— Se não…?
Ele abriu e fechou a boca pelo que lhe pareceram infinitas vezes.
— Ou eu juro por tudo o que é mais sagrado que vou ligar para a Daisy.
Lily riu e apoiou uma das mãos na cintura.
— E quem você acha que sairia mais prejudicado com isso?
Frustrado, James comprimiu os olhos e respirou fundo.
— Você tem uma hora. — Disse por fim, a voz não passando de um sussurro em meio à música. Então aumentou o tom. — Mas só se você não me der trabalho para acordar amanhã.
Lily sorriu. Um sorriso de trinta e dois dentes estonteantemente brancos, capaz de fazer dentistas chorarem de emoção.
— Feito.
— Estou falando sério.
— Eu sei. — Respondeu satisfeita e aproximou-se o suficiente para beijar-lhe em uma das bochechas. Um arrepio percorreu toda a extensão da coluna de James — Obrigada.
*~*
Lily tentou despistar o assistente menos de vinte minutos depois, argumentando que precisava fazer uma visita ao banheiro — cortesia do álcool e seus efeitos antidiuréticos. Com mais inocência do que deveria, James levou suas palavras a sério e só percebeu que havia sido enganado um quarto de hora depois, quando ela não tornou a aparecer para mais rodadas de bicho-bebe.
Ele deveria ter considerado essa possibilidade, é claro. Apesar de já estar familiarizado com os hábitos rebeldes da atriz a esse ponto da convivência, algum motivo oculto tinha de estar por trás da insistência de Lily para que permanecessem na festa. Talvez ela pretendesse se encontrar com algum colóquio amoroso, embora James estivesse vagamente ciente de um contrato de relacionamento falso com um D.J qualquer.
Fora a melhor desculpa que a equipe de gerência havia conseguido encontrar para as frequentes aparições de Lily e, clubes noturnos. O machismo incrustado na mídia e público em geral era tamanho que, para eles, um namoro chocava menos do que o fato de uma mulher, jovem e solteira, poder estar curtindo a noite por aí. Quanto ao outro lado do contrato… Bom, não houve reclamação alguma. Ninguém nunca se queixava da publicidade grátis que automaticamente se ganhava ao ter o nome vinculado ao da atriz.
Ah, se todos soubessem o que costumava acontecer por trás dos holofotes...
Foi preciso rodar a fraternidade inteira até que James finalmente conseguisse encontrar Lily. Ela estava naquele que lhe parecera o mais improvável dos lugares: o jardim. Estava deitada sobre a grama, tão imóvel que o rapaz chegou a suspeitar que tivesse entrado em coma alcoólico.
James aproximou-se devagar, pronto para verbalizar alguma frase espertinha como “xixi demorado o seu” quando notou que ela observava as estrelas. Em um tom de voz baixo, quase inaudível, Lily nomeava as constelações sem pressa, vez ou outra enrolando as pontas dos dedos na grama.
— Nós somos todos feitos de poeira de estrelas¹. — Ela disse devagar e piscou uma série de vezes, permitindo que uma lágrima escorresse devagar de seu rosto até o gramado. Completamente espantado e tomado pela sensação de que estava invadindo um momento de extrema privacidade, James recuou alguns passos.
Intrigado com a cena e sentindo a ponta dos dedos formigarem pela curiosidade, James buscou por um lugar onde pudesse observar sem interromper o que quer que Lily estivesse fazendo. Encontrou uma espreguiçadeira próxima à piscina e a poucos metros de distância, ideal para seus objetivos e sentou-se ali, tomando o celular em mãos e seguida.
Atento, revisou os compromissos da próxima semana em busca de algum teste agendado que pudesse ter qualquer relação com astronomia, mas não encontrou nada. Procurou então nas seguintes e quando continuou sem uma resposta, optou por ler o roteiro do próximo filme que lhe havia sido enviado e cuja gravação estava marcada para o início do mês seguinte.
Não era interessante. A maioria dos filmes estrelados por Lily não era. Os únicos enredos aprovados pela equipe costumavam limitá-la sempre ao papel da mocinha indefesa, normalmente o par romântico de algum herói mais importante do que ela mesma.
James não encontrou ali qualquer menção ao cosmos ou às estrelas, mas a leitura entreteu-o por mais tempo do que esperava. Pouco mais de uma hora depois, o aparelho vibrou em suas mãos, indicando uma nova ligação.
— James? — A voz de Lily soou tão calma do outro lado da linha que ele quase não a reconheceu. Não havia sinal de embriaguez ali, o que constituía uma surpresa e tanto, considerando a quantidade de shots que ela havia tomado mais cedo. — Onde você está?
— Acho que poderia fazer a mesma pergunta a você. — Disse. — Estou perto da piscina.
Lily apareceu pouco depois. Parecia mais relaxada do que James jamais a vira.
— Podemos ir embora? — James franziu o cenho.
Algo de muito estranho estava acontecendo naquela noite. Ele se aproximou e encostou as costas de uma mão na testa dela.
— Acho que você está com febre. — Disse. Entretanto, a confusão que ainda sentia acabou por impedir que o humor envolvesse suas palavras.
Lily rolou os olhos e mostrou-lhe o dedo do meio antes de afastar a mão de James de seu rosto.
— Estou falando sério.
Ele ergueu os braços em sinal de rendição.
— Eu vou avisar a Daisy e chamar um Uber. — Avisou, já com o celular em mãos.
Lily segurou-o pelo antebraço a fim de impedi-lo. O nervosismo no gesto não passou despercebido a James, que já estava mais do que em alerta dado tudo o que havia presenciado na última hora.
— É mesmo necessário? — Ela questionou e ao notar que deixara transparecer mais do que deveria, fez o possível para adotar uma postura mais indiferente. Aquela foi a primeira vez que James percebeu que havia em Lily uma áurea de cansaço que, de tão permanente, costumava passar despercebida a ele e talvez todos os demais. — Quero dizer, o hotel fica há o que… Três quadras da saída do campus? Para que desperdiçar dinheiro com isso?
James franziu o cenho, desconfiado. Havia tantos zeros na conta bancária da atriz que dinheiro costumava ser a última de suas preocupações.
— Você quer andar? — Ele rebateu com ceticismo.
Lily costumava odiar as sessões diárias de musculação com o personal trainer, de modo que era preciso quase carregá-la à força para que comparecesse à academia. Não parecia certo que fosse justamente ela a sugerir um exercício físico desnecessário.
— Sim. Qual o problema nisso?
James ergueu uma mão a fim de enumerar os argumentos.
— Um: é quase uma da manhã. Dois: você está sem o segurança. Três: vai começar a chover a qualquer momento.
— Não vai, o céu está limpo. — Lily rebateu. — E se chover, repito: qual o problema? Eu não sou feita de calcário, não vou ser corroída pela chuva ácida de Los Angeles. — James sabia que ela havia sido educada em casa, sem nunca ter frequentado um colégio comum, mas não esperava que a atriz tivesse mesmo prestado atenção no que lhe fora ensinado. Aquele tipo de contra argumento científico não combinava nem um pouco com a sua persona. — E quanto ao segurança… Eu não conto para a Daisy se você não contar.
Lily piscou com um olho só, tal como uma criança travessa que compartilha um segredo e James riu, sem saber o que dizer. Perder a linha de raciocínio vinha se tornando uma constante em suas últimas interações com a garota. Entretanto, a falta de palavras agora estava associada às recentes descobertas sobre ela, não às suas investidas descaradas.
— Só porque estamos mesmo perto do hotel. — Cedeu pela segunda vez naquela noite.
Lily sorriu em um agradecimento genuíno e James tornou a guardar o celular no bolso da calça. Colocou-se ao lado dela e, sem pressa, atravessaram o jardim em direção à saída, vez ou outra tendo de contornar um jovem desmaiado sobre o gramado.
Só deixaram de ouvir a música eletrônica quando atingiram o final do quarteirão.
— Já passou da meia noite. — James comentou logo que saíram do campus, passando às ruas da cidade. Lily arqueou uma sobrancelha sem entender sobre o que raios ele estava falando. — É quase seu aniversário, não?
— Ah. — Lily exclamou desanimada e algo pareceu se alterar em sua postura. — Sim, é amanhã.
— Você não parece empolgada. — James verbalizou o estranhamento. Imaginava que a atriz fosse estar radiante por finalmente atingir a maioridade, não que a encarasse com tamanho descaso. — Quais os planos para o grande dia?
— Vou ficar em casa com os meus gatos. — Ela riu fraco e o rapaz a acompanhou, visualizando a felicidade dos três felinos por terem a companhia da dona por um dia inteiro. — Sozinha. — Acrescentou, como se aquele fosse um fato relevante. — A não ser que você queira mudar isso.
Lily estava apenas brincando, mas a insinuação fez com que o corpo de James, ao seu lado, se retesasse. Ele abriu e fechou a boca várias vezes antes de por fim se render e perguntar.
— Por que você sempre faz isso?
Ela franziu o cenho e parou de andar, obrigando-o a cessar o movimento também.
— Por que eu sempre faço o quê?
— Se insinua para mim desse jeito. — James ergueu os braços, tentando encontrar a melhor maneira de se expressar. — Você sabe que eu sou um funcionário e que não posso corresponder às suas investidas. Então por que se dá ao trabalho?
Lily deu de ombros, cruzando os braços em seguida.
— Por que você reprime noventa por cento do que pensa? Algumas coisas apenas fazem parte de quem somos.
James não se deu por vencido e fitou-a com seriedade no olhar.
— Eu não digo tudo o que penso para evitar conflitos desnecessários, é diferente.
— Para evitar conflitos ou as consequências deles? — Lily indagou e, se não fosse a postura defensiva, ele talvez tivesse rido por concordar com ambas as opções propostas. — Sabe o que isso diz sobre você?
Mesmo receando as palavras que poderiam vir a seguir, ele negou.
— Por favor, Freud, me ilumine com o seu conhecimento.
— Que te falta coragem.
James, sendo disfarçadamente chamado de covarde, não aceitou a acusação muito bem. Calor espalhou-se pelas suas bochechas e ele precisou ponderar por um longo tempo até conseguir dizer:
— Não querer perder o emprego não tem nada a ver com covardia. É puro bom senso.
— Chame como quiser, no fundo, nós dois sabemos que isso é só o que você diz a si mesmo para conseguir dormir à noite.
— Sabe, Lily. — Começou a dizer, sem saber exatamente o porquê de estar se sentindo tão irritado e ofendido. — Nem todo mundo pode se dar ao luxo de fazer o que quiser porque tem a vida toda garantida.
— Disse o herdeiro de um império farmacêutico.
James corou outra vez com a parcial veracidade do argumento. Seu pai de fato conquistara uma posição financeira privilegiada após a invenção de um poderoso alisante capilar. No entanto, já havia informado ao único filho que deixaria uma parte substancial desse dinheiro a uma fundação em prol do avanço científico, de modo que não deveria contar com a herança como forma de sustento.
— Que seja. — Disse por fim. A discussão havia escalado a um ponto que o rapaz definitivamente não previra. — Eu nunca precisei de uma babá para garantir que não ia fazer merda.
Lily arqueou uma sobrancelha, havia algo em seu tom de voz que o assistente não conseguiu identificar.
— É isso que você acha? — Perguntou incisiva, os olhos verdes parecendo cintilar com um sentimento não identificado por James. — Que foi contratado por causa da minha irresponsabilidade?
— Você já provou mais de uma vez que precisa de supervisão constante.
Lily riu. Uma risada irônica que fez com que um arrepio se espalhasse pela coluna de James. Ela massageou as têmporas antes de continuar.
— Retiro o que eu disse, não te falta coragem. Você é só mais um tremendo alienado mesmo.
— Eu? Alienado? — James arregalou os olhos, incrédulo. — Você bebeu tequila demais.
— Por um acaso você já parou para pensar que se alguém começou a atuar aos quatro meses de idade, talvez toda essa carreira não tenha sido uma escolha própria? — Ela não lhe deu tempo suficiente para formular uma resposta. — Já pensou que talvez eu tenha passado toda a minha adolescência ansiando pelo momento em que faria dezoito anos e poderia me libertar do relacionamento tóxico que eu tinha com os meus pais? E acreditaria se eu dissesse que os advogados deles arranjaram uma cláusula sabe-se Deus lá de onde que colocou todos os meus bens sob o domínio deles até que eu completasse vinte e um anos? E que agora que eu estou às vésperas dessa data descobri que conseguiram adiar até os vinte e cinco, porque aparentemente eu sou incapaz de gerir uma carreira que sempre esteve sob o controle deles e sobre a qual eu nunca tive poder de escolha? Você não está aqui porque eu sou uma rebelde sem causa, James. Você é o meu “grande irmão”, igualzinho àquele livro, 1984. Seu dever é observar e garantir que eu não estou tramando nada contra eles. Sua presença constante não é porque eu sou solitária e eles receiam que eu acabe me matando devido à depressão que, obviamente, acabei adquirindo ao longo desses anos sendo oprimida. Você está aqui para que eles tenham certeza de onde eu estou, com quem estou e o que eu estou fazendo o tempo todo. Por que você acha que o meu envolvimento com qualquer um que meus pais coloquem na equipe é estritamente proibido? Eles não podem se dar ao luxo de ter alguém tão próximo e que seja mais leal a mim do que a eles! Eu não me insinuo para você só porque você é gato pra caralho, James. Você é só mais um peão no jogo deles, um que vem sendo ridiculamente difícil de sacrificar.
James não sabia o que dizer.
Incontáveis segundos se passaram enquanto ele encarava a figura de Lily, ambos sem fôlego, apesar de por motivos completamente diferentes
A confissão lhe fora tão inesperada quanto um soco no estômago enquanto que, para a garota, fora como se por fim pudesse tirar um peso dos próprios ombros. Todas as cartas de Lily haviam sido colocadas no jogo.
— Eu sinto muito. — Se pegou dizendo, na falta de palavras melhores.
— Não. — Respondeu, negando com a cabeça. Lily mordeu o interior das bochechas, fitando algo à sua direita e, num impulso, aproximou o corpo do dele. James franziu o cenho, mas antes que pudesse perguntar, ela juntou os lábios aos seus em um selinho demorado pela falta de reação dele. Separaram-se depois que o som de um flash irrompeu pelo ambiente silencioso. — Eu sinto muito.
Inundado por uma dezena de novas informações acerca da pessoa à sua frente e rompida a barreira de provocação que os envolvia, James por fim entendeu como Lily esperava que ele agisse nos próximos instantes. Enquanto ponderava sobre tudo o que estava prestes a perder — seu emprego, a chance de conhecer seu maior ídolo profissional e o contato diário com a atriz (que por mais irritante e estressante que fosse, ele já havia se habituado) — os olhos de Lily encontraram-se com os seus.
Havia expectativa nas orbes verdes dela e uma dezena de questionamentos implícitos nas castanhas de James. Ele fitou a atriz, que assentiu devagar à pergunta que mais importava e, tomando cuidado para tirar os fios de cabelo acaju que surgiam ao longo do caminho, pousou uma das mãos em torno do pescoço de Lily, aproximando o rosto dela do seu.
Ainda sem romper o contato visual, ele encostou suas testas. O flash de mais uma foto sendo tirada sem permissão iluminou o ambiente, registrando exatamente aquilo que ambos desejavam: a ruptura da imagem de boa moça arquitetada com tamanho esmero por mais de vinte anos; o início da liberdade de Lily Evans.
— Obrigada. — Ela disse em um fio de voz que não escondia a emoção. — Céus, obrigada.
— Não, não agradeça ainda. — Respondeu, diminuindo ainda mais a distância entre eles ao usar o braço livre para segurá-la pela cintura. Lily esboçou um leve sorriso. — Hora do xeque-mate.
A mão que ainda estava acomodada na curva do pescoço de Lily foi usada para guiar o rosto dela até que por fim seus lábios se encontrassem. Tudo começou bastante calmo, considerando todos os momentos em que James já havia cogitado sucumbir ao desejo nos últimos meses. Lily entreabriu os lábios, aprofundando o contato enquanto passava os próprios braços em torno do pescoço dele, juntando seus corpos com cuidado, quase como se ainda receasse que ele pudesse arrepender-se a afastar-se de repente. Ambos ainda muito cientes de que alguém com uma câmera os observava ao longe, registrando cada instante do que acontecia.
E então algo mudou.
James sentiu o roçar das unhas de Lily contra a pele exposta na base de sua nuca, gerando arrepios que apenas ela era capaz de gerar com tamanha facilidade e o estímulo, além de arrancar-lhe um grunhido baixo, levou-o a intensificar o aperto na cintura dela. Lily suspirou contra ele e logo já não havia mansidão nos gestos de nenhum deles, apenas urgência e necessidade. Necessidade de contato, de explorar as áreas escondidas, de intensificar as sensações que um tinha o poder de causar no outro e criar outras ainda mais poderosas.
Ele não saberia dizer quanto tempo se passou até que, sem fôlego, Lily mordiscou seu lábio inferior e afastou-se para mirá-lo nos olhos, lutando para recuperar-se. A visão da atriz com as bochechas coradas, lábios inchados pelos seus beijos e pupilas dilatadas apenas aumentou o desejo de James, que imaginava não estar muito diferente. Ele estava a poucos instantes de ceder à luxúria e voltar a puxá-la para mais perto quando mais um flash iluminou a rua.
O rosto de Lily contorceu-se em uma careta ao fitar o paparazzi. James xingou-o infinitas vezes por interromper o momento que compartilhavam.
— Acho melhor sairmos daqui. — Ela disse e, para a surpresa do rapaz, havia certa vergonha em sua postura quando afastou-se dele. James achou aquilo adorável.
— Tem razão. — Concordou e entrelaçou os dedos da mão esquerda aos dela. Lily fitou-o surpresa e o rapaz limitou-se a piscar com um olho só para ela.
Já que ele estava no inferno, talvez o melhor fosse mesmo dormir com o capeta.
Parando para pensar, talvez James estivesse sim tendo a melhor das experiências em seu antigo emprego.
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