Good Riddance
32 Voltando para casa
A final do vôlei estava eletrizante. André estava jogando com tudo que tinha, e a torcida da UFRGS estava delirando, afinal, já ganhavam por 2 sets contra 1, e o set atual estava ferrenho, um ponto para cada time por vez. Quando a UFRGS ficava um ponto na frente, a Fundação ia e empatava, e assim sucessivamente. André, que estava mais atrás, pareceu voar para frente e atingir a bola no centro da rede, afundando-a na quadra adversária. Fabrício queria ter gravado a cena, mas dessa vez ele estava em quadra também, jogando, pois um dos titulares estava com uma ressaca de derrubar até elefante.
O time foi se abraçar para comemorar o 24º ponto, e Fabrício aproveitou para dar um tapa na bunda do loiro, que lhe lançou aquele típico olhar funesto que prometia uma morte lenta, dolorosa e muito, muito cruel. Fafá sorriu culpado e correu para sacar, já que era sua vez. Se acertasse um ace, o time venceria o Intermed no vôlei. Respirou fundo, tentando se concentrar. André era a estrela do time, que inclusive fizera cinco aces durante todo o jogo. Fafá não conseguira fazer nenhum, o saque não era seu forte, mas se concentrou mesmo assim.
Olhou para o André, e sorriu quando o loiro lhe piscou, incentivando-o antes de se posicionar e lhe indicar com os dedos qual sequência de passes teria preferência na próxima jogada. Isso o deixou mais relaxado, e tocou a bola para o ar, correndo para atingi-la e então pousando na quadra quando a bola chegava ao adversário. Um dos garotos da fundação conseguiu se posicionar para recebê-la, mas ela veio tão forte, que voou para a lateral, até a torcida da UFRGS após a manchete que o garoto tentou dar. A torcida enlouqueceu, e tudo que Fabrício conseguiu processar foi os colegas de time indo abraçá-lo, naquela alegria inexplicável de vencer um campeonato, mesmo que um pequeno como aquele.
“Estava sentindo que tu ia acertar essa!” André gritou para o moreno, tentar fazer-se ouvir com a barulheira do estádio.
“Foi por ti!” Fafá falou ao se aproximar do loiro, quase colando os lábios contra o ouvido dele. André o olhou com um sorrisinho sarcástico para disfarçar o constrangimento. As bochechas já estavam vermelhas pelo esforço do jogo, e ambos novamente urgiam por um banho, assim como qualquer outro dos jogadores.
Foram cumprimentar os adversários e, quando já estavam para sair, o loiro se voltou para o Fabrício.
“Corremos pra um banho?” André perguntou, e nem estava pensando em os dois tomarem banho juntos quando perguntou, mas estreitou os olhos quando o moreno abriu um sorriso um tanto feliz demais.
“O jogo de futebol é em menos de uma hora!” Fafá o lembrou. Outra final, e aí estariam livres. O ônibus os levaria de volta a Porto Alegre oito e meia da noite, pelo que haviam dito, e o jogo de futebol era às 16h.
O Intermed estava quase no fim.
“Então corremos.” André falou e segurou o moreno pelo braço, correndo com ele para o ônibus que já quase partia. Se fossem esperar os outros, não teriam tempo para nada antes do futebol.
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“Penúltima vez que tomo banho em um container!” André exclamou quando entravam no container que possuía uns oito boxes de banho.
Havia mais dois garotos tomando banho ali.
“Estou louco pelo meu apartamento apertado e um pouco de silêncio e paz.” Fafá comentou, pendurando a mochila num dos ganchos. “’Tô cansadão, vou morrer depois desse jogo de futebol. Eu nem sei que horas acabou aquela festa na piscina, não sei o que aconteceu no final da noite, não sei de nada.”
André riu ao se lembrar. Diferentemente do Fabrício, dessa vez não bebera até perder a memória.
“Por onde começar...? Primeiro, teve uma hora que tu chutou um copo, simplesmente por chutar, e ele explodiu em milhares de pedaços. Sorte que isso foi do lado de fora, acho que isso foi por último. Antes teve uma hora que tu ficou correndo de um lado para o outro, passou por mim, disse que ‘tava com fome, escorregou no chão molhado, caiu de boca, levantou e continuou a correr. Também atirou um monte de gente na piscina, até gente que tu nem conhecia, e aí uma galera se reuniu pra te atirar, enquanto tu gritava por misericórdia e os recordava dos treze mandamentos, que são dez, mas tu acrescentou outros três, como ‘jamais por vingança jogarás amigo teu na piscina’ ou coisa assim. Depois ainda te encontrei dormindo no banheiro do alojamento, abraçado na privada depois de vomitar. Quando tentei te acordar, tu falou que a privada era tua amiga e que teu vômito tinha gosto de morte.” André cruzou os braços sobre o peito. “Preciso continuar, ou tu já ‘tá satisfeito?”
Fabrício engoliu em seco, ele tinha medo de si próprio bêbado. Acabou iniciando uma gargalhada assim que André também explodiu em risadas, se curvando em dois. Fafá empurrou a cabeça do loiro, no fundo desejando acreditar que era tudo invenção do outro.
“É melhor eu tomar um banho. Acho que ainda ‘tô com gosto de morte na boca.” Fabrício avisou estalando a língua.
Enquanto entravam nos boxes, os outros dois rapazes saíam. Não demorou a que estivessem sozinhos ali no container, cada um num box.
“Em posição será que ficamos agora no geral? Ontem de noite me falaram que a Fundação ‘tava em primeiro lugar, não?” André perguntou, já debaixo do chuveiro.
“Não sei. Ainda tem o jogo de basquete feminino, vôlei feminino e futebol masculino, e sei lá eu o que mais.” Fafá enumerou, esfregando o sabonete pelo corpo. “Posso ir aí contigo?” Perguntou, cara de pau.
“Vai sonhando.” André rebateu, quase um rosnado. Só de lembrar aquele banho que haviam tomado juntos, sentia calafrios. Ou a maneira como haviam se agarrado na festa da piscina, enquanto Beto e Milo transavam. Agora, mais lúcido, quando pensava nisso, achava um absurdo ter presenciado dois garotos transando bem à sua frente. Beto e Milo deveriam ter-se segurado; porém entendia que naquele momento a bebida falara mais alto, e que os dois não teriam mais muitos momentos juntos.
“Ao menos me dê um beijo depois então.” Fafá pediu, insistente, e o André bufou, querendo terminar logo aquele banho antes que o moreno resolvesse invadir seu box mesmo sem consentimento. Não dava para confiar no bom-senso do Fafá, ainda mais depois das coisas que presenciara ele fazer na festa da noite passada. Só de lembrar acabou voltando a rir.
“Lembrei que ontem tu também perdeu tuas lentes. Me confundiu com uma loira de cabelos curtos e tentou beijá-la.” André não gostou de ser confundido com uma guria, mas em se tratando de um bêbado sem lentes não era de se surpreender. “E levou um tapão na cara.” O moreno tivera o que merecia. Quase aplaudira a loira.
“Puta que pariu! Por isso que acordei com minha bochecha dolorida. Achei até que tu tinha me batido, tchê!” Fafá exclamou, voltando a tocar a bochecha, mas esta felizmente já parara de doer. Sorte também que trouxera lentes extras, pois tinha essa péssima mania de perdê-las.
“Vontade não faltou.” André garantiu.
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“Então... Acho que isso é uma despedida.” Gabi mordeu os lábios. “Ainda ‘tô meio chocada com o que fizemos noite passada.”
“Ah, é... Eu não sabia que tu era bi.” Dani também estava encabulada, mas viera atrás da morena se despedir. Também esperava encontrar o Fabrício. Do Rafael não gostava, apesar de não ter nada contra – nunca conseguira manter um conversa com ele, e inconscientemente isso a lembrava das pessoas que a ignoravam e evitavam conversar com ela, lá na reserva.
“Não sabia que tu era!”
“Eu me apaixonei quando mais nova por uma guria da minha reserva, mas tínhamos medo de nos relacionarmos, pois sofreríamos muito se alguém descobrisse. Acabou sendo meu primeiro amor, e como a maioria dos primeiros amores, não foi pra frente...” Dani corou, remexendo o pé. Olhou para Gabi e sorriu. “Mas não me arrependo da noite passada.”
“Ah, nem eu...” Gabi comentou, sem jeito, mexendo nos cabelos. Ela e Dani haviam acabado na mesma barraca, da própria Dani, já que Milo ficou com o Beto, e se beijaram e tocaram até caírem no sono, bêbadas como estavam. “E pensar que tu estava atrás do Fafá...” Riu, desconfortável.
“O Fabrício era um assunto mal resolvido do passado, que foi resolvido nesse Intermed, como já falei. O Milo acabou me contando que ele é gay e... Hei!” Exclamou ao ver a expressão surpresa e insatisfeita da morena. “Não fique chateada com o Milo. Eu não tenho por que espalhar isso, e não tenho preconceitos, obviamente. Aliás, até me senti melhor por ele ser gay, ou bi, sei lá, por mais idiota que isso possa parecer...” Mordeu o lábio.
“Eu te notei desde o cursinho. Mas ainda estava confusa com a minha sexualidade ano passado. Acho que foi mais um dos motivos por que eu e o Fafá não demos certo e...” Gabi pensou melhor e achou que desde aquela época já reparava na índia com outros olhos, mas preferiu não comentar. “Queria que tu estivesse na UFRGS com a gente.”
“Eu também queria estar. Mas nunca se sabe, né? Vai que eu consigo uma mobilidade acadêmica.” Deu de ombros e sorriu, e então abraçou a morena, deixando a vergonha de lado. Gabi retribuiu.
Naquele momento, os outros apareceram. Fran olhou desconfiada para a índia, apesar de ter escutado de Gabi a história dela, continuava não indo com a cara dela, e sentiu ciúmes de vê-las tão próximas. Já Rafael se manteve indiferente, apenas se despediu normalmente de Dani. André não a conhecia, então também apenas se despediu.
O loiro estava de mau-humor por a UFRGS ter perdido o Intermed. Ganharam no futebol contra a UFPR, mas por um problema de comunicação, o time feminino de basquete não conseguiu chegar a tempo no jogo final, e a Fundação ganhou por W.O. Se tivessem vencido o jogo de basquete feminino, teriam ganhado o Intermed, mas acabaram em segundo, enquanto a Fundação levou o primeiro lugar. Em terceiro, estava a UFSC. Era uma injustiça indigesta.
Já Fabrício abraçou efusivamente a índia.
“Foi tri legal te ver, Dani!” Ele garantiu, sorrindo. Dani revirou os olhos, pensando que o moreno jamais mudaria, e se sentiu meio ameaçada pelo olhar letal de certo loiro. Afastou-se pigarreando.
“Então vou indo, que minha viagem é mais longa que a de vocês, então sairemos mais cedo. A gente mantém contanto.” Pegou as malas e abanou, se afastando. Pelo caminho, encontrou com o Milo, que também abanou para o grupo antes de seguir com ela em direção ao ônibus.
Beto apareceu pouco depois e passou um braço pelos ombros do André.
“Cara, meu coração está sendo partido nesse momento.” Comentou com um ar desolado. “Eu acho que ele era o amor da minha vida. Olha como é lindo!” Ergueu o braço em direção ao garoto que já subia para o ônibus. André lhe deu uns tapinhas nas costas.
“Namoros à distância são complicados.” Comentou, um tanto insensível e sincero.
Beto soltou uma risada sem alegria.
“Namoro à distância? Isso não existe. E o Milo não é do tipo que se conquista fácil, pra ele isso foi pura diversão, entende? Pra mim também, claro, mas eu queria continuar a me encontrar com ele.” Suspirou, soltando-se do loiro. “Mas agora tenho de ir arrumar minhas coisas.” Abanou para todos e seguiu para os alojamentos.
Fabrício sorriu para a Gabriella.
“Então tu e a Dani, huh? Que loucura, gurizada. Esse mundo dá voltas.” Cantarolou, empurrando a Gabi pelo ombro com um ar de implicância. Gabi o empurrou em retorno e resmungou que iria arrumar suas coisas também, as memórias da noite anterior ainda lhe causando arrepios. Assim como Beto, ela também queria poder encontrar-se com a Daniela com alguma frequência.
Fran a seguiu, pois estava difícil encarar o Rafael.
“E vocês dois, hein?”André perguntou. “Acabaram ficando, e agora? Tu disse que era a fim da Gabriella.”
“É... Mas naquela primeira noite, que eu fiquei meio bêbado, eu falei pra ela que nós éramos só amigos e uma ladainha dessas. Só que ela agiu como se não soubesse do que eu ‘tava falando e me deixou, não vi mais ela na festa. Durante o outro dia comecei a reparar mais nela e... Na outra festa ela ficou com um guri e eu não gostei, como te falei. Ontem quando vocês foram jantar nós conversamos bastante, por mais louco que isso possa parecer vindo de mim. De noite eu simplesmente cheguei e... agora... eu curti ela. Mas estamos meio nesse clima hoje, não sei como chegar nela de novo, ou se ela quer.” Contou, talvez na maior sequência de palavras de sua vida, porém de uma forma lamentável – só faltava começar a chover e ele cair de joelhos na lama, pegando chuva em uma cena dramática.
André esboçou uma careta de deboche para a insegurança do alemão, já Fafá tentou animá-lo.
“Convida ela pra sair agora quando voltarmos. Ninguém deixa de gostar de ninguém de uma hora pra outra, só se tu beija mal pra caralho, ou tem bafo.” O moreno tentou farejar o hálito do Rafael, que o afastou, mandando-o se foder.
“Cara, o Fabrício tem razão, e mulheres gostam de homens confiantes, então mostre alguma coragem.” André corroborou o conselho do moreno, passando a mão pelos cabelos. “Acredite, eu sou o ás da mulherada.”
Fabrício gargalhou de tal forma, que teve de correr quando André tentou chutá-lo.
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Diferentemente da viagem de ida, na de volta não houve gritaria, cantoria, bagunça. Todos estavam podres, exaustos, alguns bêbados demais – depois de quatro dias bebendo sem parar – e simplesmente dormiram. Um pequeno grupinho tocou violão e cantou baixinho por algum tempo, depois ficaram conversando, alguns alternando entre dormir, ou participar do papo. Fafá ficou nesse grupinho, com os colegas Chico, Vanessa, Lauro, Giovanna, Eduardo e Paula.
André dormiu no assento, bem ao fundo do ônibus. Depois de um tempo, Fafá sentiu sono e foi sentar-se também com o loiro. O encontrou já adormecido e, aproveitando que o ônibus estava com quase todas as luzes apagadas para o pessoal descansar e que todos ali atrás dormiam, sentou-se de lado no banco, as costas para o corredor, e começou a acariciar a bochecha do dorminhoco.
André ficava muito lindinho dormindo encolhido também de ladinho.
Não aguentou e empurrou para cima o apoio de braço que dividia as duas poltronas, aproximando-se do loiro. Praticamente o abraçou, querendo senti-lo aconchegado em seu peito; porém se dormissem assim, a viagem terminaria e ainda estariam dormindo, e então os colegas os veriam naquela posição comprometedora. André não gostaria disso. Era tão injusto! Queria poder abraçar-se ao loiro, demonstrar carinho como qualquer garoto – livre de qualquer preocupação – poderia demonstrar a uma garota, naquela exata mesma situação; doía-lhe o peito ter-se de refrear dessa maneira.
Suspirou, acariciando os fios dourados do outro, e aproximou os lábios do ouvido dele, sussurrando:
“Eu te amo.” Admitiu em voz alta pela primeira vez, apesar de não passar de um murmúrio que ele próprio mal conseguiu escutar. André se remexeu de leve sob si, como se aquelas três palavrinhas houvessem lhe causado cócegas, um arrepio sutil na nuca. “Te amo.” Fafá repetiu, muito baixo, roçando a barba rala na orelha do loiro, e pôde senti-lo estremecer.
Ao se afastar um pouquinho, viu que ele continuava adormecido, ressonando tranquilamente.
Mas ainda repetiria essas palavras quando ele estivesse bem acordado.
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