Good Riddance
21 Não! Eu não quero! Extra Guilherme Parte II
Notas iniciais

Teus lábios são labirintos
Que atraem os meus instintos mais sacanas...
XxxX
Eu estava saindo do banheiro, ainda enxugando os cabelos com a toalha, quando a Marília começou a acordar. Fui até o armário, atrás de uma roupa enquanto ela se localizava no mundo. Foda-se que eu estava sem roupas, nada que ela já não tivesse visto várias vezes.
“Guilherme?” Ela chamou enquanto eu pegava uma muda de roupas. Me virei para ela, já sentada na cama esfregando os olhos, bastante descabelada. Provavelmente daria um berro caso se visse naquele estado, e que bom que não tenho espelho algum no meu quarto. “Nós transamos?”
“Não, tu dormiu antes disso.” Eu falei, não entrando em detalhes.
O melhor era que ela esquecesse a noite passada, assim como eu preferia esquecer. Que baita mancada aquela. Eu tinha de parar de ir na onda da Marília, ou estaria ferrado. Eu a havia conhecido na faculdade, ela faz engenharia química na UFRGS, coisa que ela odeia, mas continua cursando porque não sabe o que fazer se largar o curso. Nós transamos na primeira noitada, e acabamos virando grandes amigos. Era um alívio que ela quisesse apenas sexo, pois desde que eu fora chifrado pela minha namorada, quando eu tinha meus dezessete anos, não queria saber de nada sério. Queria apenas curtir.
E isso vinha dando certo nesses últimos seis anos.
“Não, mas espera... Nós não estávamos na casa da Luciana? Tu me trouxe pra tua casa?” Ela perguntou, aturdida. Eu dei de ombros, tentando evitar que ela se lembrasse de muita coisa, e apenas coloquei uma cueca e uma bermuda esportiva. Marília me observou atentamente, com os olhos estreitos, parecendo colocar as engrenagens do cérebro pra funcionar. Mau sinal.
Assim que terminei de me vestir, ela abriu um sorrisinho malicioso.
“Agora estou me lembrando. A gente ‘tava com o Davi. Eu não acredito que apaguei bem na melhor parte! Não me diga que vocês transaram, e eu lá, dormindo feito uma pata?”
“Eu não sei você, mas eu nunca vi uma pata dormindo.” Desconversei. Marília bufou, mas se deitou de bruços na cama, abraçando um travesseiro e me observando com os olhos brilhando.
“Vamos, conte-me os detalhes!” Exigiu.
Eu bem que gostaria de saber de onde ela havia tirado esse fetiche de gostar de ver dois homens se pegando. Uma vez me ludibriara e me levara para uma festa bastante alternativa. Percebi o erro quando percebi que 90% da população da festa estava se pegando com gente do mesmo sexo. Até Marília se arriscou com outra guria, mas depois atestou que preferia homens, apesar de não ter achado de todo ruim.
“Não há nada pra contar.” Rebati secamente.
Quando eu pensava no Davi fugindo, me sentia frustrado. Eu gostava dele, era um garoto querido, gente fina, que conversava numa boa e parecia sempre bem disposto. Me irritava a ideia de que as coisas ficariam estranhas entre nós, talvez ele fugisse toda a vez que me visse. Mas me irritava, principalmente, o fato de que eu não queria que ele tivesse fugido, porque queria ter feito certas coisas com ele na noite anterior.
“Nem vem! Eu sei que tu ‘tava meio bêbado, apesar de tu ser daqueles bêbados que parecem mais sóbrios do que quem não bebe, mas eu lembro que ele ‘tava te chupando!” Marília lembrou. Ah, droga, lembrar que um garoto havia me chupado, e ainda ser lembrado disso, também me deixava um tanto desconfortável. Pior ainda lembrar que eu havia gostado, mesmo que a técnica obviamente não tivesse sido das melhores.
“É isso. Ele me chupou, e depois foi embora quando viu que tu dormiu.” Eu disse meio irritado, me sentando na cama para colocar os tênis, e não deu três segundos e a Marília caiu na gargalhada. Me virei um pouco para ela, vendo-a quase rolando no colchão. “O que foi agora?” Bufei.
“Não me diga que... Tu broxou!” Ela concluiu o grande absurdo. “Não acredito que tu broxou! Que tipo de homem tu é? Oh, deus, não foi capaz de dar conta de uma coisinha pequena como o Davi!” Debochou às gargalhadas.
“Eu não broxei, porra! Ele que fugiu antes que-“
“Ele fugiu?” Isso pareceu diverti-la ainda mais. Percebi que havia acabado de cavar minha própria cova. “Ele fugiu de ti! Ai, meus ovários, isso fica cada vez melhor! Então o todo gostoso Guilherme seduz tão mal que faz jovens virgens e inocentes fugirem.”
A risada dela era irritante. Levantei da cama sem dizer nada e rumei para fora do quarto, resmungando algo como ‘vadia sem coração’. Marília é uma vadia, mas não que eu achasse que isso a diminuía como pessoa. Aliás, eu gosto bem mais das vadias do que as reprimidas que ficam por aí falando mal e invejando as mulheres que têm coragem de se libertar dessa montoeira de regras estúpidas da nossa sociedade machista.
Segui para o pátio.
Eu moro numa casa minúscula – um quarto com banheiro, uma sala e uma cozinha com área de serviço. E ainda havia o pátio com churrasqueira aos fundos, para reunir alguns amigos vez ou outra. Eu não precisava mais do que isso.
O pátio também era o lugar ideal pro meu Husky Siberiano de pelagem branca e preta, o Vilão. Peguei a coleira dele e fui para os fundos, encontrando-o já acordado, deitado na grama fresca. Como qualquer outro da raça, Vilão tinha uma tolerância alta ao frio. Estávamos no inverno, a manhã estava gelada, e eu me apressei a ir colocá-lo na coleira para ir logo correr. Preciso fazer isso todas as manhãs, ou tardes, porque cães da raça dele necessitam gastar muita energia por dia.
“Hei! Vai me deixar aqui sozinha?!” Marília apareceu na porta apenas de calcinha e sutiã, sem nem se importar com o frio. Era uma mulher quente. Não pude deixar de reparar no pivete do meu vizinho espiando pela janela do prédio pequeno, de três andares, atrás da casa. Olhei para ele e fiz um sinal para que sumisse, coisa que ele fez num piscar de olhos. Tenho a leve suspeita de que ele tem medo de mim.
“Vou sair pra correr, em no máximo uma hora estou de volta. Tem pão, bolo e frutas pro café da manhã, sinta-se à vontade. Depois te levo em casa, se quiser.” Ofereci, colocando o Vilão na coleira com dificuldade. Apesar do nome, é um cachorro sociável e carente, adora receber afagos e pular em cima dos meus amigos.
“É claro que vai me levar.” Marília jogou os cabelos para trás. “Vocês homens têm de ter alguma utilidade além da oferecida pelo acessório entre as pernas.” Ela debochou, cruzando os braços abaixo dos seios com um sorrisinho divertido. “E o teu parece com problemas, não é. Ou isso, ou tu já não é mais o mesmo.”
“Eu já mandei tu ir dar o rabo hoje?” Perguntei e sorri torto, debochado como ela. Marília soltou uma exclamação de desprezo.
“Como se eu precisasse de alguma ordem pra fazer isso. Mas quem parece não querer dar o rabinho pro Sr. Gostoso é o Davi.” Mais umas risadinhas e ela fez um sinal pro Vilão, chamando-o com um assobio. Vilão se empolgou tanto que acabou me derrubando, e correu alegremente até a loira. Marília riu ainda mais da minha cara de tacho, caído de bunda no chão, enquanto afagava a cabeça do cachorro.
Eu deveria mudar o nome dele para Traidor.
XxxX
Quando larguei a Marília em casa, já era quase meio dia. Resolvi ir almoçar na casa dos meus pais. Eles moram em Porto Alegre, mas decidi sair de casa quando entrei na faculdade. Minha sorte era que meus avós por parte de pai tinham aquela casinha pra alugar, e alugaram para mim por um preço agradável. Eu estava trabalhando meio período numa empresa pequena de construções, e à noite trabalhava em um bar da Cidade Baixa três vezes por semana. Me virava como podia na faculdade, onde também inventei de ser monitor de Cálculo, o que me rendia mais uns quatrocentos reais por mês. Meu pai insistia em pagar parte do aluguel como ajuda, por mais que eu negasse. No total, eu ganhava uns dois mil.
Dava pra viver.
“Tu não vai acreditar no que fiquei sabendo, Guilherme!” minha mãe falou enquanto eu devorava a lasanha especial que ela fazia quase todos os sábados. Eu ergui os olhos para ela, interrogativo. “O teu tio Samuel, lembra dele? Aquele que ‘tá morando em São Paulo. Ele é gay! Dá pra acreditar? A tua vó Teresa veio me contar que ele se assumiu semana passada, parece que ‘tá de namoro com outro homem e tudo!” Minha mãe falava como se um gay na família fosse algo extraordinário. Eu não soube identificar se havia algum preconceito ali, ou apenas surpresa e a alegria de espalhar uma fofoca.
“Themis, para de fofoquear sobre o Samy, deixa o homem viver a vida dele como bem entender.” Meu pai interveio incomodado, defendendo o irmão mais novo, mesmo que eles não se vissem há muitos anos, pelo que eu sabia. Minha mãe é a melhor do mundo, mas nunca vi mulher que gosta tanto de fofocar, e isso irritava meu pai a maior parte das vezes.
“Ué, e eu tô por acaso impedindo o homem de viver?” Minha mãe retrucou. “Só ‘tava contando as novidades. Ele que faça o que quiser entre quatro paredes.” Se serviu obstinada de mais um pedaço da lasanha. “Tu quer mais, filho?”
“Então vocês não acham errado dois homens juntos...?” Soltei enquanto estendia o prato pra minha mãe, de repente curioso. Meus pais me pareciam o tipo nem conservador, nem liberal, eram um meio termo, e geralmente não ficavam falando mal dos outros por bobagem. Eu acabei crescendo indiferente a isso também, mas agora... Estava curioso por alguma opinião mais concreta da parte deles.
“Não é que eu ache certo. Biologicamente falando, homem devia ficar é com mulher, e vice-versa, mas também não sou de ficar me metendo na vida dos outros. Cada um é feliz à sua maneira.” Meu pai disse, simples. Era um homem direto, e de poucas palavras. Não à toa eu até hoje não sabia sua opinião quanto a isso. E fiquei com a impressão que ele já sabia há muito tempo da verdadeira orientação sexual do irmão.
Minha mãe assentiu.
“Eu acho estranho de imaginar, então apenas evito. Tem certas questões que são individuais de cada um. Se teu tio gosta, deixa o homem, não ‘tá atrapalhando a vida de ninguém. Mas tua vó ‘tá bem louca com essa história, gente mais antiga tem mais dificuldade pra aceitar, teu vô parece até que chorou...”
Foi difícil imaginar o carrancudo e durão do meu avô chorando, e por algo tão estúpido. Meu tio Samuel era bem novo, devia ter no máximo uns trinta anos, talvez menos. Já fazia uns dez anos que eu não o via. Talvez por isso ele houvesse ‘fugido’ pra São Paulo, pra viver sem a repressão dos pais.
Passei o resto da tarde alternando entre estudar, dar uma arrumada geral na casa e dormir pra recuperar o sono atrasado da semana. No final da tarde, saí de casa pro futebol combinado com o pessoal da faculdade. Me perguntei se o Davi apareceria, e primeiro achei que não. Depois me achei idiota por me achar importante a ponto de fazê-lo não aparecer. Depois voltei a achar que ele não apareceria, e por fim achei que eu próprio iria dar para trás; porém às 16h30min lá estava eu, me alongando no campo que havíamos alugado, enquanto conversava com o Bordin, que acabara aparecendo também, apesar da promessa que fizera.
“Apesar de estar quebrando a promessa, foi um quase, fiquei duas semanas sem jogar, isso já é um recorde! Aposto que a santa lá em cima vai entender, ou quem quer que esteja cuidando disso. Eu e a Débora estamos super bem, talvez até role um namoro.”
“Já estão assim, é? Guria corajosa.” Falei.
Ronaldo Bordin era um cara perdido no mundo, avoado e cheio de vícios, entre eles futebol, cerveja, mulheres e cigarro. Pra uma garota o conquistar, e ela querer ficar com ele, era muita coragem. Preferi esperar conhecê-la antes de levantar a hipótese de que ela poderia estar somente atrás da grana dele, já que o Bordin, apesar do jeito simples e desleixado, era filho de um dos homens mais ricos do Estado.
“Vai se fuder, Guilherme. Eu também tenho as minhas qualidades, sou um cara romântico.” Bordin falou ofendido. Ele era assim sensível, se ofendia por qualquer coisa.
“Eu imagino.” Falei, e foi quando vi o Davi chegando junto com um dos colegas de turma dele. Eles estavam seguindo diretamente pro vestiário, mas como eu preguei minha atenção nele, nossos olhares acabaram se encontrando. Davi arregalou um pouco os olhos, nada discreto, e corou de leve, antes de desviar o olhar. Tive uma sensação incomum com aquilo, uma vontade de ir atrás dele, mas me mantive comportado no mesmo lugar. Então ele havia vindo, o que denotava certa coragem, talvez ele não fosse tão tímido quanto eu imaginava.
Todos logo estavam reunidos pra jogar. Davi reapareceu com uma roupa mais esportiva, e apenas me cumprimentou rapidamente, incapaz de me olhar nos olhos. Eu, por outro lado, fiquei observando-o mais fixamente. Eu havia dito na outra noite que ele vinha me chamando atenção, e não estava mentindo. Há algum tempo eu me pegava observando-o quase sem perceber, em algumas vezes procurando a razão da necessidade de querer olhá-lo.
Quanto ao jogo, foi um desastre. Ao menos pro Davi. Ele errou chutes, passes, tropeçou uma vez e caiu, em outra se chocou contra mim quando virou rápido e saiu gaguejando algo que me pareceu como um pedido de desculpa. Os colegas de time perguntaram a ele o que estava acontecendo, mas ele não falou que a culpa era minha, que deliberadamente mantinha minha atenção focada nele, fazendo-o a todo minuto sentir-se desconfortável com a minha presença.
O que posso dizer, ao mesmo tempo em que toda essa consciência que eu estava tendo dele me confundia, eu me arrependia de tê-lo deixando fugir na noite passada. O que poderia ter rolado não saía da minha cabeça, e as risadas da Marília e a ideia dela de que eu não dava conta me frustravam.
No fim, meu time ganhou de oito a cinco. Davi até conseguiu fazer um gol ao final, para se redimir, mas saiu do campo cabisbaixo, o que me deixou com certa dó.
“Caralho, o que deu no Davi hoje? Geralmente ele joga um bolão.” Bordin comentou quando o pessoal se dispersava. Já eram quase sete horas e estava escuro lá fora. Me perguntei como o Davi voltaria pra casa, mas então lembrei que ele já tinha tirado a carteira assim que fizera dezoito e já ganhara um carro dos avós.
“Vai saber, preocupações amorosas, talvez.” Sugeri, como quem não sabe de nada. Bordin riu.
“’Tá louco, ele tem uma carinha de novinho que até esqueço que já tem idade pra se interessar em bocetas.” Bordin falou, nada delicado. Deu uns tapas no meu ombro e se despediu. “Vou encontrar com a Debi hoje de noite, vou indo cara. Qualquer coisa, dá um grito.”
Quando segui pro vestiário já era tarde, havia perdido tempo demais conversando com o pessoal. Encontrei o lugar vazio. Eu não teria tempo de passar em casa antes de ir trabalhar no Mulligan, o barzinho Irlandês da Cidade Baixa, então teria de tomar um banho ali. Tirei a camiseta suada, e aí vi o Davi sair de um dos boxes, com a toalha enrolada na cintura. Ele me olhou assustado e voltou a ficar meio avermelhado. Era necessário um olhar atento para perceber o rubor, pois sua pele era um pouquinho bronzeada ao natural, então disfarçava bem.
“B-Bom jogo hoje.” Ele disse, tentando fingir naturalidade, mesmo quando eu estava com os olhos pregados em cada pedaço de pele nua dele. Davi era quase trinta centímetros mais baixo que eu, tinha o corpo delineado, de alguém que cuida pra se manter em forma, porém magro de tal forma que eu poderia fechar minhas mãos na cintura dele, caso usasse um pouco mais de pressão.
“Não foi o que pareceu. Tu parecia bastante nervoso.” Falei. Maldade da minha parte, só consegui deixá-lo ainda mais desconfortável. Davi me deu as costas enquanto mexia na mochila que havia trazido.
“Impressão tua.” Desconversou e, depois de encontrar as roupas, colocou rapidamente a cueca, cuidando pra não deixar aparecer nada.
Uma pena, o pensamento veio mais forte do que eu.
Continuei olhando-o se vestir nervosamente, e um sorriso um tanto sádico pela atrapalhação dele ao tentar colocar a camiseta tomou meu rosto. Nas costas esguias dele, havia aquelas duas covinhas na região lombar, e eu não consegui desviar os olhos daquilo desde que ele se virara. Eu estava consciente demais do corpo dele, e isso não era nada bom.
“Vai a algum lugar agora?” Perguntei, já que ele havia tomado banho ali, e poderia fazê-lo em casa. Davi terminou de se vestir e se virou, sentando-se num banco para calçar os tênis. Meu sorriso continuava no rosto, e eu vi a forma como isso o afetou, e até amarrar os cadarços pareceu difícil para ele. Deus, eu conseguia ser maldoso quando eu queria. Minha pergunta era apenas curiosidade, não era como se eu fosse chamá-lo para minha casa de novo.
Porém senti curiosidade quanto à reação dele caso eu convidasse.
“É... Tenho uma noite com fondue com uns amigos.” Ele comentou baixo, e eu quase não escutei. “Nós sempre fazemos um no meio do ano. Fazemos em julho, mas o Leonardo e o Lucas vão viajar nessas férias, então...”
“Leonardo... Acho que já ouvi esse nome antes.”
“Ah sim!” Davi ergueu o olhar, com um sorriso no rosto, seus olhos parecendo adquirir um novo brilho, e as bochechas continuavam coradas. “Ele foi em algumas das festas também! E ele ‘tá fazendo veterinária na UFRGS, então tem algumas aulas no Vale também, e ‘tava junto em algumas das vezes em que o pessoal senta no Antônio no intervalo das aulas! O Leo ‘tá sempre com um sorriso no rosto...” Falou empolgado, numa voz que não escondia o carinho que sentia pelo amigo.
Por algum motivo logo antipatizei com o tal Leonardo, apesar de mal conhecê-lo. Ele e o Davi teriam alguma coisa? Aquela expressão de felicidade e carinho ao falar do outro não eram normais. Ou eram? Ah, estou sendo ridículo, não importa se eles têm alguma coisa, me recriminei, levando minha mão à testa como se estivesse com uma dor de cabeça forte.
“Então...” Davi se levantou, jogando a mochila sobre o ombro. “Até outro dia...” Murmurou abaixando o rosto, voltando a ficar envergonhado.
“Até outro dia, Davi.” Eu falei, meu tom saindo inesperadamente enrouquecido, sem que eu houvesse planejado. Davi pareceu se eriçar ao escutar o próprio nome e rumou rapidamente para saída, evitando meu olhar que o acompanhou. Geralmente ele se despedia com um sorriso que formavam covinhas tão bonitas quanto as que ele tinha nas costas.
Ao menos todo aquele embaraço me dava a certeza de que ele não havia se esquecido da noite passada. Eu só não sabia se isso era bom ou ruim. Odiava esses climas estranhos, eu nunca havia sido disso, mas agora não sabia muito bem como agir. Não era como se eu fosse gay e soubesse lidar com garotos pós-sexo. Mesmo que eu e o Davi não houvéssemos transado. Ah, eu iria acabar enlouquecendo com essa história.
Se até um tempo atrás alguém houvesse me dito que eu estaria confuso e com a cabeça cheia de parafusos soltos por causa de um moleque cinco anos mais novo, eu teria rido, ou até socado o idiota, dependendo da situação. Isso tudo definitivamente não estava nos meus planos.
Mesmo que eu próprio houvesse me colocado nessa situação.
...
“Então, Gui, com qual guri, ou qual tipo de guri, tu toparia um ménage?” Marília perguntou, deitada sobre o tórax do Guilherme logo após uma rodada incrível de sexo. Guilherme franziu a testa frente à pergunta tão repentina.
“Tu quer dizer com que guria eu faria um ménage?” Ele retorquiu com um sorriso canalha.
“Não! Com que guri! Vamos, Guilherme, sexo é sexo, e isso é só uma pergunta. Não faça tanto drama!” Marília perdia a paciência fácil quando não tinha os desejos atendidos. Principalmente os desejos sexuais.
Guilherme suspirou, ainda estava aproveitando a sensação pós-orgasmo e não queria perder tempo discutindo. Foi parar para pensar por um segundo e, estranhamente, de imediato a imagem do Davi, sem camisa, após um jogo de futebol, lhe veio à mente.
“Um estilo o Davi.”
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“Vilão, aqui!” Chamei quando ele foi correr atrás de umas crianças no parque, assustando as pequenas. Vilão adorava contato com humanos, e principalmente com crianças, porém era tão afoito que acabava assustando todas elas. Eu geralmente o deixava correr sem coleira comigo na Redenção, mas nos domingos era sempre mais cheio de gente, e eu ainda havia acordado mais tarde por ter trabalhado até às três da manhã.
Vilão me obedeceu e voltou a correr do meu lado, com um jeito de cão feliz que sempre me passava boas energias. Ele já estava comigo há três anos, eu o havia comprado assim que saíra de casa, e como sempre gostei de cachorros, me apeguei rapidamente. Corríamos cerca de uma hora todos os dias, mas aquele domingo estava estranhamente quente para um dia de inverno, no início de julho. Isso era morar em Porto Alegre, era possível experimentar as quatro estações do ano em uma única semana.
Parei pra comprar água com um vendedor ambulante, enquanto o Vilão xeretava pela grama do parque, como se houvesse sentido um cheiro interessante e quisesse segui-lo. Quando estava na metade da garrafinha d’água, Vilão disparou alucinado pelo parque, e cheguei a pensar que ele estaria correndo atrás de uma presa indefesa.
“Vilão!” Gritei, mas fui sumariamente ignorado. Bufei com vontade de dar uns safanões no meu cachorro, e corri atrás dele, jogando o que restava da água sobre a minha cabeça, para refrescar. Vilão ficava louco em dias quentes, ele não tolerava bem o calor, e isso parecia afeitar diretamente o bom-senso dele.
Eu levei um susto quando o encontrei. Vilão estava com as patas sobre os ombros de um guri, caído de bunda no chão, que ria das lambidas que recebia. Davi parecia extremamente adorável enquanto apertava os olhos e ria a cada lambida, afagando a cabeçorra do meu cachorro inconveniente. Percebi que não havia ninguém ali junto com ele, e que a mateira dele havia virado no chão.
“Vilão!” Chamei irritado. Davi ergueu o olhar para mim, entreabrindo os lábios pela surpresa. Eu me aproximei dos dois e arranquei o Vilão de cima do Davi. Não sabia da onde meu cachorro havia tirado tanto amor pelo Davi, era a primeira vez que se viam! Só se ele tivesse sentido o cheiro do Davi em mim na noite em que cheguei em casa, após a reunião na casa da Luciana.
“Guilherme!” Davi continuou sentado no chão, esquecendo-se de se levantar enquanto me encarava com a cabeça erguida. Juntei a mateira dele e estendi a mão para ajudá-lo a se levantar. Ele acabou aceitando, erguendo-se ruborizado enquanto tirava a areia das calças. “Que coincidência.”
“É, o que faz aqui tão cedo?”
“Já são onze da manhã!” Ele retorquiu. “Combinei com meus amigos de nos encontrarmos aqui pra um chimarrão, e depois irmos almoçar juntos...” Explicou, mordendo o lábio.
Ah, deus, ele não desgrudava desses amigos? O Leonardo estava incluído nisso?
“Não sabia que já era tão tarde. Vai encontrar com eles agora?” Perguntei. A última semana de aula havia passado, e eu imaginei que não conseguiríamos nos ver muito nas férias. Não queria deixá-lo se livrar de mim tão rápido.
“Era a ideia, mas tínhamos combinado onze e meia, acabei chegando um pouco mais cedo...” Ele coçou os cabelos cor de mel, sempre evitando me olhar. Antes não fazia isso, era o tipo de pessoa que mantinha um olho no olho ao falar com alguém, mas continuava envergonhado demais para encarar meus olhos. Se eu fosse um pouco menos sádico, me despediria e acabaria com o desconforto dele.
“Tua mateira virou tudo, estragou teu chimarrão.” Eu disse ao abrir a mateira e dar uma espiada na erva toda espalhada. “Eu moro aqui perto, uns dez minutos. Podemos-“
“Não!” Ele puxou rapidamente a mateira da minha mão. “Eu dou um jeito nisso. Eu- Ah!” Davi se sobressaltou.
“Vilão!” Eu puxei meu cachorro. “Não é pra ficar farejando as partes baixas das pessoas!” Vilão latiu e eu acabei gargalhando. Davi virara um pimentão, mas acabou sorrindo de leve. Eu tinha um cachorro tão tarado quanto eu. “Quer caminhar comigo um pouco?”
Davi finalmente me olhou no rosto, novamente com aquela expressão de pura surpresa. Sem encontrar voz, ele apenas assentiu com a cabeça, dando uns afagos novamente no Vilão.
“Tu ‘tava aqui correndo com ele?” Davi me perguntou.
“Corremos todas as manhãs. Ele é um cachorro inquieto, se eu não fizesse isso, minha casa seria destruída em poucos dias.”
Davi riu, e eu sorri também. Era bom fazê-lo sorrir e relaxar.
“Ele é muito fofo.” Ele disse referindo-se ao Vilão, e o acariciou de novo. Meu cachorro parecia ridiculamente derretido. Era só o que me faltava agora, um cachorro gay.
Nós falamos sobre amenidades por alguns minutos, enquanto seguíamos a trilha do parque em direção a um ponto mais reservado, onde nos sentamos na grama, em frente a um dos lagos. Falávamos sobre raças de cães, e sobre o poodle da irmãzinha dele, mas em determinado ponto a conversa cedeu.
“Tu sabe...” Davi cortou o silêncio que nos atingira. Ele passou a mão pela nuca, olhando para a água com carpas. “Eu descobri naquela noite que... Que eu sou mesmo gay.”
Meu coração acelerou algumas batidas por termos entrado naquele assunto. Eu não imaginava que seria ele a trazer à tona aquilo, ainda mais com uma revelação como aquela. Davi era mais corajoso do que eu imaginava. Talvez nem eu conseguisse tocar no assunto, já que era algo que ainda me deixava bastante confuso.
“É mesmo?” Tentei incentivá-lo a falar mais.
“Eu já estava há um ano em dúvida quanto a isso. Começou quando um conhecido me agarrou subitamente numa festa e me deu um selinho. Meu coração acelerou muito, e... Eu não achei tão nojento. Ele estava com raiva de mim, porque eu era preconceituoso. Nós fomos quase amigos quando tínhamos uns onze anos. Na época ele era mirrado e até meio afetado, mas hoje em dia ele tem mais de 1,80 de altura e não é nada afeminado. O nome dele é Caio. Eu não vi mais ele desde aquela noite. Mas durante todo esse tempo comecei a perceber que eu sinto atração por guris. A vida toda eu fui contra isso, porque minha família é bastante preconceituosa... Eu ainda negava um pouco nesses últimos meses, mas com ajuda da Tati eu fui aos poucos me acostumando com a ideia, me permitindo perceber e me conhecer com mais clareza.” Ele contou tudo rapidamente, torcendo as mãos sobre o colo. “Aquela noite foi o empurrão que faltava pra eu admitir de vez o que já vinha me atormentando durante o último ano.”
Eu não sabia o que dizer. O que poderia falar? Parabenizá-lo? Falar que ficava feliz em ajudar? Passei a mão pelos cabelos, estranhando o fato de que me sentia sim satisfeito pela revelação dele. Vilão latiu e começou uma espécie de briguinha com a mão do Davi, que sorria suavemente, deixando que meu cachorro o mordesse carinhosamente junto com ganidos de excitação.
Vilão estava especialmente bobo naquele dia.
“Algumas pessoas te viram subir com a Marília, e sabiam que eu estava lá. Vieram me perguntar agora o que tinha rolado.” Eu dei uma desconversada. Davi imediatamente se virou pra mim, com a expressão preocupada.
“E o que tu disse?”
“O que tu gostaria que eu dissesse?” O provoquei, deixando-se momentaneamente sem fala novamente.
“Que... Nada rolou, apenas subimos pra conversar.” Ele disse corado, desviando o olhar, e eu tive de rir.
“Então tu ainda ‘tá na fase que se assumiu apenas para ti mesmo?” Sorri de canto. Ele levou isso como um deboche e virou o rosto, com um bico emburrado. Nem deu mais atenção pro Vilão, para infelicidade do bicho.
“Só pra ti, e pra Tati... E o Caio. Eu o reencontrei recentemente e tenho... Conversado com ele sobre isso. Ele tem me ajudado também. Não tenho coragem pra lidar com o resto do mundo agora. E deixar muitas pessoas descobrirem, é pedir pra que meus pais acabem descobrindo também.” Ele explicou, contrafeito.
“Entendo.” Falei, tirando da minha voz o tom mais trocista. Era um papo sério, e eu tinha de me controlar. Também não havia gostado da história com o tal Caio. “Mas acha mesmo que alguém acreditaria que apenas conversamos?” Perguntei. Era tão inocente, não à toa era virgem. Quero dizer, sabia que ele era virgem com homens, mas também duvidava que já houvesse feito com alguma guria. Não pelas reações dele com a Marília.
“Bem, isso não é da conta deles de qualquer forma.” Ele disse ainda emburrado.
“Tu ‘tá certo.” Eu suspirei. Precisava dar o ultimato. Eu sempre havia gostado de mulheres e nunca tinha me sentido insatisfeito no sexo, então não havia razão pra me envolver numa curiosidade homossexual. O melhor era ignorar tudo aquilo. “Davi, eu... Estava pensando em me desculpar por aquela noite. Eu estava bêbado, apesar de eu nunca parecer bêbado, sou do tipo que mais perde o juízo-crítico do que perde o equilíbrio e fala bobagem. Eu não deveria ter me aproveitado de ti naquela situação, mas ao menos fico aliviado em saber que ajudou a acabar com as tuas dúvidas...”
“É...” Davi apertou mais os próprios dedos, e se arriscou olhar pra mim. “Mas tu falou que vinha reparando-“
“Davi...” Eu o interrompi. “Eu não sou gay. Foi mal. Falei aquilo da boca pra fora. Tu é um guri interessante, mas... não dessa forma... pra mim. Talvez pra outra pessoa, quem sabe.” Eu não era idiota, já havia percebido que ele vinha me ‘cuidando’ há algum tempo, esse fora um dos motivos por que eu também comecei a me tornar mais consciente dele, seus gestos, seus sorrisos, seu jeito de falar... Era culpa dele. Por me seduzir.
Ele se daria bem se encontrasse outro cara, mais bem resolvido, pra se interessar.
“Podemos continuar como se aquela noite não tivesse acontecido.” Tentei.
Davi abaixou o rosto, acariciando com as duas mãos a cabeça do Vilão, que pareceu notar a mudança de humor dele, e chegou a roçar o focinho contra o garoto. Notei que ele parecia estar segurando as lágrimas nos olhos, mesmo que tentasse disfarçar, com um sorriso fraco e sem alegria nos lábios.
Tentei tocá-lo no braço.
“Davi, eu-“ Estava para dizer que ficava lisonjeado por ele gostar assim de mim, ou alguma idiotice dessas, que só pioraria a situação, mas ele afastou minha mão e se levantou.
“Já entendi. Tu não é gay, não precisa se desculpar por isso. Aliás, tu tem sorte de não ser. Me desculpa por tomar teu tempo com essas coisas.” Falou num tom trêmulo, me dando as costas, e eu imaginei que era porque não conseguiria segurar as lágrimas por muito mais tempo. Era uma tarefa difícil falar e se impedir de chorar. “Tchau, Vilão!” Ele deu um carinho rápido no topo da cabeça do meu husky e, no momento em que me levantei, ele já se afastava a passos apressados.
Não consegui impedi-lo de ir, o melhor era dar-lhe um tempo.
“Mas que merda.” Murmurei comigo mesmo e, percebi pouco depois, ele havia esquecido a mateira.
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Marília arrancou o cigarro da minha boca assim que me viu, deixou-o cair no chão e pisou em cima dele com o salto alto no qual se equilibrava. Ela chamava bastante atenção com o vestido colado, que chegava ao meio das coxas, e decotava os seios pequenos, mas arrebitados.
“É feio jogar lixo no chão.” Eu falei indiferente, colocando as mãos no bolso.
“O feio é aguentar esse teu bafão de cigarro a noite toda. Eu gostava mais de ti quando tu não fumava.” Ela declarou. Eu havia fumado dos quinze aos dezenove anos, e agora do nada havia voltado, há exatas quatro semanas. “Não dá pra aguentar teu mau humor dos últimos tempos, e finalmente aceitou sair. Essa segunda as aulas voltam, nada melhor do que sair com a galera.”
Eu não sabia da onde ela havia tirado que eu estava saindo pouco. Nas férias de julho havia dado uma diminuída, mas somente porque comecei a trabalhar seis dias por semana no Mulligan. Tecnicamente, eu saía todos os dias, trabalhava até de madrugada e acabava cansado demais pra ir em festa toda hora. Geralmente acabava indo sozinho, ou com outros caras, só pra pegar alguma garota e transar por uma noite.
“Tu é que estava saindo pouco por causa do Tiago.” Eu a lembrei. “Foi só não dar certo que já corre de volta pros meus braços.”
“Ah, ele era muito grude. Mas tu não é muito melhor, teu rendimento na cama também caiu, parece que faz por obrigação.” Ela falou, e não era o tipo de coisa que qualquer cara gostaria de ouvir. Minha expressão endureceu e somente a peguei pelo braço. Ela havia me convencido a ir no Beco, pra uma festa que não era meu tipo, mas era pra onde o pessoal decidira ir, então tive de aceitar.
“Hei, não ficou brabo com o que eu disse, né? Tu sabe que eu sou sempre sincera.” Marília percebeu minha aura negra, que eu nem tentava esconder.
“Sincera até demais.” O que me irritava era que ela estava certa, eu só não entendia o porquê, até que ela resolveu abrir a boca pra me atormentar um pouco mais.
“Só se for por causa de certo guri que tu não deu conta.” Ela riu maliciosa. “Desde aquela noite que eu percebo que tu anda estranho, vai ver que o Sansão só vai voltar a ser o mesmo se terminar o que começou naquela noite.” Sugeriu. Ela havia feito a infâmia de apelidar o meu pênis de sansão, caso vocês estejam com dúvida.
Nós encontramos o resto dos nossos amigos na fila. Bordin estava lá com a Débora, que parecia gostar mesmo do meu amigo. Isso me deixava bastante satisfeito. Havia também o Carlão com a namorada Ana, o Segulo, o Russo, a Luciana, entre outros. Notei que o Enzo também estava ali. Ele e o Davi eram bem grudados, então isso me alertou para a possibilidade de o Davi também aparecer.
Fazia quatro semanas que não nos víamos, nem nos falávamos. Ele deveria estar me evitando, ou eu que estava, de fato, saindo pouco. O pessoal da engenharia gostava de sair junto, pelo menos da civil, e algumas se misturavam.
“O Davi vai vir também?” Perguntei ao Enzo.
“Ah, sim, ele já ‘tá lá dentro na verdade. Chegou mais cedo com a Tati!” Ele explicou, alegre. Os outros haviam feito um concentra na casa do Bordin. Eu saí mais cedo do trabalho, já a Marília estava fazendo um curso de alemão até às nove da noite.
“Certo.” Eu falei, e percebi que estava nervoso por isso. A verdade é que eu ficara pensando no Davi nas últimas semanas. Nossa última conversa me enchia os pensamentos, e eu me perguntava por que ele não aparecera no último jogo de futebol. Eu tinha uma ideia, e a ideia era que ele nunca mais iria querer olhar na minha cara. Essa ideia me atormentava.
“Aliás, tu fez alguma coisa pro Davi? Ele não parecia muito feliz com a ideia de te ver.” Enzo deixou escapar, e depois arregalou os olhos, tapando a boca. Coisa de bêbado, falar demais. “Desculpe, esqueça que ouviu isso, sim?”
“Tudo bem.” Evitei prolongar o assunto.
Não demorou muito pra entrarmos. Já havia bastante gente ali dentro, e eu comecei a instintivamente procurar pelo Davi entre as pessoas. Mas quem encontrei foi a Tatiana. Sabia que os dois eram unha e carne, e acabei perguntando pelo pequeno. Tatiana me olhou com fúria, o que me assustou.
“O que quer com ele? Tu já disse que não é gay, então para de iludir meu amigo! Ele chorou por tua causa já, e eu não vou deixar que isso se repita! Tu é um idiota, foi TU E A MARÍLIA que arrastaram ele pra aquele sótão, e depois tu simplesmente o descarta! Sabe como está sendo difícil pra ele se aceitar?! E eu tu não ajudou em nada. Vai tomar no cu, Guilherme! E não chega perto do Davi!” Ela disse tudo exaltada e me deu as costas.
Uma sorte que a música alta abafava o escândalo. Eu fiquei parado, apalermado, no mesmo lugar. O Davi havia chorado? Me senti muito mal com aquilo, e uma pressão forte esmagou meu peito.
“Eu ouvi meu nome?” Marília apareceu do meu lado, se apoiando no meu ombro. Eu soltei um resmungo. “Olha, se tu ‘tá atrás daquela bundinha linda e virgem, ele ‘tá bebinho lá do lado do bar de baixo, quase sendo devorado por outra cara.” Informou.
Não sei que força me possuiu, mas quando dei por cima estava descendo as escadas e depois empurrando as pessoas para conseguir chegar até o bar. E acabei encontrando o Davi apoiado contra uma parede, com um cara falando alguma coisa contra o ouvido dele, enquanto o segurava pela cintura. Davi soltou uma risadinha, mas virou o rosto quando o cara tentou beijá-lo.
Davi estava diferente, havia pintado os cabelos, deixando-os mais claros, e também um pouco mais compridos. Havia colocado dois brincos, um em cada orelha, e parecia mais sexy que o normal, tentando evitar ser agarrado pelo outro. Eu me aproximei quando percebi que o Davi não queria ficar com o ele, provavelmente porque vários conhecidos estavam naquela festa.
Puxei o cara pelo braço.
“Vaza.” Demandei. “Ele já tem dono.”
Eu era maior e mais encorpado que o moleque, então foi fácil intimidá-lo. No momento seguinte ele estava sumindo entre as pessoas, e o Davi era deixado apenas para mim. Deus, eu estava enlouquecendo, nem entendia por que estava ali roubando a presa de outro para mim. Davi me encarou sem reação, corado mais do que o normal, possivelmente pelo álcool em seu sistema.
“Por que fez isso?” Ele perguntou, evitando me olhar diretamente.
Eu estava bem próximo, e ele colado contra a parede.
“Tu parecia não querer aquilo.” Falei, suprimindo a parte em que eu havia odiado ver outro cara perto dele. Davi vestia uma camisa nem apertada, nem larga, que mostrava bem como eram os contornos do corpo magro, e a calça jeans era um tanto justa, moldando bem as coxas que me lembraram as de uma garota, não pela grossura, mas pelo formato.
“Obrigado, mas eu posso me virar sozinho.” Ele disse e passou por mim. Não o impedi, apenas passei as mãos pelos cabelos e suspirei. Estava bancando o idiota. Eu sentia falta dele, essa era bem a verdade. Apesar de não sermos os mais próximos, sempre havíamos nos dado bem. Eu gostava do Davi. Gostava do jeitinho mais meigo dele, inteligente, divertido, do sorriso com covinhas, e do nariz naturalmente arrebitado.
Acabei aproveitando pouco da festa. Quando via o Davi dançando com a Tati, ficava excitado, e me frustrava, ficava irritado. Cheguei a ficar com uma guria, mas logo dei um jeito de sumir da frente dela, coisa atípica da minha parte. Quando a Marília descobriu, voltou a tirar com a minha cara.
“A Fabi veio reclamar que tu largou do nada!” Eu nem sabia que a Marília conhecia a guria com quem eu havia ficado. “Ai, Gui, larga de ser bundão e agarra aquele guri de uma vez, que porre! Se tu ‘tá a fim, pega ele de jeito!” Ela me disse impaciente. “Se não quer que os outros vejam, tira ele da festa e leva pra tua casa, sei lá eu! Ou será que tu quer que eu pegue ele pra ti de novo?”
Marília era simplista demais. Mas na próxima vez que eu encontrei o Davi, ele estava mais bêbado do que antes, se apoiando num pilar do andar de baixo, parecendo meio perdido. Guris do tamanho dele deveriam maneirar na quantidade de álcool que ingerem.
“Tudo bem contigo?” Perguntei próximo do ouvido dele.
Davi segurou meu braço, em busca de apoio.
“Tu viu a Tati?” Olhou pros lados. “Droga, ela me deu aquela bebida louca que queima e aí sumiu! Eu acho que aquilo me fez mal e... AH! MEU DEUS! Ela me disse o que te falou e, aaargh, eu quero bater nela! Só esqueça aquilo, ok? Eu ainda não acredito que ela te disse tudo aquilo! Desculpa por ela ter te xingado, e... Ah, que vergonha.” Ele desviou o rosto, parecendo mortificado pelo que a Tatiana havia me falado. Eu no lugar dele também não iria curtir muito.
“Não te preocupa com isso. Não foi nada demais.” Tentei aliviar a vergonha dele, apesar de eu continuar gostando de vê-lo todo sem jeito. Davi apertou ainda mais meu braço.
“Só fique sabendo que a parte sobre eu ter chorado foi um exagero.” Ele declarou, um pouco orgulhoso. Imaginei que se ele não estivesse bêbado, não iria me relembrar disso. O efeito foi ao contrário, isso só confirmou que ele havia mesmo chorado. Ah, me sinto tão cafajeste, pensei.
“Sei, acredito.” Sorri torto, e ele me espiou pelo canto do olho, corando mais. Pareceu tentar se afastar um passo, mas tropeçou, precisando que eu o segurasse pela cintura, enquanto levava uma mão à testa.
“Awn, eu não estou bem mesmo, as coisas estão girando.”
Eu provavelmente iria me culpar por isso no dia seguinte mas, droga, era a oportunidade perfeita.
“Tu não parece bem mesmo, acho melhor eu te levar pra casa.” O puxei gentilmente para perto, apesar de estar com certo medo de que ele vomitasse em cima de mim. Davi apoiou os antebraços no meu peito e olhou pra cima, constrangido, enquanto eu mantinha minhas mãos em sua cintura fina.
“Eu não quero... Eu ainda quero dançar.” Ele se virou e tentou andar, mas quase tropeçou. O abracei por trás para que não caísse. E também porque estava me aproveitando e tinha consciência disso. Ele parecia extremamente pequeno contra meu corpo.
“Então dança.” Falei contra o ouvido dele, sem a mínima vontade de soltá-lo. Deixá-lo dançar sozinho, de qualquer forma, seria pedir por uma tragédia. As mãos do Davi seguraram meus antebraços fracamente.
“Para. Tem colegas nessa festa, e tu não é gay.” Ele me lembrou, mas a voz não era irritada; parecia um pouco manhosa, como a de uma criança que passou do horário de dormir.
“Só sobrou a Marília e a Tatiana de gente que nós conhecemos aqui. O resto do pessoal já largou.” Avisei rouco, não me segurando e deslizando os lábios pelo pescoço ligeiramente suado dele, mas ainda com cheiro de perfume cítrico. Percebi ele se arrepiar.
“Até o Enzo me abandonou?!” Ele pareceu chateado. “Ai, Guilherme, me solta, para...”
“Vai tentar fugir de mim de novo?”
“O que tu quer comigo? Achei que tínhamos concordado de esquecer aquela noite.” Ele disse tentando virar o rosto pra mim. Notei que seus olhos diferiam de cor conforme a luminosidade, em alguns momentos azul-água, em outros verde-água. Naquele momento estavam azuis, e seus lábios entreabertos pareciam perfeitos para um beijo.
“Mudei de ideia.” Falei displicente. “Senti tua falta nessas últimas semanas.”
“Foi só um mês...” Ele disse com pouco caso, desviando os lábios dos meus quando tentei capturá-los. “Para com isso, eu não estou conseguindo pensar direito.” Reclamou, apertando os olhos. “Por alguma razão eu lembro que eu não posso me envolver contigo.”
“E por que não?”
“Eu não lembro! Mas tu tem fama de galinha e... Não é saudável estar tão a fim de um cara galinha e hétero, foi o que o Caio me disse.” Ele explicou com um jeito aéreo e sincero de um bêbado. Foi o suficiente para me dar confiança, ainda que eu não tivesse gostado de ouvir falar do tal Caio de novo.
O levei comigo para fora do lugar, não me importando com mais nada.
Davi me olhou aturdido assim que saímos pro ar livre.
“Tu pagou minha conta!” Ele reclamou. “Eu tinha dinheiro...” Tentou pegá-lo no bolso, mas eu o impedi.
“Não te preocupa com isso. Vamos.” O puxei pela mão e começamos a andar pela rua calma da madrugada. Minha casa não era longe dali, dava uns quinze minutos de caminhada.
“Pra onde?”
“Minha casa.” Falei tranquilamente. Davi estacou no meio da calçada e, quando me voltei para ele, estava vermelho e nervoso.
“Eu...”
“Não se preocupe, não vou fazer nada que tu não queira. Podemos até só conversar, se tu quiser. E também, eu estou com a tua mateira, é a chance de pegá-la de volta.” Isso pareceu tranquilizá-lo, e ele assentiu. De repente ficou animado por todo caminho, quase tropeçou umas cinco vezes pelo desequilíbrio, e me contou quase tudo sobre como haviam sido as férias. Conversamos também sobre a faculdade, e ele ria de qualquer coisa.
A bebida parecia estar subindo ainda mais agora. Nos últimos metros tive de pegá-lo no colo, estilo noiva, pois já nem conseguia mais andar direito.
“Não, me solta! Eu ainda posso andar. Eu tenho pernas! Olha!” Sacudiu-as, dificultando a minha vida. “Ai, Gui, as coisas estão girando...” Deixou a cabeça pender pra trás, e de repente me senti segurando um peso morto.
“Hei, não dorme.” Falei, mas não obtive respostas.
Ele só voltou a dar algum sinal de vida quando o deitei na minha cama, se contorcendo um pouco pra conseguir me olhar sem que precisasse erguer a cabeça.
“Gui... Tu parece especialmente forte hoje.” Ele disse, aleatório. Eu não fazia ideia do que isso poderia significar, eu continuava a mesma coisa de antes, desde meus dezoito comecei a malhar e não parei mais, ganhei massa e definição, e alguns amigos implicavam comigo, a última fora um comentário em uma das minhas fotos do Facebook: Meu caro amigo Guilherme, não passe perto de um cacto, pois você pode explodir ou simplesmente esvaziar.
“Obrigado. Está se sentindo melhor, quer uma água? Algo pra comer?” Perguntei. Davi ronronou, rolando na cama pra se acomodar melhor, me ignorando. Eu tomei isso como um ‘cala a boca, eu só quero dormir’.
Subi na cama e comecei a tirar os tênis dele. Depois me arrisquei a tirar as calças jeans, mas como eram mais apertadas, tive certa dificuldade, e acabei o acordando, isso se é que ele tivesse mesmo dormido. Davi me olhou assustado.
“O que tu ‘tá fazendo?”
“Tirando tuas calças.” Informei.
“Tu quer me molestar?” Ele perguntou, genuinamente preocupado. Eu não aguentei. Acabei gargalhando da pergunta. “O que foi?!” Davi perguntou confuso, sem entender a graça.
Eu me inclinei sobre ele, apoiando uma mão ao lado de seu rosto.
“Tu é mesmo fofinho, como a Marília costuma dizer.” Sorri, e minha boca já estava rente à dele, que arfava de leve. “Tu sabe, o que eu mais me arrependi naquela outra noite, foi de não ter te beijado.” Rocei nossos lábios. “Vai me deixar experimentar beijar alguém com piercing na língua?”
“Gui...” Foi tudo que ele teve de falar antes que eu enfim capturasse os lábios finos, mas chamativos. Deslizei a língua para a boca dele, e o ouvi gemer, contorcendo-se sob mim.
O segurei pela cintura, erguendo a camisa para sentir a pele do abdômen magro.
Beijar alguém com piercing era mesmo bom, e fiquei brincando com a bolinha de metal, satisfeito por ser correspondido. As mãos do Davi pararam nos meus cabelos e nuca, e ele parecia tentar erguer o quadril para sentir mais minha mão. Então eu a desci e comecei a acariciá-lo entre as pernas.
Davi soltou um gemido assustado e quebrou o beijo, tentando virar o rosto para ver o que, exatamente, eu estava fazendo. A respiração tornou-se ainda mais ofegante, os olhos nublaram. Apertei de leve sua ereção, mantendo meu olhar em seu rosto afogueado, e ele gemeu novamente e afundou a cabeça no travesseiro. Parecia tremer de cima abaixo.
“Tu é um completo virgem, não é?” Eu estava me divertindo. As reações dele, de quem experimenta tais sensações pela primeira vez, apenas me davam uma vontade violenta de dar a ele todos os tipos possíveis de prazer. Davi mordeu o lábio, me olhando em dúvida, o peito magro subindo e descendo velozmente, deixando a respiração rasa.
“Não tire sarro de mim.” Ele reclamou, tentando empurrar meu rosto para longe, e fechar as pernas fugindo do meu toque. Eu deveria estar com meu sorrisinho torto, que eu usava para várias ocasiões, entre elas deboche, mas esse não era o caso, então peguei o pulso fino e o prensei contra a cama, antes de me posicionar melhor, me ajoelhando entre as pernas dele.
“Não estou tirando sarro. Só não quero abusar demais de um virgem.” Eu sorri malicioso, vendo-o abrir uma expressão ainda mais tímida, e um pouco apreensiva. Eu me inclinei um pouco para frente e comecei a subir a camisa dele, para expor todo seu torso.
“Não, eu não quero.” Davi murmurou se remexendo, tentando segurar minha mão abusiva. “Amanhã tu vai dizer que não é gay, e... e faz pouco que eu descobri que eu sou, e já é o suficiente pra lidar.”
Eu parei por um segundo. A expressão dele era realmente triste e confusa. Senti-me mal por tê-lo machucado, mesmo que não fosse minha intenção em nenhum momento. Gay? Bi? Eu preferia evitar os rótulos, sempre os odiei, e estive justamente me preocupando com eles. Suspirei mandando mentalmente tudo à merda, e me deitei sobre o pequeno, acariciando-lhe o rosto. Tinha um rosto lindo, e eu sozinho era o culpado por ter-me deixado seduzir por ele.
“Não vou falar isso amanhã.” Garanti e rocei meus lábios na bochecha dele. "Então me deixe te dar um pouco de alívio para isso daqui." Falei voltando a tocar-lhe entre as pernas.
Davi fechou os olhos e se rendeu. Eu não queria ficar apenas naquilo, apesar de saber que sexo estava fora de cogitação considerando o estado alcoólico dele, então ergui-lhe a camisa e abri-lhe o zíper da calça, puxando-a para baixo de uma forma que chegou a arrastá-lo uns centímetros sobre a cama.
Joguei aquele pedaço inconveniente de tecido pra longe assim que consegui me livrar dele.
"Tu colocou essa calça apertada hoje pra provocar quem, huh?" Perguntei-lhe num tom sacana, fazendo-o corar e morder o lábio. Ele preferiu ignorar minha pergunta, e no lugar devolveu-me outra.
"O que tu vai fazer...? Gui!" Exclamou assustado e gemeu fraco, erguendo o quadril quando comecei a beijá-lo no abdômen, segurando-o firme pela cintura. Tinha a pele incrivelmente lisa e macia. Não havia nenhum pelo em todo o torso. O que eu preferia. Com aquela pele sensível, seria mais fácil ver na manhã seguinte as marcas que meus dentes deixariam.
Quando desci mais os lábios e comecei a desenhar com os lábios o contorno de seu pênis, sobre a cueca branca, ele agarrou meus cabelos, agitado e ofegante.
“Gui... Isso não... Tu não pode-“
"Estou apenas retribuindo o que tu fez comigo na outra noite." Murmurei malicioso, apertando-lhe os glúteos e abaixando a cueca com os polegares. Eu nunca tinha feito aquilo, mas não estava me importando, nunca havia tido frescuras para sexo, e achar nojento dar prazer a outra pessoa não estava entre os meus defeitos. Mas admito que fiquei aliviado em ver que ele não era dos melhores dotados, devia estar na média da população.
Facilitava minha vida.
"Gui... Gui, espera, tu n- Ahn!" Ele se atrapalhou no que quer que falasse quando comecei a chupá-lo. Suas pernas dobraram enquanto seus dedos apertavam meus cabelos com mais força, sua coluna se curvou para frente e ele escondeu o rosto com o braço. "Awn, Gui, isso é... ai, Deus." Tentou explicitar o que sentia, mas sua voz era uma confusão, e a respiração agitada o atrapalhava.
Vê-lo afogando-se naquelas sensações me incentivou a continuar da melhor forma possível. Em algum momento segurei-lhe as coxas por trás e as empurrei para frente, expondo-o mais. Toda vez que erguia o olhar para seu rosto, o via praticamente chorando de prazer, movendo os braços, se contorcendo, parecendo não saber pra onde ir. Não sabia se era por ser a primeira vez que alguém o chupava, se era por ele estar bêbado, ou porque eu estava fazendo direito, talvez os três motivos, mas era sexy e me deixava tremendamente excitado vê-lo tão responsivo a mim.
Um pouco depois ele gozou, com um gemido alto, que me lembrou um grito de rendição. Não esperava que isso acontecesse tão rápido, mas eu na minha primeira vez também não havia durado muito. E o único virgem com quem eu já havia lidado era eu próprio.
Eu estava mais duro do que poderia me lembrar, e minha ideia era que ao menos continuássemos com uns amassos; porém, quando me ergui para olhá-lo, Davi estava de olhos fechados, a respiração ligeiramente profunda e os braços jogados na cama em posições diferentes. Havia desmaiado com o orgasmo, chapado de sono, álcool e prazer.
Soltei o ar angustiado, bastante ciente do aperto em minhas calças, e ter aquele garoto lindo seminu na minha cama não ajudava em nada. Mas seria maldade acordá-lo. Resignado, abaixei a camisa dele e recoloquei-lhe a cueca. Depois disso me levantei e fui tomar um banho bem gelado, no qual tive de me virar para me livrar daquela ereção. Não foi satisfatório, e me perguntei quando iria cobrar por uma terceira rodada mais igualitária. Talvez pela manhã. Me questionei também se o Davi seria do tipo que gostaria de uma primeira vez romântica. Aí eu precisaria me esforçar um pouco mais.
Quando saí do banheiro, apenas de cueca, Davi havia se acomodado melhor na cama, deitando-se de lado abraçado a um dos meus travesseiros. Eu só tinha dois, um ele abraçava, e o outro usava como apoio. Então deitei ao lado dele e o abracei pela cintura, colando seu corpo pequeno contra meu tórax para que compartilhássemos o mesmo travesseiro.
Estou mais amarrado do que havia imaginado, foi meu último pensamento antes de cair no sono.
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