Good Riddance
24 Me abraça forte
Notas iniciais
“O que tu ‘tá dizendo, idiota...?” André corou violentamente.
“Que eu ‘tô loco por ti. Ainda não percebeu?”
Nem o Fabrício acreditou no que acabara deixando escapar. Não era a intenção dele se declarar tão abertamente antes de o loiro dar algum indício concreto de que também se sentia da mesma forma; porém, Fafá tinha quase certeza de que ele sentira ciúmes da Daniela, e isso o levara ao limite. Simples assim. As amarras invisíveis que vinham o refreando pareciam ter arrebentado e agora não conseguia mais controlar seus impulsos.
Fafá observou André arregalar lentamente os olhos, com as íris desviadas das suas, talvez mirassem seu ombro esquerdo. Sentiu as mãos do loiro se apertarem em seus braços, e quase pôde vislumbrar a guerra interna que acontecia dentro dele; sentir na pele a confusão que parecia até mesmo reverberar na superfície escurecida do mar.
O moreno esperou com o coração na mão por alguma reação do outro, não iria mais tomar nenhuma atitude, iria deixar o André decidir o que queria agora. Queria ter certeza de que ele estava consciente do que estava acontecendo. Não iria aguentar que ele esquecesse tudo de novo e, novamente, ele fosse o único ardendo de desejo, ansiando por toques, por palavras, por algo que ele, que não era poeta, não saberia explicar em palavras bonitas, precisando se apropriar das músicas que tanto gostava para conseguir dar voz a algo que parecia ter estado adormecido há tanto tempo dentro de si, e agora despertava com uma força irrevogável.
Mas todas essas ponderações pareceram evaporar.
Quando André ergueu o rosto e, deliberadamente, com os cílios tremulando enquanto fechava lentamente os olhos, deixou seus lábios aristocráticos roçarem ao encontro dos lábios entreabertos do Fabrício. Os dois arfaram simultaneamente com o contato suave, um encostar tímido de amantes novos.
Fabrício estreitou as mãos na cintura do André, puxando-o quase inconscientemente para mais perto, apertando o corpo molhado contra si podendo sentir a rigidez dos músculos delgados do loiro pressionar-se contra seu torso tenso e expectante. Todo seu corpo era pura expectativa e medo de quebrar aquele momento em que nem mesmo a imensidão do mar ao redor parecia significante. André resvalou uma mão até o rosto barbeado do moreno, sentindo a pele lisa e macia sob sua palma pequena, e gemeu baixo quando Fabrício o abraçou, estreitando-os mais e deixando-o na ponta dos pés no fundo da água.
A respiração se agitou entre os lábios que ainda roçavam, e tornou-se impossível manter apenas aquele contato raso por mais tempo. Era necessário mais. Era necessário tudo. André aprofundou o beijo, destruindo aquele abismo que existia dentro de si, impedindo-o de alcançar tudo que realmente e desesperadamente desejava. Quando sentiu a mão do moreno em sua nuca, afundando na pele e agarrando seus fios loiros, enquanto a língua dele chocava-se com impaciência na sua, experimentou aquele terremoto que estremece o corpo inteiro e abala o equilíbrio.
Um turbilhão de sensações difusas e deliciosas.
André sentia como se todos os seus pensamentos fossem um quebra-cabeça bagunçado, com todas as peças fora do lugar, e suas mãos trêmulas não tinham capacidade para encaixá-las novamente. Sua mão escorregou para os cabelos negros do Fabrício, apertando-os e sentindo a dureza dos fios molhados por água salgada, sua outra mão deslizou pelas costas largas do moreno, e tentou arranhá-lo mesmo que suas unhas fossem curtas. Nesse meio tempo ofegou baixo, mal aguentando aquele calor que fervilhava no peito a cada vez que sentia a língua do outro pressionar-se forçosamente na sua. Não era um beijo calmo, tranquilo ou doce.
Era um beijo explosivo, rude, que ultrapassava a violência artística de um pintor exaltado. E ainda assim não havia luta por controle, apenas uma rendição mútua que se traduzia em um desespero por ter e sentir um ao outro. As mãos inquietas, os lábios fortemente pressionados, as línguas envolvidas em seu próprio baile carnal.
Fabrício apertou André em um abraço quase sufocante, obrigando o loiro a quebrar o beijo em busca de ar, ofegando com dificuldade. Não o esperou recuperar o fôlego e atacou-lhe o pescoço, chupando-o e mordendo-o de uma forma mais intensa, descontrolada, do que quando atacara-lhe o pescoço no apartamento dele. Uma mão safada agarrou um dos glúteos protegido apenas pela cueca do loiro, e puxou-o para cima apertando a carne arrebitada. André soltou um gemido fraco ao sentir seus pés perderem o contato com o chão, uma mistura de dor e prazer tanto em seu pescoço quanto na bunda.
Fabrício apertara bem na área ainda arroxeada pelo tiro de paintball.
“Fabrício... Tu ‘tá... Apertando demais.” André cerrou os olhos, com uma careta. Não era exatamente o aperto do outro, mas as sensações que estavam fortes demais. Não conseguia respirar direito mesmo que boca e nariz estivessem livres, e não conseguia mais aguentar a forma como o coração estava disparado, os batimentos nas alturas.
“Desculpa...” Fabrício, ainda que excitado a níveis extremos, aliviou a força e abandonou o pescoço do loiro, respirando fundo por um momento contra a pele de cetim – que já começava a ganhar um novo roxo –, causando um arrepio no André. Este, assim que todo aquele furor diminuiu, tornou-se mais consciente do corpo desnudo e molhado do moreno contra o seu, mais esguio e menor, ainda que a diferença não fosse grande. Constrangeu-se com aquilo, constrangeu-se com a mão em sua bunda, constrangeu-se com a ereção que tinha pressionada contra a do Fabrício, mesmo que a água estivesse um pouco gelada.
Constrangeu-se com tudo.
Não podia ser gay. Não podia! Uma coisa era aceitar os gays do mundo, outra coisa era ser um! O que os pais iriam dizer? Os avós? Os tios? Os primos? Os amigos? Os amigos aceitaram Davi, ele próprio aceitara, mas havia todo o resto do mundo. Sempre se dera bem com garotas, tivera várias aventuras, principalmente naquele ano pela Europa. Por que isso agora? Por que o Fabrício estava despertando aquelas coisas que não deveriam existir dentro de si? Deviam ser apenas amigos. Amigos de infância. Era loucura beijá-lo daquela forma. Ambos deviam estar bêbados. Fabrício estava bêbado. O álcool estava mexendo com os neurônios de ambos, era isso. Fabrício queria ficar com a Daniela, aquilo fora apenas um erro de percurso.
André sentiu o peito apertar dolorosamente com a ideia, mas mesmo assim não podia simplesmente aceitar e se render. Não podia se permitir sem pensar nas consequências!
“Eu não posso...” Murmurou dando voz às ideias conturbadas, e colocou as mãos nos ombros do moreno, tentando empurrá-lo. A pedra na garganta retornou, porém dessa vez ela parecia ter várias pontas aguçadas rasgando suas cordas vocais, sangrando-o por dentro e lhe trazendo lágrimas aos olhos. Não queria ser gay. Não podia. O pai iria matá-lo. “Me larga, Fabrício. Eu não posso fazer isso. Isso é um erro.”
Com um empurrão conseguiu se libertar, mas caminhar era difícil dentro da água, e logo Fabrício o alcançou, segurando-lhe o braço.
“Espera, André. Vamos conversar sobre isso, eu sei que-“ Tentou dizer com certo desespero ao ver o loiro tentar fugir daquela forma, com lágrimas de confusão nos olhos. Teve medo de como os dois ficariam se simplesmente o deixasse ir; talvez a amizade que tinham se perdesse de vez, toda a cumplicidade e química que tinham, não podia permitir tal absurdo.
“Não! Tu não sabe de nada! Pra ti tudo é fácil, engraçado, sem nenhuma preocupação. Só que as coisas não são assim pra todo mundo!!” André exclamou, puxando o braço e pondo-se e vencer as garras do mar com maior determinação, querendo chegar à beira. Aproveitou uma onda que se formou assim que alcançou a área em que elas quebravam, e ‘pegou um jacaré’ até a margem.
Fabrício xingou baixinho e pegou uma onda também, porém precisou correr os últimos metros dentro da água até chegar na areia. André já estava de calças e colocava a camisa quando o alcançou, ofegante, incerto do que dizer ou fazer. Tentou segurá-lo pelos ombros, impedindo-o de terminar de se vestir. Estava escuro, as luzes vinham da casa de festa um pouco distante, e da luz da lua, que se refletia no corpo de ambos, e principalmente nos cabelos do loiro, deixando-os quase brancos.
“Por que está agindo assim? Não tinha percebido que não há nenhum problema em ser gay?” Fabrício perguntou, apertando o ombro do André e levando uma mão ao rosto dele, para que o olhasse nos olhos e entendesse que não havia nada de errado naquilo, quando ambos desejavam a mesma coisa. “Tu também está apaixonado por mim.” Declarou com uma certeza tão sólida, que André sentiu-se nocauteado. “Não teria me beijado de volta se não estivesse!” Fafá completou, deixando o outro com uma expressão de quem acabara de levar um tapa inesperado.
Era tão lógico quanto não deveria ser verdade. André ficou sem fala, o olhar desviado para longe dos orbes negros e decididos do moreno. Era irritante como ele estava sempre certo. Não! Ele não está certo. Eu não estou apaixonado. André pensou desesperado, mas não conseguiu sequer articular aquelas palavras. Sentiu a mão do Fabrício acariciar-lhe o rosto, e fechou os olhos, virando o rosto e segurando os pulsos dele com força.
“André, tu me acha errado por querer isso?” Fafá sussurrou contra a orelha do loiro, deixando-o trêmulo. Não! André pensou rápido, porém novamente não conseguiu falar nada. Era aquela maldita bola de pedra na garganta. No lugar disso ofegou baixinho sentindo os lábios do outro roçarem em sua orelha e depois na lateral de seu rosto, procurando seu boca.
E os lábios quase se encontraram de novo, André pôde sentir o hálito quente dele sobre sua boca, atiçando seus sentidos como o cheiro de maresia que os circundava. Mas um choque de adrenalina e medo fez com que o loiro afastasse o Fabrício como podia, como um reflexo de alguém que busca sobreviver, e não percebe o que faz, apenas age.
Quando deu por si, seu punho latejava e o moreno estava caído na areia, segurando a mandíbula com uma careta de dor. André olhou-o arrependido, sua expressão condoída.
“Eu... Eu não posso. Desculpa.” Falou trêmulo, e não saberia dizer se as desculpas eram pelo soco, ou por não poder. Catou os tênis do chão e correu dali. Não aguentava mais estar perto do outro. Estava mortificado, envergonhado, arrependido, e aliviado, novamente com raiva de tudo. O que significava que simplesmente não entendia como se sentia. Apenas corria, e chegou a tropeçar duas vezes antes de alcançar um dos ônibus próximos à casa de festa que, felizmente, já estava partindo.
Subiu e agradeceu por todos lá dentro estarem acabados, adormecidos nos bancos, ou simplesmente grogues demais para perceber que estava ofegante, molhado, de pés descalços, e com uma expressão de quem acabara de presenciar um assassinato. O próprio assassinato. Sentia algo morto dentro de si, e não sabia exatamente o que era.
Tampouco desejava descobrir.
XxxX
André chegou à barraca e pegou as coisas para tomar um banho. Não sabia como iria dividir a mesma barraca com o Fabrício agora. Não sabia como poderia continuar naquele evento sabendo que poderia topar com ele a todo o momento, e tendo de jogar com ele também! Sentiu-se sem ter para onde ir, abandonado em um lugar desconhecido.
Quando foi aos banheiros do estádio ao lado, não havia mais água, o que o fez xingar alto. Saiu do banheiro com a toalha sobre o ombro, e acabou encontrando um rapaz da UEL, com seu moicano laranja.
“Os banheiros estão todos sem água.” Ele informou. “Mas colocaram uns containers lá perto de onde servem o café da manhã e o almoço, que têm uns boxes com chuveiros pra tomar banho.”
“Obrigado.” Agradeceu à informação, cabisbaixo, e foi em direção ao lugar onde almoçara mais cedo. De fato, lá estavam os containers, porém era um absurdo faltar água em um evento daqueles. André sentiu-se enojado por ter de tomar banho dentro de um caixote de alumínio, mas não tinha outras opções. E um banho o ajudaria a pensar com clareza, apesar de estar em meio a uma tempestade interior.
Demorou vários minutos no banho e, quando saiu, desejou ter ficado mais. Agora teria de voltar à barraca, e o Fabrício certamente já teria retornado. Não faltava muito pro amanhecer, já deviam ser umas quatro e meia da manhã. Ou não, pois ele teria de tomar um banho também. André caminhou pelo lugar, olhando a gigantesca barraca de lona branca que havia sido usada para alojamento da UFCSPA, vulgo Fundação, e depois passou pelos prédios pequenos que deveriam estar servindo de dormitório para outras faculdades.
Quando passou por ali, havia um grupinho de rapazes junto com algumas gurias, bebendo e rindo alto, todos provavelmente bêbados, ou bem próximos disso. André momentaneamente invejou toda aquela despreocupação com o mundo. Se não fosse g... Não sou gay, balançou a cabeça, nervoso, os fios loiros molhados espalhando gotas d’água ao redor.
Um rapaz do grupo, de cabelos cacheados e desgrenhados, notou o André e se engraçou.
“Ô loiro! Não devia andar sozinho por aí! Pode ser perigoso pra um guri como tu! Pode acabar desvirginado!” Ele sorriu de lado debochado, e os outros todos voltaram a atenção para o André, olhando-o curiosos com alguns sorrisos ainda no rosto.
André sentiu o sangue ferver. O que ele queria dizer com aquilo? Que tinha cara de fraco? Que tinha cara de homossexual? Isso estava tão evidente assim? Os olhares pareceram julgá-lo, como se soubessem o que havia rolado entre ele e o Fabrício. Rangeu os dentes, vendo a oportunidade perfeita para extravasar a raiva e frustração que sentia.
Aproximou-se como um felino do rapaz, que não era muito mais alto, e o agarrou pela gola da camiseta.
“O que tu disse?” Perguntou com um olhar terrível, repleto de ira, que assustou o outro. “Tu quer apanhar, filho da puta?” O rapaz tentou empurrá-lo, mas André acertou-lhe um soco em cheio no nariz, derrubando-o no chão.
A partir daí foi uma confusão.
Os amigos se meteram, o derrubado tentou revidar, as garotas gritaram. Por sorte o de cabelos cacheados era o mais bêbado, e seus amigos mais sensatos o seguraram, enquanto também seguravam o André, impedindo os dois de caírem no pau. Os olhares raivosos poderiam derreter um cubo de gelo.
“Me larga! Eu vou detonar esse loiro sem noção!” Gritou o grande idiota, na opinião do André.
“Cai dentro, imbecil!” André tentou se desvencilhar, mas foi arrastado para longe, e então largado com um empurrão que o fez cambalear vários passos até conseguir se firmar sobre ambos os pés.
“Desculpa o nosso colega. Ele ‘tá bêbado e agindo como um imbecil. É melhor tu sair daqui, não queremos briga.” Disse o garoto, simples e seco. “Se tentar arranjar mais briga, seremos todos nós contra ti.”
André torceu os lábios, mas deu as costas a todos eles e voltou a andar. Quando passou pelo segundo prédio, apoiou-se na parede lateral dele e deixou-se deslizar até o chão. Abraçou os joelhos e escondeu o rosto nos braços, desejando sumir. Queria ir embora daquele evento ridículo. Sentia-a mais sozinho do que uma criança jogada no meio da rua sem nenhuma perspectiva, repudiada pelos pais – algo que se tornaria real caso eles descobrissem o que se passara mais cedo.
Sentiu-se carente, desejoso de um abraço. Aquele abraço, que Fabrício lhe dera no hospital, após a Natália explicar-lhe o que havia acontecido com ela, o Davi e o Gui.
“Droga!” Murmurou num tom doído, pois tudo parecia girar em torno do moreno. Apertou o tecido da calça limpa com força, até sentir os dedos formigarem. As lágrimas caíram ao chão, entre suas pernas.
Não queria ter preconceitos, havia gostado muito do Diogo e do Henrique, queria que Davi o perdoasse e eles pudessem voltar a serem amigos. Nunca mais falaria mal de homossexuais, fossem homens ou mulheres, prometera para si próprio, e fizera aquela promessa com o Fabrício.
Não era preconceito o que sentia, era medo.
André estava imerso em um medo inconsciente, que o atormentava mais do que uma ferida que não cicatriza, e sangra um pouco, intermitente, segundo após segundo.
XxxX
Fabrício encontrara aquela porta que levava até o terraço do prédio dos alojamentos, e se sentara na borda do terraço, com as pernas cruzadas e o violão no colo. Sua expressão era serenamente triste. Aliás, ele não lembrava quando fora a última vez que se sentira tão apático, arrancando notas suaves das cordas do violão, suas amigas por tantos anos, que sempre conseguiam transmitir tão bem, em belas melodias, todas as formas de um sorriso, ou de um lamento.
Pôde ver o André retornando ao alojamento, as mãos no bolso e a cabeça baixa. Em outro momento, o teria chamado e abanado empolgado, talvez quase caindo ali de cima, o que teria feito o loiro xingá-lo mandando-o tomar mais cuidado. Sorriu de leve com isso, e a música chegou aos seus lábios e surgiu em seus dedos de uma forma extremamente natural, como respirar; porém as notas e a melodia eram diferentes da versão original. Eram mais lentas, ternas, como uma carícia de vento morno em um dia cinzento.
Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...
André chegou à barraca e se surpreendeu por não encontrar o moreno ali. Teria acontecido alguma coisa? Ele poderia estar bêbado demais e ter caído em alguma vala! Ter decidido entrar no mar novamente e se afogado! Com os neurônios do Fabrício, não dava pra duvidar de nada. O loiro saiu da barraca após largar as coisas e olhou ao redor, notando uma porta entreaberta com uma escada. Uma melodia fraca parecia descer pelos degraus, chamando-o como o sussurro de um riacho escondido.
Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".
André chegou ao terraço e parou, observando o Fabrício não muito distante, cantando naquele tom melancólico. Mais do que nunca um bloco de aço pareceu esmagar-se contra seu peito. Nunca havia visto o moreno daquela forma desde que haviam se reencontrado na universidade. Seus olhos voltaram a se encher de lágrimas e seus pés o levaram silenciosamente para mais perto dele, sentindo aquela canção tanto acariciar-lhe a pele, quanto rasgar-lhe as entranhas.
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem,
Selvagem;
Selvagem.
Quando estava bem próximo, Fabrício notou sua presença, virando parcialmente o rosto apenas o suficiente para percebê-lo. Ele parou por um instante de tocar e cantar, mas no espaço de um bater de asas de um pássaro qualquer sobrevoando os céus, ele voltou a tocar, olhando para frente, a voz retornando daquela forma tranquila, melodiosa e triste.
Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus
Olhos: castanhos.
Então me abraça forte...
Foi quando André caiu de joelhos e o abraçou por trás, não aguentando mais segurar as lágrimas apenas para si, deixando-as molhar a nuca do moreno. Um sorriso leve, aliviado, surgiu nos lábios do Fabrício, antes de ele continuar a tocar, sentindo-se aquecido pelo abraço do loiro.
E Me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo,
Temos nosso próprio tempo,
Temos nosso próprio tempo.
Como Fabrício conseguia sempre escolher as canções certas para os mais diferentes momentos, ainda era um mistério para o André; porém o loiro só conseguia agradecer por isso. Sentia todo aquele seu desespero, aflição, confusão evaporarem junto com as notas que cresciam e então sumiam na noite, levadas pela brisa da cidade litorânea. Simplesmente não queria parar de abraçá-lo, queria apenas deixar aquela sensação de tranquilidade preenchê-lo.
Não tenho medo do escuro,
Mas deixe as luzes acesas agora,
O que foi escondido é o que se escondeu,
E o que foi prometido,
Ninguém prometeu.
Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens,
Tão jovens,
A música acabou, mas os dois continuaram em silêncio, naquela mesma posição. Fabrício pegou a mão do loiro e a beijou carinhosamente, esperando que isso transmitisse tanto quanto a música que acabara de tocar. André, então, o abraçou mais forte porque, naquele momento, estavam distantes... de tudo.
Tão jovens...
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