Good Riddance

41 Extra Porque nada é em vão


Notas iniciais
Esse é um extra dos casais: Beto/Milo e Dani/Gabi. Não lê-lo não alterará em nada a compreensão do resto da história. É pra quem pediu um pouquinho mais deles. É um extra bem simples e cheio de fofuras haha! Eu gostei muito de escrever, espero que também gostem. Tem um pseudo-orange nele, se não gosta, cuidado.

Dani olhou analiticamente para seu melhor amigo, achando-o um tanto desleixado. Os cabelos amarelo-queimados se juntavam numa moita de cachos particularmente desordenados, vestia um pijama velho listrado, e havia bolsas azuladas sob os olhos verde-água. Milo comia um cereal com leite sentado no sofá com as pernas recolhidas contra o peito, usando seus joelhos como apoio para o prato. Dani estalou a língua e balançou a cabeça, discordando daquele visual ‘vou ficar em casa hoje e nada me convencerá do contrário’.

“Tu deveria ir colocar uma roupa. De preferência, tomar um banho.” Dani disse despretensiosamente, enquanto pegava um prato na prateleira logo acima da pia. A cozinha e a sala ficavam num único cômodo. Os dois dividiam um apartamento particularmente pequeno próximo da faculdade, dividiam inclusive o mesmo quarto.

Milo, no primeiro dia, para o alívio da Dani, disse que era gay. No segundo, Dani saiu pelada do banheiro atrás das roupas no armário. Ainda ria ao se lembrar do berro de espanto do anjinho – apelido que dera ao Milo – ao vê-la como veio ao mundo.

O apelido era um tanto irônico, pois de anjo ele nada tinha, mas a aparência sugeria o contrário.

“Por quê?” Milo perguntou, olhando para a televisão sem realmente vê-la, seus olhos inchados de sono. Não entendera muito bem, mas a Daniela praticamente o tirara da cama aos pontapés às 10h15min da manhã de sábado. Desde quando esse era um horário saudável? Chegara em casa às quatro e meia da madrugada, estava pregado depois de uma noite de festa com os amigos. Dani, para espanto do Milo, decidira não ir, afirmando estar cansada.

“Velha.” Foi do que Milo a xingou antes de sair de casa.

“Porque, não sei... Vai que alguém resolve visitar?” Perguntou com um ar distraído, já se servindo de cereal. Precisava fazer compras, a geladeira estava um tanto vazia. Captou uma amêndoa entre o cereal e a jogou na boca. Milo a olhou por um momento, momentaneamente parecendo ter por ela a mesma consideração que teria por uma mancha desagradável numa parede branca.

Depois notou o quanto ela estava bonita, com roupas de inverno que lhe caíam muito bem; os tons verdes discretos da blusa de veludo sob o casaco gabardine gelo ressaltando sua pele cor de oliva e seus expressivos olhos amendoados, e o melhor, não a deixando similar a um balão que resolvera se agasalhar. Milo piscou algumas vezes e, após alguns segundos juntando dois mais dois, praticamente engasgou-se com um inconveniente grão de cereal.

“Teremos visitas?!” Quase gritou, erguendo-se rapidamente, quase derrubando o prato. “Como assim alguém vai vir aqui e tu me avisa só agora? E por quê? Quem? Ai, tu sabe que eu odeio que alguém me veja nesse estado!”

Dani mordiscou internamente o canto do lábio. Milo simplesmente iria matá-la... Mas a questão é que, apesar de conhecê-lo há apenas cinco meses, a amizade deles crescera de uma maneira tão brusca e especial, que simplesmente o conhecia melhor que qualquer um. E se tinha uma coisa que Dani sabia, era que Milo jamais admitiria que estava louco para ver o Roberto novamente. Ele nunca convidaria o Beto, nunca iria para Porto Alegre para vê-lo, e nunca comentaria o fato de que passara as últimas semanas trocando mensagens atrás de mensagens com o garoto, e suspirando pelos cantos.

Milo tinha a péssima mania de falar que ‘se apaixonar era para os fracos e uma grande perda de tempo’. Dani não achava que ele estava apaixonado e em negação, porém inegável era o romance rápido e intenso que os dois garotos viveram no Intermed, e ela achava que não havia nada de errado em dar um empurrãozinho no destino. Principalmente se o destino carregava junto uma menina linda, com o sorriso mais sincero e encantador do mundo. É, Dani convidara o Beto e a Gabi para visitá-los em Pelotas sem que o Milo ficasse sabendo.

Olhou para o relógio, ignorando por um momento as perguntas escandalosas do anjinho.

“Eles devem chegar em mais ou menos meia hora. E nós vamos almoçar fora, todos nós, anjo.” Dani comentou enfaticamente, colocando uma garfada generosa do cereal na boca.

“ELES QUEM?!” Milo gritou, mas já estava no quarto arrancando o pijama e quase se atirando dentro do guarda-roupa atrás de algo que prestasse. Dani riu. Milo verdadeiramente odiava que o vissem em seu estado matinal, não importava quem fosse. Era muito cuidadoso, para não dizer obsessivo, com a aparência.

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Gabriella parou em frente à entrada do pequeno prédio e respirou fundo. Estava nervosa, e não entendia bem isso. Seu coração batia descompassado, deixando sua pulsação no pescoço evidente. Isso era estranho. Conhecia a Daniela, foram amigas, quando a vira no Intermed sentira-se apenas feliz, mas agora a felicidade lhe custara todas as unhas das mãos. Roera todas ao longo da viagem.

Beto assoprou o ar contra as mãos, esfregando-as.

“Acha que ele vai gostar de me ver, ou vai querer me espancar por aparecer de surpresa?” Ele perguntou e, com certo alívio sádico, Gabi percebeu que não era a única nervosa ali. É, se estivesse aparecendo completamente de surpresa, também ficaria preocupada com a reação da Daniela.

“Vocês estavam tão nhom-nhom-nhom no Intermed! Eu acho que ele vai gostar sim.” Gabi concluiu genialmente.

Beto perguntou-se se nhom-nhom-nhom era algo realmente bom. Preferiu pensar que sim e deu de ombros, antes de apertar o interfone do apartamento dos dois. Ambos aguardaram na expectativa, Gabi roendo uma réstia de unha do dedo anelar, e Beto estralando os dedos dentro dos bolsos do casaco, até que uma voz feminina respondeu-os.

“Sim?”

“Dani, é a gente! Gabi e Beto!” Gabi falou imediatamente, um tanto alto e rápido demais. Beto a olhou como que a avisando para se segurar, e a morena mordeu a língua. Dani soltou uma risadinha do outro lado da linha, e o portão destrancou.

“Subam.” Dani pediu, e os dois entraram no prédio, que tinha modestos quatro andares, sendo que Dani e Milo moravam no terceiro andar.

Dani os aguardava na porta, e a Gabi não refreou o sorriso largo que abriu ao vê-la. Subiu mais rápido os últimos degraus e se jogou nos braços da índia, abraçando-a apertado.

“Fiquei com saudades!” Admitiu a morena, com as bochechas coradas e geladas. “Tu ‘tá linda.”

Dani sorriu acariciando os cabelos ondulados da garota, riu e sentiu as bochechas quentes. Achava a Gabi tão linda e fofa também. Só havia realmente percebido isso na noite que passaram juntas, após a festa na piscina. E depois nas conversas diárias que tiveram por celular e por vídeo. Ambas estavam até mesmo com os estudos atrasados por gastarem tanto tempo uma com a outra, apesar da distância.

“Eu também estava. Vamos, entrem.” Dani pediu, voltando-se pro Beto. “O Milo está no quarto se arrumando. Ele simplesmente entrou em pânico quando soube que tu estava vindo, e entrou num profundo drama sobre não ter nenhuma roupa.” Contou após dar-lhe um beijinho na bochecha.

“Ele... gostou que eu vim?” Beto perguntou baixinho, olhando na direção da porta que, supunha, era do quarto.

O apartamento era pequeno e aconchegante, com móveis em tom queimados, estantes repletas de livros, um tapete felpudo na sala, e quadros e plantas grandes estrategicamente colocados. Tudo parecia calculadamente planejado e organizado para deixar o ambiente agradável. Obra dos dois amigos, ambos tinham bom gosto para decoração, e juntos haviam dado um trato no lugar.

Dani sorriu enquanto fechava a porta.

“Não. Ele odiou.” Admitiu, destroçando o coração do Beto. “Mas só porque ele deve estar mais nervoso que tu. Apesar de que ele nunca irá admitir isso, e tampouco irá parecer nervoso. Milo pode ser afetado, mas sabe disfarçar como um rei da mentira.” Piscou para o outro, que abriu um meio sorriso inseguro.

“Talvez eu devesse ter falado com ele, e não feito as coisas pelas costas...” Refletiu, mas quando a Daniela lhe propusera vir vê-los, junto com a Gabriella, simplesmente não conseguira negar e, como ela dissera para fazerem uma surpresa, acabara se deixando levar. Queria muito ver o Milo, sentira que haviam tido algo especial, mesmo que efêmero, no Intermed...

“Sim, exatamente o que tu deveria ter feito.” Milo saiu do quarto naquele instante, com uma expressão ligeiramente irritada. “Mas eu deveria adivinhar que a Dani inventaria algo assim, vadia intrometida.”

Dani ergueu uma sobrancelha, particularmente ofendida, e lhe mostrou o dedo do meio. Ah, o amor entre amigos...

“Milo...! Eu... Me desculpa, mas... Surpresa?” Perguntou, inseguro, enquanto a Gabi segurava o riso. Milo revirou os olhos e se aproximou, parando bem à frente do mais alto. Seus cabelos estavam perfeitamente cacheados agora, e suas roupas colocariam inveja a qualquer estilista famoso.

“Vamos acabar logo com isso, odeio essa etapa constrangedora até que troquemos alguns beijos.” Confessou e, para a surpresa do Beto, puxou-o pela gola da camisa, depositando um beijinho delicado sobre os lábios do rapaz. “Olá...” Murmurou, sorrindo de leve contra a boca dele.

Não iria mentir, quase tivera um treco quando soubera daquilo e xingara a Daniela de uma lista de palavrões surpreendentemente criativa. Mas agora que via o rapaz, uma parte tímida dentro de si se perguntava como aguentara aqueles dias longe dele. Afinal, lá no Intermed sentira muita vontade de conhecê-lo melhor, passar tardes batendo papo e aprendendo a decifrar cada uma de suas expressões.

Beto sorriu com evidente alívio após o beijo. Talvez fosse justamente esse tipo de atitude que gostara tanto no garoto.

“Olá.” Respondeu acariciando com o polegar a bochecha rechonchuda dele.

“Awn, que fofo!” Gabi falou encantada.

“Oh, vou vomitar.” Dani revirou os olhos, com certa diversão, e pegou na mão da Gabi e a levou até o sofá, sentando-se junto com ela. “Então, eu separei algumas opções de restaurante, vocês podem escolher. Não sei vocês, mas eu já estou morta de fome. Vocês dois demoraram a chegar.”

Gabi soltou uma risada nervosa. Era tão constrangedor.

“É que pegamos o ônibus errado e fomos parar em outra cidade... Por isso as duas horas de atraso...” Gabi admitiu com uma risada e, depois disso, ela e Beto foram motivo de piada por vários minutos.

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Acabaram almoçando num restaurante em frente à praia do Laranjal. Tanto Gabi quanto Beto não conheciam o lugar, e ficaram encantados. Era uma prainha, banhada pela Lagoa dos Patos, que ficava a apenas dez minutos do centro da cidade, e parecia tirada de cartões postais. Gaivotas pareciam se reunir em determinados pontos da areia.

Agora caminhavam pelo calçadão que tinha em torno de 2 km de extensão, apreciando a vista. Um vento fraco refrescava o ambiente já de temperaturas mais baixas de outono, mas o sol no céu azul-límpido era agradável e reconfortante, e as várias árvores e coqueiros pelo caminho deixavam o ambiente propício para uma caminhada após um almoço repleto de conversas, brincadeiras e risadas.

Beto e Milo andavam de mãos dadas mais atrás, podendo ver as meninas mais à frente, também de mãos dadas, às risadinhas, daquelas que sempre deixam os outros desconfiados, pois certamente há fofocas rolando.

“É muito bonito aqui. Deve ser ainda melhor no verão.” Beto olhou para as águas tranquilas, pensando que era um ótimo lugar para remo, canoagem e Kitesurf em dias de vento, três coisas das quais gostava de praticar, geralmente no Guaíba, quando possível. “É liberado para banho?”

“É sim, em alguns pontos... Esse ano falaram que havia sete pontos liberados para banho... Sabia que o nome desse balneário é Balneário dos Prazeres? Sugestivo, não?” Perguntou imprimindo um tom malicioso na pergunta, seus lábios se curvando em um sorriso sugestivo.

Beto riu e parou, puxando-o para um abraço, não se importando com quem também passeava pelo calçadão, ou andava de bicicleta por ali. Eram poucas pessoas de qualquer forma, e já passara da fase de se constranger com essas coisas.

Milo lembrou que achava o sorriso dele muito meigo, com um ar infantil devido ao aparelho.

“Mesmo? E por que desse nome?”

“Não sei. Talvez porque seja o melhor lugar para dar uns amassos. Como naqueles bancos sob as árvores.” Milo indicou um dos bancos sob uma árvore frondosa de galhos retorcidos e antigos, nascendo da areia clara.

“E as gurias?”

“Prefiro que se peguem bem longe de mim.” Riu-se Milo, puxando Beto para se sentar ali com ele. A sombra da árvore estava para o outro lado, então ainda pegavam um pouco de sol. Sentou-se e se aconchegou a ele. “Vamos ficar um pouquinho aqui porque, eu não disse antes, mas não gosto de caminhar logo depois de comer.”

“E o que tu gosta de fazer depois de comer?” Beto perguntou, passando um braço pela cintura do menor.

Milo abriu um sorrisinho que não mostrava os dentes e aproximou o rosto do mais velho, roçando o nariz no dele.

“Gosto de beijar.” Admitiu, e deu-lhe um selinho, antes de abraçá-lo, sendo retribuído pelo outro, que ria. “Estou feliz que veio... Eu me envergonho de dizer, mas... Eu não teria te convidado. Não gosto dessas coisas à distância.”

“Eu também não gosto. Preferia poder te ver todos os finais de semana. Mas acho que terei de me contentar com eventuais visitas.” Beto disse, um tanto prepotente, afinal, Milo não comentara nada sobre ‘próximos finais de semana’, mas o de cabelos encaracolados gostava de garotos confiantes, e também abusados.

Riu, erguendo o olhar.

“Então tu quer mesmo ter algo à distância comigo?”

“Se eu não quisesse, não estaria aqui, não é?” Beto perguntou retoricamente, acariciando a bochecha do menor. Ele fazia isso bastante, e Milo achou que acabaria se acostumando a isso. Era um carinho estranhamente fofo e confortador, e a maneira com que Beto o olhava enquanto o fazia lhe aquecia mais do que o casaco que lhe cobria o corpo.

“Não, não estaria... Mas não entendo como será isso. Parece mais sério do que apenas ficar.” Cogitou, se perguntando se teria de ser fiel ou não. Estava acostumado a ficar com alguém por uma noite, no máximo alguns dias, e depois partir para a outra, sempre sem nenhuma espécie de compromisso. Mas Beto viera até ali só para vê-lo, isso deveria significar algo a mais, certo?

Beto beijou-o rapidamente nos lábios e depois na bochecha, mordendo-a de leve. Estava apaixonado por aquelas bochechas, eram carnudas e rechonchudas, deixavam o Milo com um aspecto angelical. O apelido de anjinho combinava muito bem com ele.

“Vamos apenas aproveitar o dia que temos, ok? Não precisamos nos preocupar com isso, o que importa para mim, ao menos, é que tu me quer aqui, tanto quanto eu quero estar aqui.” Tentou acalmá-lo. Se começassem a falar sobre compromisso tão cedo, certamente aquilo não duraria nada. Não era momento.

Apesar de achar a resposta extremamente insatisfatória, Milo concordou e descansou a cabeça contra o peito do maior. Beto tinha braços calorosamente aconchegantes, que o deixava com vontade de se agarrar a ele e não se soltar nunca mais.

Era uma sensação boa.

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Dani se divertia com o quanto Gabi era tagarela. Ela simplesmente não calara a boca desde que começaram a caminhar. Aliás, ela não calara a boca desde que saíram para almoçar, parecendo mais empolgada que o habitual. Dani sorria internamente com o pensamento de que era a ‘culpada’ pela animação da morena. Mas agora estava sentindo algo estranho no peito ao ouvi-la falar sobre a Franciele. Mesmo que estivesse reclamando da amiga, pois as duas haviam brigado na noite anterior, na tal Festa dos 100 Dias.

Dani sabia que a Franciele não era sua maior fã, e talvez por isso acabasse com um pé atrás com a menina também. No caso, um pé atrás pela relação dela com a Gabi, apesar da novidade de que a Fran e o Rafael estavam namorando.

“E aí eu me pergunto: por que as pessoas se metem tanto na vida dos outros? E daí se uma guria pega vários, veste roupas curtas ou flerta com vários garotos? Isso faz dela alguém pior? Alguém que merece desprezo? Alguém a se olhar torto? Que conceitos são esses? Que mania é essa que temos de julgar as pessoas por coisas tão fúteis? Parece que as pessoas tem uma fixação absurda quanto a vida pessoal e sexual dos outros... É o mesmo com os homossexuais, é a mesma ideia. Essa fixação sobre o que a pessoa está fazendo de sua vida particular, com quem está transando, como, onde, quando, com quem, com quantos? Isso importa, muda a vida? Não, não muda. Isso não faz o caráter de ninguém. Aí é vadia pra cá, vadia pra lá, e ela é puta, e ela não se dá ao respeito. Sério, que respeito é esse que as pessoas exigem dos outros, quando elas próprias não respeitam e saem julgando?” Desabafou tudo de uma única vez, chegando a ficar ofegante. Eram coisas que haviam ficado entaladas durante toda a noite.

Dani abaixou o olhar.

“Eu entendo o que está dizendo, acredite ou não, já passei por bastante desse preconceito.” Olhou para a morena, sorrindo. “Mas acredite, todas as ‘vadias’ em algum momento percebem que a opinião alheia não importa. Que julguem, que apontem o dedo, que torçam o nariz. Não importa. Porque enquanto essas mesmas pessoas se afogam em restrições e julgamentos, nós vadias estamos vivendo tudo que a vida oferece, estaremos acertando e errando, e talvez nos arrependendo de algumas escolhas, às vezes, mas esses problemas são nossos, e de mais ninguém, nós sabemos de nós mesmos, não os outros. Nós escolhemos nossos amigos e amores, sem medos, pois não há mais nada a temer. Já somos julgados, o que há para perder?” Sorriu abertamente, e puxou a morena para a praia, deixando seus pés afundarem na areia. “Sabe... Quando eu morava na reserva, meu primeiro amor foi uma menina. Mas nós apenas trocamos uns beijos inocentes, pois tínhamos muito medo, não éramos fortes para vencer toda aquela repreensão. Hoje eu uso isso, entre tantas outras coisas, para não perder nenhuma oportunidade. Sou julgada de prepotente e exibida por ir atrás do que eu quero, mas não me importo mais, porque, afinal, não importa. Se arrepender de algo que deixamos de fazer por covardia é o pior dos sentimentos.”

Gabi sentiu o coração palpitar. Era tão bom encontrar alguém com as mesmas opiniões. Dani era tão decidida e forte, era algo que admirava. Ela própria, apesar de todos os seus discursos, tinha certo medo da opinião alheia em alguns aspectos. Talvez por isso se revoltasse tanto. Talvez apenas quisesse um mundo onde as pessoas aprendessem a não julgar, e permitir a todos a liberdade de viverem suas vidas, criarem memórias e terem novas experiências, sem serem massacradas por isso. O sonho de tantos jovens...

“Mas não fique braba com a Fran, Gabi. Converse com ela, exponha sua opinião. Às vezes, as pessoas apenas falam as coisas da boca para fora, sem real intenção de ferir. Estão tão acostumadas a agir assim, acostumadas a aceitar o que já é dito como verdade absoluta por quase todo mundo, que apenas se deixam levar. Às vezes, tudo que precisam é de uma boa influência. E tu, certamente, é uma ótima influência.” Dani apertou-lhe a mão com mais força.

“Não sei, minha mãe costuma dizer que eu sou uma péssima influência para meus primos mais novos. Me pergunto o porquê disso...” Gabi ponderou, segurando o queixo. Dani riu, guiando-as em direção ao cais que avançava lagoa adentro.

“Mas sério, pare de falar da Fran agora, porque sou ciumenta. Ela pode passar todos os dias contigo, enquanto eu estou aqui, em outra cidade. E eu sei o quanto vocês duas são próximas...” Avisou, ficando um pouco séria. Gabi arregalou os olhos, e depois gargalhou, jogando-se nas costas da índia.

“Boba. Eu e ela somos como irmãs. Eu nunca nem cogitei nada com ela...”

“É, mas aposto que também não cogitou nada comigo até estar bêbado o suficiente para acabar participando de um beijo triplo, e depois me agarrando absolutamente do nada.” Dani brincou, mas havia certa seriedade em seu tom.

Vivera tanto tempo de sua vida sozinha, depois perdera a pessoa que mais amara, e que lhe amara de volta, como mãe e amiga, sem cobrar-lhe nada. Hoje em dia, quando se aproximava de alguém, carente, acabava por tornar-se extremamente possessiva. Alguns de seus medos a deixaram, mas outros surgiram, como o medo de perder novamente as pessoas que lhe eram especiais.

“Não é tão verdade...” Gabi murmurou, virando-a para si, colocando as mãos na cintura da índia. “Eu já sentia algo por ti no nosso ano do cursinho. Era algo que eu nem entendia e eu ignorei, ainda estava me descobrindo... Acabei ficando com o Fabrício, mas a amizade entre eu e ele prevaleceu. Enquanto isso, eu ficava reparando em ti.”

“Gabi...” Dani ficou realmente surpresa, e se envergonhou de invejá-la naquela época, por ela ficar com o garoto pelo qual desenvolvera certa paixão. “Aquele ano foi tão conturbado pra mim. Tanta liberdade de uma só vez, como eu nunca havia sentido, meus primeiros amigos e... A perda da Moema. Foi tudo tão intenso e devastador. Eu queria ter feito as coisas diferentes...”

“Dani, não foi tu mesma que disse que temos de tentar, mesmo se nos arrependermos depois, do que nos arrependermos de não tentar? Tu não fez nada de errado, do que te envergonha? Eu que me envergonho de ter te julgado antes de conversar contigo. Foi idiota da minha parte.” Acariciou-lhe os cabelos negros compridos. Mesmo com o vento fraco, continuavam perfeitamente lisos, ondulando como um véu noturno.

“Não foi. Eu devia ter mantido contato, ter confiado mais em vocês, explicado tudo. Escondi demais, e depois me afastei. Eu sentia tantas saudades. Mesmo que eu nunca tenha conseguido manter uma conversa longa com o Rafa, ou que a Fran me odeie pelas coisas que eu fiz, eu sentia saudades de nós cinco no cursinho, daquelas risadas e brincadeiras, e até das neuroses de pré-vestibulandos.” Sorriu, um tanto emocionada, seus olhos mais úmidos. “Foi tão bom reencontrar vocês no Intermed...”

“Reencontrar nós, ou reencontrar o Fabrício?” Gabi perguntou. É, Dani não era a única ciumenta ali. Dani a olhou com os lábios entreabertos, o cenho franzido. “O quê? Acha que eu vou esquecer que tu estava apaixonada pelo Fabrício até algumas semanas atrás?”

“Gabi!” Dani riu-se, e se jogou na areia, levando a morena com ela, que soltou um gritinho. Sujar as roupas de areia era horrível, mas Dani não se importou. “Eu não estava apaixonada pelo Fabrício. Sim, eu fui apaixonada por ele há um ano atrás, mas foi uma paixão passageira. No Intermed, era como se eu quisesse apenas concluir algo que não se concretizou no passado e deixou um vazio... Eu achei que ele estivesse dando em cima de mim, e tentei. Eu sempre tento, sou assim e não consigo refrear. Tentei, não deu, ele já ‘tava em outra, e fim. Agora, eu também ‘tô em outra.” Explicou com certa diversão. Adorava que sentissem ciúmes de si, fazia com que se sentisse querida e importante.

Gabi, que estava deitada por cima dela na areia, a encarou em dúvida, mas logo acabou por sorrir.

“Hunf, sim, está na minha agora. Melhor esquecer isso...” A morena decidiu e aproximou seu rosto. Seus lábios se tocaram com doçura, a maciez de ambos se misturando antes os entreabrissem e se permitissem mais. Dani a abraçou, sentindo a respiração falhar de leve junto a um leve gemido de satisfação, e Gabi acabou por sujar-lhe a bochecha com areia ao segurar-lhe gentilmente o rosto.

O beijo tinha um ingênuo gosto de chocolate.

XxxX

Beto e Milo reencontram as meninas sentadas na ponta do cais, abraçadas enquanto conversavam e observavam a longa lagoa. Algumas pessoas andavam de remo por ali. Beto tentou convencê-los a fazerem aquilo também, mas seu pedido foi peremptoriamente negado. Como já era final de tarde, resolveram ir a um dos barzinhos que haviam por ali, em frente ao calçadão. As opções eram variadas, mas sequer escolheram muito. Acabaram sentados em uma mesinha do lado de fora, e beberam e conversaram até altas horas. Brincaram de ‘eu nunca’ e acabaram por descobrir várias coisas uns sobre os outros, algumas até bem vergonhosas. O jogo também causou discórdia quando Milo bebeu no ‘eu nunca transei com mais de uma pessoa ao mesmo tempo’.

Beto, já meio bêbado e mais ciumento que o comum, saiu da mesa pondo-se a caminhar sem direção quando Milo se recusou a dar mais informações sobre o assunto. Milo teve de correr atrás do garoto e enchê-lo de chamegos e palavras amorosos tolas para fazê-lo voltar à mesa. Beto, que quando passava do ponto só sentia vontade de se agarrar a alguém, acabou esquecendo-se da brincadeira e ficava o tempo todo tentando beijar e agarrar o de cabelos encaracolados; então eles deram a noite por encerrada, pois seria perigoso demais irem a alguma festa ou qualquer outra coisa no estado em que estavam.

Voltaram para o apartamento, e Dani sugeriu que assistissem a algum filme, ela tinha alguns novos baixados. Gabi gostou da ideia, não queria ir dormir tão cedo. Mas Milo teve de levar o Beto para a cama, pois ele parecia pronto para entrar num caixão e dar a vida por encerrada.

“Ele vai viver. É um pinguço, ‘tá acostumado.” Gabi deu de ombros, antes de ir ao banheiro, escovar os dentes e tomar um banho.

Dani preparou uns sanduíches, já que a última vez que haviam comido alguma coisa fora no almoço, e levou alguns para o Milo. Beto já parecia meio pregado de sono na cama.

“Eu devia ter impedido ele de beber tanto.” Milo comentou, com um bocejo. “Achei que ele seria o mais forte de todos nós.”

“Eu também achei. Quem diria, né? Só tem tamanho.” Dani sentou-se um pouco na cama. “E aí, gostou da surpresa?”

“Eu acho que te odeio ainda mais. E se eu acabar me apaixonando, o que vou fazer? O Beto é possivelmente o melhor cara com quem eu já fiquei... Ele é tão fofo e doce... E agora eu estou-“

“Com medo? Ai, Milo, quantas vezes já te disse? Não temos de ter medo de nos arriscar. Temos de ter medo de deixar as oportunidades passarem. Era isso que eu queria te mostrar. Ele queria tanto te ver, e tu por teimosia iria deixar essa chance passar. Esqueça essa de ‘se apaixonar é para os fracos’ e se permita um pouco.” Falou com um ar de irmã mais velha, e tocou-lhe a mão.

“Mas e se eu acabar machucado? Moramos longe, nos veremos de vez em quando... E do jeito que vai, eu vou querer ele sempre comigo. Ele pode ter vindo até aqui, mas e se for apenas curtição?”

“E não é? Por enquanto é curtição, não se sabe o que pode vir disso. Não fique pensando nisso e estragando o presente, ok? Se tu acabar machucado, vai sofrer, e depois vai seguir em frente, mas sempre terá as memórias daquilo a que tu se permitiu. Se não vencer esse medo, apenas terá a amarga memória de algo que nunca aconteceu.” Se levantou e deu-lhe um beijo na testa. “Te amo, anjo.”

“Te amo, índia.” Retribuiu apertando-lhe a bochecha. Dani deu-lhe um tapa na mão e foi para a sala, colocar o filme. Sabia que apenas ela e Gabi assistiriam, pois o Milo ficaria com o Beto, que provavelmente não acordaria tão cedo.

Era um filme de comédia romântica. As vantagens de ficar com uma garota – ela nunca reclamaria de filmes melosos, pelo contrário, ela os aprovaria. Riu com a ideia e se sentou no sofá.

Gabi apareceu pouco depois e, como uma gatinha manhosa, se acomodou no sofá, em seu colo.

“O que vamos ver?” Gabi perguntou, roçando o nariz em sua bochecha. “O Beto dormiu mesmo?”

“Pensei em colocar um filme novo, mas como fiquei extremamente chocada de tu nunca ter visto ‘Uma linda mulher’, foi esse que coloquei. Um pouco de cultura filmográfica te fará bem.” Dani determinou, beliscando-a de leve na barriga.

“Ai, não faz isso.” Gabi tapou a barriga, envergonhada.

“E por que não?” Dani perguntou maldosa, beliscando-a mais algumas vezes. Gabi se encolheu inteira, reclamando.

“Ai, para, eu sei que tu me acha gordinha...” Disse, com um bico. As sobrancelhas negras da índia subiram, um tanto perplexa, até lembrar-se das coisas que havia falado, da boca para fora, que de uma maneira muito torta chegaram aos ouvidos da morena.

“Gabi, eu não acho isso.” Falou, séria, envergonhada também, mas de si mesma. “Tu tem um corpão.”

“Não! Tu que tem... Eu sou cheia de gordurinhas...” Gabi desviou o olhar. Não devia ter tocado nesse assunto, mas era algo que lhe pinicava os pensamentos quando estava com a índia – no fundo achava que a Dani a via assim. Isso, e o fato de que Dani tinha um corpo escultural, simplesmente perfeito, com peitos, coxas e bunda generosos e firmes, uma cintura esbelta e uma barriga lisinha, sem nenhuma gordurinha extra.

Gabi sabia que estava muito longe desse ideal de beleza.

“Vou te provar que não estou mentindo.” Dani murmurou, segurando-lhe o rosto. “Vou provar que a inveja faz a gente falar besteiras, como tentar diminuir alguém para nos sentirmos melhor com nós mesmos. Infelizmente já fiz uso desse veneno, mas eu aprendi com esse erro...”

Gabi a abraçou quando Dani a beijou. Um beijo calmo, mas ainda assim forte, que transmitia desejo. Estremeceu de leve, entreabrindo mais os lábios, e se sentou de frente para ela, em seu colo. Dani era mais alta; Gabi era mais o estilo baixinha e fofinha – 1,55m de altura –, enquanto Dani era um mulherão de 1,75m.

Abraçaram-se, tocando-se com um desejo crescente que tornava o beijo a cada segundo mais intenso. Gabi ofegou ao sentir, minutos depois, as mãos de unhas pintadas da índia invadindo sua blusa, e ergueu lentamente os braços quando ela as puxou para cima. A única luz ligara era a da cozinha, então a sala estava parcialmente escurecida e, na TV, cenas do filme passavam sem serem notadas. Gabi segurou os cabelos macios da índia ao senti-la descer os beijos para seu peito, beijando-lhe os seios apertados no sutiã com uma delicadeza excitante.

Quando a mão dela apertou-lhe um deles, com força calculada, suspirou, logo se arrepiando com o carinho em sua barriga. Quis retribuir e começou a retirar também a blusa dela. Olhou um tanto maravilhada para o corpo amorenado e belo dela, à meia luz. Gabi abraçou-a, deixando seus seios se apertarem um contra o outro, e beijou-a no pescoço, deixando trilhas de saliva ali, e se pressionou mais a ela ao senti-la abrir-lhe o zíper da calça e, então, com um beijo provocativo em seu ombro, tocá-la sobre a calcinha, massageando-lhe o ponto erógeno.

“E se o Milo vier aqui pra sala?” Gabi perguntou contra a orelha dela, movendo lentamente o quadril para intensificar as carícias.

“Acredite, ele vai voltar rapidinho pro quarto...” Dani riu, antes de abrir-lhe o sutiã e olhá-la nos olhos. Gabi gemeu antes de beijá-la e apertar-lhe o seio, puxando as alças dele para baixo. Dani ronronou em meio ao beijo ao deitar-se no sofá, com a morena por cima. A coxa da Gabi encaixou entre suas pernas, e ela a movia junto ao quadril, também proporcionando-lhe prazer.

Os beijos continuaram, cada vez mais intensos, insuficientes, e as respirações começavam a pesar, deixando-as ofegantes. Gabi segurou um dos seios da índia e sugou-lhe o bico, apertando-o mais forte ao sentir um dedo penetrá-la lentamente, explorando-a e encontrando-a úmida. Procurou também o sexo da índia, e a beijou quando sentiu o calor da índia os envolver com entrega.

Tremeram juntas, enquanto os corpos roçavam com uma paixão nova, e seus lábios se tornavam cativos um do outro. Dani tinha um aroma de baunilha e canela que Gabi adorava, parecia próprio dela, desprendendo-se de sua pele de oliva. Era tão viciante... E ela ficava tão linda gemendo, com os seios fartos subindo e descendo no ritmo da respiração acelerada. Gabi esqueceu-se de suas inseguranças, sentindo-se inteiramente envolvida pelos toques da índia, e teve um espasmo forte e vibrante pelo corpo quando Dani a segurou com mais força, e lhe massageou mais profundamente, procurando por seus pontos mais fracos.

“Está satisfeita, ou quer mais?” Dani perguntou baixinho, sorrindo com doçura e malícia, uma estranha mas instigante combinação.

“Quero mais...” Gabi murmurou, beijando-a.

Dani inverteu as posições no sofá, e decidiu que provaria suas palavras, mas também provaria cada pedacinho do corpo da morena, pois gostava dela inteira, sem tirar nem pôr, gordurinhas ou não.

XxxX

Milo estava profundamente desolado. Não iria mentir, queria se esbaldar no corpo daquele moreno. Beto não era musculoso, mas tinha um corpo lindo, longilíneo e definido, extremamente sexy... Ah, e ele sabia muito bem dar uso a aquele corpo. As vezes que transaram no Intermed havia sido memoráveis, Milo se arrepiava só de lembrar. Mas bem, o babaca bebera demais, e agora lhe restava dormir. Tomara um banho rapidamente, fizera sua higiene, e fora para a cama, deitando-se junto ao rapaz. Dani já havia dito que dormiria no sofá com a Gabi. É, Milo sabia bem o que ela faria com a Gabi no sofá... Ao menos alguém se dará bem hoje à noite, suspirou.

Mas tinha de admitir, era de certa forma aconchegante ter o Beto em sua cama apenas para dormir. Fingia que não, talvez pelo tanto que sofrera de rejeição na adolescência, e dos foras que recebera, principalmente de um garoto em especial por quem se apaixonara, mas era hétero e lhe dera um toco daqueles, mas às vezes sonhava com um namorado com quem dividiria a cama, momentos bobos e carícias apaixonadas. Estou me precipitando! Pensou angustiado. Talvez também por isso fugisse de coisas sérias, acabava sonhando demais. Mantinha a pose de ‘sou autossuficiente, não preciso nem quero ninguém’ para não se magoar novamente. E bem, era mesmo autossuficiente, mas até que gostaria de alguém.

Acariciou o rosto do Beto, sorrindo com seus pensamentos tolos. Ora, nunca antes um garoto havia viajado para vê-lo, ainda mais sem avisá-lo. O fizera se sentir especial e, distraído, ficou alguns minutos velando o sono do rapaz, porque não queria ir dormir ainda. Para sua surpresa, Beto acabou abrindo os olhos.

“Hei...” Ele murmurou, parecendo cansado. “Acordei no céu? Estou vendo um anjo.”

Milo revirou os olhos.

“Sabe o quão velha é essa cantada?” Perguntou, mas um sorriso lhe escapou.

“Não é cantada, não preciso mais disso. Estou apenas falando o que eu vejo.” Sorriu, mas logo levou uma mão à cabeça. “E agora o mundo está girando...”

“Eu tenho um engov na gaveta, eu vou-“

“Não. Tu é meu engov, fica aqui.” Beto pediu, fazendo o menor rir.

“Como tu é bobo...” Murmurou, mas deitou-se juntinho a ele novamente.

Beto deitou-se de lado e o abraçou pela cintura.

“Eu sei, sou mesmo. Melhor se acostumar, pretendo ficar mais bobo a cada nova visita.”

“Hm... Eu acho que posso me acostumar com isso.” Ronronou.

Seus lábios se encontrarem após o breve diálogo foi apenas natural, beijos doces e sem nenhuma intenção além de aproveitar o momento. Suas roupas estarem, minutos depois, no chão, também foi bastante natural.

Igualmente natural, foi o momento em que Milo deitou-se de bruços e sentiu o corpo do garoto cobri-lo e, com beijos em sua nuca, penetrá-lo lentamente enquanto segurava-lhe a mão em cumplicidade. Deliciosamente natural foram os vários minutos que levaram perdendo-se no corpo e calor um do outro, de uma maneira extremamente nova para ambos. Não porque fossem virgens, mas porque havia algo além da simples necessidade física. Algo novo, tímido, dando seus primeiros passos.

Algo que era melhor não definir, que ainda não tinha palavras exatas.

Ao final, Beto deitou a cabeça no colo do mais novo, ouvindo a música que o vizinho colocara para a tocar, algo extremante censurável para o horário, mas ela vinha baixinha e suave, embalando o sono eminente, assim como o carinho suave e gostoso que Milo fazia em seu cabelo.

Sinceramente você pode se abrir comigo
Honestamente eu só quero te dizer
Que eu acertei o pulo quando te encontrei
Acertei

Eu sei a palavra que você deseja escutar
Você é o segredo que eu vou desvendar
Você acertou o pulo quando me encontrou
Acertou o pulo quando me encontrou

E então o nosso mundo girou
Você ficou e a noite veio
Nos trazer a escuridão
E aí então
Eu abri meu coração
Porque nada é em vão...

“Estou ouvindo tua barriga roncar.” Beto comentou após alguns segundos, e Milo gargalhou e gargalhou, porque era bom rir.

E porque estava feliz.

Notas finais
Música que toca ao final do capítulo: http://www.vagalume.com.br/cachorro-grande/sinceramente.html Próximo capítulo agradecerei às recomendações (porque não sei se quem recomendou lerá esse extra), e também antes de postar o próximo cap., eu responderei todos os reviews. Perdão por não tê-los respondido ainda. Atualização semana que vem, porque estou com bastante estudo pra colocar em dia nesse feriado... Abraços, obrigada a quem leu!