Good Riddance
28 Extra Daniela
Notas iniciais
Dani ainda sentia os olhos lacrimejando pelo que acontecera na festa. Uma dor indescritível machucava-lhe o peito, e certas lembranças, que com o tempo aprendera a bloquear, retornavam como chamas vívidas que ardiam na pele. Chegou ao alojamento e entrou na barraca que dividia com o amigo que fizera na faculdade. Conhecia o Milo, apelido para Camilo, há apenas três meses, mas a afinidade acontecera como um raio, já o considerando seu melhor amigo. Até porque, nunca tivera muitos amigos antes – além da Gabi, e do Fabrício, guri por quem se apaixonara.
“Meu deus, guria, o que aconteceu?” Milo, que estava tirando da mala o pijama – comprido, de ursinhos – perguntou assustado ao vê-la chorosa e cabisbaixa. “Te perdi de vista em certo momento da festa e não levei meu celular pra festa... O que foi? O bofe beijava tão mal que te deixou às lágrimas?” Se aproximou passando um braço pelos ombros dela.
Seus pais provavelmente achariam um absurdo ela dividir a barraca com um garoto – como se fosse virgem! –, mas o Milo era gay, do tipo afetado e alegre, que sempre lhe arrancava gargalhadas. E acabou rindo do comentário dele, balançando a cabeça, antes de acabar chorando ainda mais pesadamente. Milo arregalou os olhos e abraçou.
“Bichinha, nunca te vi assim. Me fala o que aconteceu.” Ele pediu, verdadeiramente preocupado, e Dani chorou ainda mais por ter alguém que se preocupasse assim com ela. Como poderia explicar? Tantas coisas haviam acontecido, tantos acertos, mas tantos erros. Balançou a cabeça, limpando as lágrimas com as costas da mão e respirando fundo.
“É uma longa história.”
“Pois eu sou uma criatura preguiçosa, que não se inscreveu pra nenhum esporte, veio só pela putaria, e não preciso acordar cedo, então, temos o resto da madrugada pela frente.” Milo disse, prático, sorrindo de leve. Ele tinha os lábios pequenos, lembrando um botão de rosa, e meigos olhos verde-água. Os cabelos, cacheados que tapavam as orelhas, davam-lhe um aspecto angelical. Não era lindo, mas tinha seus atrativos, e sabia chamar atenção.
Dani voltou a rir. Como adorava Milo. Demorou alguns minutos até conseguir se acalmar, respirando fundo, e então criar coragem para revelar coisas que nunca revelara para ninguém. Começou pelo pior de seus ‘podres’. Tinha medo de perder o amigo, assim como vira toda a confiança da Gabi se despedaçar frente a seus olhos, mas o melhor era que ele o odiasse agora, do que depois, quando a amizade se aprofundasse.
“Eu roubei dos meus pais e da minha irmã ano passado. Pegava quase todo o dinheiro que eles me mandavam, e não gastava pro que eles mandavam, e também roubei da minha irmã. Ela trabalhava todos os dias, de manhã e de tarde, e me entregava o dinheiro pra pagar o aluguel. Eu também peguei todo esse dinheiro.” Admitiu de uma vez, pois não havia como dar voltas. Milo arregalou os olhos por um momento, o que aumentou o aperto em seu coração, mas depois a expressão dele suavizou, antes de perguntar:
“Por quê?”
Pela primeira vez, alguém lhe perguntava por que, antes de julgá-la ou criar razões tiradas do além. E Dani agradeceu por isso. Mais lágrimas escaparam-lhe olhos, pois a parte mais dolorosa das lembranças era a chave de tal pergunta.
“Porque a Moema estava morrendo.”
[...]
Começou quando tinha cinco anos e foi considera a criança mais bonita da reserva Carreteiro, localizada no interior do município de Água Santa, a cerca de 5 km da cidade. Um belo local em meio a muito verde. Os pais ficaram orgulhosos; porém, não demorou para que preferisse ter nascido diferente. A irmã, Amanda, não tinha metade da sua beleza, o nariz era comprido demais; os lábios, finos demais, a ponto de às vezes sumirem quando ela os apertava em desgosto; as sobrancelhas grossas e grandes, quase monocelha; os cabelos, como alguns meninos maldosos diziam, parecia uma palha.
No entanto, Amanda sempre foi mais inteligente e esperta. Ia melhor na escola, era altiva, tinha respostas afiadas na ponta da língua. Era a mais velha. E Dani a adorava, e idolatrava. O que ela não sabia, era que a irmã a invejava, e adorava fazê-la parecer mais burra ao seu lado. Eram crianças e, como todas as crianças irmãs, tinham suas picuinhas. Dani era tímida, doce e demorava a entender piadas, cálculos, e era ruim em esportes. Amanda era energética, tagarela, e boa em tudo que fazia.
Com o tempo, toda a reserva já sabia. Dani era unicamente bonita, pois era burra, e Amanda era feia, mas roubara toda a inteligência para si. Ficaram conhecidas como a feia e a bonita, ou a burra e a esperta. Os meninos, principalmente, adoravam chamá-las assim. Em determinado momento, os pais começaram a concordar com isso.
“Tu tem que ficar aqui na reserva, Dani. Casar, ter filhos e cuidar da casa. Do jeito como é lenta, não vai ir longe, beleza serve pra agradar marido. Tua irmã é diferente, não vai arranjar marido, é bom que ela vá pra cidade grande e tente se virar, porque nenhum homem vai querer cuidar dela feia como ela é.” A mãe dizia-lhe várias vezes por mês, em diferentes contextos, e com diferentes palavras, mas todas queriam significar a mesma coisa. Algumas vezes, escondida, a Amanda entreouvia as palavras da mãe e chorava escondida, e maldizia a irmã bonita.
Dani saía para a rua e tinha de aturar, principalmente quando chegou à puberdade, homens a olhando descaradamente. De repente, era a menina fácil que devia aturar assédios só por ser a mais peituda, a mais bunduda, com um corpo violão já de mulher com apenas 11 anos. As outras garotas a olhavam com desprezo, chamavam-na de puta burra pelas costas, e a Daniela simplesmente não entendia por que era tão odiada. Até o pai a xingava às vezes, dizendo-lhe para se portar como uma mocinha, envergonhado dos comentários dos vizinhos, mesmo que soubesse que a filha nem ao menos dera seu primeiro beijo.
A primeira pessoa que não a tratou dessa forma foi outra pessoa que era ‘odiada’ na comunidade. Já era uma mulher velha, com seus setenta e um anos, vivia sozinha e já era meio cega, andava sempre com uma bengala e seus passos eram incertos. Quando caminhava lentamente pela rua, as pessoas desviavam e a evitavam. Dani não conhecia bem o motivo, mas era algo relativo a ela ter traído o marido quando mais nova. Até hoje, dona Moema tinha marcas no corpo pelas agressões domésticas que recebia do ex-marido, mas Dani não sabia disso, e ninguém se importava em saber. Ninguém condenara o homem quando ela o espancara ao descobrir sobre a traição e deixara a comunidade, levando todo o dinheiro e bens de Moema.
Ninguém se importou.
Mas Dani se importou ao ver a velha senhora sem a bengala, buscando apoio pela rua em árvores e bancos, enquanto segurava uma sacola numa das mãos. Dani pegou a sacola das mãos da senhora e lhe ofereceu um braço. Dona Moema olhou-a impressionada, mas então ofereceu à menina um sorriso desdentado e amarelado, mas que ainda assim, Dani achou bonito, pois era sincero.
“Eu levo a senhora até a sua casa.”
“É muita gentileza, Daniela.” Ela sabia seu nome.
Naquela comunidade pequena, todos sabiam o nome de todos. E a Dani a acompanhou, e aceitou os biscoitos que ela tirou do forno, oferecendo-os com um pouco de chá. Dani não gostava de chá, mas aceitou mesmo assim, bebendo um pequeno gole e esforçando-se para não fazer uma careta pelo gosto forte.
“Obrigada por me acompanhar, Daniela. Não é sempre que uma velha como eu recebe ajuda de uma mocinha inteligente e esperta como você.” Ela falou, sentando-se à mesa, os olhos esbranquiçados pela catarata pousados na menina. O queixo delicado da Dani caiu suavemente, e o coração palpitou. Era a primeira vez que alguém a chamava de inteligente.
“A senhora deve estar me confundindo com a minha irmã. Ela é inteligente. Eu sou...” A palavra ficou engasgada na garganta, e abaixou o olhar para xícara fumegante entre suas mãos. Moema sorriu novamente, e todo seu rosto era rugas e manchas distorcidas quando o fazia.
“Não, não estou. Pessoas inteligentes ajudam ao próximo, e não se importam com a opinião dos outros.” Moema se inclinou e esticou a mão para a menina, que aceitou o aperto da mão quente da velha. “E você é bonita sim, mas bonita no coração. Até uma velha cega consegue ver isso.”
Dani chorou, e não entendia como, em todas as vezes que continuou a visitar dona Moema, ela parecia lhe entender tão bem. Contou tantas coisas para ela, e ela também lhe contou outras tantas. Dani passou a odiar aquela comunidade. Odiar a opinião alheia. Odiar o homem que tentou assediá-la aos quatorze anos, quando saía do colégio. Odiou o namorado que a mãe lhe empurrou, que vivia querendo ultrapassar o sinal, mesmo que ela não quisesse. Odiou as crianças que viviam roubando a bengala de dona Moema. Odiou tantas coisas.
Mas dona Moema dizia-lhe que o ódio não trazia bons frutos, apenas envenenava a alma, então tentava não odiar. Aprendia a tolerar. Dona Moema era o anjo de sua vida, a única pessoa que gostava, que lhe era especial, apesar de amar os pais e a irmã também, mesmo que a mãe insistisse que só serviria para casar e parir, o pai a xingasse e batesse sempre que voltava pra casa após ouvir algum comentário sobre ‘a filha puta’, e a irmã adorasse inventar histórias sobre como transava com um garoto diferente por semana, ou coisas assim.
Quando tinha quinze anos, a irmã mais velha foi para Porto Alegre, e começou a trabalhar lá. Mesmo sem diploma, Amanda logo deu-se bem, fez amigos, arranjou um emprego, e logo passou em um concurso público. Ela era realmente esperta, aprendia fácil, e Dani novamente a admirou. Mas isso a fez pensar que jamais conseguiria o que a irmão conseguira.
“Eu acho que só me resta casar, Dona Moema. A mãe sempre diz que é isso que eu deveria fazer. Que não iria me dar bem como a mana...”
“Você não precisa casar e ter filhos se não quiser, Dani. O mundo está lá fora, aguardando todos que tentarem se arriscar. Você é inteligente, iria dar-se bem.” Dona Moema lhe disse uma vez. E Dani acreditou, e abraçou a senhora que não tinha família, além dela.
Dois anos depois, Dona Moema adoeceu. Nenhum médico local sabia o que ela tinha, então ela foi levá-la para Porto Alegre, para o Hospital de Clínicas. Lá, foi diagnosticada com uma doença rara, cujo tratamento não era fornecido pelo SUS, de tal modo que os medicamentos mensais teriam um custo muito caro, que Dona Moema não seria capaz de pagar.
Naquele ano, Dani decidiu: iria se tornar médica. Iria ajudar pessoas como Dona Moema, e iria ajudar Dona Moema. Se continuasse na comunidade, não teria como reencontrá-la. Depois de um mês, descobrira que o filho de dona Moema – e Dani nem sabia que ela tinha um filho! – a colocara em um asilo barato em Porto Alegre, basicamente para deixá-la morrer, longe da comunidade, para não dar-lhe mais vergonha.
Dani chorou dia e noite. Implorava para os pais que a deixassem ir para Porto Alegre.
“Apenas um ano, é tudo que eu peço pra vocês! Um ano!” Exclamava.
“Não seja ridícula, Daniela. Não tem capacidade pra passar em medicina. Ainda mais dizendo que não vai tentar entrar pelas cotas de indígenas. Ao menos seja sensata! Parece que gosta de ser burra!” A mãe exclamava em retorno.
“Eu vou passar como qualquer outra pessoa. Não preciso de cotas.” Falava. “Por favor! Eu irei trabalhar, eu só preciso de um pouco de ajuda!”
“Tudo bem, mas se fracassar, vai voltar pra cá e nunca mais terá ideias dessas. Vai se casar com o filho do Jacir, que te ama e te quer bem.”
“E ai teu se der uma de puta por Porto Alegre também. Te arranco os dentes fora, e nenhum outro homem vai querer olhar pra tua cara.” O pai deixou bem claro.
Então Dani foi, e iniciou o cursinho, todas as manhãs e algumas tardes. Era um cursinho caro, que felizmente os pais estavam dispostos a pagar. Dani não contou, mas conseguiu algumas bolsas no cursinho, o que a ajudava a pegar o dinheiro que sobrava dos pais, mais o do aluguel, e mais o do emprego que conseguira aos finais de semana, e repassar para o tratamento da dona Moema. Também conseguiu, com concordata do filho dela, transferi-la para um asilo melhor, o Padre Cacique, que felizmente não cobrava caro a membros mais pobres, e ainda assim era considerado o melhor do Estado. Não contou nada a ninguém, a irmã sempre o xingara por manter contato com Dona Moema, e os pais viviam dizendo que a mulher era má influência, amaldiçoada.
O dinheiro sumia, a irmã desconfiava, Dani comprava uns sapatos, roupas e joias de marca falsa, que se fossem verdadeiros custariam bem caro, para justificar o uso do dinheiro que os pais enviavam para que ela comesse, comprasse algumas coisas, etc.
A irmã não gostava de tê-la no mesmo apartamento, e deixava isso bem evidente.
“Não sei o que tu veio fazer aqui, é óbvio que não vai passar em medicina.” Ela insistia em dizer, quase todos os dias.
“E aí? Estudando? Entendeu alguma coisa? Essas coisas são difíceis, Dani. Tu deveria voltar pra reserva.”
“Por que tu não desiste logo?”
Dani não desistia, porque, todas as semanas, podia visitar dona Moema, vê-la em melhor estado graças à carga grande de remédios que tinha de tomar diariamente, e pelo bom tratamento que recebia no asilo. Também, por ter feito amigos no cursinho, seus primeiros amigos... Fabrício e Gabriella. Ainda se lembrava de como um dia o Fabrício se aproximara com um sorriso e comentara: bah, mas tu é muito inteligente, acertou esse simulado de português quase inteiro! Foi sua perdição. Não deveria ter acontecido, mas rapidamente se apaixonou por ele, e morreu de ciúmes da própria amiga quando Fafá e Gabi começaram a ficar.
“Por quê?!” Gritava quando chegava em casa, e caía no choro. “Eu sou a mais bonita, não sou? Por que ele ‘tá com ela? Ela até acima do peso está! Nem é tão bonita assim!” O ciúmes, a inveja a faziam dizer. Que importava ser bonita, se quando se apaixonava, isso não lhe servia de nada? Odiou-se ainda mais. Sua única qualidade era a beleza, e nem para isso servira. “Eu não suporto ver os dois juntos...”
“Como tu é falsa, Daniela.” Amanda lhe disse com um sorrisinho sarcástico. “Falando mal da própria amiga pelas costas.”
Dani se envergonhava, mas não conseguia reprimir aquela dor no peito, aquela raiva, aquele ciúmes, acabava ainda tentando chamar a atenção do garoto por quem se apaixonara, não conseguia reprimir sorrisos quando estava perto dele, e chorava em casa, xingava a Gabi, e sentia-se baixa por em parte odiá-la, e em parte adorá-la por ser tão querida; tentava reprimir aqueles sentimentos. Mas era difícil. Quando se sentia assim, ia até Dona Moema para conversar. Era seu único remédio.
Ela lhe passava a mão nos cabelos e dizia:
“A vida é assim, repleta de decepções, e as amorosas estão entre elas, e doem intensamente, principalmente quando somos jovens e desejamos tão ardentemente, vivendo tudo como se não fôssemos ter outras chances, ou outros amores. Mas tudo passa, meu doce, e a vida vai nos endurecendo e fortalecendo... Você já é forte, vai superar esse coração partido.”
E assim era. E assim Dani levou por mais um mês.
Até Dona Moema falecer, pouco depois do meio do ano.
Depois daquilo, seu mundo desabou. Fabrício e Gabi terminaram, mas ela não se importou. Ele não queria nada. Não demonstrou nada. Moema estava morta, e ela gastou o dinheiro no enterro, e depois em coisas que nem sabia. Achou ter entrado em surto. De repente, era tão difícil. A morte de sua pessoa especial, a irmã, o coração partido, a pressão para passar em medicina, do contrário iria voltar e casar-se com aquele garoto intragável, que participava dos roubos à bengala de Dona Moema.
Sua personalidade mudou. Tornou-se mais inconsequente, parou de se importar com a opinião dos outros, definitivamente, e passou a não tolerar mais desaforos. Foi em festas, bebeu, transou com um rapaz – sua primeira vez! – e continuou com ele, não sabia por que, por quase um mês. Nesse meio tempo, se desentendeu com a Fran algumas vezes, por motivos bestas – as duas nunca tiveram uma afinidade muito boa, simplesmente por serem muito diferentes, e por a Fran perceber que era a fim do Fabrício.
Não demorou para a irmã descobrir sobre os seus roubos, e os pais sobre o rapaz com quem perdera a virgindade. O resultado foi lógico: foi arrastada de volta para a reserva, como uma pária. Odiada pela irmã e pelos pais. Não perdeu os dentes por pouco. E sequer havia dona Moema para ajudá-la.
Porque ela estava morta.
E Dani não cumprira sua promessa de tornar-se médica e salvá-la.
XxxX
Dani voltou a chorar forte, não conseguindo mais continuar. Milo estava chocado com toda aquela história. Como as pessoas conseguiam ser assim? Julgavam os outros pelas aparências, e eram malvadas e mesquinhas até o âmago por pura diversão. Apontavam o dedo, excluíam, judiavam, fofocavam, achando-se no direito para tal. Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra, não era isso? Algo tão básico, e ainda assim, todos se esqueciam, assim como se esqueciam de tantas outras coisas, pois estavam mais preocupadas em meter-se na vida alheia. Qual era a dificuldade em praticar um pouco de empatia? Se colocar no lugar das pessoas e pensar... Uma boa dose de respeito fazia toda a diferença.
Milo conhecia bem esse lado das pessoas, afinal, como a maioria dos homossexuais assumidos – e principalmente os mais afetados – já recebera sua dose de preconceito para toda uma vida.
“Não chora, Dani banana. Todos nós cometemos erros, e os teus nem foram tão horríveis assim. Estava tentando ajudar alguém especial.” Fez carinho nas costas da menina. “É por isso que tu tem trabalhado de noite, junto com a faculdade, não tendo tempo pra nada? Pra devolver o dinheiro?”
“Quero devolver o dinheiro... pra minha irmã ao menos.” Soluçou, e não disse mais nada por alguns minutos. “A Gabi de alguma forma sabe que eu às vezes chegava em casa e falava mal dela. Me chamou de falsa. Eu acho que mereço...”
“Ai, por favor! Tu ‘tava sofrendo por estar apaixonada. Diga, quem não acaba ao menos pensando que a rival ‘tá acima do peso?” Milo suspirou dramático. Pessoas apaixonadas cometiam burradas incontroláveis, e quem se achava no direito de julgar, era por que nunca se apaixonara de verdade! “E tu falava isso só no teu apartamento, pra extravasar a dor de cotovelo, não saía falando mal pra todo mundo, ou fazendo intrigas. Só tua irmã metida que ouvia, e ainda deve de alguma forma ter contado pra esses teus amigos, e aumentado um conto. Isso é passado, fim. Aconteceu, tu se arrepende, isso já faz a diferença. Se eu roubar o teu boy magia algum, pode me chamar de puta intrometida, eu deixo.”
Dani novamente soltou um riso engasgado com o choro. Só o Milo para lhe arrancar risadas em momentos como esse. Abaixou a cabeça, sentindo-se exausta.
“Achei que o Fabrício queria algo comigo. Ele foi tão querido e atencioso, até me cantou a música Daniela, sabe? Todos meus sentimentos reacenderam, mas eu já deveria ter aprendido que ele é assim, legal demais com todo mundo, sempre atencioso e querido.”
Doía.
Ela preferia que ele não houvesse lhe dado tanta atenção. Viera ao Intermed pra tentar reencontrá-los. Dera sorte de ganhar uma promoção da faculdade que a isentou do pagamento, que era bem caro. Pensou em como seria bacana rever os amigos, mas foi só ver o Fabrício que as pernas tremeram e o sorriso brotou no rosto, como sempre acontecia. Desejou, ao menos uma vez, poder ter um rolinho rápido com ele; quem sabe experimentando os beijos dele livrar-se-ia dessa obsessão quando retornasse para Pelotas. Mas se iludira de novo.
“Tu ‘tá precisando dormir, Danizinha.” Milo decretou, vendo seu estado lastimável. “Amanhã conversamos mais sobre isso, ok? Obrigado pela confiança em me contar tudo isso.” Disse sincero, e a zelou até que pegasse no sono, acariciando-lhe os cabelos. A amiga era tão alto-astral e confiante, com aquele ar menina fatal, que Milo nunca achou que teria um passado tão tenebroso. Se arrepiou, e não soube se pela história, ou se pelo celular que vibrou bem na sua bunda. Deu um salto e o pegou, xingando-se por ter se sentado sob ele sem perceber.
Era uma mensagem.
Vem aqui pro lado de fora do alojamento. ‘Tô te esperando.
Ergueu a sobrancelha. Quem poderia ser? Não conhecia aquele número! Até que lembrou do carinha que conhecera aquela noite, fantasiado de policial, e com quem ficara e até dera o número do celular! Beto era o nome, se não se enganava. Ele sumira no meio da festa, e depois se reencontraram no ônibus, onde ele falou algo como ‘escoltar essa loirinha para a barraca dela’. Milo ficou abismado, achando que ele era um enrustido, e que agora ia comer a loira só pra provar que era macho. Nem esperou, foi pro próprio alojamento dormir.
E agora essa.
Ir ou não?
Acabou indo. Fazer o quê? O cara era bonito e legal, e talvez não fosse enrustido.
Mal saiu do alojamento e foi bruscamente puxado e empurrado contra a parede do pequeno prédio. Ofegou com o contato do corpo do outro. Logo pensou em sexo. Seria bom para relaxar, e assim que voltasse para Pelotas nunca mais o veria mesmo, não era uma perspectiva ruim.
“Sentiu minha falta?” Beto perguntou, exibindo o sorriso com aparelho. Por alguma razão inexplicável, Milo adorava homens de aparelho. Achava perigosamente charmoso, e ainda bom de beijar, mesmo que muita gente reclamasse.
“Achei que estaria com aquela loira agora.” Milo cruzou os braços e o encarou com a boca repuxada para um lado, uma sobrancelha erguida.
“Quem? A Vanessa? Te falei que só ia largar ela na barraca. Demorei porque encontrei um amigo no caminho e ficamos conversando um pouco.” Explicou já enfiando as mãos para dentro da camisa do de cabelos cacheados. Estava com a sensação de que se daria bem aquela noite. “Já comentei que essa fantasia de anjo combina contigo?”
“Eu só coloquei uma roupa branca e improvisei umas asas. E até já tirei elas.” Milo revirou os olhos. Cantadas. Não era algo de que gostasse muito, preferia ações. E por isso deslizou a mão pelas coxas do ‘policial’, subindo até tocá-lo entre as pernas.
“Vai ver que é porque tu parece um anjinho de qualquer forma.” Beto murmurou contra seu ouvido ao se aproximar mais, mas gemeu com o apertão que recebeu no pênis. “Um anjinho endiabrado.”
“Sabe, essa foi péssima.” Milo achou melhor dizer, enquanto o provocava beijando-o e lambendo-o no pescoço. A diferença de altura não era gritante, talvez uns dez centímetros, no máximo.
“Desculpe, é o que temos pra um final de noite.” Beto riu, percorrendo as mãos pelo corpo magro do ‘anjo’, enquanto se deliciava com as sensações que a mão e os lábios dele causavam em seu corpo.
“Vou te mostrar o que é bom pra um final de noite... Talvez até o amanhecer tu queira me prender.” Milo sussurrou, antes de puxá-lo pela nuca para um beijo.
XxxX
Nota da autora: Queria falar da Dani com vocês, tô a fim de compartilhar. xD Então, eu não sei chongas de como é a "cultura indígena" atualmente, mas eu tive uma colega na faculdade, no primeiro semestre (Dani também) que entrou pelas cotas indígenas. Só conversando com ela percebi que ela 'teve uma educação machista, e era muito limitada nas visões dela de mundo, provavelmente por crescer numa comunidade fechada. Era índia também, linda de morrer. Daí a ideia. Ela não aguentou a pressão da medicina e retornou pra reserva, nunca mais voltou à faculdade, e eu vi no facebook dela fotos de ela participando de concursos de beleza (daí a ideia de uma comunidade machista, e de "só servir pra ser bonita"). A ideia dos roubos veio de outra pessoa, fiquei sabendo que a amiga da minha cunhada contou para ela que a irmã dela a roubou e roubou os pais, exatamente como a Dani da história. Eu fiquei pasma com a história, primeiro eu pensei "que vadia descarada", depois fiquei me perguntando por que diabos alguém faria uma coisa dessas... E aí surgiu essa ideia na história também, se bem que acho que a guria que fez isso na vida real talvez apenas fosse uma safada mesmo, mas vai saber, e se não fosse? E se tivesse uma razão? Enfim... Eu nem ia mostrar o background todo que havia pensado pra Daniela, mas aí algo apareceu no ask que me deu vontade de fazer em relação a ela, hehehe. Veremos!
Ah, e espero que tenham curtido o novo casal Milo e Beto, eles são secundários, provavelmente aparecerão pouco, mas tão aí pra não ficar aquela coisa SÓ Fafá e André o tempo todo, hehe!
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