Good Riddance
35 Epitáfio
Notas iniciais
“Então, como é que está a medicina?” Natália perguntou, enquanto entravam no apartamento que a garota alugava, tendo se mudado recentemente. Pegara um apartamento mobiliado, ou parcialmente mobiliado, próximo do bairro Moinhos de Vento, onde ficava o estúdio de tatuagens que abrira há um ano, o Valentin Tattoo Arte e Café; galeria onde, além do estúdio, havia uma loja de joias/piercings e uma galeria de arte com alguns trabalhos da própria garota.
André admirava o quanto a amiga se esforçara, nos últimos anos, para realizar tal sonho. Desenhava desde pequena, e começara a praticar com tatuagens de henna com uns doze anos, fazendo cursos com o pai de uma amiga próxima. Claro, ser filha de pais ricos ajudara muito, e ela estava devendo uma grana considerável a eles; porém o estúdio vinha fazendo sucesso e Natália estava ganhando renome como uma ótima tatuadora.
“’Tá indo. Essa semana tivemos umas provas de anatomia. Foi bem tranquilo.” André deu de ombros. Todos havia ido muito bem, quase todos os alunos haviam gabaritado a prova prática e a teórica, alguns tirado nove ou nove meio. Pouquíssimos menos do que isso.
“Tu acha tudo tranquilo desde o colégio. Enquanto eu ‘tava lá, me esgualepando nas provas de matemática e química, tu só faltava chupar bala, seu filho de uma égua xucra.” Ela disse e, pelo linguajar, André muito genialmente percebeu que ela não estava nos seus melhores humores.
“O que aconteceu?” André logo perguntou, e caminhou até o piano antigo, sem cauda, que já viera com o apartamento. Sentou-se ali, tamborilando os dedos sobre o tampo do instrumento antigo.
Natália bufou.
“Andei tendo uns desentendimentos com o Fernando. Ele é meu tatuador mais famoso, depois o Cássio. Estou com medo que o Fernando saia, assim como Luís Henrique, que eu comentei contigo quando tu ‘tava viajando...” Contou, largando-se no sofá e massageando as têmporas. Natália, quando estressada, era uma pilha de nervos que poderia lançar raios e matar alguém apenas com o olhar.
“Lembro, aquele com quem tu teve um caso, mas não deu certo. Não me diga que ‘tá rolando um clima com o Fernando também?! É por ele que tu disse que se apaixonou?”
“Hein?” Natália então lembrou da mentirinha que contara para justificar os dois não terem mais uma amizade colorida. “Ah... É... Mas sim, rolou um clima. Eu fiz outra tatuagem, dessa vez uma grande. Criei coragem, sabe? Fiz uma nas costas.” A garota se ergueu e, de costas, ergueu a blusa. Era uma tatuagem linda, toda em tons de preto, uma fada ao redor da qual sobrevoavam borboletas negras e desciam raízes emaranhadas, ocupando boa parte das costas.
Natália já tinha outras: uma sequência de três passarinhos pretos e pequenos atrás da orelha esquerda, uma corujinha na escápula, uma âncora permeada com flores atrás do maléolo lateral do pé direito, e uma sequência de cinco estrelas subindo em diagonal da virilha direita que alcança quase a altura do umbigo. Agora mais essa nas costas. Daqui a pouco ela seria uma tatuagem ambulante e colorida.
“É muito bonita. Mas o que isso tem a ver com o Fernando?” André perguntou. Conhecia o tal Fernando, afinal, já visitara o estúdio da amiga algumas vezes.
“Ele quem fez e, enquanto ele fazia, meio que rolou um clima e... Nós transamos no estúdio.” Disse, mordendo os lábios. “Desde então estamos só brigando. Parecemos duas crianças idiotas, que não sabem conversar. Sinceramente, que raiva, fiz a mesma porcaria do ano passado. Será que eu não aprendo nunca? Que ódio!” Bufou jogando-se no sofá de novo.
“Calma, não é por isso que ele vai sair do estúdio ou algo assim. Tenta conversar com ele, sei lá. Deixa de ser tão esquentadinha uma vez na vida.” Sorriu torto.
“Vai se ferrar, André.” Ela disse, e se levantou. “Mas ok, tenho de me acalmar mesmo. Agora, posso saber que ideia é essa tua?”
“Quero me desculpar de novo com o Davi.”
“E por que aqui em casa? Quero dizer, não que tenha algum problema. Já convidei ele, o Gui, o Leo, a Tati e o Lucas para virem aqui. Eles devem chegar daqui a pouco. E o Fabrício vai vir também, né?” Colocou as mãos na cintura.
André coçou atrás da cabeça.
“É...” Disse, evasivo. Estava com vergonha de contar pros amigos que era gay, em realidade, não sabia se iria contar. Talvez para o Davi, no máximo. Não estava preparado ainda, ele e Fafá estavam juntos há apenas uma semana! “Ele já deve-“
A campainha tocou naquele exato momento. Natália foi até o interfone, atendeu, e então apertou o botão que liberava a porta. Depois se virou para o loiro.
“Tem algo que tu queira me contar também?”
“Eu?” André se fez de desentendido, e pigarreou. “Não. Nada não. E eu escolhi tua casa porque era um campo neutro.”
“Certo.” Ela disse ainda desconfiada, e foi abrir a porta. Logo Fabrício apareceu com o violão a tiracolo. Chegou e a cumprimentou com um beijo na bochecha.
“E aí! Cumé que ‘tamo?” Ele disse daquela forma despojada e largada. Entrou no apartamento sorrindo para o loiro, que corou e desviou o olhar, sentindo-se agitado. Aquela semana vinha sendo uma tortura, agora vinha ficando cada vez mais tímido perto do moreno, só agindo normalmente quando eles estavam no modo ‘amigos’, mas era só ele sorrir ou se aproximar um pouco que já sentia todo estranho e errado, coração fora de ritmo.
Depois de entregar o skate, Fafá parecia ainda mais ‘bobo’ para cima de si.
“Que bom que chegou antes dos outros.” André passou a mãos pelos cabelos, e empinou o nariz, escondendo o que sentia através de um olhar indiferente. “Treinou a música que eu pedi?”
“Já tinha tocado ela outras vezes antes, só tive de relembrar umas partes. Música famosinha né? Mas fiquei surpreso que tu conhecia alguma música brasileira por ti mesmo.” Riu tirando o violão das costas e sentando-se no sofá, enquanto André revirava os olhos. “E aí, Nati, curte Titãs?”
“Eu curto. Vocês vão tocar?” Se sentou na ponta do sofá. “Qual música?”
“Tu vai ver qual.” André disse, querendo fazer mistério. “Então... A Tati ainda me odeia?”
“Muito, acho que vai ser mais difícil ela te perdoar, do que o Davi. Tu sabe como ela é, depois que o Davi se assumiu, ela abraçou toda a devoção que sente por homossexuais e ainda diz que quer te dar uns socos pelo que tu falou pra ele. E, sabe, tu bem que merecia.” Natália o lembrou daquele episódio infeliz.
“Eu sei que errei, porra, não precisam ficar me lembrando disso o tempo todo. Estou aqui pra tentar me redimir.” André disse, estressadinho como sempre, mas com aquela sensação pesada de culpa o abatendo.
“Até o Lucas aceitou, entendeu? Ele diz que não, mas é um machista babaca e nem percebe, apesar de ser num nível suportável. Sério, o que eu faço com amigos como vocês?” Bufou. “Devia ter escolhido melhor meus amigos.”
“Valeu a consideração.”
“Hei, hei! Todos nós temos nossos defeitos. A gente releva os dos amigos, certo?” Fafá quis apaziguar os ânimos, antes que os dois criassem um clima desagradável irreversível. “Então, Dré, ninguém sabe?”
André quis atirar o moreno pela sacada.
“Eu já te disse isso antes!”
“Sabe o quê? O que foi?” Natália perguntou, toda curiosa e desconfiada, olhando de um pro outro. Viu o loiro corado, e o moreno só faltando assobiar para disfarçar. “Acho que sei do que vocês estão falando...”
“Quê? O que tu acha que é?” André perguntou, nervoso, mas Natália deu de ombros.
“Me diz o que é, que eu digo o que achava que era. Senão, vai se ferrar, é feio esconder coisas das amigas.” Ela se levantou e foi ao interfone de novo, pois mais alguém havia chegado. “Ah, oi Leo, já ‘tô abrindo.”
“Leo é aquele que eu encontrei no hospital? Bah, figuráça aquele ali, muito gente boa.” Fafá comentou cheio de sinceridade e entusiasmo.
“E safado e galinha como nenhum outro. Sinceramente, que amigos...” Nati massageou a testa, como se sentisse uma dor de cabeça intragável. “Um homofóbico, um galinha, um machista, um chorão, uma louca e eu, a única normal.”
André soltou uma exclamação de escárnio antes que pudesse se segurar.
“Até parece.”
“Cala boca se não quer morrer hoje.” Natália ladrou. O humor dela estava realmente perigoso, a aura negra pairando sobre sua cabeça. Fafá se perguntou como alguém que parecia uma boneca de tão fofa poderia parecer tão malvada.
Quando Nati abriu a porta, Leonardo entrou todo espiado.
“Ele está por aqui? Sério, alguém me explica por que eu vim? É uma combinação altamente letal eu, o Davi e o Guilherme no mesmo ambiente fechado. Letal para minha humilde pessoa, é claro. Oi, André, oi... Fabrício, certo? Bem, já vou indo então.” Ele tentou dar meia volta, mas Natália o segurou pela gola posterior da camiseta e, no primeiro passo, Leonardo quase foi estrangulado.
“Paradinho aí. Tu também é parte desse grupo de amigos então, morrendo ou não pelas mãos do Guilherme, vai continuar nesse apartamento.” Natália determinou, puxando-o para dentro e fechando a porta.
“Quanta consideração.” Leo disse debochado, murchando. André concordou, havia dito a mesma coisa segundos atrás. Leo foi até o Fafá, cumprimentando-o com um aperto de antebraços e uns tapinhas nas costas. Depois puxou André para um abraço cheio de tapinhas também. “Moleque, fazia tempo que não marcávamos uma tarde assim. Agora com essa medicina não quer mais saber dos amigos?”
“Cara, eu ‘tô de boa. Só essa história do Davi atrapalhou, mas eu quero resolver as coisas.” André comentou, apoiando um braço sobre o piano.
“É, tu e tua homofobia. Te dizer que levei um susto quando o Davi apareceu me dizendo que gostava de macho, né, vocês dois eram uns enrustidos homofóbicos. Agora só ‘tô esperando tu sair do armário também.” Leo estava brincando, mas mesmo assim a cor fugiu das bochechas do loiro.
Fafá gargalhou.
“Eu ‘tô esperando também.” O moreno sorriu de lado, malandro, e olhou para o André, que praticamente o fuzilou, enquanto Natália confirmava mais um pouquinho de suas suspeitas.
Não demorou pro resto do pessoal chegar. André ficou nervoso, o coração batendo agitado.
Esperava conseguir o perdão do Davi naquele dia, queria que os amigos vissem que havia mudado.
Davi chegou com Guilherme, e Tati e Lucas estavam ali junto, provavelmente haviam pegado carona. Davi parecia bastante recuperado após duas semanas, ainda que tivesse de caminhar com cuidado, afinal, havia quebrado uma costela. O rosto do Guilherme ainda parecia ligeiramente roxo em certos pontos, e o nariz ficara um pouco torto, porém era algo muito sutil. Já ganhara uns dentes novos, e usava gesso no braço direito. André se lembrou de como Davi estava no hospital e sentiu a garganta se apertar.
Houve aquele momento de cumprimentos, e Davi parou ao ver o André.
“Então foi para isso que fui chamado?” Ele perguntou, olhando para o André como se visse algo sujo e muito desagradável. “Eu achei que tínhamos combinado, Nati, de que quando eu estivesse preparado, eu mesmo iria procurar o André para conversarmos.” Falou alto, sem se importar em dizer aquilo bem na cara do loiro.
“Olha aqui!” Tati avançou e tentou dar um tapa bem no rosto do André, mas este segurou-lhe o pulso, olhando-a assustado.
“Endoidou?” Ele perguntou, irritando-se.
“Era o tapa que tu merecia por todas as vezes que tive de aguentar teus comentários homofóbicos, eu era uma idiota naquela época, achava que eu que era a errada, mas não sou mais. E não me vinguei ainda pelo que tu falou pro Davi!” Tati era meio doida, todos ali já estavam acostumados com aquela jeito dela.
André soltou o ar pesadamente.
“Então deveria dar uns tapas no Davi, já que ele concordava comigo em tudo antes. Mas as pessoas mudam. Eu já pedi desculpas, tu deve saber disso.” Disse à garota.
“E quem disse que eu confio nas tuas lágrimas de crocodilo?” Ela quis saber, puxando o braço e cruzando os braços. “Ninguém como tu muda de uma hora pra outra.”
“Não foi de uma hora pra outra!” André exclamou exasperado.
“Galera, vamos nos acalmar, por favor.” Natália resolveu interceder, deixando seu próprio humor negro de lado, pelo bem maior.
“É gente, relaxem, por favor, somos amigos há anos! Estamos aqui pra nos acertamos, não para brigarmos ainda mais.” Leo tocou o ombro da Tati, tentando amenizar o clima com seu sorriso caloroso.
“É, Tati, tudo bem, não precisa bater no André. Pode deixar que eu mesmo bato nele se eu quiser.” Davi também não queria brigar. Havia se emocionado com o pedido de desculpas do loiro no hospital, só achava que precisava de um pouco mais de tempo; porém André apesar de tudo era um de seus amigos mais antigos, com quem já vivera muitas coisas. Não valia à pena estender as brigas.
“Por favor, não vamos transformar essa vontade coletiva de me bater em fetiche.” André pediu, emburrando-se com aquilo. Já não era fácil pedir desculpas, menos ainda numa situação dessas. “Eu queria pedir desculpas de novo. Eu sei que eu deveria deixar tu decidir isso por si mesmo, mas eu queria meio que... Fazer uma homenagem a tu e o Guilherme. A propósito, oi.” André fez um aceno para o rapaz grandão e forte que não conhecia.
“E aí.” Guilherme estava evitando se meter na briga dos amigos. Era melhor deixar eles se resolverem sem que se intrometesse, e até se sentara no sofá, apenas aguardando o desfecho daquilo.
“Uma homenagem?” Davi perguntou confuso, olhando confuso para o André.
“É... Algo assim, um pedido de desculpas um pouco diferente pra mostrar o quanto estou arrependido, e o quanto eu não me importo de vocês serem namorados e tudo... Pra isso pedi ajuda pro meu... amigo Fabrício.”
Todos estavam curiosos, a exceção da Natália, que já tinha uma ideia do que seria.
“Tudo bem?” André perguntou ao Davi que, ainda confuso, assentiu. “Certo, então se sentem, por favor.”
André foi para o piano, erguendo a proteção das teclas, e Fabrício se sentou em um banquinho ao lado, com o violão já no colo. André começou a tocar as primeiras notas no piano da música Epitáfio, dos Titãs. E, apesar de sua voz não ser tão boa quanto à do Fabrício, começou a cantar:
Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração
Chegando ao refrão, Fafá também entrou na música, com violão, e acompanhando o loiro na cantoria, tornando os sons mais altos e vibrantes, enchendo todo o apartamento com aquele pedido de desculpas.
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...
Davi estava pasmo com aquilo, e segurou o braço do namorado, sentindo a garganta se apertar, os olhos umedecerem, porque nunca imaginou que o loiro, além de se desculpar, lhe cantaria uma música que carregava todo seu arrependimento.
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier
Retornaram para o refrão, e então para o final da música. O primeiro segundo ao final da canção, todos ficaram em silêncio. André se virou para o Davi, com o coração apertado.
“Espero que isso tenha resumido como me sinto. Eu mudei, de verdade. Eu te apoio, apoio todos vocês, em tudo. Desculpe não ter sido assim desde o início, eu sou mesmo idiota.” Abaixou o rosto, arrependido, e com aquela vontade boba de chorar, por vergonha do que fizera, e pelo que acontecera com o Davi e o namorado.
Davi se levantou do sofá e caminhou até parar bem em frente ao loiro, que lhe ergueu o olhar.
“’Tá perdoado, loiro burro.” Davi sorriu, com as lágrimas represadas nos olhos. André sorriu e se levantou, e os dois se abraçaram apertado. Todos no cômodo aplaudiram, Fafá assobiou, e Leo implicou com o Guilherme dizendo pra ele abrir o olho. Guilherme o olhou feio, e Leonardo se calou.
Quando os dois se separaram, estavam ambos meio sorrindo, meio chorando. André, na verdade, fingiu tirar um cisco do olho. Tati se levantou e abraçou o loiro também, se desculpando por ter sido tão agressiva. Conseguira ver a sinceridade escorrendo no loiro, e se convencera. As pessoas podiam mudar.
“Tudo bem, todo mundo aqui já te viu em piores dias.” André rebateu, debochado.
“Vai à merda.” Ela disse, mas sorria.
”Cara, quanta boiolagem.” Lucas comentou, implicante. Lucas era o típico que fazia piadinhas o tempo todo, mas não falava na maldade, apenas se permitia implicar por tratar-se de seus amigos. Ele havia sofrido muito bullying quando mais novo, antes de entrar para aquele grupo de amigos, por ser gordo e feio, então hoje em dia acabava bulinando todo mundo em retorno. Uma vingança inconsciente, mas que não continha maldade.
“E... Bem... Tem outra coisa que eu... Tinha pra contar...” André estava com medo, não sabia se queria fazer aquilo mesmo. Porém seus amigos da faculdade já sabiam, seria certo deixar seus amigos mais antigos sem saberem? E todos eles haviam aceitado o Davi. Não seria hipocrisia de sua parte sentir-se envergonhado de contar a eles que era como o Davi? Sentia-se confuso, talvez estivesse cobrando demais de si próprio, rápido demais, mas já era um saco esconder do resto do mundo, até de seus amigos mais próximos, que conhecia há nove anos?
E, de certa forma, a música que acabara de cantar parecia lhe dizer exatamente isso: se preocupar menos, deixar a vida correr livre, aceitar ao próximo e a si próprio.
“O que foi?” Davi perguntou, notando o desconforto e a vermelhidão do loiro. “André, pode nos contar qualquer coisa. Depois do que eu perdoei, perdoo qualquer coisa.” Brincou, para descontrair.
“Porra, não vai dizer que ‘tá com vergonha da gente agora, vai?” Leo perguntou, ultrajado. “Já contei pra todos vocês que a última vez que fiz xixi na cama foi com dez anos, tem algo pior do que isso?”
“Acho que não.” Lucas apontou.
“Mas lembrando que a penúltima vez foi com cinco anos, vamos nos respeitar aqui.” Leo ergueu as mãos, o tom muito sério, ainda que brincasse.
“Vai André, conta.” Natália incentivou, afinal, tinha uma boa ideia do que era. Desde aquele pôr do sol que havia assistido junto com o loiro, Fabrício e Gabriella, sabia que não demoraria muito para aquilo acontecer, ainda que tivesse sido mais rápido do que imaginava.
“É que eu... Eu também... Quero dizer, eu e o.... Nós dois começamos...” André olhou para os lados, respirando fundo. Já estava quase gaguejando! Olhou para o moreno em busca de apoio que, assim como o Guilherme, não quisera se meter na reconciliação dos outros.
Fafá sorriu, entendendo o que ele queria revelar. Levantou-se largando o violão e, sem dizer nada, puxou o loiro pela nuca e tascou-lhe um beijo naquela boca deliciosa. Sem muita língua, apenas sugou-lhe o lábio inferior carnudo, logo finalizando o contato. André estava de olhos arregalados, vermelho até as orelhas, enquanto os outros haviam perdido os queixos em algum lugar, depois de eles terem despencado. Alguns esperavam que André fizesse um escândalo e espancasse o moreno. Apenas Natália sorria sabida.
Fabrício abraçou André por trás e sorriu deslavado.
“Estamos junto há uma semana.” Disse, simplesmente, como se fosse algo muito banal. E, afinal, por que não seria?
“PERAÍ! Quer dizer que eu ‘tava certo! Porra, cara, deixa eu ir jogar na mega-sena agora!” Leonardo exclamou, embasbacado.
“’Tá todo mundo virando gay. Sério, ‘tô preocupado com a integridade do meu cu agora.” Lucas disse, inconveniente, como era de seu feitio.
“AI MEU DEUS, ISSO FOI TÃO LINDO E FOFO E SEXY!” Tati levou as mãos à boca, e soltou um gritinho, balançando as pernas freneticamente, sentada no sofá. “DE NOVO! AH, EU SABIA, ANDRÉ NUNCA ME ENGANOU!!!”
André tapou o rosto, envergonhado demais frente às risadas que começaram, junto com piadinhas e perguntas. Davi era um dos mais perplexos, mas então começou a rir sem parar, não acreditando na ironia da vida, e abraçou-se ao Guilherme, dando-lhe um beijinho também, extravasando a emoção que estava sentindo.
XxxX
Depois de muita, muita, muita falação e especulação, em que André se recusava a saciar a curiosidade alheia, Davi o levou para o pátio do prédio, onde poderiam conversar com mais calma. O menor estava quase se mordendo de tanta curiosidade. Como assim André também era gay? Depois da empolgação inicial, ficou preocupado com o loiro, afinal, conhecia bem a família que ele tinha, e não seria fácil.
“Estou perplexo com tudo isso...” Davi admitiu enquanto sentavam-se num dos bancos do pátio simples. “Sua família já sabe?”
“Não, e nem quero que descubram, então todos vocês mantenham a discrição, pelo amor de Deus. Serei expulso de casa depois de levar uma surra, se descobrirem.” Suspirou. “Teus pais...?”
“Eles não me bateram nem nada. Apenas brigaram, e depois ficaram me dando gelo, como se eu não existisse, por duas semanas, até que eu não aguentei e procurei abrigo na casa do Leo. Eles nem tentaram impedir; de qualquer forma, me senti expulso de casa, já que não era mais bem vindo.” Contou com certo pesar. “Agora tenho pensado em ir morar com o Guilherme... Já estamos juntos há dez meses.”
“Queria ter sido menos idiota desde o início e poder te dado algum apoio. Argh, quando eu penso-“
“Não pense, Dré. Eu tive meses pra me acostumar com a ideia de ser gay e começar a me aceitar, com a ajuda da Tati, enquanto tu estava viajando... Já tu foi pego de surpresa, vamos pensar por esse lado. Mas agora eu queria saber de ti!”
“Eu não sei se estou preparado pra sair falando sobre isso... Já foi difícil admitir.” Disse envergonhado, e seu jeito lembrou ao Davi dele próprio nas primeiras semanas junto com o Gui, sempre envergonhado e tímido quanto ao assunto.
“Esse Fabrício é mesmo aquele teu amigo de infância que tu comentou algumas várias vezes quando éramos mais novos?” Davi quis saber, lembrando-se de como antigamente André, nos primeiros meses em Porto Alegre, falava do garoto, até mesmo com certa raiva reprimida.
“É ele mesmo.” André suspirou, apoiando os cotovelos no encosto do banco. “Ao que parece eu tinha um amor reprimido por ele há anos.” Revirou os olhos, irônico.
“Já admitindo amor, é?” Davi brincou.
“Vai se ferrar.” André bagunçou os cabelos do menor, que riu se afastando.
“Tudo bem. Sabe, ‘tava pensando, seria legal tu também reencontrar o Caio. Lembra do Caio? Aquele guri mirradinho que começou a virar nosso amigo quando tínhamos uns onze anos e sabíamos que ele era gay?”
“Tu reencontrou ele?!” André exclamou, mal acreditando. Porto Alegre era mesmo um ovo. “Como ele ‘tá?”
“Bem diferente! Tá com mais de 1,80 de altura, parece outra pessoa, ficou bem menos afetado e ‘tá namorando. Acredita? Encontrei ele faz tempo, numa festa. Ele me ajudou também, conversou comigo sobre sexo gay, enema e essas coisas todas...” Davi corou de leve ao comentar sobre isso, mas estava curioso se o loiro já havia ido além de uns beijos.
André tossiu.
“Oh...” Soltou, sem saber o que dizer. Não fazia ideia do que era um enema.
“Então, vocês dois já...?”
“C-Claro que não.” André disse, quase se engasgando. “Não fique fazendo perguntas idiotas.”
“Não são idiotas. Mas olha, eu demorei muito tempo pra liberar: três meses. Me arrependo, sabe? Porque depois que todo o medo e insegurança se foram, foi muito bom. Mas ao menos tu já teve experiências sexuais anteriores, já eu...”
“O virgem.” André riu. “E ainda nos mentia que não era, mas todo mundo sabia.” Tentou implicar para desviar a conversa do tópico ‘ele e Fabrício transando’. Só de imaginar se arrepiava todo.
“Não enche.” Deu-lhe um soquinho. “Mas sério, tu tem de pesquisar sobre essas coisas antes... Enema e-“
“O que diabos é enema?” André perguntou estafado. Percebia que Davi estava insistindo no tópico como uma espécie de vingança – bastante cruel e mesquinha em sua opinião. Davi estava se divertindo com aquilo.
“É lavagem anal, entendeu? Tem que fazer antes de transar, senão acidentes podem acontecer.” Riu ao ver a expressão de pavor do loiro.
“E quem disse que sou eu quem vai dar?” André rebateu, erguendo as sobrancelhas.
“Fala sério, né, André, um morenão daqueles, e tu acha que ele vai querer ser o passivo? Não que isso seja tudo que defina, mas ele parece te pegar mais de jeito do que tu pega ele. Mas ok,” Ergueu uma mão, ao ver que o loiro iria replicar com raiva. “Vamos supor que vocês estão na cama se pegando. É tu geralmente que toma a iniciativa, que domina a situação, que sente vontade de ‘ficar por cima’? Ou tua vontade é que ele te domine e te use e abuse? Nem precisa responder, só pensa contigo mesmo, e terá tua resposta. Eu sempre soube que queria ser o passivo com o Guilherme...” Davi sorriu cruel ao ver o loiro desviar o olhar, consternado. “Então...?”
“Tu disse que eu não precisava responder!” André rosnou. “Desde quando tu te tornou tão sádico?”
“Ah, nós ficamos muito tempo sem nos falar.” Davi riu. “Tem a questão da depilação também, né. Vai que ele não gosta de pelos? Ainda mais que ele nunca ficou com guris antes, né. Talvez fosse bom tu se depilar, eu posso te passar o número de onde eu-“
“AH! Chega! Não ‘tô aguentando essa conversa!” André exclamou, tapando os ouvidos. “Eu não quero pensar nisso agora.”
“Só estou tentando ajudar!” Davi se defendeu, puxando o antebraço do loiro. “Uma hora vai ter de pensar nisso.”
“Sou a favor de deixar as coisas acontecerem naturalmente.” André falou empinando o nariz. “Naturalmente do jeito que eu quero.” Complementou, e só restou ao Davi rir da prepotência do loiro.
“’Tá certo, não vou mais te encher com isso.”Davi deu-se por derrotado. Por hora.
“Meu primo chato também é gay.” André desviou completamente o assunto, ou iria enlouquecer com aquilo. Enema? Depilação? Com o que mais teria de se preocupar? Quantos absurdos!
“O Lázaro?!?!” Davi perguntou, chocado. “Como tu descobriu? Ele te contou?”
“Claro que não, aquele lá não me contaria nem o que comeu no almoço. Eu vi ele se pegando com outro cara quando invadi a piscina dele com o Fabrício no meio da noite e-“
“Peraí, tu o quê?” Davi tornou a perguntar, ainda mais surpreso.
Ainda conversaram por vários minutos, minuto após minuto mais satisfeitos por sentirem a cumplicidade de antigamente retornando a cada novidade compartilhada.
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Mais tarde, depois de passarem a tarde juntos, pedirem pizza, jogarem imagem e ação e tentarem assistir a um filme, Natália, Tati e Leo resolveram sair pra ir numa festa. Gui teve de sair para trabalhar, mesmo com o braço quebrado. Davi quis ir para casa descansar, assim como o Lucas, que se convidou para ir à casa do pequeno para jogarem videogame. Já Fafá e Dré decidiram terminar a noite por ali, pois a prova mais ferrada do semestre era terça-feira e teriam somente domingo e segunda para estudar, sendo que segunda-feira havia aula toda manhã e boa parte da tarde.
Quando André parou a moto em frente ao prédio onde Fafá morava, este desceu e, coçando a cabeça perto da orelha, perguntou:
“Não quer subir um pouco?”
“Subir?” André perguntou, olhando para o prédio adiante. “P-Por quê?”
“Ah... Podíamos estudar um pouco né? É dez horas agora, amanhã não sei se vamos nos ver, e eu estou com umas dúvidas pra prova.” Sorriu inocente. Era verdade que estava com umas dúvidas, não estava contando nenhuma mentira.
André ficou em dúvida, porém acabou aceitando a ideia. Cíntia avisara que queria sair para passear com ele no domingo – típico programa mãe e filho que Cíntia fazia questão de fazer ao menos uma vez por mês, e de fato os dois acabariam não se vendo.
“Beleza.” Disse, e Fafá conseguiu permissão com o porteiro – graças a toda sua cara de pau – para que André deixasse a moto na segurança interna do prédio.
Depois subiram, entrando no elevador apertado. Só essa proximidade forçada já deixou o loiro com o peito retumbando e as bochechas quentes, mas ficou feliz em olhar-se de esguelha no espelho e ver que não estava muito vermelho.
“Ao menos diga que já começou a estudar pra prova?” André perguntou, cruzando os braços sobre o abdômen.
Fafá sorriu culpado, mordendo o lábio.
“Bah... Antes era o Intermed, aí teve as provas de anatomia, e ontem eu decidi descansar. De noite fomos no barzinho com o pessoal, e hoje de manhã ‘tava com um pouco de ressaca, aí agora de tarde ficamos lá na casa da Nati e-“
“Resumindo, tu não estudou nada.” André acusou, olhando-o como um adulto olharia para uma criança arteira.
“Antes do Intermed teve prova de biofísica, antes de histologia, mas eu ‘tava dando umas estudadas vez ou outra, juro!” Ergueu as mãos, em sinal de paz.
“Sei...” Não se convenceu. “Deve ter é dormido em cima dos livros, e ainda babado.”
“Talvez...” Sorriu de lado, maroto.
O elevador parou e saíram, logo entrando no apartamento minúsculo do moreno, igual ou menor que uma quitinete. André largou os capacetes sobre a mesinha com notebook e viu Fabrício tirando os tênis e sentando-se na cama.
“Onde ‘tá a Cherry?” O loiro perguntou.
“Deixei na casa dos meus tios. Vou pra lá amanhã, fazer um churrasquinho, e como ia passar o dia fora hoje, deixei ela por lá.” Inclinou-se para trás. “Quer comer ou beber alguma coisa?”
“Não, valeu. Vamos começar a estudar logo, senão vai ficar muito tarde e eu vou ficar com sono. Acordei cedo pra lavar minha moto hoje. Notou que ela ‘tava brilhando?”
“’Tava bem limpinha mesmo.” Fafá riu do olhar de dedicação e carinho do outro. Se levantou e foi tomar um água na cozinha. Quando retornou, André estava sentado na cama de casal, sem tênis, em posição de índio. O livro de fisiologia – cem milhões de neurônios – estava aberto sobre a cama.
“O que tu tem mais dificuldade?” André perguntou, erguendo o olhar para o moreno.
“Visão. Bem o que dizem que a regente Denise ama e que cobra mais difícil na prova.” Informou, infeliz. “Difícil pra caralho entender aquelas coisas de neurônios bipolares e neurônios ganglionares, células horizontais, e centro-ON e periferia-OFF e essa caralhada toda.”
“Isso é difícil mesmo. Senta aqui que eu te explico.” André mandou, ajeitando-me melhor na cama.
“’Tá.” Fabrício se jogou na cama e, para susto do loiro, deitou-se nos travesseiros e o puxou para se encostar a ele, descansando as costas em seu peito, entre as pernas do moreno. André teve certeza de que dessa vez corou, mas pigarreou e acomodou o livro em seu colo, usando suas coxas como apoio.
Abriu na página sobre fototransdução.
“Eu vou começar do início, que é mais fácil, até a parte difícil, ok?” Perguntou, didático, e o moreno assentiu, encostando o queixo sobre seu ombro e o abraçando pela cintura.
“’Bora lá.”
“Certo. Então... No escuro, há uma corrente constante de Na+ para dentro da célula, bastonete ou cone, por canais que ficam abertos pela presença de GMPc. O fotorreceptor ‘tá então despolarizado na falta de luz, liberando glutamato para as células bipolares ON e OFF, tá vendo aqui na imagem?” Perguntou, apontando para a imagem esquematizada no livro. E o moreno concordou, botando as engrenagens do cérebro para funcionar. “Pois então, as células bipolares OFF despolarizam com o glutamato, e as ON hiperpolarizam...” Continuou explicando concentrado, apesar do calor no corpo. “A transdução começa quando um fóton atinge a proteína transmembrana rodopsina, e assim altera a conformação do retinal, que ‘tá nela, de cis-retinal para todo-trans-retinal. Essa alteração ativa a proteína G, que ativa a enzima fosfodiesterase, que por sua vez hidrolisa o GMPc, determinando o fechamento dos canais de Na+ e hiperpolarização do fotorreceptor. ‘Tá entendendo?”
“Aham. ‘Tô lembrando disso da aula. Mas vou ter de diferenciar essas células ON e OFF, daquele esquema de periferia ON e OFF?” Perguntou, esperançoso que a resposta fosse negativa.
André bufou.
“Mas tu tá querendo entrar na sala e que a Denise te de uma chupada e um 10 na prova né, Fafá. É óbvio que tem de diferenciar!”
“Tá, ‘tá!” Fafá exclamou, erguendo as mãos em derrota.
“Certo. Continuando...”
André explicou por mais de hora, tendo de aturar as constantes interrupções do moreno, que tinha a péssima mania de ficar cortando a explicação, perguntando coisas nada a ver que ainda explicaria mais para frente, futricando no livro ou ainda o beijando na nuca cortando sua linha de raciocínio. Mas graças a inexistente paciência do André, o que apenas provava que ele estava criando tolerância ao jeito do moreno, passaram também por outros assuntos da matéria extensa: neurotransmissão, audição, paladar, equilíbrio, tato, sistema neuromotor, entre outros tópicos. Apesar de tudo Fabrício parecia bastante interessado e conseguia compreender a matéria.
André nem percebeu em que momento relaxou, deixando-se apoiar mais livremente ao moreno, sentindo-se confortável em estar assim com ele. Um sorriso bobo chegava a brotar-lhe nos lábios em determinados momentos.
Acabaram ambos caindo no sono juntos, com o abajur ainda ligado, os livros jogados e o notebook ligado sobre a cama.
André acordou em determinada altura da noite, um tanto assustado, mas logo se localizou. Fabrício estava apagado na cama, dormindo de lado, petrificado como lhe era comum. Levantou e arrumou tudo, tirou seus tênis e os do moreno, apagou a luz e voltou a se deitar.
Aproveitando que o moreno não veria aquilo, deitou-se de lado também, aconchegando-se a ele e puxando o braço dele para abraçar sua cintura, antes de voltar a cair no sono, com um calor gostoso no peito.
XxxX
N/A: Davi teve uns bons dias pra pensar sobre o perdão do André. Como ele é uma pessoa muito doce que não consegue guardar rancor, acabou desabando com a música, e logo perdoou ♥ Tati só perdoou porque pôde ver uma agarração e seu lado fujoushi falou mais alto. OIJAAOIAJAIOAHAIO brinks!
Próximos dois capítulos são os dois últimos extras Gui/Davi, que na verdd seria um único cap., mas decidi dividir em dois porque senão ficaria muito longo. Quero ver se consigo postar antes do próximo final de semana. Peço perdão pela demora em postar esse cap., eu estava com uns problemas pessoais, que felizmente estão se resolvendo, e estava bem mal, e quando estou assim, isso acaba se refletindo nas histórias, eu fico dramática e chateada com bobagens etc, não queria vir postar num clima ruim.
Enfim, é isso. Obrigada a quem continua comigo! ♥
Beijos!
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