Good Riddance

17 Arrependimentos


Notas iniciais
Não lembro se já agradeci à Jeeh_TK pela recomendação! Eu amei, mto obrigada, coisa linda!

Cherry estava de barriga pra cima no colo de Fafá, de boca aberta mostrando os dentinhos afiados, e sacudia as pequenas perninhas erguidas, tentando bater ou segurar a mão do moreno, que lhe fazia cócegas. Era a coisinha branquela mais adorável do mundo, e Fafá se derretia por completo com as caras e bocas da gatinha.

“Quem é a coisinha mais pestinha desse mundo? Quem é?” Perguntava, bastante bobo, parecendo falar com um bebê no lugar de uma gata. O moreno também tinha um fraco por crianças, por falar nisso – talvez porque fosse muito parecido com uma.

“Esse seria o Diogo.” Henrique se meteu, passando pelos dois carregando os pratos para colocar na mesa.

“Ao menos eu sou uma peste adorável. Essa gata tem o diabo no corpo.” Diogo apareceu em seguida, trazendo uma travessa de salada. Cherry e Diogo realmente não se davam bem, a gata parecia nutrir uma antipatia especial pelo tio de seu dono. Na opinião de Fafá, aquilo era amor.

Fabrício estava deixando Cherry na casa do tio, pois agora que tinha mais aulas, sentia-se culpado por passar praticamente o dia inteiro fora de casa. Não queria deixar sua gatinha tão solitária no apartamento. Ficava com saudades, mas assim tinha mais uma desculpa para visitar os tios com frequência.

“Ah, eu esqueci de avisar. Não vou jantar aqui hoje, tenho treino de futebol agora de noite pro Intermed.” Disse, já checando o relógio e vendo que estava na hora de ir, ou chegaria atrasado. Era o penúltimo treino antes do evento.

“Agora que tu avisa, criatura ingrata!” Diogo deu-lhe um tapa na cabeça, arrancando uma exclamação de dor do moreno, que levou as mãos à parte de trás da cabeça, massageando-a. Diogo não tinha a mão leve, aliás, a mão dele parecia o dobro da de um humano normal. Mas o que era normal em Diogo, afinal?

“O Intermed já é semana que vem?” Perguntou Henrique, sentando-se na ponta do sofá. “Eu e teu tio participamos das três primeiras edições. Isso há o quê? Uns quinze anos atrás?” Perguntou ao Diogo.

“Ah, o Intermed.” Diogo suspirou nostálgico, caindo sentando no sofá entre Fabrício e Henrique. “O lugar perfeito para jogos, festas, bebida e putaria.”

Fabrício riu. Seu tio não tinha jeito.

“Me poupe dos detalhes, por favor.” Pediu, erguendo as mãos.

“Foi num Intermed que acabamos nos assumindo pra nossa turma da faculdade.” Henrique contou, pegando na mão de Diogo, que gargalhou.

“É verdade! E isso que eu nem ‘tava mais indo nas aulas, já tinha largado o curso, mas dei um jeito de ir aproveitar o evento, rever os colegas. Foi uma loucura, eu tive de rir no dia seguinte, sabe. Eu voltei pra nossa barraca mais cedo na última festa, estava meio enjoado, só querendo dormir. E saiba de uma coisa: é praticamente impossível dormir no Intermed. Mas lá estava eu, bem jogado na cama, só de cuecas porque estava calor e eu não queria talvez vomitar nas minhas últimas peças de roupa menos sujas, quando esse daqui aparece e simplesmente me agarra na frente de outros três colegas que estavam na entrada da barraca. Eu tomei um susto tão grande que quase achei estar tendo uma alucinação.” Contou, divertido. “Uma alucinação das boas, claro.” Sorriu malicioso para Henrique, ondulando as sobrancelhas.

Henrique esfregou o rosto, rindo também.

“Eu estava fora de mim naquela noite.” Comentou, com as bochechas um pouco coradas. Talvez até hoje se envergonhasse um tanto de seu comportamento. “Nós não tínhamos combinado nada, foi meio complicado lidar com o fato de que no dia seguinte todos já sabiam, mas demos um jeito. Por sorte nossa turma era feita de pessoas muito legais.”

“Uou! Nossa...! Que loucura!” Fabrício riu gostosamente ao imaginar a cena. Já vira o Henrique bêbado, mas não ao ponto de ele perder o controle de tal maneira. Seria divertido se algum dia acontecesse, pensou. “Minha turma também parece ser feita de uma galera gente boa, mas mesmo assim eu espero que ninguém descubra nada do que eu rolou última festa, porque senão aí o André me mata de vez, e com altas doses de crueldade.” Fabrício exclamou, num ar brincalhão, mas de quem não duvida completamente daquilo. Parou de sorrir e coçou a barba, relembrando mentalmente o beijo que roubara de André, e se sentindo meio culpado novamente, se bem que quando o tio beijara o Rique pela primeira vez também se aproveitara do estado alcoólico dele.

“Relaxa, guri. Nesse tipo de situação tu tem que... saber...” Diogo parou a frase pelo caminho, e seus olhos se fixaram atentamente no sobrinho, parecendo-se com um cachorro que fareja algo de errado. “Espera... Não que diga que tu... Tu já...” A expressão culpada de Fafá, que arregalou os olhos, franziu a testa e abriu um sorriso invertido deu a confirmação de que Diogo precisava para suas suspeitas. Só então Fafá percebeu que falara demais. “Filho de uma égua! Tu não perde tempo! Não faz nem uma semana que nos contou que queria dar uns amassos no moleque!”

“É que eu... Bem...” Fabrício tentou se justificar, mas não foi preciso – Diogo o puxou para seus braços, praticamente o esmagando entre os bíceps superdesenvolvidos. Começou a bagunçar seus cabelos com uma força desproporcional, ignorando os protestos de Cherry que quase caíra do colo do moreno pelo movimento súbito.

“Estou tão orgulhoso! O filho sempre sai melhor ao pai!” Exclamou de peito estufado. “Esse é meu garoto!”

“Dido, ele não é exatamente teu filho.” Henrique o lembrou com um sorrisinho divertido. Não que Diogo fosse prestar atenção num mísero detalhe como esse, claro, enquanto Fafá se debatia em busca de liberdade e Cherry tentava morder-lhe o dedo.

XxxX

Fabrício acabou chegando atrasado ao treino. Os tios obviamente não o deixaram sair da casa antes que ele explicasse direitinho o que acontecera, e isso acabou tomando-lhe um tempo maior que imaginava. O último comentário de Diogo fora: ‘Agora que já se beijaram, não vai ser o primeiro beijo que irá rolar no Intermed!’, dissera, malicioso, depois de gargalhar por bons minutos exclamando que ‘esses homofóbicos são tudo uns enrustidos mesmo’. André o mataria se o ouvisse falando isso, mas Henrique já fizera o favor de dar-lhe um tapa bem dado, que o deixou quieto rapidinho.

O pessoal já estava sendo dividido em dois times quando entrou na quadra alugada de uma escola próxima da Famed, subindo a Ramiro Barcelos. Perdera todo o treino individual, além do aquecimento. O capitão do time o olhou feio.

“Onde você andou?!?” Era um cara brabo que levava aquilo a sério demais. “O Intermed é semana que vem!!!! Não podemos perder na final de novo pros fundaceiros!” Ele ladrou.

“Culpado, culpado.” Fafá ergueu as mãos para o alto, rendendo-se, sem querer estressar ainda mais o capitão e, assim, evitar uma possível decapitação. Aproximou-se de André, mesmo que tivesse sido escalado para o time adversário ao do loiro.

“Mané, te mandei uma mensagem até. Achei que tivesse te esquecido do treino.” Disse André, num cumprimento muito simpático. Fafá coçou a barba rala no pescoço.

“Não foi bem isso... Fiquei preso na casa dos meus tios.” Explicou. “Desculpa, te deixei com saudades.” Sorriu charlatão para o olhar zangado que André lhe lançou de imediato. O loiro balançou a cabeça e revirou os olhos.

“Se prepara pra levar uns gols na fuça.” Avisou, virando-se. Fafá não aguentou e deu um tapa na bunda do loiro, que praticamente pulou do chão.

“Vem com tudo, bonitão.” Falou debochado, com um sorriso safado, divertindo-se. Culpava Diogo por aquilo, o tio o havia enchido de caraminholas pervertidas sobre o que aconteceria no Intermed. Estava ainda mais ansioso para dividir a barraca com o loiro.

“Isso vai ter volta.” André falou, o rosto avermelhando pela irritação. Ele não parecia no mais bem-humorado de seus dias. Fabrício riu – aquele rostinho irritado era sempre divertido de olhar.

“Tu sabe né, Santa?! Eles são poucos!”

André o encarou com as sobrancelhas franzidas, demorando alguns segundos pra lembrar-se da piada.

“Os homens lindos!” Fafá complementou com um sorrisão bobo.

“Vai te catar.” O loiro rebateu e balançou a cabeça, murmurando um ‘idiota’ enquanto segurava a risada ao dar as costas para aquele ser fugido do hospício que encontrara na faculdade de medicina e ainda ‘adotara’ como amigo.

Fafá riu, deu de ombros e correu para o seu lado da quadra.

XxxX

O treino já estava quase no final. André e Fabrício haviam se destacado mais que o normal naquele dia, haviam corrido mais do que carro de fórmula 1, e cada um deles havia marcado dois gols. O jogo estava 4 para o time de Fabrício, e 5 para o de André.

Fabrício tentava a todo custo ao menos empatar o jogo antes que o tempo acabasse, mas tinha de admitir, estava cansado, ele e André haviam corrido a semana inteira, naquele dia inclusive, e também participado dos treinos de vôlei, isso sem contar a musculação, que só faltara naquele dia.

Tentou avançar, mas André começou a marcá-lo ferozmente. Ninguém diria que André jogava tão bem só por olhá-lo, mas ele era feroz em quadra, tanto no futebol, quanto no vôlei; porém, ainda assim, Fafá achava que ele jogava de maneira muito mais agradável ao olhar, desenvolta e graciosa por assim dizer, do que os outros garotos.

“Tu não me deu descanso essa noite, hein?” Fafá falou para o loiro. “’Tô empapado de suor, exausto, louco pra dormir. Isso não é jeito de tratar os amigos.”

“Mas é jeito de tratar os adversários.” Rebateu. “Tu não merece arrego.”

André não estava numa situação muito diferente. Suas pernas latejavam de cansaço e a palavra fôlego fora riscada de seu dicionário há um bom tempo, só queria descansar, mas ainda havia alguns minutos até o final, e precisava impedir Fafá de marcar um gol.

Fafá notou uma oportunidade se aproximando, enquanto tentava fugir da marcação do loiro. Então se aproximou rapidamente de André e falou:

“Já comentei que é difícil desviar os olhos da tua bunda quando tu coloca essa bermudinha esportiva?” Comentou malicioso, lembrando-se da anotação mental que fizera no dia do trote à fantasia, de falar ao loiro que ele tinha uma bunda bonita, para constrangê-lo e irritá-lo.

E fora o momento perfeito para tal comentário. André estacou no lugar, perdendo completamente a concentração. Fabrício avançou voando por ele, recebendo a bola do colega de time e, com mais um drible rápido e bonito em outro guri, chutou a bola direto pra rede – num gol que era digno de aplauso.

André viu o time adversário comemorar, alguns indo abraçar Fabrício. O capitão anunciou o final do jogo – empatado. O loiro sentiu um novo calor subir pelo seu corpo, mas dessa vez de raiva. Fafá falara aquilo apenas para desestabilizá-lo, e ele caíra como um patinho! Não sei por que me afetou tanto o comentário besta! Recriminou-se e seguiu para os vestiários na frente, aborrecido com seu deslize.

Mais do que perder, odiava empates.

XxxX

André tomou um banho rápido, já que havia apenas três box nos vestiários e bastante gente querendo tomar um banho antes de ir para casa, ou algum outro lugar. O pessoal estava combinando de ir a um barzinho tomar umas cervejas, e André até achou a ideia interessante, apesar do cansaço. Saiu do banho com a toalha enrolada na cintura e não viu Fabrício em lugar nenhum. Devia estar ainda lá fora, batendo papo.

Pegou suas coisas, depois de trocar umas palavras sobre o jogo com quem estava no vestiário, e saiu. Encontrou Fafá ainda todo suado do jogo, esperando-o.

“Vai no barzinho?” Perguntou.

“Nah.” Fafá negou. “’Tô cansadão. Vou pra casa mesmo, que amanhã quero ver se ponho os estudos em dia que essa semana não deu pra estudar nem rodapé de livro.” Havia prova na próxima terça-feira, antes do Intermed, e era bom já dar uma estudada no final de semana, a matéria ficara complicada.

“Beleza. Acho que vou pra casa também. Quer carona? ‘Tô de carro hoje.” Perguntou. Fafá morava ali perto, devia dar uns 10-15 minutos até a casa dele a pé, mas como era sempre muito folgado, aceitou de qualquer maneira. Estava cansado até pra tirar o budum do corpo, o que dirá caminhar até em casa.

Foram pro estacionamento, conversando sobre o jogo – André mandando Fabrício à merda pelo comentário sacana que o distraíra.

“Um bom jogador faz uso de todos os tipos de táticas.” Fafá se defendeu.

“Um bom jogador não fica reparando nas bundas alheias na hora do jogo.” André objetou com os lábios franzidos, pegando no bolso a chave do carro.

“Não te preocupa, só reparo na tua.” Piscou.

“Vá à merda.” André o empurrou pelo ombro, fazendo Fabrício cambalear e quase cair para o lado, aos risos. O loiro bufou, com as bochechas quentes, e pegou o celular que tocara com o toque de Natália.

Atendeu de maneira tranquila, mesmo que estranhasse um pouco a ligação tão tarde da noite, mas talvez ela quisesse convidá-lo pra uma festa. No entanto, conforme ouvia a menina, seu rosto foi ficando mais pálido do que o normal.

“O que foi?” Perguntou Fabrício, colocando a mão no ombro do loiro ao perceber a expressão de horror dele. “André?”

“Eu... Preciso ir pro hospital...” Murmurou André, num fio de voz.

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Na recepção do hospital Moinhos de Vento, André e Fabrício se encontraram com Natália, que já estava lá, aos prantos. André quisera deixar Fafá em casa antes de ir pro hospital, mas o moreno insistira em ir junto. O loiro parecia muito instável e não quis deixá-lo sozinho.

Fabrício estava completamente perdido, não sabia o que estava acontecendo, André não falara mais nada durante todo o caminho até ali, e ainda dirigira como um louco, fazendo o moreno pensar que iria aproveitar que estavam a caminho do hospital para estropiá-los contra outro carro.

“André...” Natália balbuciou e se jogou nos braços do loiro, que praticamente correu até ela. “Ele... Ele...” Ela tentou falar, mas a voz não lhe saía.

“Nati, calma, respira.” André pediu, mas também tremia. “Me conta o que aconteceu.”

“E-Eu e o Leo saímos com o Davi e o namorado dele, o Gui... N-Na saída ‘távamos indo a-té o c-carro do G-Gui... M-Mas... Uns c-caras...” Tentou explicar, mas soluçava tudo, traumatizada com o que presenciara.

André nunca vira Natália naquele estado, estava acostumado a vê-la ou séria e calma, ou com um sorriso no rosto, mesmo que fosse um sorriso disfarçado, um olhar doce. Aquele estado de choque e terror era assustador, deixando-o ainda mais nervoso e apreensivo. Natália era durona, trabalhava com tatuagens e piercings desde os 12 anos (André já até tivera de servir de cobaia pra tatuagens de rena várias vezes) e, com o dinheiro da família, junto com o que juntara ao longo dos anos, abrira um negócio relacionado a isso que vinha fazendo sucesso desde o último ano. O lugar já era reconhecido como o segundo melhor de Porto Alegre, rumo ao topo do pódio. A família ficava em parte orgulhosa, em parte maluca com aquilo, pois os pais queriam que ela ao menos fizesse um curso de graduação, mas Natália não estava nem aí.

“Uns caras...?” Ecoou André, incentivando-a enquanto acariciava seus cabelos e ela derramava lágrimas em seu peito.

“E-Eles apareceram do n-ad-a... Eram muitos, uns o-oito... Eles b-bateram no Davi e no Gui!” Exclamou num tom agudo, voltando a chorar em seguida, mais alto, apertando a roupa de André entre os dedos. “Tanto s-angue... Eles me segura-ram e ameaçaram m-me estupr-ar por a-andar junto com d-dois g-gays. André... Eles b-bateram m-muito.” Começou a chorar a valer, num tom alto que atraiu uma enfermeira. A mulher ofereceu água e um calmante à menina.

André não sabia o que fazer. Mesmo que não houvesse presenciado nada, cenas do ocorrido começaram a surgir em sua imaginação. Davi apanhando, Natália sendo ameaçada, até o outro garoto levando uma surra de covardes. Abraçou-se com força à garota, mas teve de soltá-la quando os pais da menina apareceram e praticamente a obrigaram a ir pra casa com eles, pois ela estava obviamente em estado de choque e precisava descansar.

Assim que ela saiu, André sentiu a cabeça girar e, exausto que já estava de todo treino pesado e aulas cansativas da semana, teria caído caso Fabrício não o amparasse, segurando-o firme pelos braços.

“Tu precisa sentar.” Fafá falou com uma expressão triste.

“N-Não... Eu preciso ver o Davi.” Falou trêmulo.

Fabrício balançou a cabeça e obrigou o loiro a se sentar no banco de espera do lugar.

“Eu me informei. O Davi está em cirurgia. Os pais deles terão prioridade em vê-los depois disso. Nós provavelmente só teremos permissão amanhã ou depois...” Explicou cuidadoso enquanto passava a mão pelas costas do loiro, querendo confortá-lo de alguma forma. Se ele, que nem conhecia os dois guris, sentia-se mal, frustrado, triste e com raiva da situação, só podia imaginar como era para André.

“Eu briguei com ele por causa disso. Menosprezei ele por ser gay.” André murmurou com um olhar ausente, direcionado ao chão. “Se... Se ele...”

“Não!” Fafá falou rápido, interrompendo o fluxo de pensamento do loiro. “Ele... Não está em risco de morte.” Mentiu. Na verdade o garoto ainda não estava estável, mas lhe falaram que as chances de que desse tudo certo eram bastante altas.

“Eu nem tenho como xingar esses filhos da puta que fizeram isso com ele.” André arregalou os olhos, levando a mão ao estômago, sentindo que poderia vomitar. “Eu sou tão baixo quanto eles.”

“Não, não é. Tu não faria algo assim, André...” Falou, consternado com o sofrimento e culpa no rosto do loiro.

“Sou sim... Eu machuquei ele também. Machuquei ele, e agora ele ‘tá desse jeito. Ele apanhou por causa do mesmo preconceito que eu sinto...” André murmurou num tom rápido, sentindo-se ainda mais nauseado. Inclinou-se para frente e segurou o estômago com os dois braços.

A realização de o quanto aquilo era fodido e absurdo o atingia como uma martelada na cabeça. Davi era Davi, seu amigo de anos, alguém importante, que se danasse que fosse gay. Os tios de Fabrício eram gays, e no que isso mudava o fato de que eram pessoas normais e de boa índole? Lembrou-se de uma surra de cinta que recebera do pai uma vez, após um sermão que recebera dele junto com Davi, por estarem fazendo amizade com um garoto gay excluído na escola, quando tinham uns 11 anos. Depois que Davi fora embora, bastante chateado, o loiro tentou argumentar com o pai e chegou a xingá-lo. Acabou apanhando. No dia seguinte, ignorara por completo o outro garoto; se bem lembrava o nome dele era Caio.

Não importava. Era passado.

O choro irrompeu em André como não acontecia desde a noite da surra que recebera do pai. Imaginou Davi com o rosto desfigurado, inchado, cheio de sangue pela agressão, deitado inconsciente numa maca enquanto era operado Deus sabia por quê. Eu causei isso, causei isso. Começou a se culpar balançando a cabeça, mesmo que não tivesse culpa; no entanto, a culpa era por outro motivo, e se dirigia para o momento presente.

Mal percebeu quando foi puxado e abraçado com carinho, apenas se encolheu contra aquele que o acolhia nos braços, imitando Natália – escondeu o rosto no peito alheio e se permitiu chorar toda a dor da culpa, do medo, da preocupação, de quebrar as barreiras de um preconceito enraizado.

“Fabrício...” Ergueu o rosto depois de não sabia quantos minutos chorando, perdido nos próprios pensamentos. Seus olhos embaçados encontraram os do moreno, que ergueu as mãos e, segurando seu rosto, limpou com os polegares as lágrimas de suas bochechas.

“Está tudo bem. Vai ficar tudo bem.” Garantiu, num tom reconfortante e de uma calma poderosa, que fez André puxar e soltar o ar longamente, num suspiro cansado. “Vem, vou te levar pra casa.”

“Tu ainda não tem carteira...” André murmurou, baixando o olhar. Não queria sair dali sem ver o Davi, mas sabia que seria em vão, não receberia permissão para vê-lo tão cedo.

“Já dirigia lá na minha cidade. Aqui ‘tô só tirando a carteira mesmo, e já passa da meia-noite.” Se ergueu e trouxe André com ele. “Tu precisa descansar... Amanhã venho aqui contigo.”

“T-Tá...” André assentiu choroso, sem vontade de discutir.

Entregou a chave para Fafá, que a pegou, mas antes que o moreno se virasse para saída, André o segurou pelo pulso, virando-o, e aproximou-se um passo dele antes de abraçá-lo com todas as forças que tinha, apertando os olhos. Nem se importou por Fabrício não estar de banho tomado, algo que o manteria afastado em qualquer outra ocasião. Só precisava daquilo. Precisava dele.

Fabrício não disse nada, apenas o apertou contra si com ainda mais força e o beijou na testa, sabendo que aquele era o melhor consolo que poderia dar ao loiro.

Notas finais
Ai, coitadinho do meu Davi e do Gui! @.@' Mas ao menos a ficha do André caiu agora, né... Amores, eu não irei postar no próximo final de semana, pois é o findi antes de praticamente todas as minhas provas. Peço perdão por isso, mas final de semestre é isso aí. Daqui três semanas estarei livre e recompenso por isso! :D Obrigada a todos que continuam comentando, sem vocês eu não sairia do lugar! Beijão!