Good Riddance

51 A cumplicidade das estrelas


Notas iniciais
Música do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=1iYUQW6RovY

Diogo se espreguiçou assim que saiu do carro. Dirigir por todas aquelas horas sempre o deixava todo rígido. Estou ficando velho, pensou consternado no auge de seus 35 anos. Vivera naquela mesma cidade até ir para Porto Alegre, tentar entrar na faculdade. Parecia que fora há pouco tempo que isso acontecera, as memórias eram vívidas. Lembrava-se dos amigos de infância, das brincadeiras, das implicâncias mútuas com a irmã, principalmente quando ela e Lucas começaram a se engraçar, no início da adolescência, e ele, cinco anos mais novo, não poderia perder a chance de deixá-la constrangida e irritada.

Ótimas memórias. Sim, eram essas que queira cultivar, junto com as novas, para carregar ao longo da vida. Com um sorriso, ergueu os óculos escuros enquanto Sascha saltava do carro correndo para próximo de seus pés, abanando o rabo e o olhando como se lhe perguntasse o que fariam em seguir, naquele lugar novo, e Henrique abria a porta de trás para pegar a menina Cecília. Haviam conseguido convencer o orfanato a deixá-los vir junto, para um passeio. Conheceriam, assim, sua família. Os papéis da adoção já estavam em andamento há algum tempo, já era certeza de que aqueles dois eram seus filhos.

Cecília tinha apenas dois aninhos. Já Vinícius tinha seis, mas era tímido e desceu cuidadosamente do carro, com Cherry em seus braços, espiando ao redor antes de mirar o tatuado com olhos inocentes e inseguros. Incrivelmente, Cherry havia permitido a aproximação do garotinho sem qualquer resistência. Diogo prontamente o pegou no colo, a gata indo junto. Ou melhor, o jogou no ombro. De delicado, o grandão não tinha nada, e Cherry chiou pulando para o chão, como se o xingasse.

“Pronto para conhecer teus tios e primos, gurizinho?”

“N-Não...” Ele murmurou sobre o ombro do maior, parecendo-se com uma maria-mole, já que sequer se moveu para protestar aquela posição em que fora tiranamente colocado.

“Não tenha medo. Eles vão gostar de ti, assim como eu e o Henrique gostamos!” Diogo assegurou em seu natural tom forte e afável que transmitia confiança.

Vinícius estremeceu, mas não falou mais nada. Não sabia como eles poderiam ter gostado de si. Era quietinho, tímido e assustado. Todas as outras crianças sempre chamavam mais atenção, sorriam e brincavam, falavam fofuras e encantavam os adultos. Vinícius tinha medo dos adultos, mas quando o Henrique se aproximou para conversar, no orfanato, sentira uma estranha calma, uma sensação de pegar sol em um gramado florido e cheiroso num dia fresco; apesar de olhar para baixo e torcer as mãos durante toda a conversa, elas não tremiam como geralmente acontecia. Com Diogo era ainda mais estranho, pois ele estava sempre sorrindo e falando alto, brincava, falava coisas engraçadas. Chegara até mesmo a rir de algumas brincadeiras!

Henrique se aproximou com uma Cecília adormecida no colo. A menina não parara quieta um segundo durante quase toda a viagem, apesar de ter ficado sentada em um banco especial para crianças. Falava e falava, e falava mais um pouco, às vezes, parecia falar consigo mesma, e se distraía com a boneca de pano que era sua amiga inseparável, presente de uma das funcionárias do orfanato. Mas o cansaço finalmente a atingira.

Quem os viu do lado de dentro e apareceu primeiro para cumprimentar, foi o Fabrício. Estavam tomando café da manhã, apesar de já serem dez horas passadas. Ele os cumprimentou com um largo sorriso. Sua saída da confeitaria atraiu os que estavam do lado de dentro.

“E quem são os moleques?!” Perguntou, e com isso Vinícius se abraçou ao pescoço do tatuado, escondendo o rosto ali, extremamente tímido. Diogo deu-lhe um tapinha nas costas.

“Hei, não fique assim, pequeno. Cumprimente teu primo!” O incentivou. Vinícius, relutante, espiou o moreno. Seus olhos verde-água piscaram, antes que ele voltasse a se esconder. Diogo riu, com um carinho na nuca do filho. “Ele está tímido.” Explicou.

“Vinícius tinha dificuldade de relacionamento no orfanato. Ele não costuma falar muito, mas é um bom menino, comportado e educado.” Henrique falou. Era sempre bom elogiar e incentivar o lado positivo das crianças, pois isto as deixava mais confiantes.

“Ah é? Mas ele irá se soltar. Tenho certeza que a Luísa ajudará com isso.” Fafá comentou, já que a irmã não costumava dar moleza pra moleque nenhum. “Mas e esse carrão, huh? Compraram carro novo agora que a família cresceu?”

“Na verdade, compramos carro novo para nosso sobrinho favorito.” Diogo colocou uma mão sobre o ombro do mais novo. “É seu! Achamos que já estava na hora do marmanjo ter o próprio carro.”

“Quando tu passou em medicina, não lhe demos nada em especial. Considere isso um presente atrasado, pelo teu esforço.” Henrique parou ao lado do namorado, sorrindo leve.

Fabrício ficou boquiaberto, era um carro novo e deveria ter custado uma fortuna. André saíra da confeitaria a tempo de presenciar a cena. Teve de se aproximar do namorado e dar-lhe um tapão nas costas para que ele tivesse alguma reação. Fabrício soltou ar, voltando a respirar. Mal acreditava naquilo. Como nunca fora de se dar por rogado e adorava presentes, não iniciou nenhum papo como ‘ah, vocês não deveriam!’ ou ‘não posso aceitar!’.

“Eu nem sei como agradecer!” Exclamou no lugar, e os abraçou ao mesmo tempo, mesmo que ambos estivessem com as crianças no colo. Vinícius se encolheu ainda mais, mas não disse nada. Fabrício quase tirou os dois do chão.

Cecília acordou, e o moreno deu um beijo na menina.

“Que guriazinha mais linda!” Exclamou, contagiado pelo bom humor. A menina riu, nada envergonhada. Pelo contrário, acordada, pareceu extremamente interessada naquele monte de pessoas novas.

Isadora e Lucas apareciam também naquele momento.

“Que história é essa de mimar meu filho sem minha permissão?!” Isa quis saber, enquanto Luísa disparava para fora da padaria com metade de um bolinho para fora da boca.

“Titios!” Ela exclamou de boca cheia, e abraçou as pernas deles. Olhou para cima. “É verdade que terei priminhos agora? São eles?”

Vinícius continuava escondendo o rosto, e Cecília olhou com curiosidade para a, agora, prima, esfregando os olhos ainda com resquícios de sonolência. Não queria perder nenhum detalhe.

“Sim, é sim.” Henrique se ajoelhou parcialmente. “Está e a Cecília. Cecília, esta é a Luísa, sua prima.”

Luísa olhou para a menina de dois anos. Ela tinha cachinhos negros e olhos azuis muito escuros, a pele branquinha. Arregalou os olhos, surpresa, e olhou para o Fabrício.

“Mano, acho que ela também vai ter asas e voar algum dia!” Falou com aquela inocência interiorana que carregava. Fabrício gargalhou, depois pegou a irmã no colo, levando-a para mostrar o carro novo, chamando-a novamente de Maria Gasolina.

Os outros se cumprimentaram, com abraços demorados. Isadora pegou Vinícius no colo apesar da timidez do menino. Ele, no entanto, aceitou quando ela lhe ofereceu alguns doces, já do lado de dentro da confeitaria. Comeu um pequeno bolo de chocolate de uma forma muito calma e compenetrada.

André olhou para cada uma das cenas, sentindo algo inexplicável, e soltou uma espécie de risada pelo nariz, enquanto se ajoelhava para acariciar a cabeçorra de Sascha, que lhe exigia carinhos desde que o vira.

Sentia-se simplesmente sortudo por estar naquela família. Mesmo quando Cherry se aproximou e lhe arranhou um braço, como se estivesse, surpreendentemente, com certo ciúmes do labrador.

XxxX

Sentados em roda no Parque do Vale, próximos do lago onde Fafá e André costumavam se atirar quando menores, os adultos conversavam compartilhando duas cuias para o chimarrão enquanto as crianças brincavam próximas, na grama, junto com os bichinhos de estimação.

Vez ou outra Cecília ou Luísa corriam para perto deles para contar alguma coisa que haviam feito, ou perguntar dúvidas existenciais infantis. Vinícius estava sentado na caixa de areia da pracinha, tentando montar castelos de areia, ainda que Sascha às vezes se aproximasse e os derrubasse com o focinho, pulando ao redor do menino quando o atrapalhava; talvez achasse que essa era a brincadeira — Vinícius construía para ele destruir.

Fabrício, sentado ao lado do namorado, acariciou a cabeça de Cherry quando ela se aproximou e deliberadamente pulou para seu colo. Ela olhou feio para o André, como se dissesse que era o seu momento do dia de ter o moreno dando atenção apenas para ela. André achou mais seguro soltar a mão do namorado, enquanto tentava não se constranger demais pelo fato de a conversa ser sobre ele e o Fabrício.

“Aí o meu querido filho, tapadinho como sempre, não percebeu que já sabíamos sobre esse namoro, e apenas queríamos uma confirmação.” Isadora contou ao irmão e cunhado. “Tivemos que praticamente arrancar a informação dele.”

Diogo gargalhou.

“E ele todo preocupado antes de vir para cá...”

Fabrício sorria pelo canto da boca, aceitando os deboches.

“Não é minha culpa se tu é um boca grande que contou antes que eu tivesse a chance. Eu deveria jogar a Cherry em cima de ti, vamos ver como tu lidaria com isso.” Defendeu-se mesmo assim, passando o braço pelos ombros do namorado.

“Eu provavelmente não sobreviveria, ou perderia meus olhos. E, que fique bem claro, eu não contei absolutamente nada. Não me culpe por vocês dois serem extremamente óbvios. Fabrício só falta sorrir mais que a cara ao falar do André, e o André não consegue ficar cinco minutos sem corar perto do Fabrício.” Diogo deixou bem claro.

André, embaraçado, ruborizou suavemente.

“Isso não é verdade! Eu sempre disfarcei muito bem.” Afirmou, colocando um braço sobre o encosto do banco em que sentava com o moreno.

“Tão bem que até o papa perceberia.” Diogo implicou.

“Ora, quando se está apaixonado, é impossível disfarçar.” Isadora explicou didaticamente, apenas conseguindo constranger mais o genro. Ela, no entanto, sequer percebeu. “Eu estou muito feliz por meu filho, eu, aliás, nunca gostei muito daquela Thaís.”

“Mãe.” Fafá revirou os olhos. “Até hoje com implicância com a menina?”

De uma forma um tanto ciumenta, André adorou saber que a Isadora não gostava da ex-namorada do filho. Acabou abrindo um sorriso torto bastante satisfeito, sem conseguir se controlar.

“Ela era uma chata! Vivia reclamando dos teus amigos e até da Luísa.” Isadora fungou. Não estava mentindo, no entanto, era a Luísa que era, na época, um monstrinho ciumento que implicava com a outra mulher que ‘invadira’ sua casa e tomara seu posto nas atenções do irmão.

“Eu gostava da menina.” Henrique comentou. “Mas isso não interessa, pois todos gostamos do André, e sabemos que é ele quem faz nosso querido Fabrício feliz.”

“É ele quem deixa meu sobrinho mais doido do que já é.” Diogo complementou. “E é melhor nem perguntarmos os métodos!”

André poderia morrer com aquela conversa. Era constrangedor demais.

“Obrigado.” Coçou a parte de trás da cabeça, empurrando a cabeça do namorado quando este fez biquinho de peixe e tentou lhe dar uns beijinhos, pura implicância. E o mandando calar a boca quanto ele tentou comentar sobre certa fantasia de bombeiro... O moreno riu, apenas ameaçara para ver o loiro desesperado, jamais contaria aquilo para os pais e tios.

“Vocês estão constrangendo o garoto.” Lucas apontou. Era mais perceptivo que o próprio filho. “Desse jeito, ele nunca mais vai querer voltar aqui.”

“Mas é nosso passatempo favorito!” Diogo reclamou, pegando a cuia do chimarrão da mão da irmã. “Com o tempo ele se acostuma. Nós estamos pegando leve no início, mas vamos aumentando o nível com o tempo.”

“Vocês pegaram leve até agora?!” André exclamou, e deu um pulo quando Cherry chiou e tentou arranhá-lo, pelo susto que levou com o tom de voz elevado do loiro.

Aquilo arrancou risadas de todos. E a tarde seguiu tranquila. Fafá e André saíram para caminhar e brincar com as crianças. Fabrício as pegava no colo, girava no ar, e brincavam de pega-pega, esconde-esconde e bobinho. Vinícius sumiu numa dessas, e demoraram meia hora para o encontrar escondido no alto de uma árvore, brincando com um bonequinho de super-herói.

Ninguém sabia como ele havia conseguido subir até ali sozinho, mas o Diogo se encheu de orgulho das habilidades do filho, enquanto Henrique se desesperava com a possibilidade de ele ter caído lá de cima.

Mais tarde, o casal de namorados encontrou-se com os amigos. Fabrício e eles decidiram relembrar a época em que eram uma banda e combinaram de tocar juntos naquela noite.

Apesar de a cidade ser pequena, ela possuía um barzinho que os jovens costumavam frequentar. Fora ali que Fabrício e os outros começaram a tocar pela primeira vez. O lugar, de uma maneira muito criativa, era chamado de O Pub. André não se lembrava do recinto, talvez porque quando pequeno nunca, obviamente, o houvesse frequentado. Ficara acompanhado da Juliana, três amigas da garota, e conhecidos dos rapazes que, agora, tocavam no pequeno palco – Fabrício no vocal.

André revirava os olhos para os murmúrios excitados e débeis das meninas, com algumas fisgadas de ciúmes na boca do estômago quando elas se referiam ao seu namorado. Ai, como é lindo. Ai, ele canta tão bem. Ai, é tão sexy! Ai, aqueles braços... Fato que o loiro não discordava dos elogios, mas batia o pé no chão, tentando manter a parcimônia quando eles eram dirigidos para seu namorado – já que a calma já se despedira daquele corpo há muito tempo.

O jeito era prestar atenção no moreno, que cantara músicas brasileiras clássicas, como Eduardo e Mônica, faroeste caboclo, eu nascia há dez mil anos atrás, era um garoto, às internacionais modinhas do momento, ou mesmo algumas clássicas do rock. Era uma grande diversidade e, na maioria das vezes, era alguém da plateia que pedia por alguma, para matar a saudades das apresentações dos garotos, já que, até dois anos atrás, eles tocavam com frequência ali.

“Então, André...” Juliana lhe chamou a atenção. Nem ela parecia aturar as crises de tietes das amigas e meninas próximas. “O Fabrício me contou sobre vocês dois.”

O loiro se engasgou, tossindo três vezes antes de conseguir olhá-la meio boquiaberto. Não sabia o que dizer, ou esperar. Entrou na defensiva, apenas aguardando. Juliana suspirou, impaciente.

“Não me olhe assim todo antipático. Eu nunca julgaria alguém por algo assim. Posso ter uma boca podre e sempre ter um palavrão na ponta da língua, mas jamais usaria meu rico repertório para as pessoas que eu amo. Ok, usaria, mas não por causa disso. Eu só quero dizer que estou torcendo por vocês... O Fafá ‘tá sempre com aquele humor lindo dele, mas ele parece ainda mais feliz do que já é, aquele pateta, e isso é mais que o suficiente para mim.” Falou, olhando com carinho para o primo no palco.

André inconscientemente relaxou, mal percebera que havia ficado tão tenso. Acabou olhando para o namorado também. Ele começara a cantar uma canção pedida por uma menina da plateia, que estava acompanhada do namorado – All of me, John Legend. A voz do moreno era tão envolvente, que praticamente todos no lugar começaram a se embalar, e os namorados se achegaram, alguns trocaram beijos.

Fabrício retribuiu ao olhar do namorado no momento do refrão, abrindo um sorriso leve, gostoso, contagiante.

‘Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I’ll give my all to you
You’re my end and my beginning
Even when I lose I’m winning
‘Cause I give you all, all of me
And you give me all, all of you

André sentiu o coração acelerar.

“É o suficiente para mim também...” O loiro murmurou, sem saber se a Juliana o havia escutado. Não conseguia desviar o olhar do namorado, seu peito parecia transbordar,carregando sentimentos mais fortes do que o que conseguia tolerar. De repente, sentiu vontade de verter algumas lágrimas.

Sensível.

Era como se encontrava, já há alguns dias, por mais que tentasse mostrar-se forte. Sua mãe lhe ligara no dia anterior, mas não aparecera até agora, e já era tarde. Passar o dia com Diogo e Rique, ouvindo as histórias e bobagens deles, vendo as crianças brincando, e depois curtindo o namorado e os amigos, foi ótimo, mas a espera pela chegada de Cíntia e o avô não lhe saía completamente da cabeça.

How many times do I have to tell you
Even when you’re crying you’re beautiful too
The world is beating you down, I’m around through every move
You’re my downfall, you’re my muse
My worst distraction, my rhythm and blues
I can’t stop singing, it’s ringing, in my head for you

Fabrício ficou levemente mais sério enquanto cantava, talvez percebendo a discreta mudança de humor do loiro, seus olhos azuis brilhantes, a forma como respirou fundo para segurar as emoções. Ele repetiu o refrão, chegando ao final da música e colocando mais ênfase em cada palavra, levando às garotas de antes a suspirarem apaixonadas.

Os lábios do loiro tremeram de leve, e ele tentou se acalmar, antes que acabasse mesmo derrubando algumas lágrimas e tivesse de dar explicações quanto a isso. Nesse momento, sentiu uma mão pousar em seu ombro, com um aperto suave.

“He’s a pretty good singer.” [Ele é um ótimo cantor] Ele identificou o timbre rouco, mas agradável de seu avô, apesar dos sons do lugar. “There’s no doubt he loves you, I can tell just by the way he looks at you.” [Não há dúvidas de que ele te ama, eu posso dizer apenas pela maneira com que ele te olha]

André se virou rápido, deparando-se com Isaac Ellen. Era um homem de 68 anos, de cabelos brancos com profundas entradas, rugas pontuais e um olhar azul claríssimo, mais do que os do neto, e que colocaria inveja em qualquer pedra preciosa. Seu sorriso leve era tão aconchegante quanto uma coberta e um chocolate quente em um dia de frio. Havia algo sobre ele que transmitia carinho, conforto e sabedoria, e André sentiu uma enorme calma atingi-lo – junto a uma nova espécie de emoção, ainda mais forte do que a anterior – ao ver o avô.

As estúpidas lágrimas caíram de vez, antes que pudesse piscar, e no instante seguinte já abraçava o mais velho, que lhe retribuiu com um carinho nos cabelos. Era levemente mais alto que o avô, mas acabou por sentir-se ainda assim como uma criança que havia se perdido, mas agora reencontrava alguém familiar.

“I thought you wouldn’t come.” [Achei que não viria] Murmurou, abaixando a cabeça. “I’m sorry for every stupid thing I said last time we saw each other, I used to be such an idiot.” [Me desculpa por tudo que eu disse da última vez que nos vimos, eu costumava ser tão idiota]

“It’s alright. I would never stop loving my grandson, no matter what.” [Tudo bem. Eu nunca deixaria de amar o meu neto, não importa o motivo] Isaac garantiu, com um grande significado por trás daquelas palavras.

André sorriu, com um calor bom e relaxante nascendo no peito, e se afastou fungando e limpando as lágrimas.

“Despite my desire to stay here and hear your boyfriend sing some other songs, there’s someone outside that really want to see you, but is afraid you may hate her right now e don’t want to see her.” [Apesar da minha vontade de ficar aqui e ouvir seu namorado cantar mais algumas músicas, há alguém lá fora que realmente quer ver você, mas está com medo de que você possa odiá-la agora e não queira vê-la] Isaac falou com um sorriso complacente nos lábios finos, mostrando que achava aquele temor muito bobo. “But I’m almost sure you also want to see her.” [Mas tenho quase certeza de que você também quer vê-la] Piscou-lhe.

André não precisava ser um gênio para entender que ele falava de sua mãe, e rumou com o avô para a rua, esquecendo-se de todo o resto. As batidas no peito eram audíveis em seus ouvidos. Cíntia estava esperando do lado de fora, apertando os dedos. Ela pôs-se a chorar assim que viu o filho, e abriu os braços para ele. André a alcançou com passos longos, e a abraçou ainda mais apertado.

Não existe, no mundo, substituto igualável ao carinho e amor de uma mãe. André apoiou o queixo no topo da cabeça dela, dessa vez ela chorava, e era ele quem lhe acariciava os cabelos loiros e macios.

“André, meu filho... Meu filho. Me perdoa, meu amor. Eu nunca quis que aquilo acontecesse, nunca... Eu jamais imaginei que o teu pai chegaria àquele ponto. Eu-“

“Mãe.” André a chamou, calando-a. Ela ergueu o rosto para o filho, quando este lhe segurou o rosto. “Tu estar aqui agora... Isso que importa pra mim. Eu tive medo que nunca conseguisse aceitar.”

Cíntia fechou os olhos, soluçando. Não era capaz de segurar o choro, e voltou a abraçar o filho.

“Eu sou uma estúpida.” Ela murmurou, vendo Isaac se aproximar dos dois, com seu olhar cheio de um calor ameno e compreensivo. “Como pude, por um único momento sequer, acreditar que havia algo de errado contigo?”

Mais lágrimas escaparam pelo canto dos olhos do loiro.

“She was always a little silly.” [Ela sempre foi uma pequena boba] Isaac disse, doce. “Come, let’s sit and appreciate this lovely city. I believe us three have a lot to talk.” [Venham, vamos nos sentar e apreciar esta amável cidade. Eu acredito que nós três temos muito que conversar]

Os dois assentiram com a cabeça, como duas crianças frente ao adulto mais sábio, e foram sentar num dos bancos da praça que havia bem próxima dali, repleta de verde e tranquilidade. E, sob a cumplicidade das estrelas, Cíntia desculpou-se novamente, relatando, também, que havia novamente se separado do Heitor.

“Filho,” Ela disse, ao notar o desconforto do loiro. Entendia aquele menino mais do que qualquer um, aprendera, naqueles anos todos, a ler cada uma de suas expressões. “Não se sinta culpado, pois a culpa não é sua. Mas minha e dele, e principalmente dele. Acha que eu poderia continuar junto a alguém que machucou meu bem mais precioso? Eu e ele tentamos nos dar uma segunda chance, mas foi um erro. Eu fui tola, cega, apaixonada... Eu achei, lá atrás, que eu poderia mudá-lo e, no fim, quem me mudou foi ele, e não exatamente para melhor. Eu quero seguir em frente, mas quero seguir em frente com meu filho próximo de mim. Eu te amo, está bem?”

André sorriu, abraçando novamente a mãe.

“Mas...” Começou, ao se afastar. “Mãe, eu não estou esperando que tu já comece, tão rápido, a aceitar homossexuais. Eu sei que... que não deve ser fácil, porque também não foi fácil pra mim começar a me aceitar.”

Cíntia balançou a cabeça e segurou a mão do avô do loiro, seu amado pai.

“Seu avô me ajudou muito com isso. Nesse tempo, eu e ele tivemos longas conversas, e ele me fez ver o quanto minhas ideias não faziam sentido, o quanto era mesquinha e cega minha forma de enxergar o mundo. Às vezes, tudo que precisamos é de alguém mais vivido e maduro para nos mostrar o caminho. Seu avô não era assim quando mais novo. Eu tive uma educação homofóbica, do mesmo homem que agora me ensinou a respeitar e aceitar as diversidades. Curioso, não? O mundo dá voltas...”

“Really, grandpa?” André perguntou, com um sorriso. É, aquele sorriso não sairia tão rápido de seu rosto.

Nisso Isaac começou a contar toda a história – sobre como descobriu que seu jardineiro, Frederic, um jovem rapaz de 20 anos na época, sempre atencioso, alegre e esforçado, era homossexual. Isso há cinco anos. Passou somente a observá-lo, não encontrando motivos para odiá-lo. Pelo contrário, divertiu-se em vê-lo se encontrar às escondidas com o rapaz com quem namorava, nos seus jardins. Percebeu que o amor existia ali. Percebeu que Frederic era apenas uma pessoa normal, como qualquer outra. Não sabia bem dizer por que a realização aconteceu tão tarde, talvez pela velhice, ou por viver sozinho após a morte da esposa, e passar a ver várias coisas da vida de maneira diferente. O fato é que abriu caminho para que Frederic abrisse-lhe o coração, e uma grande amizade começou, a despeito da diferença de idades.

“Frederic taught me a lot, and I’m glad I could taught these same things to my daughter, when she needed the most.” [Frederic me ensinou muitas coisas, e eu estou feliz que pude ensinar essas mesmas coisas para minha filha, quando ela mais precisou]

André estava feliz também. É, ele não tinha uma família unida e maluca como a do Fabrício – e ele estava mais do que satisfeito por fazer parte dela também – mas ele não trocaria aqueles dois por nada.

Conversaram mais, perdendo-se nos minutos. André admitiu para a mãe que amava o namorado, e ela assentiu, ciente de que, se o filho dizia algo assim, justo ele, tão difícil de expressar sentimentos, era porque era sério e forte.

Mais tarde, Fabrício saiu para rua. Ao perceber a demora do loiro, não aguentara interromper momentaneamente a apresentação e ir atrás do namorado. Observou de longe dos três conversarem, imersos em cumplicidade e alegria por estarem juntos, e bem.

“Filho... Há algo que quero lhe contar.” Cíntia disse em determinado momento. “Eu não quero que pense que estou tentando lhe induzir a alguma coisa... Mas precisamos conversar sobre o teu pai.”

“Mãe-“ André falou baixo, não querendo entrar em tal assunto. Não queria recordar aquelas coisas; porém Cíntia colocou-lhe um dedo sobre os lábios, balançando a cabeça. Conversar sobre aquilo também era dolorido para ela, e o loiro, entendendo isso, se calou, deixando a mãe organizar os pensamentos para desabafar tudo que precisasse.

“Eu não sei se algum dia tu conseguirá perdoar o teu pai... Isso dependerá apenas de ti, mas eu acho que, se esse momento algum dia chegar, o momento em que tu irá se perguntar se deve perdoá-lo ou não, tu tem o direito de saber de algumas coisas.” Ela suspirou, abrindo os olhos para mirar o filho. “André, teu pai, assim como todos nós aqui, teve uma educação homofóbica. Seus avós paternos eram muito rígidos e conservadores. Você não se lembra pois era muito novo quando eles morreram... Mas isso não é tudo. Seu pai tinha um irmão, chamado Eduardo.”

André franziu a testa. Heitor havia falado esse nome durante a surra, não?

“Ele disse... que precisava curar o Eduardo.” André lembrou, e a Cíntia assentiu, colocando uma mecha de cabelos atrás da orelha junto a um olhar triste.

“Eduardo era gay, André. Era a vergonha da família, seus avós fingiam que não tinham e nunca teriam um filho gay. O reprimiam, não permitiam que ele expusesse isso para o resto do mundo. Mesmo assim, teu pai ficou ao lado do irmão. Ele o acobertou, André, porque desde crianças eram melhores amigos, unha e carne, a própria Flávia costumava sentir ciúmes dos dois pois, por ser mais nova, acabava sendo deixada de lado. Heitor protegeu o Eduardo dos pais, apesar de não aceitá-lo completamente... Mas ele se arrependeu amargamente. O Eduardo contraiu o HIV... Naquela época, mais de 25 anos atrás, o tratamento não era como é hoje, e a doença ainda tinha suas obscuridades.”

André arregalara os olhos. Jamais imaginaria nada daquilo. Era realmente um tabu, visto que ninguém comentava sobre essa história na família.

“Heitor assistiu ao irmão adoecer lentamente. Não demorou cinco ou nove anos. Teu tio era um progressor rápido, e evoluiu para a AIDS em apenas dois anos. Teu pai se culpava por isso. Ele surrou e quase matou o ex-namorado do Eduardo, que o largou após descobrir que era aidético também. Quando o Eduardo morreu, teus avós o enterraram completamente, passaram a borracha, como se ele nunca houvesse existido, e voltaram a encher a cabeça do teu pai com esses preconceitos... Eu não sei bem, mas isso afetou o Heitor, ele desenvolveu ódio dos homossexuais, eu acredito que os culpa pela perda do irmão. E ódios irracionais, com o tempo, tendem apenas a piorar...”

André abaixou a cabeça. Era muita informação para pouco tempo, sua mente se enchia de teorias sobre a história, como se ela fosse um quebra-cabeça onde algumas peças ainda precisavam ser encaixadas.

“Filho... Quando fui encontrar teu pai para pedir o divórcio definitivo, o encontrei no apartamento onde ele estava morando antes. O lugar estava uma zona, sujo, alguns móveis destruídos. Seu pai tinha profundas olheiras, e parecia emagrecido, apesar de essa impressão ser simplesmente pelo seu estado lastimável. Era evidente que não vinha se alimentando, e estava faltando ao trabalho. Eu sei que ele se arrepende, André, porque ele te ama, apesar daquele horror que cometeu, algo que eu considero imperdoável. Mas isso sou eu... Eu só achava que tu tinha o direito de saber sobre tudo isso.”

André, de cabeça baixa, apenas assentiu. Sua garganta havia travado, e ele não sabia o que dizer, o que pensar, o que fazer. Não, não estava preparado para perdoar, mas fora bom tomar conhecimento daquilo tudo. Isaac, que ouvira tudo em silêncio, pegou a mão do neto, apertando-a de leve para transmitir conforto. Ficaram em silêncio então, ouvindo os barulhos discretos da noite, até o loiro erguer-se ao perceber alguém se aproximar.

“Fabrício!” Chamou.

O moreno, com um sorriso, aproximou-se, sem nenhuma inibição.

Abraçou-o, e depois abraçou, cara de pau como sempre, a mãe e o avô do loiro, um seguido do outro. Abraços apertados que quase os tiraram do chão.

“Obrigado por virem.” Ele falou, simples e sincero.

Cíntia voltou a chorar fracamente, lágrimas silenciosas quando pegou na mão do garoto. Conhecia-o de criança, sabia que era um bom garoto, sabia que ele era especial para seu filho, e sabia que estava deixando seu amado filho em boas mãos. Não contara ao loiro, mas planejava mudar-se para a Inglaterra, para viver com o pai, ao menos por um tempo. Sentia saudades do pai e do país de origem. Talvez lá conseguisse recomeçar, do zero.

Claro, queria que o filho a visitasse com grande frequência.

“Obrigada você, por cuidar do meu bebê.”

“Mãe!” André reclamou do termo, mas, como um, terminou de derramar todas as lágrimas que lhe restavam, dessa vez podendo estar nos braços do namorado enquanto ainda absorvia tudo que acontecera e ouvira naquela última hora.

XxxX

Mais tarde, naquela mesma noite, André despediu-se momentaneamente da mãe e do avô, que se recolheram para a pousada onde alugaram um quarto. Ficariam na cidade um pouco mais, pois depois dali, a viagem era para a Inglaterra. Cíntia queria preparar o filho, achava que ele ficaria bem morando com o namorado, ou até mesmo sozinho, se assim desejasse. O mimara sim, mas criara um filho independente e maduro o suficiente para saber se virar.

Quando André foi de encontro ao Fabrício, este lhe sorriu e lhe segurou a mão, na frente dos amigos. Havia contado para eles, antes da apresentação no barzinho. É claro que ficaram surpresos, e é claro que ouviu piadinhas debochadas e maliciosas, mas eles aceitaram porque, afinal, nenhum deles era preconceituoso, e a amizade estava muito além de meros detalhes como esse.

“Hein, seus putos, o que acham de subirmos o morro para olhar as estrelas de lá?” Juliana perguntou, com seu ‘pronome de tratamento’ carinhoso.

Quando mais novos, costumavam acampar por lá, em noites agradáveis e bonitas como aquela. Não ventava no momento, logo, o frio era suportável.

“Partiu!” Fabrício exclamou, sem nem pensar duas vezes. “Vamos todos no meu carro novo!”

“Exibido.” André murmurou, torcendo sarcástico os lábios, e recebeu um beliscão do moreno.

“Não vai caber. A Juliana vai esmagar um de nós se sentar no colo de alguém.” Danilo encolheu os ombros, debochando. Recebeu um soco forte da guria, mas apenas se afastou rápido para não apanhar mais, rindo dos xingamentos dela. “Não fica assim, Juju! Tu sabe que eu adoro uma gordinha!”

“Vai se foder, Danilo! Ridículo! Canalha!”

“Também te amo, minha linda!” Gritou de longe, indo buscar seu carro. Juliana mostrava-lhe o dedo do meio.

“Eu vou ir com o Danilo. Nos vemos lá em cima!” Fabio abanou, dando uma corridinha atrás do outro para alcançá-lo.

“Acho que ele é a fim de ti.” André ponderou para a Juliana, referindo-se ao Danilo. Ela o socou também, assustando o loiro.

“Se não quer morrer, nunca mais fale uma tragédia dessas.”

“Vamos, pombinhos, ou ficaremos para trás!” Daniel incentivou. “Quero ver o carro novo do Fabrício em ação. Aquele lá promete! Ah, quem me dera ter dois tios ricaços!”

“Bah, ‘tá louco, tchê! Aquele carro voa!” Fabrício se empolgou e, naquele clima de brincadeiras e risadas, eles todos rumaram em busca de ver estrelas.

Afinal, o bom da vida mora nos detalhes.

[...]

André parou de correr assim que se achou suficientemente a salvo, a alguns poucos metros do fim da floresta. Estava com a adrenalina tão elevada que não sabia o que era mais alto, se as batidas de seu coração, ou a respiração ruidosa. Havia ficado para trás, porque não conseguia correr tanto por ter machucado o pé numa brincadeira mais cedo. Apoiado a uma das árvores, o loiro soltou um pequeno berro quando escutou um barulho muito próximo e então alguém parava justamente à sua frente.

“Fafá!” Gritou exaltado, colocando uma mão sobre o coração, como se assim pudesse diminuir o ritmo do coração, que palpitava dolorosamente. “Tu me assustou...” Choramingou.

“Tu nem vai acreditar!” Fabrício exclamou ofegante, abrindo um sorriso que só poderia ser definido como traquinas. “O Daniel se mijou nas calças por causa do susto!” E gargalhou alto, na opinião do André, atraindo o perigo para eles.

Deu um passo para frente e tapou a boca do moreno com a mão pequena.

“Shiu! Eles vão nos escutar!” André sussurrou, mas teve de afastar a mão rapidamente assim que o moreninho lambeu-lhe a palma. “Eca!” Reclamou, protegendo a mão contra o peito.

“São só os garotos mais velhos. E aposto que meu tio e o namorado dele têm algo a ver com isso!” Fafá deu de ombros e, dito e feito, escutaram vozes se aproximando. Os dois rapidamente se esconderam por trás da árvore, espiando quem vinha pela trilha.

As risadas aumentaram, e eles viram quando um grupinho de adolescente passou rindo, comentando sobre as reações das crianças com o susto. Fabrício precisou segurar o loirinho para que ele não fosse bater boca com os maiores. Naquela época, André já começava a ficar invocadinho.

O moreno ria quando voltaram a ficar sozinhos na floresta.

“Não acredito. Eles nem pareciam assustadores de verdade!” André reclamou, com um beicinho.

“É, mas alguém gritou mais alto que todo mundo.” Fafá implicou, conseguindo uma expressão de perplexidade do outro.

“Eu não-“

“Hei, mas pelo menos suas calças estão sequinhas!” Fafá piscou-lhe. “Ou será que não?” Sugeriu inclinando-se para frente, tentando tocar as roupas do loiro para verificar. André se eriçou inteiro, dando pulinhos para escapar do check-up do amigo, afastando-o com alguns tapas.

“Sai, sai!” Reclamou e, em meio a isso, escutaram barulhos suspeitos vindos da floresta. Pararam imediatamente, ficando alertas ao olhar para dentro da mata escurecida, suas orelhas parecendo subir como as de um cachorro.

GRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAUUUUUUU! Um monstro surgiu da mata, sacudindo os braços e correndo na direção deles. Era peludo e grande, parecia mortalmente perigoso.

“AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH!” Os dois gritaram antes de dispararem na direção oposta, para bem longe da floresta. Fabrício segurara a mão do loiro, puxando-o junto o mais rápido que conseguia.

Assim que distantes, Diogo parou gargalhando e tirando a parte de cima da fantasia de lobisomem que usava. Henrique apareceu logo atrás, com uma mão sobre os lábios segurando os risos.

“Isso foi de uma maldade extrema.” Comentou, com um sorrisinho repreensivo.

“Que nada! Crianças adoram esse tipo de coisa.” Diogo falou enlaçando-o pela cintura e tascando-lhe um beijo aprofundado antes que ele pudesse reclamar.

Já na cidade, Fabrício e André paravam numa das praças, mais ofegantes e exaustos do que antes.

“Tu viu aquilo?”

“Era enorme!”

“Estou com medo...” André murmurou, olhando para trás. E se os tivesse seguido? “Nunca mais volto lá.” Abraçou-se sentindo frio, seu coração continuava batendo agitado.

Quando percebeu, um calor o envolveu e, ao erguer o olhar, deparou-se com o rosto do moreninho bem próximo; ele lhe abraçava protetoramente. Fafá corou de leve quando seus olhares se encontraram.

“Tu ‘tá tremendo.” Fafá justificou, sorrindo bobo. “Amanhã vou lá caçar aquele bicho!”

“Não!” André exclamou e o abraçou nervosamente. “Não vai... Não quero... N-Não quero te perder.” Mordeu o lábio apoiando a testa no peito do amigo, perdendo assim o rubor ainda maior que tomou a face do moreno.

“N-Não vai me perder. Nunca.” Falou convicto, abraçando-o mais forte. De repente seu coração batia mais rápido. Abriu um grande sorriso. “Porque ficaremos sempre juntos, certo?”

“Certo!” André exclamou ao se afastar, também sorrindo. “Então não vá atrás daquele bicho, ok?”As sobrancelhas loiras quase se uniram quando franziu a testa para transmitir mais autoridade.

“Ok.” Fafá concordou pomposo, erguendo uma mão para cima. “Eu prometo.”

André, com um sorriso contente, deu-lhe um beijo rápido na bochecha e voltou a correr em direção à praça central onde uma festa de Halloween reunindo quase toda a cidade acontecia. Talvez envergonhado de sua própria ousadia, corria mais rápido do que quando fugia do monstro da floresta.

Fafá ficou uns bons segundos segurando a bochecha beijada, antes de correr atrás do loiro.

Notas finais
Comentários finais no epílogo. ;)