Good Night
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A noite era fria, talvez a mais fria de todos os tempos, ela pensava, já era tarde. A neve caia lá fora sem pausas, os olhos vermelhos e inchados da menina estavam grudados na janela e esquadrinhavam com cuidado tudo lá fora. Ela desviou os olhos para o céu e pensou se "ela" estaria ali em algum lugar, se por acaso poderia ser uma daquelas estrelas.
A menina fechou os olhos e encostou a cabeça no vidro, uma lágrima solitário desceu lentamente por seu rosto. Isso não podia estar acontecendo. "Ela" não poderia tê-la deixado, não poderia ter ido embora assim sem se despedir. Como "ela" pôde? A menina abriu os olhos e olhou mais uma vez pela janela, antes de se levantar e correr em direção à porta; A menina abriu-a e pôs a cabeça para fora, verificando se não havia alguém ali, ela caminhou silenciosamente até a porta da frente, abriu-a vagarosamente para que o rangido passasse despercebido. Ela fechou a porta atrás de si e correu pela neve do quintal até chegar em uma árvore e para se abraçando à mesma. A garotinha se debulhou em lágrimas enquanto se agachava e escondia o rosto entre os joelhos. A cena durou por vários minutos, aquele lugar onde estava era especial, era ali que "ela" costumava lhe contar histórias e pentear seus cabelos escuros e macios.
A garotinha soluçava muito e as lágrimas desciam grossas e pesadas, até que algumas das nuvens que cobriam a luz da lua afastaram-se por um momento e fez-se o local onde estava a menina se iluminar um pouco. A mulher com cabelo longo e um vestido branco cintilante jazia ali em pé, ela observava tudo com uma expressão de tristeza e compaixão. Ela se abaixou e passou a mão carinhosamente pelo cabelo da garotinha. No mesmo instante a pequena enxugou as lágrimas com as costas das mãos e levantou o rosto observando a neve a sua volta, deu uma rápida olhada nas estrelas e se levantou.
Boa noite, durma bem
Sem mais lágrimas
Pela manhã, eu estarei aqui
A menina entrou em casa e se dirigiu ao quarto rapidamente antes que seu pai acordasse. Ao entrar um euforia tomou conta de seu corpo, a janela estava aberta e havia um livro aberto em seu batente.
- Mãe? — Ela correu até a janela e pegou o livro, enquanto olhava lá fora com um pingo de esperança e alegria que começara a surgir dentro de si.
Mas logo a decepção tomou o lugar dos sentimentos bons, a trazendo de volta para a tristeza e a solidão. Ela fechou a janela e se sentou na cama ainda com o livro em mãos. Ela conhecia bem aquele objeto, era um livro de contos antigo que pertencera a sua mãe, e que a mesma sempre lia antes da garotinha dormir. A mulher costumava sentar ao seu lado e ler, isso quando ela mesma não criava suas próprias histórias, para entreter a filha antes de lhe dar um beijo carinhoso na testa e lhe desejar boa noite. E toda manhã ela estava lá para abrir a janela e acordá-la com mil carinhos.
A garotinha sentiu vontade de chorar mas segurou as lágrimas, lembrando-se das vezes em sua mãe enxugara seu rosto nos momentos tristes e fizera de tudo para fazê-la sorrir. Essa era sua missão diária: ver sua menininha feliz. E como retribuição, sua filha fazia de tudo para mostrar todo o amor, a admiração e o carinho que tinha pela mãe, com seus gestos mais singelos.
Mas tudo acabou. A felicidade que havia na casa fora embora junto a mulher. O pai nunca poderia substituí-la e a pobre garotinha não voltaria a sorrir.
A mulher de branco sentou-se ao lado da menina, que lia os contos e em sua mente imaginava a voz da mãe.
"Era uma vez..."
A mulher começou, enquanto passava os braços em volta da menina, e continuou até que ela se cansasse da leitura. Ela nunca abandonaria sua pequena.
E quando nós dissermos boa noite
Seque seus olhos
A menina fechou o livro e o abraçou, fechou os olhos e respirou fundo, como se ainda pudesse sentir a essência de sua mãe ali. Uma brisa suave bateu em seu rosto apesar da janela fechada, mas essa brisa não era como o vento comum e gélido que havia lá fora, era diferente de alguma forma. Era como se alguém estivesse lhe dando um sopro de vida, fazendo a garotinha dar um sorriso, mesmo que quase imperceptível. Ela colocou o livro ao seu lado e pegou uma foto de baixo de seu travesseiro, nela estavam a mãe, o pai e a menina, seu sorriso aumentou. Ela começou a se lembrar da última vez em vira sua mãe. Ela dizia:
- Eu vou estar sempre com você. Mamãe te ama muito.
No momento ela não havia entendido, afinal de contas, não passara pela sua cabeça o que poderia acontecer. A mulher permanecia ao seu lado lhe acariciando.
"Eu vou estar sempre com você garotinha."
Porque nós dissemos boa noite
E não adeus
O sono começou a tomar conta da criança, ela guardou a foto em seu devido lugar e preparou-se para dormir. Enquanto puxava as cobertas algo lhe perturbava: ela nunca havia ido dormir sem sua mãe. A tristeza tomou conta de seus olhos novamente. A mulher de branco ajudou a pequena a se cobrir, em seguida acariciou seus cabelos e lhe beijou a testa.
"Boa noite, filha. Mamãe ama você."
Com os olhos semicerrados, sendo vencida pelo cansaço, a menina teve viu algo que ela nunca teria certeza se fora real ou não. Os olhos de sua mãe estavam mais brilhantes do que o normal e ela mantinha aquele sorriso lindo no rosto. Antes de pregar os olhos completamente e cair no sono, a garotinha deu um enorme sorriso.
A mulher andou mais uma vez pela casa, acariciou a filha, beijou o marido e passeou por entre as plantas do jardim, que ela cuidava com tanto carinho, e que agora estavam cobertas pela neve espessa; aquelas plantas eram assim, no inverno morriam e perdiam a beleza, mas na primavera elas se renovavam com o carinho que recebiam. Então se foi.
E naquela noite, uma estrela brilhou mais forte no céu.
Nós dissemos boa noite
E não adeus
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