Good Gone Girl
7 Capítulo 7 - Zumbi.
Notas iniciais
CAPÍTULO 7 – ZUMBI.
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Eu devo estar morrendo.
É tudo o que consigo pensar quando acordo com os sintomas que devem ser de uma doença rara e mortal: estou tonta, enjoada, apesar de minha boca estar seca como se eu tivesse comido areia no café-da-manhã, e a luz do sol me incomoda, muito. Aquela sem dúvida deveria a manhã da minha morte. Eu morreria num domingo ensolarado, num quarto escuro (graças a deus, tinha cortinas) e frio. Sem sequer me lembrar de como foi o sábado e como terminou a minha sexta-feira.
Reviro-me na cama e sinto que todo meu mundo gira comigo. Assim como a bile parece subir pela minha garganta. Respiro fundo, enquanto suo frio e digo a mim mesma: “você não vai vomitar na sua cama. Não vai”. A última coisa que eu quero é que meu cadáver seja encontrado afogado no próprio vômito.
Até eu mereço uma morte decente, não mereço?
Meu deus, o que eu fiz comigo mesma?
Tento me lembrar exatamente do que aconteceu e começo a listar tudo o que me lembro: música alta e agitada (muito boa, por sinal), Martini rosé com limão (vários copos), Alexander... Um calor toma conta do meu rosto no momento em que me lembro do amigo de Sasha. De seus olhos inquietantes, seus braços e pescoço tatuados, do seu sorriso contido e do formato de seus lábios e de quando eu o beijei no meio de um bando de estranhos...
Fico chocada comigo mesma.
“Não... Você não fez isso!” brigo comigo mesma tapando minha boca com uma mão e me escondendo de baixo do edredom. Mesmo assim, estou me lembrando do nosso beijo, espremidos entre uma multidão de roqueiros que simplesmente não estavam lidando a mínima. Do como eu o puxei pelo pescoço e o deixei enfiar a língua na minha boca. Estou lembrando do seu gosto: um suave gosto de terra, por causa da cerveja, com um suave toque de menta que eu não sei de onde veio.
A bile sobe novamente pela minha garganta, mas sei que não é de enjoo por eu ter beijado aquele ruivo... Afinal, estou sentindo algo borbulhando dentro de mim. Algo que posso chamar de excitação. E um desejo crescente de me lembrar do que aconteceu depois daquele beijo. Eu tento me lembrar, mas não consigo.
Qualquer coisa depois daquele beijo, parece um sonho de tão surreal.
O que deu em mim? Eu não sou do tipo de pessoa que sai beijando caras em festas. Ainda mais caras como Alexander – que não sejam extrovertidos de sorrisos brilhantes e simpáticos. Sendo sincera comigo mesma, eu nem era do tipo de pessoa que saia para festas... E muito menos do tipo que bebe até não se lembrar.
Eu me sento na cama devagar e olho ao redor. Certificando-me de que estou no meu quarto, no dormitório. Ele está tão organizado que a única coisa que destoa é o meu vestido e sapatos jogados no chão de uma maneira bem aleatória. Estou dormindo só de sutiã e calcinha, para a minha surpresa. Mas o mais preocupante era o fato de eu não me lembrar de como fui parar no meu quarto.
Há um copo cheio de água ao lado da cama com uma embalagem de remédios para enjoo do lado. Será que eu ia tomar algum remédio antes de ir dormir? Faria sentido só pelo como eu acordei. Provavelmente eu estava bem pior na noite passada.
Como estou desesperada, pego uma cápsula e tomo.
Então decido que, mesmo me sentido uma morta-viva, eu preciso de um banho. Essa é a primeira coisa que eu faço: tomar um banho e vestir uma roupa quente. E tudo no que consigo pensar, enquanto eu enfim vomito, era “graças a Deus, Chris não estava no quarto”. Não queria que ela me visse tão morta. Olhando no calendário do celular, percebo que não é domingo, mas ainda é Sábado. Sinto alívio. Não perdi um dia inteiro, ainda.
Quando volto para o quarto, com roupas quentes de ficar em casa (um moletom grande e cinza com a cara de um gato na frente e calça de flanela) e o enjoo um pouco mais controlado, percebo que eu me embrulhei com dois edredons. Caramba, o “eu” de ontem que dormiu sem pijamas era muito esperto em se embrulhar com dois cobertores, ou eu teria morrido de hipotermia já que o aquecimento do dormitório era uma droga.
Como estou sem fome, obrigo-me a comer umas bolachas e fico na minha cama pelo resto da tarde. Ora dormindo, ora pensando na existência... Ora pensando no que aconteceu depois que beijei Alexander e senti aquele borbulhar dentro de mim.
Eu fecho os olhos e é como se eu estivesse beijando-o novamente. Lembro-me que depois do beijo, afastamo-nos para respirar e então eu o beijei novamente. Na verdade, eu meio que pulei em cima dele. E então nosso beijo tornou-se mais intenso e quente. Suas mãos me seguraram com mais firmeza, nossos corpos se colaram e nossas bocas se conheciam com uma urgência carnal...
Eu volto a ficar vermelha. Não reconheço a garota que estou me lembrando.
Ela não podia ser eu.
E então... me lembro de uma coisa.
Quando “The Petshop Boys” terminou sua apresentação (com a completa aprovação do público), Sasha foi cumprimentar Oliver e arrastou Alexander consigo. Disse algo como “Depois eu devolvo a boca dele para você” em seu tom provocador como sempre. E então, Ellie pediu para que eu a acompanhasse no bar – onde vários rapazes deram em cima dela e eu pedi mais uma bebida para mim.
Ou talvez duas bebidas, já que Ellie demorou bastante.
Foi tempo o suficiente para que um estranho se aproximasse de mim e falasse comigo. Não consigo me lembrar do que ele disse. Lembro-me de sua aparência: traços indianos, pele chocolate ao leite, olhos escuros e amendoados e cabelos negros e bagunçados. Todavia, não me lembro de nossa conversa.
Lembro-me somente que fiquei incomodada. Triste. Arrasada. Eu bati nele. Também não lembro porque, mas acho que fiquei furiosa. E então Alexander apareceu e perguntou o que estava acontecendo. O garoto ficou intimidado e saiu com seus amigos, e eu só queria voltar para o meu quarto e chorar muito.
— Eu quero ir embora – eu me lembro de dizer.
Não aguentava mais ficar ali, mas a última coisa que eu queria era estragar a noite de Sasha e Ellie. Ao menos alguém estava se divertindo e eu não queria ser a “estraga-prazeres”... Mas eu sentia que ia chorar. E não queria chorar em público.
— Você pode achar um pouco difícil sair agora – Alexander avisou. – Ellie acabou de ir para o banheiro com um cara muito simpático do bar e Sasha tá fechando o verso lá com Oliver... Acho que sou a única companhia que você tem no momento.
Por algum motivo, eu imaginava isso. Soltei um suspiro.
— Então eu volto sozinha... – eu digo, esquecendo-me totalmente do meu medo de andar por aí de madrugada e que eu não sei como voltar para o campus.
— Nem pensar – Alexander respondeu em tom duro de: “que ideia estúpida”. – Eu te levo de volta. É bem melhor do que te deixar pegar um trem nesse estado.
Não entendi o que ele quis dizer com “no seu estado” (se estava se referindo a minha vontade de chorar ou ao meu estado de embriaguez), mas gosto do modo como oferece carona (como se ele se preocupasse comigo) e quero me dar um soco por isso. Eu não deveria ficar dependendo das pessoas dessa forma. Mas eu também gosto de como ele passa o braço ao meu redor e me guia para fora do Pub Irlandês.
Ele me trouxe para o dormitório.
Apesar de não me lembrar mais do que isso. Uma noite que parecia promissora, terminando em lágrimas e tapas. Quem era a pessoa que tomou conta do meu corpo ontem, eu não faço ideia. Mas também não sei se gosto dela ou não. Só sei que, hoje, tudo o que eu quero fazer é ficar deitada na minha cama até sumir, pensando em todas as besteiras que fiz ontem.
Porém, como todo fim de semana, meu pai me ligou naquele sábado e foi difícil conversar como se eu fosse uma pessoa sã, e não alguém que estava morrendo. Ele estranhou minha voz rouca e tive que dizer que estava com resfriado, e depois acalmá-lo dizendo “não, você não precisa pegar um voo para cuidar de mim. Não é nada sério”. Às vezes ele era superprotetor. Sinceramente, eu também seria se tivesse uma filha como a que ele tem.
Depois de eu me despedir dele pelo celular, Ellie e Sasha apareceram no meu quarto. A loira parecia bem preocupada comigo, enquanto Sasha estava no seu modo “mais tranquila impossível”.
— Fiquei me perguntando se estava tudo bem com você, porque você foi embora muito de repente – Ellie disse sentando-se na cama de Chris, de frente para a minha.
Eu não poderia dizer se eu havia me despedido delas, porque eu não me lembrava, mas realmente, acho que também me preocuparia. Isso me deixou mal.
— Desculpem, eu... Fiquei chateada com umas coisas – eu peço.
Ellie franze o cenho.
— Aconteceu alguma coisa lá? – Sasha pergunta arqueando uma sobrancelha.
Eu gostaria de responder o que foi que aconteceu, mas nem eu me lembro direito. Lembro-me de poucas coisas e as poucas coisas que me lembro parecem confusa. Logo, não tenho o que responder, então dou de ombros.
— É vergonhoso admitir isso, mas eu não me lembro do que aconteceu... Quer dizer, eu não lembro direito. Tá tudo meio confuso – eu respondo.
Sasha me olha um pouco desconfiada. Ela não acredita.
— Vamos, me diz quem é que eu devo bater – ela pede. – Se você não me disser, pode ter certeza que o Alex vai.
Eu fico vermelha. Só a menção do nome dele, me faz sentir desconfortável. Porque eu me lembro da Isabelle de ontem e eu não conheço aquela Isabelle.
— Eu te juro, não lembro o que aconteceu – eu respondo. – E eu não quero falar sobre isso, está bem? Eu só quero esquecer que ontem eu estava fora de mim.
Estou me sentindo constrangida só com o pouco que me lembro.
Eu bati em alguém! Eu nunca matei nenhuma mosca na minha vida!
— Então tá... Não vamos falar sobre o que te fez deixar a festa na melhor parte – Sasha diz, mas seu tom parece sugerir que essa é a última coisa que ela vai fazer. Ela se senta na minha cama, do meu lado e diz: — Então, bora falar de outra coisa... Tipo, você e o meu amigo ruivo.
Eu fico vermelha e penso em como justificar aquilo. Apesar de saber que não dá.
— Relaxa, não estamos te julgando – Ellie diz, sentando-se no chão para tentar enxergar o meu rosto (escondido no travesseiro). – Nós só queremos saber... O que você achou dele?
Eu pisco para as duas. Seus rostos estão cheios de expectativas e de esperanças... Se tudo não houvesse sido tão assustadoramente “natural” até acharia que elas haviam armado para eu ficar com ele. Não que ele precisasse de “armação” para arrumar alguém. Tenho certeza que Alexander era capaz de ficar com quem quisesse por méritos próprios.
— Ele é legal, bonito de um jeito que não estou acostumada, e um pouco intimidante – eu digo, tentando manter um tom imparcial. – Por quê?
— E você acha que ele beija bem? – Sasha continua, maliciosamente.
Eu fico vermelha. Gostaria de dizer que “sim, ele beija muito bem”, todavia, sinto que não me lembro muito bem de como foi o beijo. Não sei se dá para entender, mas, quando eu me lembro dele me beijando, é como estar vendo uma pintura num quadro. Parece que a memória é uma representação malfeita do que foi na realidade... Mas talvez eu só esteja sendo poética. Como eu sou às vezes.
— Não quero pensar nisso – eu digo. – Quer dizer... Eu terminei com o meu namorado há um mês... Eu não quero pensar em mais ninguém por um tempo.
Ellie revira os olhos, assim como Sasha.
— Você não precisa pensar em pessoas... Pensa só em bocas. O mundo é cheio de bocas para serem beijadas enquanto você não está namorando – a loira diz, agitada. – Eu só não quero que você se prive de conhecer pessoas porque terminou com o seu namorado filho da puta.
— Eu não me privo disso... – eu digo.
— Você passou um mês longe das redes sociais e mofando nesse quarto – Sasha argumenta arrumando seus cabelos ruivos. – Você não conhece pessoas assim.
Eu franzo o cenho e digo:
— Gosto de pensar que quando a pessoa for para valer eu vou conhece-la de qualquer jeito. Com rede social, ou sem...
Eu paro de falar, porque as duas estão me olhando como quem vê um filhotinho de cachorro na vitrine de um Petshop. Não sei se gosto desse olhar até Sasha acariciar minha cabeça como se eu fosse um filhotinho de Golden Retrivier e dizer:
— Você é tão romântica, que dá até vontade de guardar num pote.
Eu decido que não gosto desse olhar.
Tiro sua mão da minha cabeça e tento não demonstrar o meu incômodo.
— Só me diga uma coisa, então. No que você pensou enquanto beijava o Alex? – a ruiva pergunta. – E quero sinceridade.
Eu abro a boca para responder, mas a verdade é que não sei no que pensei quando beijei ele. No quanto os lábios dele eram beijáveis? Ou será que eu pensei no quanto ele estava perto de mim e em como seus olhos eram inquietantes?
— Eu não sei no que pensei, está bem? – eu respondo, me encolhendo. – Só beijei...
E ainda nem consegui decidir se isso foi errado ou não. De qualquer forma, descobri que eu odeio o “eu bêbado”. Ela só faz besteira e depois nem se lembra delas. Eu mereço um tapa para aprender a nunca mais beber na vida.
Ellie e Sasha se olham e sorri. Pergunto-me se perdi alguma coisa quando elas sorriem para mim e Ellie diz:
— A vida é tão bonita quando não se pensa muito, Bell... Você precisa conhecer.
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