Good Gone Girl
48 Capítulo 48 – Almoço em Família
Notas iniciais
Capítulo 48 – Almoço em Família
Minha família está em choque. Congelados no sofá como estátuas gregas, observando o ruivo tatuado que, ao que tudo indicava era Alexander, mas eles não podiam acreditar que aquele era Alexander. A reação deles era tão cômica quanto embaraçosa. Será que eles esperavam alguém como Mike? Ou alguém mais “normal”?
De algum modo, lembro-me como me senti quando vi Alex pela primeira vez. O como ele me pareceu intimidante.
— Adivinha quem apareceu para o dia das mães? – Eu perguntei, levantando-me do sofá e indo até ele. Quando chego perto, eu digo baixinho entre os dentes: – Sua família apareceu, depois a minha... eles só foram aparecendo, me desculpe...
Ele demora para responder, mostrando que estava um pouco sem ter ideia de como reagir, e então ele abaixa o olhar para mim e me mostra aquele meio sorriso de tirar o fôlego. Ele parece tão calmo por fora. Seus olhos parecem a superfície cristalina de um lago, quando ele diz:
— Você sabe que não tem problema. Mi casa, su casa.
Eu queria poder parecer tão calma quanto ele, mas apenas completo:
— Shakira, Shakira.
Ele segura uma risada.
— Você não fez isso – ele murmurou.
— Eu lido com as situações embaraçosas falando besteira – respondi.
— É. Já percebi – ele responde, divertido.
Então ele beija a minha testa.
Em sua calma habitual, ele segura a minha mão e se aproxima de onde todo mundo estava reunido. Educadamente, Alexander se apresenta a toda minha família, e fico satisfeita ao perceber que, apesar do choque inicial, eles ao menos são educados de volta.
— Então.... Esse é o Alexander? – Minha mãe pergunta para mim, como se esperasse que isso fosse alguma brincadeira.
— É. É ele – respondo secamente.
— É como dizem! Falou no diabo aparece o rabo! – Mary-Jean diz, soltando uma risada divertida. – Você chegou em um ótimo momento. Bell estava acabando de contar sobre você, como se conheceram e tal... de 2 a 1 achamos emocionante, mas não se preocupe, mamãe não se emociona com nada.
Ele me olha com um pouco de curiosidade. Pergunto-me se a ideia de eu ter dito que começamos como “amigos que transam” o deixava tão tenso quanto o pensamento havia me deixado. Mas ao invés ele apenas diz:
— Bem, quando ela me falou de você, ela também estava bem emocionada.
Senti meu rosto corar. Eu só havia falado de Mary-Jean ontem para ele. Eu havia lhe contado que Mary-Jean costumava me dar um beslicão toda vez que eu pedia desculpa para alguma situação que não era minha culpa, ou que eu não precisava me desculpar. Eu lhe contei o quanto ela se irritava com isso, mas que nunca consegui mudar.
“Você sente falta dela?” Ele havia perguntado.
“É muito óbvio?” Eu perguntara.
“Todas suas expressões são bem óbvias” ele havia respondido divertido.
Eu havia ficado sem graça porque, apesar dele dizer isso, ele ainda era o cara que não havia conseguido entender o porquê eu havia ficado puta com a nossa situação da segunda briga (sobre o jantar de aniversário do tio dele). Eu estava prestes a provocá-lo a respeito disso quando ele disse que queria conhecê-la, porque ela parecia ser uma pessoa legal. Pensei que eles nunca se conheceriam..., mas ali estavam eles.
Cara a cara.
As três pessoas que eu mais gostava na minha vida: Alex, Mary e papai.
— Awn. Ela me ama, apesar de não parecer se importar comigo – minha irmã responde, fazendo uma expressão triste.
— Mary... – pedi envergonhada.
— Olha, pelo que eu entendi da sua irmã. Parece que quanto ela menos parece se importar, ela mais gosta da pessoa – Alex disse, obviamente provocando-me por eu ter guardado alguns segredos dele.
— É essa ideia idiota de não querer perturbar ninguém né? – Ela retrucou.
Senti meu rosto pegar fogo e pedi para eles pararem, mas Alex concorda com a cabeça quando acha que não estou olhando, e isso faz com que Mary-Jean ria.
— Então ela me venera como uma deusa – minha mãe zombou.
— E a mim, então? – Meu comenta com sarcasmo. – Nós combinamos de nos falarmos uma vez por semana... e você simplesmente sumiu.
— Desculpa – eu pedi.
Não havia nada que eu pudesse dizer para justificar eu ter esquecido do nosso combinado. Só foram acontecendo muitas coisas, e minha cabeça andava cheia de tantas outras coisas... Os dias foram passando, e eu simplesmente me esqueci. Eu também não havia muito de agradável para dizer, então achei melhor não dizer nada.
— Só..., não suma de novo. Está bem? – Papai pede, pegando leve.
Eu concordo com a cabeça, mas ainda estou me sentindo a pior pessoa do mundo.
Por sorte, Alex não está escutando esse pequeno puxão de orelha. Ele havia se virado para a mãe e a irmã e dito com os braços cruzados:
— Vocês hein...
— Se Maomé não vem até a montanha... A montanha vem até Maomé – A senhora diz, levantando-se do sofá. – Sei que você não iria aceitar almoçar em casa se eu te convidasse... então pensei que poderíamos almoçar fora. Obriguei sua irmã a me trazer até aqui, já que ela tem uma chave... e eu não.
Há uma nota de mágoa nesta afirmação que quase me deu dó.
— Ah, bom ver que Isabelle não é a única pessoa com problemas com a mãe – Mamãe solta com sarcasmo.
— Mãe... – eu pedi.
Ela deu de ombros, como se não houvesse dito nada demais.
— Almoçar fora é uma boa ideia – Alexander diz, como se sua mãe só houvesse feito o convite e não criticado o abandono dele. Ou como se minha mãe não houvesse dito nada. Então ele admitiu: – Nós não estávamos esperando visitas, então não temos comida em casa...
— Perfeito, eu fiz reservas num restaurante ótimo. Você vai adorar, Alex – a mãe dele diz, agarrando-o pelo braço. Como se houvesse enfim fisgado um animal raro e não o quisesse soltar. Inesperadamente, ela se vira para nós e diz: — Se você quiser levar sua namorada e a família dela, acho que dá para acrescentar mais pessoas. Tenho certeza que será um almoço animado.
Alexander olhou para mim, com hesitação, mas é assim que todos nós acabamos indo jantar todos juntos... no dia das mães.
Maravilha.
Enquanto estamos saindo do apartamento, meu pai consegue reencontrar a voz para dizer ao meu namorado:
— Seu gato é muito bonito, como se chama?
— Kurt – Alex responde. – Como Kurt Cobain.
— É... eu vi que você tem... tatuado no pescoço a... a data da morte dele – Meu pai observou, fazendo um gesto indefinido para algo no pescoço do meu namorado.
Ele parece tão sem jeito que me dá vontade de rir.
— Ele não é de raça, não é? – Minha irmã muda de assunto.
— Não. Ele foi apenas um gato que apareceu por lá no abrigo – ele responde.
— Foi o primeiro paciente dele – eu lhes digo, apertando o botão do elevador.
— Paciente? Um gato? – Minha mãe pergunta.
— É, mãe. Alex faz veterinária... – eu respondi.
— Ah.... Seu pai quase foi para esse lado também, você sabe como ele adora animais... Ele até e vegetariano – ela comentou. — Graças a deus ele não chegou a fazer... você sabe o que eu penso sobre isso.
Sim, eu sabia, por isso apenas solto um suspiro e não pergunto mais nada.
Alex, porém, pergunta:
— O que você acha sobre isso?
Dou um aperto na mão dele, para que ele perceba que não deveria ter perguntado, mas já é tarde. Minha mãe se vira para ele e diz:
— Do que adianta cuidar de cães e gatos se eles não pagam?
— Vai começar... – Mary-Jane solta, revirando os olhos.
— A verdade é que me parece inútil cuidar de animais, sendo que eles sabem se cuidar muito bem sozinhos... – Mamãe continuou. – Quer dizer, eles nascem por conta própria e sobrevivem por conta própria. Eles foram feitos para sobreviverem...
Eu estou com tanta vergonha que mal consigo respirar. Minha vontade é de enterrar meu rosto contra a camiseta de Alexander e pedir desculpas por minha mãe simplesmente decidir desvalorizar o curso dele daquela forma.
— Então... você é contra levarem um ser humano para o hospital quando ele está doente? – Alexander perguntou. – Porque, se for por esses motivos, o ser humano, no início dos tempos, também foi “feito para sobreviver”. Apesar de eu achar que “nascer por conta própria” é um termo errado. Parece que somos protozoários...
— Não liga para ela, Alex, maman fala essas besteiras às vezes – Mary-Jean se apressa em dizer. – Ela tem uma visão muito antiquada das coisas. Desculpa. Na verdade, Isabelle e eu acreditamos que somos adotadas. Não é incrível?! – Então o elevador chegou e ela diz: — Vão indo nesse, a gente pega o próximo, tá bom?
Então ela me empurra junto com a família dele para dentro e acena.
Quando as portas se fecham eu solto um suspiro alto e irritado. Estou tão envergonhada pela atitude da minha mãe que eu não sei se devo pedir desculpas para ele, ou também para a sua mãe a sua irmã. A única coisa que me conforta é que ao menos meu pai e Mary-Jean vão discutir com ela e pedir para ela se controlar mais.
— Com todo respeito, Bell, sua mãe é uma piranha – Alexis diz.
— Alexis! – Sua mãe briga.
— Eu disse “com todo respeito” – a garota diz, dando de ombros. – Agora eu entendo o que você me disse daquela vez... Antes do Alex chegar.
O ruivo olha para mim com o cenho franzido.
— O que você contou a ela? – Ele pergunta.
Eu dei de ombros.
— Da vez em que eu falei para a minha mãe que queria estudar Literatura e Escrita Criativa – eu respondi. – Como você pode ver, ela tem uma visão muito severa sobre o que as pessoas devem estudar e como elas devem viver as suas vidas.
— A mãe dela disse que ela seria mais uma inútil na família – Alexis disse à mãe.
Sinto meu rosto pegar fogo.
— Tenho certeza, de que todas as mães do mundo, só querem o melhor para os próprios filhos – a senhora responde à filha, e indiretamente à Alexander.
Ele ignora o olhar da mãe, e apenas me olha com o cenho franzido, segurando minha mão com mais força. Eu fico sem graça, porque sinceramente não gosto de falar sobre isso. Não gosto de comentar muito sobre tudo o que minha mãe já disse para me magoar. Tentando amenizar o clima eu digo a ele:
— Agora você entende porque eu tenho um estoque de licor de laranja no meu quarto do dormitório?
Ele dá aquele meio sorriso, lembrando-se da nossa primeira noite.
.
O jantar é um inferno. Meu inferno particular.
Mamãe está visivelmente mais controlada em seus comentários, mas isso não quer dizer que eles tenham desaparecido. Eles são como monstros, espreitando, esperando o momento exato em que devem pular no meio da conversa. Pelo que eu havia percebido a algum tempo, fazia parte de sua criação francesa: falar a verdade por meio de sarcasmo e ironia. Lá eles consideravam um sinal de sagacidade esses tipos de comentários, até mesmo espirituosos, porém, para mim, sempre foram insensíveis e desnecessários.
Diferente do que eu pensava, entretanto, Alexander não tem problemas com a família dele. Sua mãe visivelmente gosta dele, apesar de ambos divergirem muito, e Alexis me confessa que ele sempre foi o preferido dela, depois de Alexiel. Parte de mim acha que a garota está sendo injusta ao indicar os favoritismos, mas não sinto que sei o suficiente para lhe dizer se é a verdade ou se ela apenas está distorcendo a realidade.
Eu observo um casal sentado a algumas mesas de distância e coloco a mão sobre o braço de Alexander, atraindo sua atenção.
— Aquela é a...?
— Amaranth – ele diz. – É. Com o namorado dela.
Virei-me para ele, chocada.
— Ela namora? – Perguntei estupefata. – E você não me disse nada?
Ele deu de ombros, me provocando.
— Por que eu deveria te dizer? – Ele perguntou, com um meio sorriso maldoso.
Meu rosto se tinge de vermelho. Ele sabia muito bem que eu senti ciúmes quando a vi com ele, tanto no abrigo quanto quando ela foi deixá-lo bêbado em casa... E mesmo assim decidiu não me contar nada, apenas me deixar ficar imaginando as coisas.
— Eu achei que você não se importava – ele confessou, enfim. – Achei que você não iria querer saber... quer dizer, não era da nossa conta.
Olhei para ele e peguei uma de suas mãos, lhe disse:
— Quero saber tudo o que diz respeito você.
Ele franze o cenho, sem entender o porquê daquela frase, mas então percebe que eu estou apenas recitando as palavras que ele dissera outrora e então ri, me dando um beijo rápido enquanto ninguém parece estar prestando atenção.
Como eu estou cheia, e Alex também, nós não pedimos sobremesa, mas os outros pedem sorvetes e bolos. Por debaixo da mesa, consigo sentir a mão impaciente de Alexander na minha perna, e em um momento ele se inclina perto do meu ouvido e murmura que ama a família dele, mas que ele tinha outros planos para hoje... planos para o que ele ia fazer comigo quando voltássemos para o apartamento dele.
Um arrepio percorreu o meu corpo.
Quando ele queria, ele conseguia ser incrivelmente provocante.
O que interrompe aquele momento é o toque do meu celular. Fico em dúvida se devo atender ou não, mas então dou uma olhada e vejo o nome da minha professora piscando na tela. Meu coração acelera no peito e eu mal consigo respirar.
— Acho que eu preciso atender, desculpa – eu pedi, envergonhada.
Alexander se afasta para me dar espaço e eu atendo rapidamente.
— Oi, Professora Mahogany?
— Parabéns, Isabelle!— Ela diz. – Nós conseguimos!
Eu fico em choque. Meu corpo todo congela e eu não consigo dizer nada. Meu cérebro apenas se enche de perguntas como: conseguimos? Conseguimos o quê? Bem, só há uma coisa que eu possa ter conseguido com ela, mas não pode ser... não deve ser... é?
Minhas mãos começam a tremer, quando eu digo:
— Desculpa... acho que não entendi...
— Estou lendo a relação dos contos vencedores do concurso— ela disse, muito feliz, rindo até. – O seu ficou entre os três melhores! Não é incrível?!
Levei uma mão à boca. Sem acreditar.
— Meu deus, não pode ser – eu soltei.
— Não só pode ser, como é!— Ela respondeu. – Vou te enviar o link pelo celular para que você possa conferir! Só um instante...
Alex percebe a minha agitação e fica tentando olhar por sobre o meu ombro, descobrir o que está acontecendo. Minha professora encerra a chamada e então me manda o link do site por SMS. Minhas mãos estão tremendo um pouco e eu clico nele. Parece que demora uma eternidade até o site carregar, e quando carrega, vejo que ela não está brincando. Ali, literalmente entre os três primeiros, está: “Este não é um conto sobre rosas – de Isabelle W. Dantec” em segundo lugar.
O nome havia sido escolha da professora. Ela disse que eu não precisava inventar um nome totalmente longe da realidade, que eu poderia esconder apenas aquilo que eu queria por meio de siglas. As pessoas podem relacionar Isabelle White a Paul White, mas elas podem não relacionar Isabelle W. Dantec.
Novamente eu cubro minha boca com a mão e olho para Alexander.
— O que foi? – Ele pergunta, incrivelmente impaciente.
Eu não sei se consigo responder. Estou sem ar.
— Meucontoficouemsegundolugar – Eu digo rápido em um só fôlego.
Uma pessoa normal não entenderia o que eu disse, mas Alexander provavelmente estava acostumado a lidar com o meu modo de me expressar (nós havíamos começado com uma frase assim, afinal “Nãoqueromeapaixonar” certo?), então ele primeiro pisca para mim, como se não acreditasse, e então me abraça forte.
— Eu não acredito! – Eu exclamei.
— O que?! O que foi?! – Minha irmã pergunta, curiosa. – Eu vou ser tia?!
— Não vai não! Tira essa ideia da cabeça! – Meu pai responde. – O que aconteceu?
Alex me solta, e então eu me viro para eles, mal sabendo como eu diria algo assim.
— Eu estava participando de um concurso literário... e o meu conto ficou entre os melhores – eu contei, a cada vez que eu dizia, tudo parecia ir ganhando um aspecto real. – Na verdade, ficou em segundo lugar!
Eu pego meu celular e mostro para eles.
— Caramba, Bell! Parabéns – Mary-Jean diz batendo palmas.
— Parabéns, querida – meu pai disse, se inclinando para me beijar. – Sabe, isso foi algo que eu nunca consegui, nem mesmo quando estudava. Estou muito orgulhoso!
Minha mãe pega o celular da minha mão para ver aquilo com seus próprios olhos, enquanto a mãe de Alexander me parabeniza também, assim como Alexis que ainda pergunta:
— “Este não é um conto sobre rosas” que nome engraçado. Sobre o que fala?
— Certamente não sobre rosas – minha irmã responde com sarcasmo.
Alexis responde fazendo careta como se fosse uma criança de cinco anos. Essas duas pareciam se dar incrivelmente bem, apesar de terem uma grande diferença de idade entre elas. Alexander passa um braço ao redor dos meus ombros e me beija. Eu havia lhe contado sobre o concurso na mesma noite em que começamos a namorar e eu havia ficado de ler para ele... um dia. A verdade era que eu tinha vergonha. Não queria mostrar algo meia-boca. Ele merecia que eu lesse um best-seller, não um conto mais ou menos.
— Eu sabia que você ia conseguir – ele murmura no meu ouvido.
Eu duvido que ele soubesse, mas achava fofo quando ele dizia algo assim.
— É uma editora pequena, não é? – Minha mãe comentou de repente.
— Na verdade é nova... – eu respondi.
— Ah, isso explica porque eu nunca ouvi falar – ela retrucou, com desdém.
Sinto como se alguém houvesse jogado um balde de água fria em mim. De repente, eu me sinto desanimada. Quando vejo, meu pai está afundando o rosto em sua mão, e Mary-Jean encarara nossa mãe debruçando-se sobre a mesa. Ela pergunta:
— Mãe, sério?
— O quê? – Ela perguntou inocentemente.
— Dói para você dizer para Isabelle “Parabéns” como todo mundo fez? – Minha irmã perguntou. – Ela deu uma notícia maravilhosa e você está aí. Procurando defeitos...
Eu digo a mim mesma que está tudo bem. Que eu não me importo com a aprovação da minha mãe e que eu já tinha me acostumado a viver sem isso, mas se eu fosse sincera admitiria que era diferente. É diferente você dizer essas palavras quando sua mãe está há um canal da mancha de distância, e não há apenas alguns centímetros de você.
Olhar para a cara dela e perceber que ela simplesmente não dava a mínima para qualquer pequena conquista minha... doía. Doía mais do que eu esperava. Era quase uma falta de empatia. Como se ela simplesmente não pudesse ficar feliz por eu estar feliz.
Isso quase me dá vontade de chorar. Isso machuca muito.
Mais do que o que eu esperava.
— Sim, é uma editora que está começando agora. Mas se você for ver, o que você não viu, ela já tem bons títulos publicados.... Não que você saiba algo sobre livros bons já que você não tem o hábito de ler. A questão é que eles queriam algo novo, algo exclusivo, então lançaram esse concurso que muita, muita gente participou – eu digo. – De mais de 20.000 contos enviados o meu ficou em segundo lugar. E mesmo assim você faz questão de fazer parecer que não é grande coisa?
Minha mãe parece surpresa.
Talvez porque fosse a primeira vez que eu defendia algo na frente dela. Mas eu estava tão cansada... tão farta das suas constantes tentativas de me desmerecer e me sufocar naquele mar de medo, dúvida e falta de autoestima. Eu simplesmente não aguentava mais. Não queria mais aguentar.
— Quer saber, só deixa para lá. Finge que eu não falei nada e pede a conta, por favor – eu digo, irritada, levantando-me da mesa. – Eu já volto.
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