Good Gone Girl
24 Capítulo 24 – A Conversa que Nunca Tivemos.
Notas iniciais
Capítulo 24 – A Conversa que Nunca Tivemos.
Eu me sinto péssima comigo mesma, quando acordo ao lado de John.
Há uma voz na minha cabeça que diz: “Você sabe que isso não é certo”.
É, eu sabia.
E sabia que a “Bell boazinha e bestinha” nunca faria algo como aquilo, ainda mais por raiva ou vingança. Sei que a “Bell boazinha” preferiria sair chorando ao descobrir que a pessoa que roubou sua calma durante duas semanas estava de boa, dando em cima de outra garota. E então eu percebi que eu havia conseguido, havia mudado, ao menos um pouco.
Não queria ser “uma garota má”, que fazia coisas como impulsivas e incontroláveis? Bem, missão cumprida. Ganhei. Porém... por que eu não conseguia me sentir bem com isso? Por que eu me sentia tão... vazia?
Acho que foi uma vitória inglória. Como uma jornada que você completa o objetivo que sempre almejou e descobre que o objetivo era outro. Não era uma questão de chegar ao topo da montanha, mas era sobre a escalada.
— Você está se sentindo culpada – John disse ao meu lado.
Não havia sido uma pergunta, mesmo assim respondi:
— Estou.
Ele ficou em silêncio. Fico apenas ouvindo a sua respiração, até que eu olho para ele. Queria saber se, de algum jeito, admitir aquilo o havia magoado ou alguma coisa assim (eu ainda me importava o suficiente para não gostar de magoar alguém que não tem nada a ver). Porém, ele estava fitando o teto do seu quarto, na república que ele vivia. Meu antigo dormitório com Lauren, ironicamente. O mundo dava voltas.
Não sei como não me esbarrei com ela naquela noite.
Teria sido a cereja do bolo de carma: Mike, Alexander, Lauren.
Sendo sincera comigo mesma, eu não me sentia mal por ter dormido com John. Ele não era feio e era engraçado. Ele tinha um rosto bonito e sem o coque samurai ficava parecendo uma estrela do rock, tão magrelo quanto. Mas dormir com ele não foi como dormir com Alexander.... Dormir com ele foi mediano. Não foi intenso, não foi maravilhoso, mas não foi decepcionante (bem, difícil se decepcionar com alguma coisa que você não tem expectativas, certo?).
Foi O.K. Bom até eu ter consciência do que estava fazendo.
Aí foi péssimo. Sou uma má garota. Muito má.
— Sabe.... Eu acho que você gosta dele – John disse depois de um tempo. – Daquele ruivo. Você não disse o nome dele no meio do sexo, nem nada assim – Ele riu. – Mas estava na cara que você pensava nele.... E que você estava bem puta.
Eu fico com vergonha por isso ficar tão claro, então lhe dou um empurrão.
— Não tem graça – eu disse.
Porém há um sorriso insistente se esgueirando pelo canto dos meus lábios.
— Eu não estou brincando, estou falando sério. Você agiu como uma garota ciumenta – ele respondeu. – E sabe o que causa ciúmes, não sabe?
“Ciúmes? ”.
A palavra me atingiu tão repentinamente como um raio. Forte e estrondoso, de abalar minhas estruturas. Se tivesse explodido uma bomba naquele quarto desarrumado, eu não teria ficado mais surpresa. E mesmo assim, era óbvio. Óbvio que eu estava com ciúmes, por isso eu fiz questão de mostrar para ele que desaprovava aquela garota; por isso aquela vontade de pular em cima da loira aguada e acabar com ela.
Por que Alexander era meu... ou pelo menos ele foi.
Sentei-me na cama de John, não conseguindo nem respirar direito. Eu acho que estou em choque. Mas... meu Deus, talvez eu gostasse de Alexander mais do que eu esperava. Mas eu nunca senti isso antes. Esse ciúme.
Nem quando minha mãe demonstrava preferência pela minha irmã. Eu sentia rejeição e me sentia deixada de lado... mas eu nunca dei chilique por essa diferença de atenção e muito menos tive um ataque de raiva como com Alexander. E eu também nunca senti isso com qualquer outro garoto. Eu sentia tristeza, talvez.
A única vez que eu senti algo assim... foi quando soube que Lauren me traiu com Mike. Primeiro eu senti tristeza, me senti ferida, humilhada, e então... eu senti raiva. Uma raiva quase parecida com aquela. Mas essa foi mais violenta. Por causa do álcool?
Pode ser, meus ciúmes por ele foi algo... descontrolado.
— Eu gosto dele – murmurei, em choque. – Gosto muito dele.
Mais do que eu gostaria de admitir.
John se sentou do meu lado.
— Okay... E quando você vai falar isso para ele? – Ele perguntou, apoiando o queixo no punho. Seu cotovelo apoiado nos seus joelhos numa expressão de tédio. — Quer dizer, não adianta você perceber isso e não fazer nada a respeito.
Olhei para ele, sem nem conseguir respirar.
Ele estava me encorajando a correr para os braços de outro?!
— Eu não vou falar para ele! – Eu disse horrorizada. – Ele vai... vai rir da minha cara... E então decidir que não quer uma garota como eu. Você viu, a fila dele já andou.
Meu amigo (é, depois de ontem, ele deve ter virado meu amigo sim) arqueou uma sobrancelha para mim, como se nada do que eu falasse fizesse sentido.
— Do que você tem medo? – Ele perguntou.
Franzi o cenho para ele. Eu tinha medo de muitas coisas. Medo de perder meu pai e minha irmã, medo de não conseguir ser o que eu quero ser, medo de não saber que rumo estou dando para a minha vida... medo de ser descartada tantas e tantas vezes pelos garotos que eu acabe... não me importando mais.
— Pense, qual é a pior coisa que ele pode fazer se você falar para ele?
Eu olho para os olhos claros de John e penso.
— Ele pode... dizer que não quer o meu jeito complicado e emotivo. Ele pode dizer que não quer... minhas complicações e ele pode... dizer que não quer lidar com uma pessoa carente como eu – murmurei. – Ele provavelmente me dispensaria, mais cedo ou mais tarde... como todo mundo sempre faz.
Abaixei o olhar.
Pensar nisso doeu.
Eu queria que Alexander fosse diferente. Lá no fundo... eu queria ser a garota dos livros água-com-açúcar, cujos relacionamentos clichês dessem certo ao menos uma vez.
— Foi por isso que eu pedi um tempo – murmurei. – Eu não suportaria... que logo ele me dispensasse porque eu me apeguei quando não devia.
Mas até então, eu sempre me apego, né? Até quando não tento.
— Deixa eu ver se entendi... você dispensou ele... porque achou que ele ia te dispensar alguma hora... e então ficou com ciúmes porque ele seguiu em frente? – John perguntou, lentamente, inclinando a cabeça para o lado como se fosse um problema difícil de entender.
Quando ele falou assim, parecia que eu tinha feito uma idiotice. Fiquei vermelha.
— Hum... acho que... sim – respondi, encolhendo-me. – Mas eu não “dispensei”... eu pedi um tempo. Talvez, com um tempo longe eu... conseguisse des-gostar...
Ele arqueou uma sobrancelha para mim.
— Tá, e todo mundo sabe que “dar um tempo” é “dispensar” – ele disse.
E então ele teve uma crise de riso. E daquelas que o havia tornado famoso na nossa sala. Seu corpo treme convulsivamente enquanto ri que nem uma hiena. Eu vou ficando vermelha a medida que sua crise se estende porque isso é constrangedor. Então eu espero ele acabar com seu lendário ataque de riso até que ele se acalme e volte a falar como uma pessoa normal.
Quando ele se controla, ele enxuga as lágrimas nos cantos dos olhos.
— Você é tão doidinha – ele disse.
— Eu sou retardada – eu respondi.
— É, isso também – ele concordou, fazendo-me lhe dar um empurrão no braço. Ele não precisava concordar. – Como você pode ter tanto medo de se arriscar? Por que você pensa tanto nas consequências das coisas?
Ele volta a se jogar na cama.
— Desde que eu te conheci eu senti isso em você, sabe? – Ele disse reflexivamente. – Que você tem medo de cair de cabeça. Você pensa muito nas consequências das coisas.
— Aparentemente, ontem eu não pensei – respondi com sarcasmo.
Um sorriso safado se esgueirou pelo canto da boca dele.
— O coração é um músculo, Bell, não é feito de vidro para ter cuidado – Ele disse. – Bem, se você falar para ele, aquilo é o máximo que ele pode fazer.... Sabe, rir da sua cara e dizer tudo o que você disse e te dispensar.
Pergunto-me se isso é ele tentando me encorajar.
— Mas, se você falar a verdade, pode ser que ele diga: “engraçado, eu sinto a mesma coisa por você”. E aí? Não seria da hora se você jogasse verde e colhesse maduro? Você não acha que é um risco que você poderia correr?
Risco... Um risco que valia a pena correr...
De repente, lembrei-me do dia em que eu fiz a minha tatuagem. Mais cedo, quando eu tinha ido para aquela cafeteria com Alexander. O que ele havia me dito? “Quando eu quero uma coisa, vou lá e faço As pessoas dizem que eu gosto de arriscar. Por isso minha banda se chamava Blindspot”. E o que eu havia pensado? “Não quero mais ser a garota que espera”.
Chris havia dito que eu devia parar de me preocupar. E eu só havia me preocupado ainda mais. Eu devia ouvir mais a Chris, mas parece que eu sou boa em ignorar dicas inteligentes de pessoas vividas.
Sinto aquela onda de excitação e adrenalina tomar conta de mim novamente.
Eu devia me arriscar. Eu devia... correr riscos. Depois de todo o meu histórico amoroso... acho que meu coração já se provou ser mais forte do que eu esperava, certo? O que seria mais um fora diante da lista longa e dolorosa que eu tinha?
E de repente, tudo está muito claro para mim.
Olhei para John como se de repente houvesse nascido duas cabeças em seu ombro. Como podia um cara me encorajar a ficar com outro, depois de ter dormido comigo? Como era possível um relacionamento assim? Será que meu relacionamento com Alexander deveria ter sido assim desde sempre?
— Você não existe – eu disse.
— Eu sei – ele respondeu com um sorriso de canto. – Não existo mesmo. E esse é o momento em que você descobre que toda a sua vida foi uma ilusão e você na verdade é uma garota maluca internada num hospício.
Do jeito que estava a minha vida, eu sinceramente não me surpreenderia se eu fosse uma garota maluca internada num hospício. Minhas noites de sexo com Alexander sempre pareceram muito perfeitas para serem reais.
John é tão absurdo que me faz rir. E eu não acredito que estou rindo.
— Você devia ligar para ele... Tipo assim, agora. Na minha frente. Por que eu quero saber como esse drama vai acabar. Você espera eu fazer uma pipoca? – Ele diz.
Eu meneei com a cabeça. Sabia que ele estava me zoando porque eu nunca iria ligar para Alexander na frente dele. Não enquanto eu ainda estivesse nua depois de te transado com ele, pelo menos. Então eu comecei a me vestir rápido, precisava... Precisava conversar com o ruivo e botar todas as cartas na mesa, como disse Chris.
Eu ia chegar nele e dizer: “Alexander, eu gosto de você. Gosto de você e não consigo pensar em mais ninguém quando estou com você. Quero que você goste de mim também... E que você goste só de mim”.
Mesmo que parecesse a maior mentira do mundo agora, pois, ali estava John, a prova viva de que eu havia pensado em outro. Mesmo que minha cabeça não saísse de Alexander enquanto nós transávamos.
— Isso parece muito autoritário. Seja mais fofa – John opinou. Então ele começou a rir: — O nome do cara é Alexander?! Meu Deus! Não tinha um nome mais legal no cartório, não?! Quantos anos ele tem?! 50?!
Merda, eu disse em voz alta. Meu rosto se tingiu de vermelho.
Virei-me para ele, enquanto calçava os meus coturnos (eu sei, eram itens novos do meu guarda-roupa e os estava adorando, até a hora de ter que tirá-los e coloca-los), e franzi o cenho.
— Só para eu saber... Isso aqui que rolou... Foi o quê? – Eu gesticulo para ele e para mim, aquela cama e, provavelmente, a noite passada.
— Sexo casual – ele respondeu com ar sábio. – Você sabe, duas pessoas bêbadas e arrasadas afogando as mágoas um no outro, na busca de algum alívio.
Meu deus, e eu achei que eu fosse dramática.
— Você estava arrasado? – Perguntei incrédula.
Há, ele não parecia nenhum pouco arrasado.
— Eu podia estar – ele respondeu com um sorriso enviesado.
Novamente ele me fez rir. Esse cara era um absurdo. Pergunto-me se todas as pessoas que fumavam maconha eram que nem ele. Meio sem noção. Ou se era só ele que não se importava com as coisas mesmo. De qualquer forma, não sei como agir naquela situação. Devo agradecer? Devo... Só dar tchau e cair fora daquele quarto?
Não sei, mas fico parada no meio do quarto dele enquanto decido.
Como se essa indecisão estivesse estampada no meu rosto, ele diz:
— Tchau Bell. Acho que você tem um lugar para ir agora.
— Hum... claro – eu disse, hesitante e envergonhada. Depois de todo absurdo que foi ontem e agora, minha consciência resolveu mandar algum sinal de existência ao me devolver a “vergonha na cara”. – Tchau... e obrigada.
Um sorriso safado apareceu no seu rosto.
— Minha cama está à sua disposição – ele disse, acariciando-a.
De algum modo, eu sei que ele está zombando de mim.
— Não por isso – eu respondi, sentindo meu rosto esquentar.
— Ah... bem, eu sou bom com conselhos amorosos então, sempre que precisar, eu estou aqui também – ele respondeu, dando de ombros. – Você sabe onde me encontrar.
Dei-lhe um último sorriso e saí do seu quarto.
No corredor, eu comecei a discar para Alexander.
Ele não me atendeu, mas deixei uma mensagem patética no seu correio de voz. Algo do tipo: “Oi, Alex, é a Bell... a garota idiota que ontem saiu do bar puta da vida e que pediu para darmos um tempo há duas semanas, caso você não lembre” Eu sei, parecia ridículo ele não se lembrar, mas ontem, ele com a loira, parecia ocupado de mais para se lembrar de algo assim. “Eu preciso conversar com você... Conversar sério. O.K. Talvez não muito sério... Só, me liga de volta... se quiser... por favor”.
Eu sei. Pa-té-ti-co.
Só faltava eu me ajoelhar no chão e implorar para ele responder, mas enfim, a sorte foi lançada. Caminhei pelo corredor do alojamento, que eu conhecia bem a saída, com um misto de insegurança e agitação crescendo no meu peito até parecer explodir. E então eu percebi uma mensagem de texto no meu celular, enviada há alguns minutos.
Era de Lauren.
Eu devia voltar a falar com Lauren.
Agora eu sabia que apesar de ter sido uma traidora, ela não foi pior do que Mike. Na verdade, como eu, ela foi uma vítima dele. Mais uma vítima de seus jogos ridículos e machistas. O jogo de: “pegar coração das meninas, passar num triturador e transformar em suco para beber de canudinho enquanto repetia o processo com outra”.
Parei no corredor e abri a mensagem.
“Bell,
Sei que não fui a melhor amiga do mundo. Sei que eu cometi erros, erros muito graves, que te machucaram e feriram a única pessoa nessa cidade que realmente se importava comigo. Sei que fui uma puta, uma traíra e uma sem-vergonha. Sei que fui estúpida e ingênua... por acreditar em palavras bonitas e num belo par de olhos.
Já entendi que você não vai me perdoar, que você decidiu seguir a sua vida sem ter a minha amizade e tudo bem. Se eu estivesse no seu lugar, talvez escolhesse a mesma coisa. Me livrar das amizades falsas e que fazem mal, certo? Porque, eu tenho consciência que, no instante em que coloquei os olhos no seu namorado, me tornei uma amiga falsa. Porém, quero que você saiba que eu realmente sinto muito. E sinto mais ainda que todas as nossas aventuras e nossa amizade tenha acabado assim.
Por minha culpa. Só minha.
Do fundo do meu coração, eu espero que um dia você me perdoe.
Mesmo se eu não estiver mais aqui. ”
As palavras dela são tão sinceras... que sinto tocar no fundo do meu peito. Sinto-as tocar na minha alma. Não só porque ela admitiu o seu erro, mas porque ela simplesmente não inventou desculpas para ele. Ela só... admitiu que “foi fraca”. Como eu mesma havia sido. Não botou a culpa em ninguém, só nela mesma (o que eu sabia que não era verdade, mas era algo nobre mesmo assim).
Porém, havia algo na última frase... que me inquietava.
Como assim “Mesmo se eu não estiver mais aqui”?
Minha cabeça com ressaca lateja enquanto penso em vários significados para aquela frase. Ela podia estar voltando para casa, podia estar largando a universidade porque não iria ficar para ver Mike lindo e maravilhoso desfilando na frente dela.... Eu precisava falar com ela antes que Lauren fosse embora.
Andei pelo corredor, e desci as escadas até chegar no nosso quarto.
Bati na porta e uma garota apareceu.
Devia ser a nova colega de quarto de Lauren. Ela era nova, baixinha, de cabelos castanhos Chanel, óculos de grau e expressão séria. Devia ser um saco.
— A Lauren está? – Eu perguntei nervosa. Agitada.
— Não – ela disse, arrumando os seus óculos. – Ela organizou as coisas dela e disse que tinha um assunto para resolver no prédio administrativo.
Ela abriu a porta para me deixar ver o lado do quarto de Lauren. Estava todo organizado impecavelmente, e todos os seus objetos pessoais estavam guardados em caixas de papelão. É, parecia que ela estava de partida mesmo. Só assim para Lauren organizar o quarto. Ela sempre foi muito desleixada.
— Hum... O.K. Obrigada, eu vou procurá-la lá – eu agradeci.
A menina assentiu com a cabeça e então voltou a fechar a porta.
Soltei um suspiro e então pensei se, antes de qualquer coisa, eu não deveria ir tomar um banho e comer alguma coisa primeiro... Mas resolvi que ia direto para o prédio administrativo. Precisava encontrá-la logo e eu não sabia a que horas ela ia embora.
Por algum motivo, se ela fosse embora, não queria deixá-la ir com culpa.
Queria resolver tudo.
Sendo assim, saí do dormitório e caminhei em direção ao prédio administrativo. Ficava somente há alguns metros daquele dormitório, pois era próximo do prédio onde eu tinha as minhas aulas e Lauren tinha as dela. Como era o prédio mais alto do campus, eu conseguia vê-lo por sobre as copas das árvores.
Era um prédio bonito, antigo até. De seis andares, com o telhado cheio de pontaletes e gárgulas, devia datar do século XVI, eu acho. Não que entendesse de arquitetura. À frente do prédio, ficava uma pracinha com um chafariz no centro, onde as pessoas de artes adoravam se reunir para ficar em contato com a natureza.
Naquele dia não era diferente, havia muitas pessoas reunidas ali.
Quando me aproximo, vejo que essas pessoas estavam reunidas na praça em frente ao imponente prédio administrativo, olhando fixamente para alguma coisa perto do telhado. Elas estão gritando alguma coisa. Expressões horrorizadas.
Meu coração perdeu uma batida.
— SE JOGA LOGO, PORRA!
— PARA DE MIMIMI.
— VOCÊ NÃO TEM CORAGEM!
Ao perceber o que as pessoas gritavam, meu coração quase parou.
— NÃO FAÇA ISSO, POR FAVOR!
— PENSE NA SUA FAMÍLIA!
— VOCÊ É JOVEM, TEM UMA VIDA PELA FRENTE!
Assustada, eu olhei para cima, vendo somente uma garota magra e loira se apoiando na borda do telhado do prédio. Meu coração ficou preso na garganta. Eu não conseguia ver quem era, mas alguém tinha que pará-la!
— O que aconteceu? Quem é essa garota? – Eu perguntei para um grupo de meninas preocupadas perto de mim. – Alguém já chamou os bombeiros? A ambulância? A polícia?
Elas não me respondem, apenas negam com a cabeça, com os olhares vidrados para a menina magra. Tão magra que parecia ser capaz do vento passar e derrubá-la. Essa ideia me assustou, muito.
— Ouvi dizer que é a Lauren... Do curso de Jornalismo – uma das garotas enfim me responde. – Parece que ela brigou com a amiga por causa de um cara... E esse cara largou ela para ficar com outra... E então ela se sentiu sozinha e..
Eu paro de ouvir.
Por um instante eu penso: “Não, não é possível que essa garota seja a Lauren... Ela jamais faria algo assim”. Quer dizer, Lauren era uma garota bonita e inteligente, forte até. Ela não teria porque fazer isso, certo? Ela podia... só continuar com a vida dela, encontrar outro cara, outros amigos, e ser feliz.
Minha garganta se fechou.
Será?
Eu tentei enxergar a garota melhor. Para o meu pânico, a cor dos cabelos, a altura e o corpo... Realmente parecia a Lauren, mas... por quê?!
“Mesmo se eu não estiver mais aqui” ela havia escrito.
Talvez... Não de viagem...?
Puta merda. As coisas faziam sentido.
— LAUREN?! – Eu grito, largando minha mochila na grama. – LAUREN NÃO FAÇA ISSO, POR FAVOR! LAUREN?!
Não sei se ela é capaz de me ouvir de onde estou. São pelo menos seis andares de diferença de onde eu estou para onde ela está. Meu coração começa a acelerar no peito. Eu não podia deixar aquilo acontecer.
Sem pensar em mais nada, eu saio correndo para dentro do prédio. Subo as escadas correndo, com o coração pulsando em meus ouvidos. Eu tenho que pará-la. Preciso impedi-la de fazer o maior erro da vida dela. Por quê?! Por quê?! Por que ela faria algo assim?! Eu não sei. Ela era bonita, inteligente, engraçada, rica.
Quando chego no quarto andar, eu acho que não vou conseguir chegar a tempo.
E se ela já tiver pulado? E se eu não conseguir pará-la?
Subo os degraus de dois em dois, sem tempo para descansar. As pessoas estão na janela, olhando-a e gritando para ela. Eu preciso fazer com que aquilo acabe. Eu tenho que ajudá-la. Eu tenho que... Pedir desculpas. Desculpas por não estar do lado dela, por ter abandonado ela sozinha quando ela precisava de mim...
Meus olhos começaram a marejar. Meu Deus... Por favor, não...
Quando eu chego no sexto-andar, subo mais um, o andar da cobertura.
Para meu desespero a porta está trancada com alguma coisa. Alguma coisa do lado de fora. Primeiro tento abrir, mas ela não se mexe. Então tento fazer como nos filmes, e jogo meu peso contra ela. Não que o peso de menos de 50kg fizesse alguma diferença à porta de metal.
Desesperada e frustrada eu começo a bater e grito:
— LAUREN! LAUREN É A BELL! POR FAVOR, POR FAVOR, NÃO FAÇA ISSO! EU FAÇO O QUE VOCÊ QUISER, MAS... POR FAVOR, NÃO FAÇA ISSO!
Eu começo a chorar.
Sério que eu vou assistir a minha melhor amiga se matar e não vou conseguir salvá-la? Isso não pode acontecer. Não vou deixar acontecer.
Eu me esforço mais. Volto a tentar empurrar a porta, até meu braço doer e parecer que vai se descolar do meu corpo. Até meu ombro não aguentar mais. Volto a tentar abri-la de tudo quanto é jeito, mas ela não sede. A porta balança como se estivesse frouxa, mas não abre nem sob um decreto. Nem sob meus 50kg.
— POR FAVOR! POR FAVOR, NÃO... – Eu continuo gritando, sem fôlego.
Minhas pernas falseiam e eu me encosto na parede. Que frustrante!
De repente, um garoto aparece, subindo a escada também. Ele é alto e forte, de porte atlético. Está com uma camisa do time de corrida, suado e ofegante. Como se houvesse vindo correndo até ali. E então ele corre mais um pouco até o topo da escada, onde eu estava.
— A porta não abre – eu choro, desesperada. – A porta não quer abrir... Ela... Ela...
Eu não consigo falar. Só quero que alguém salve a minha amiga.
Ele não diz nada, me empurra para o lado e arromba a porta ele mesmo. Ele dá um empurrão com o seu braço, e quando ela não sede, ele dá um chute. O barulho é ensurdecedor, como um trovão no meio de uma tempestade, mas funciona e a porta se abre com um baque ainda mais barulhento.
— LAUREN! – Eu e ele gritamos ao mesmo tempo.
Ela se vira, assustada.
Ela estava em pé na platibanda. Quase pronta para pular.
Lauren parecia um fantasma do que costumava ser. Seu rosto estava cansado e derrotado. Sem maquiagem, sem produção... Só o cansaço e o vazio. Quase ouso dizer que não reconheço a garota que está à minha frente... Mas ela me olha. Ela me olha e seu rosto se transforma numa máscara de culpa e humilhação.
— Ele nos usou, Bell – ela disse para mim.
Ela não precisa dizer quem. Sei de quem ela está falando. Do cretino que nem sequer se importava com o que estava acontecendo. Que estava lá no campo de esporte, treinando para um jogo importante, sem se preocupar com os corações que ele quebrou.
— É isso o que ele quer, Lauren – eu digo, me aproximando dela devagar. – Por favor... Por favor não faça isso. Não deixe ele vencer. Não deixe ele te destruir.
Lágrimas surgem em seus olhos claros.
— Eu estou tão cansada... – ela murmurou.
Ela olha para baixo.
— Não! – O garoto ao meu lado disse. – Não faça isso. Ele não merece isso. Ele não te merece... Você é melhor que ele. Você é bonita e inteligente, Lauren. Você merece coisa melhor. Você consegue coisa melhor.
Quando eu consigo me aproximar, ofereço minha mão para ela sair da beirada.
— É isso o que ele quer, Lauren – eu digo. – Ele quer que você sofra, que você não siga em frente e que você se desmorone por causa dele... É assim que ele alimenta o seu ego. Não deixe ele vencer, Lauren. Você é melhor que ele e melhor que isso.
Ela olha para mim, com os olhos cheios de lágrimas.
— Me desculpa – ela pede. – Eu... Eu amava ele... Eu... Achava que ele me amava.
— Depois a gente conversa sobre isso... Por favor, sai dai primeiro – eu ofereço. – Bora, desce daí. A gente vai tomar um café... a gente vai conversar... a gente vai... se entender. Eu prometo. Vai ficar tudo bem.
Enquanto ela não pega a minha mão, eu não consigo nem respirar. Mas então ela sorri para mim, e estende a sua mão para pegar na minha. Eu consigo sentir sua pele pegajosa e fria de nervosismo. Consigo sentir o quanto ela treme porque não queria, realmente, estar ali. Não queria fazer aquilo.
E eu sorrio para ela. Ia ficar tudo bem.
Porém, é nesse segundo que tudo mudou.
É neste maldito segundo... Em que ela me oferece a sua mão. Em que eu consigo sentir sua mão na minha... Que o vento forte sopra e ela perde o equilíbrio. Deslizando pelo telhado e caindo.
Eu tento segurá-la... Juro que tento... Mas sua mão estava tão... suada.
Sua mão escorregou pela minha num piscar de olhos. Congelando-me no lugar.
— LAUREN! – O garoto ao meu lado grita, correndo para a mureta e olhando para baixo. – LAUREN!
Eu não consigo olhar.
Eu não consigo... O que acabou de acontecer?
Num instante ela estava ali, segurando a minha mão, sorrindo e com a certeza de que ia ficar tudo bem... E então, de repente... Puff, ela caiu. Eu a deixei cair. Não bastava eu tê-la empurrado para aquela situação, eu não a segurei forte como devia. Só consigo ouvir o grito das pessoas lá de baixo.
Aproximei-me de vagar, até o lado do garoto, onde ele ainda gritava por ela, e olho para baixo. Ela não caiu no gramado verde do parque à frente do prédio. Ela caiu dois andares abaixo, sobre um telhado de alguma janela pronunciada.
Ela está toda torta lá embaixo, como uma boneca quebrada.
A perna está em ângulos tortos, assim com o braço.
— Lauren – minha voz não passa de um sussurro.
Mas ela não responde. Não se mexe... Parece morta.
O garoto me joga o seu celular e diz:
— Liga para os bombeiros, uma ambulância, rápido!
Mesmo em choque, eu começo a ligar para a emergência, e peço ajuda. Mesmo em lágrimas e gaguejando, acho que a mulher que atende consegue me entender. Por que ela diz que já tem uma equipe de resgate a caminho e para eu ficar calma.
— EU ACABEI DE VER MINHA AMIGA CAINDO! COMO POSSO FICAR CALMA?! – Eu grito para ela. – POR FAVOR, VEM RÁPIDO! POR FAVOR...
Minhas pernas cedem e eu começo a chorar.
Agora eu sou uma criança de oito anos que não consegue fazer outra coisa que não chorar e pedir “por favor”. Por favor, o quê? Eu havia matado minha melhor amiga. Eu a havia abandonado com aquele... Aquele nojento...
Eu era uma péssima amiga.
Uma péssima amiga.
E uma péssima pessoa.
.
Tudo o que se passa a minha volta é um borrão.
Uma mistura de sons e cores que eu não consigo decifrar porque minha mente está num loop infinito. Lauren pegando na minha mão, eu lhe dizendo que ia ficar tudo bem, Lauren caindo, sua mão escorregando pela minha... E então tudo de novo. Parece que eu estava vendo um filme e rebobinando para a cena de tragédia, de novo e de novo.
Quando os bombeiros e paramédicos chegam, a primeira coisa que eles fazem é nos tirar do terraço para tentar tirar o corpo da minha amiga de onde ele estava. Eu não me lembro de descer as escadas, não me lembro de ir lá para frente do prédio, onde mais pessoas observavam a operação de resgate, mas eu não observo.
Eu não consigo olhar.
O garoto que tentou salvá-la está do meu lado, observando tudo com olhos atentos. E quando então a ambulância a leva, ele segura no meu braço e me guia para o carro dele. Eu vou, porque não sei o que fazer. Não sei o que estou fazendo. Não sei o que está acontecendo. Não sei mais de nada.
Tudo o que eu sei é que: Eu podia tê-la salvado, e falhei.
Então eu percebo que aquele estranho, aquele garoto estranho, quem tomou rédea de toda a situação e quem estava cuidando de tudo... se importava mais com ela do que eu havia me importado. E talvez por isso ele estivesse lidando tão bem com tudo aquilo, com tanta urgência, com tanta certeza.
Eu havia me tornado a estranha, deixando nossa amizade morrer. Deixando que um cara que não valia nada estragasse tudo entre nós duas. Sendo sincera, por um instante, eu pensei que era eu quem merecia estar lá, naquela ambulância... Não ela.
Quando volto a mim, percebo que estou num hospital.
Numa sala de espera, junto com o garoto estranho.
Pessoas vestidas de branco vão e voltam em passos rápidos e largos, como se sempre estivessem com uma urgência para atender alguém. Por algum motivo, meu braço está ardendo e então percebi a mulher que aplicava uma pomada na vermelhidão (que provavelmente se tornaria roxo) e inchaço que parecia tomar conta.
Quando olho para ela, ela sorri. Como se quisesse me acalmar.
— Lauren... Onde ela... está? – Eu perguntei, olhando ao redor.
O garoto ao meu lado é quem responde:
— Numa cirurgia. Para tentar salvar a espinha dela.
Sinto arrepios.
— Quê? – Murmurei.
Olhei para ele, e se havia alguém mais arrasado ou devastado do que eu, era aquele garoto. Suas mãos bagunçavam seus cabelos castanhos furiosamente, enquanto ele olhava o chão como se a coisa mais interessante do mundo estivesse lá.
— Da altura que ela caiu... Ela quebrou uns dois ossos do braço, a perna, algumas costelas... Mas o que mais preocupa... É a espinha dela... Ela pode ficar paralítica.
O ar saiu ruidosamente pela minha boca quando voltei a chorar.
Tudo parecia tão horrível. Tão demais.
Como se também sentisse isso, o garoto passou um braço em volta do meu corpo e tentou me confortar, acariciando minhas costas. Acho que ele mesmo já havia chorado quando ouviu a informação e por isso era capaz de entender o que eu estava sentindo. De qualquer forma, eu não conseguia acreditar... entender, o que diabos estava acontecendo.
Tudo parecia tão... rápido.
— Acho que eu vou vomitar – murmurei.
Atenta, a mulher que passava pomada no meu braço apontou-me a direção do banheiro e eu fui correndo para lá. Nunca pensei que as pessoas vomitassem em uma situação assim, nunca entendi porque o corpo tinha essa reação, ou se teria algo a ver com a ressaca. De qualquer modo eu vomitei. E então dei descarga e joguei uma água no meu rosto. Porém, bastou fechar os olhos para aquelas imagens voltassem à minha mente.
A imagem de Lauren caída, toda quebrada, me assombrava.
Ela segurando a minha mão... A mão dela escorregando entre as minhas...
Eu voltei a chorar. Simplesmente não conseguia me manter inteira, me manter longe daquelas imagens e daqueles acontecimentos. “Ela pode ficar paralítica” ecoava em minha cabeça, assim como o número de ossos que ela havia quebrado.
Por minha culpa.
Apoiei-me contra a parede do banheiro, e então deslizei até o chão. Sem forças nem para me manter em pé. Tudo o que eu queria mesmo era chorar e me perguntar “por quê?”. Por que ela? Por que por minha culpa? Por que quando ela decidiu não se jogar?
Por quê?
De repente, não estou mais sozinha no banheiro.
Braços fortes me envolvem e me puxam contra um peito quente e coberto com uma camiseta preta. Seu cheiro é familiar e eu me aconchego contra ele, enquanto continuo chorando, sem parar. Soluçando nos braços dele, agarrando-me a ele como se ele tivesse algum poder mágico de voltar no tempo.
— Você está tremendo tanto... – ele murmurou, apertando-me contra si.
Sua voz é tão terna. Parecia uma carícia.
Quando eu vejo, seus braços me carregam e me levam dali para outro lugar.
Um lugar seguro.
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