Good Gone Girl
20 Capítulo 20 - Amizade Colorida.
Notas iniciais
Capítulo 20 – Amizade Colorida.
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Eu nunca havia assistido Game Of Thrones antes.
Mas nós precisávamos arrumar o que fazer até Sasha e Ellie acordarem e passar horas ininterruptas fazendo sexo só me deixaria dolorida (como já acontecera quando fiz minha tatuagem e vim para este apartamento pela primeira vez). Então decidimos revezar: ora assistir GOT, ora fazer sexo. Parecia algo democrático. Até eu descobrir que esta era uma série de filho da puta.
— Pera. Você está me dizendo que o cara que disse que ia apoiar o Ned Stark na verdade estava do lado da Cercei? – Eu pergunto depois que o sétimo episódio da primeira temporada termina.
Ainda estou de boca aberta.
— Você pega as coisas rápido – Alexander responde.
Essa era primeira vez que alguém dizia isso. Geralmente diziam que eu era lenta.
— Aparentemente, só quando se trata de livros... E de séries... E de matérias teóricas – eu resmunguei. – Algumas pessoas do colégio me chamavam de nerd por causa disso... Mesmo que eu fosse um desastre em matemática... E em lidar com pessoas.
Ele ri.
— Você parece ter sido o tipo legal de garota na escola – ele diz.
Eu não tenho coragem de lhe dizer que eu não era, então só dou de ombros.
— Que tipo de pessoa você era no ensino médio? – Eu lhe perguntei.
— Uma vez, um amigo meu, muito inteligente, disse que o ensino médio é como uma prisão... E que eu não quero que as pessoas saibam como eu era na prisão – ele respondeu evasivamente.
— Isso é injusto. Te contei sobre mim – eu digo.
— Eu não tinha perguntado – ele rebate.
Tento não me sentir pessoalmente ofendida pela frase grosseira, pois há algo no modo como ele sorri de canto que faz com que a frase soe melhor do que ela parecia à primeira vista. Mesmo assim, cruzo os braços e só digo: “O.K.” E, de algum modo, isso é o suficiente para que ele repensasse se ia ou não me contar.
— Eu era o cara emo que gostava de coisas emos e que era zoado por isso. E talvez por ser zoado se sentisse o foda porque a garota mais bonita do colégio gostava dele, mesmo que ela jamais admitisse – ele responde dando de ombros. – E que se sentisse o astro do rock porque tinha uma banda de garagem que estava dando certo.
Tento não sorrir, porque não quero que ele pense que estou achando graça do que ele havia me dito... Mas ao mesmo tempo, não consigo não sorrir porque gosto de que ele tenha me contado afinal. Sinto que quero saber tudo sobre ele, porque sei de nada.
— Você parece ter sido o tipo legal de garoto na escola – eu digo.
Ele dá de ombros também.
— Eu era babaca – ele diz.
— Eu era carente – eu digo, mas sei que ainda sou.
— Eu achava que a vida era um filme de aventura que tudo dava certo, por mais que as coisas fossem uma merda – ele diz.
— E eu sempre achava que as coisas iam “ficar melhores” mesmo que elas não apontassem para esse lado – eu digo dando de ombros. – Eu era acomodada.
Seu rosto vira-se para mim, e meu rosto vira para ele. Estávamos senado lado a lado (ainda estou com o moletom dele, porém, sem calcinha e sem sutiã porque em algum momento ele perdeu esses dois itens do meu vestuário por sua casa) e ele ainda estava com sua roupa de dormir, ou com o que eu o havia permitido vestir como vingança por ele ter perdido minhas roupas íntimas; ou seja, ele estava só de calça de flanela. E só.
— O Ensino Médio é a maior merda que a humanidade já criou – ele diz.
— É – eu concordo.
— É como abrir um zoológico e não separar os animais carnívoros dos herbívoros. Tipo, só jogar leões com gazelas na mesma jaula e esperar a carnificina – ele diz.
Sua comparação me faz rir.
— Mas então você percebe que é só a natureza realizando o seu ciclo – eu observo.
Ele fica em silêncio e então concorda com a cabeça, como se estivesse admitindo que o que eu havia dito tinha sentido. Então ele segura a minha mão e me puxa para o seu colo. Eu me sento sobre ele, com as pernas ao redor de seus quadris e as mãos dele puxam os meus cabelos, soltos sobre meus ombros, para um lado.
— De qualquer forma você está aqui – ele diz, beijando meu pescoço.
— Aham – respondo semicerrando os olhos.
— A gazela sobreviveu aos leões – ele brinca.
Um sorriso se esgueira pelo canto da minha boca.
— Só para cair nas garras de um lobo, então eu pergunto que diferença fez?
Ele sorri, divertido.
— Eu sou um lobo então? – Perguntou.
— Sim, você é um lobo... Sem alcateia. Um lobo solitário – Alexander faz uma careta que não consigo decifrar. — Prefere outro animal então?
Ele finge pensar, mas não demora a dizer:
— Não. Lobo parece bom para mim.
Ele finge rosnar antes de me beijar sedentamente. Suas mãos me agarrando à ele, como uma agradável prisão da qual eu não queria escapar. Eu agarro seus cabelos e minha mão se perde neles, tal como minha consciência se perde quando sua língua investe contra a minha. Macia, quente e doce.
— Eca – Nós ouvimos.
Paramos de nos beijar e olhamos para onde Sasha e Ellie nos observam com expressão de nojo e surpresa, respectivamente. Fazendo com que meu rosto se tinja de vermelho e eu saia de cima dele em um pulo, mesmo que eu não quisesse. Porém, havia algo no olhar de Sasha que parecia ordenar que eu o fizesse e me fazia sentir um pouco... errada.
— Ora, ora, ora – Alexander diz, recuperando-se primeiro. – Bom dia, moças. Ou devo dizer, boa tarde?
— Olá para vocês que iam se comer antes de atrapalharmos – Ellie provoca.
Se fosse possível aquele momento ser mais constrangedor do que estava sendo, Ellie havia conseguido transformá-lo. Não entendo como ele não se afeta com essas provocações. Tudo o que Alexander faz é dar um sorriso de canto, como se zombasse da observação da loira.
De qualquer modo eu sei que eu estava envergonhada. Muito.
— Estávamos esperando vocês acordarem...
— É, nós vimos como – Sasha retrucou num tom malicioso.
Novamente, fiquei vermelha e tudo o que eu queria era sumir dali.
O que parecia ridículo. Elas sabiam que eu transava com Alexander, como elas esperavam que eu passava o tempo? Jogando cartas com ele? Penso por um instante. Nossa, jogar cartas parece algo tão sem graça, a menos que fosse... Strip Poker. Meu corpo ferve diante da visão e tenho que me lembrar que preciso me controlar.
Meus pensamentos andavam muito descontrolados.
— Ei, Bell, você quer?
Eu me sobressaltei e olhei espantada para Alexander.
Meu Deus, será que ele havia lido meus pensamentos? Será que ele podia ler meus pensamentos ou será que eu havia deixado escapar algo assim em voz alta? Mas pera, eu quero o quê? Jogar strip poker? Nossa, nunca pensei sobre isso. Será que eu queria?
— Pedir comida, criança! – Ellie quase gritou, trazendo-me de volta para o mundo. – Você quer pedir comida? Ou prefere comer quando voltarmos para o campus?
Eu fico vermelha de repente.
— Ah... Ahn... Eu... Não sei? – Respondi.
Minha resposta foi ridícula, eu sei.
Alexander dá uma risada, seguido por Sasha e Ellie e u não sei do que eles estão rindo. É como se seus amigos soubessem de uma piada e você não porque você é a piada. Só consigo sentir meu rosto ficar ainda mais vermelho.
— Meu Deus, você quebrou a nossa amiga – Ellie diz entre risos.
— E olha que ela tá na garantia! – Sasha responde.
E então eles se matam de rir mais um pouco, às minhas custas.
Talvez eu já houvesse passado tanto tempo no colégio, com as pessoas rindo da minha total falta de atenção, que eu já nem me incomodasse mais com isso. Ou talvez, eu não me incomodasse porque meus amigos eram quem estavam rindo. E não havia nada de errado em fazer os amigos rirem... Mesmo que seja de você.
— A gente pode pedir quando voltar pro campus – Eu respondi em fim, quando eles se acalmarão. – Não quero abusar ainda mais do Alex.
E então eles voltam a rir novamente.
— Ela disse “abusar”! – Ellie gritou entre gargalhadas.
Dessa vez, eu me rendi aquele momento porque, tenho que admitir, foi engraçado.
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Alexander ofereceu carona para mim e as garotas, porém, decidimos que não iriamos abusar ainda mais da hospitalidade dele. Por hora, seria melhor deixarmos ele em paz, já que o estamos perturbando desde madrugada. Sendo assim, pegamos o metrô para o campus, usando as mesmas roupas de ontem. Não devia haver nada mais vergonhoso do que voltar para casa desde jeito.
— Bell? – Sasha me chamou de repente, tirando-me dos meus pensamentos.
Olhei para as duas, que pareciam um pouco ansiosas.
— Nós duas estamos preocupadas com você... e com o Alex – Ellie disse. – Quer dizer... Não queremos ser estraga prazeres nem nada, mas... Você está gostando dele?
Eu franzi o cenho para as duas.
— Claro que gosto dele. Ele é legal – eu disse.
— Não. Ela quis dizer se você está gostando muito dele – Sasha disse, parecendo impaciente. – Tipo, você está achando que vão começar a namorar ou alguma coisa assim? Ou está pensando tipo num relacionamento exclusivo? Por que, conheço meu amigo ali, e ele não é meio... Meio...
— Insensível com essas coisas – Ellie disse.
— Eu não diria insensível – Sasha disse. – Ele só é meio... Incógnita. Você não sabe o que ele sente de verdade ou pensa de verdade, por isso você nunca sente que pode conhecer ele de verdade.
Continuo sem entender o que gerou aquela conversa.
— Bem, não precisam ficar preocupadas – eu disse, tentando soar tranquilizante. – A última coisa que eu quero no momento é namorar alguém... Então, prometo, eu tenho meus sentimentos sobre controle.
Dou um sorriso. Mas ele vacila, porque eu mesma duvido de minhas palavras.
Acho que elas percebem, porém não insistem nesse assunto. Somente mudam, dizendo que deveríamos sair hoje para dançar. Elas estavam com vontade de dançar e quem as ouvisse falando assim, até pensaria que elas não estavam se recuperando de uma ressaca horrível. Quando as lembro disso, elas somente dizem que vão se sentir melhor depois de comer alguma coisa e se hidratar.
Tudo que eu consigo pensar, é nas palavras que Alexander disse depois que ele me beijou pela primeira vez (comigo estando sóbria): “Então não se apaixone”. Isso significava que ele não queria que eu me apaixonasse por ele certo? Na época eu o achava uma pessoa completamente estranha e inacessível. E quem diria que muita coisa havia acontecido depois disso.
Será que eu havia me apaixonado por Alexander?
Por isso eu sei que elas estão sendo sensatas... Ao passo que eu não estou sendo.
Fico pensando nisso quando paramos numa das cafeterias do campus, para elas tomarem seu café da manhã, e quando volto para o meu quarto no dormitório. E quando Chris diz que eu já posso tirar a tala do meu pulso. Como eu fico quieta o tempo todo, ela começa a estranhar meu silêncio.
— Está tudo bem, Bell? – Ela perguntou quando acabou.
Eu solto um suspiro e dou de ombros.
— Depende, tem algum exame para saber se estou me apaixonando por alguém?
Ela ri com a minha brincadeira, enquanto meneia com a cabeça.
— Não sei quanto a isso, mas vai encontrar atendimento psicológico no bloco D, neste prédio – ela respondeu. – Sempre tem alguém de plantão.
— Plantão? – Perguntei surpresa.
De repente imaginei alguém desejando desesperadamente morrer no meio da madrugada e procurando um plantonista para falar sobre isso, por mais que eu não soubesse como isso funcionasse. Seria interessante, de um jeito dramático.
— É... Mas se não for nada tão grave, pode se contentar com meu ombro amigo – Ela se oferece, com um sorriso contido. – Sou todo ouvidos.
Eu sorri, agradecida.
— É que... Tem esse cara... Que eu acho interessante e... Não sei, faz eu me sentir... Sei lá, livre? Tipo, como se eu não tivesse nenhuma obrigação com ele e... Como se eu pudesse fazer... Tudo o que eu quisesse e estivesse tudo bem nisso... – Eu comecei, fazendo pausas como se eu tentasse descobrir o que exatamente eu sentia com Alex.
— Hum – minha colega de quarto diz com interesse.
— E tipo... Eu nunca pensei que... Eu pudesse sentir isso – Eu confessei. – Porque todos os caras com quem eu já saí eram tão... “Você tem que fazer tal coisa por mim, porque você me ama”. Por exemplo, Michael me fazia assistir seus jogos mesmo que eu não entendesse nada do jogo e odiasse estar no meio de tanta gente – eu digo. – E eu ia porque... Era o que ele esperava da namorada dele.
Chris está com o queixo apoiado no punho, olhando-me com atenção.
— Quando eu o conheci, falei para que não queria me apaixonar... E ele falou “Então não se apaixone”... E então eu fiquei: “ah, hum, acho que consigo fazer isso”... Mas eu estou com medo de, o fato de eu gostar tanto dessa sensação, acabe fazendo com que eu me apaixone por ele... Mesmo que eu não queira.
Ela está pensativa, consigo perceber pelo brilho nos seus olhos claros.
— Bem... Pelo que você diz, este relacionamento é tipo uma amizade colorida? – Ela sugere, fazendo-me concordar com a cabeça. – Bem, você já parou para pensar que essa “liberdade” é o que significa “amizade colorida”? Quer dizer, como ele vai cobrar alguma coisa de você se vocês não são mais nada um para o outro?
Eu inclino a cabeça. O que ela diz faz sentido.
— Bem, se você quer saber, eu acho que a questão está em criar ou não expectativas. Por exemplo, agora que você sabe que essa liberdade é normal neste tipo de relacionamento, deve saber que quando ele age assim com você, não é porque “você é especial”, mas porque é normal – ela concluiu. – Se você se sente bem nisso... Só curta. Sem se preocupar. A vida é muito curta.
Por algum motivo, me sinto mais calma. Talvez porque ela tem razão.
Era exatamente o que eu estava fazendo até Sasha e Ellie colocarem na minha cabeça que eu poderia estar me apaixonando por ele. Imagino que o fato de eu não sair com outras pessoas, e o fato de eu preferir ficar colada nele, havia sido o que mais as preocuparam. Pois bem eu vou provar para ela que não estou somente com aquele ruivo tatuado na minha cabeça.
— Obrigada, Chris – eu agradeço. – Você me aliviou muito.
Ela sorri.
— Porque eu acho que tem algo a ver com aquele ruivo de outro dia – Ela pergunta num tom malicioso, que me deixa vermelha até a raiz dos cabelos. – Meu Deus, eu acertei!
— Tava óbvio? – Eu perguntei, constrangida.
— Com todo respeito, Bell, você não é o tipo de garota que vive rodeada por caras, sabe? Como só vi um cara te rondando, imaginei que seria ele – Ela comentou divertida. – Você tem certeza que ele não quer nada sério com você? Ele pareceu beeeem chateado quando te viu com o braço machucado.
Eu podia lhe dizer a história que ele me contou, sobre Sasha e seu irmão, mas eu não teria coragem de comentar algo tão pessoal. Então eu apenas nego com a cabeça e digo que tenho certeza que ele não queria que eu me apaixonasse por ele porque ele não se apaixonaria por mim.
Pensar nisso me incomodou mais do que eu poderia dizer.
Quer dizer, por que ele não se apaixonaria por mim?
“Obviamente porque ele não é um cara carente e porque ele deve ter total controle sobre os seus próprios sentimentos” penso com sarcasmo para mim mesma.
— Meu Deus, e se eu não tiver estrutura emocional o suficiente para não me apaixonar por ele? Quer dizer, eu sou tão carente e tão insegura que...
— Calma, Bell – Chris riu. – Eu acabei de dizer para você não se preocupar com o futuro! Só... Curta. Ao menos uma vez na sua vida, curta o momento... Algo me diz, que você está sempre tentando agradar alguém e que as pessoas gostem de você, então já que você não está fazendo nada que o faça gostar de você, você acha isso estranho. É minha outra teoria.
— Que também faz sentido – eu admiti num suspiro.
Fazia sentido que eu não entendesse porque desgraças Alexander gostava de mim. Afinal, mais do que nunca eu começava a me perguntar porque ele me acharia atraente, já que eu não era uma garota do tipo que caras tatuados e ex-emo gostassem. Na verdade, eu tinha certeza que eu era o tipo de garota que caras como Michael adorava se aproveitar.
— É porque eu sou carente – murmurei para mi mesma.
Chris deu um sorriso.
— Se você ser carente faz de você essa pessoa tão gentil, o mundo precisa de mais pessoas carentes. Precisamos de mais pessoas que se importem – ela respondeu.
Eu franzi o cenho, quase não conseguindo acreditar no seu elogio a mim.
— Obrigada. Por cuidar de mim e por me ouvir – Eu agradeci, tentando não parecer tão envergonhada quanto eu estava. – Você é muito sensata.
Ela ri.
— E você... É muito inocente – ela disse. Antes de morrer de rir.
Eu não saberia dizer qual foi a graça, mas eu ri também.
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