Good Gone Girl
39 Capítulo 39 - Isabelle e os Telepatas
Notas iniciais
Capítulo 39 – Isabelle e os telepatas.
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E é assim que eu passo doze horas trancada na emergência de um hospital.
É incrível como eles te colocam em “observação” mas não parece ter ninguém te “observando”. Exceto Alexander. Alexander está sempre ali, como se fosse a minha sombra. Em todos os exames que eu fui fazer, ressonância magnética ou tomografia, ele estava lá. E isso estava começando a me deixar muito irritada. O que ele queria afinal? O que ele pretendia cuidando de mim daquele jeito? Ele tinha ideia do quanto doía?
No entanto, não consigo um momento para confrontá-lo.
Quando eu volto do último exame que eu precisava fazer, o policial se viu liberado para fazer perguntas idiotas, tipo: “o que foi que aconteceu? ”.
— Hum.... Eu estava entrando no meu quarto, completamente distraída, quando Mike me empurrou para dentro e disse que eu roubei um caderno dele – eu contei. – Respondi que não sabia nada do que ele estava falando, mas que eu me sentia lisonjeada por ele achar que eu ainda me importava com ele.
Ouvi uma risada vindo de um dos garotos estranhos na sala de emergência. Ele recebeu uma cotovelada do cara moreno e não sei porque eu achei isso tão legal. Como se eles fossem muito amigos.
— Acho que ele não esperava que eu respondesse então ele ficou surpreso e eu aproveitei para fugir do quarto – eu continuei. – Aí ele me pegou no corredor.
Senti medo ao me lembrar daquilo. E vergonha. Havia algo de muito constrangedor falar algo assim na frente de seus amigos e de gente estranha. Me sentia como uma personagem de uma peça, e quase senti vontade de fazer uma reverência e perguntar se eles estavam aproveitando o show.
— E você pegou o caderno dele? – O policial perguntou.
Perguntei-me que tipo de pergunta era essa.
— Não... – eu respondi confusa, então completei: – Mas talvez tenha algo a ver.
— Por que você não disse a ele? – Ele voltou a perguntar.
Novamente, eu fico muito confusa... e indignada.
— O que você acha que teria acontecido se eu tivesse dito para ele? – Perguntei. – Opção número um, ele simplesmente não ouviria porque na cabeça dele eu peguei o maldito caderno; opção número dois, ele me largaria e diria: “ah tá, desculpe te incomodar. Quer tomar um chá enquanto você me conta sobre isso? ”. – Dei um sorriso sarcástico e falei: – Ele já me agrediu uma vez por muito menos que um maldito caderno...
— Por que ele te agrediu antes? – Ele perguntou.
Eu franzi o cenho para o policial, novamente, perguntando-me o que aquilo teria a ver.
Tipo, vá refazer seu curso de policial, que está tudo errado.
— Porque ele me viu com outra pessoa... – eu respondi, pausando de repente. Me sentindo muito mal por dizer isso na frente do Alex. “Outra pessoa”. – Então ele achou que seria legal me colocar um pouco de medo... tipo assim, torcendo o meu braço e me mandando ficar quieta, na minha.
— Meu deus, foi o Mike?! – Ellie perguntou espantada.
— Parece muito óbvio agora – Sasha comentou, com o olhar baixo, e muito... muito furioso. – Eu vou matar esse filho da puta se ele aparecer na minha frente. Juro por Deus!
Eu me encolhi, desconfortável.
Tinha me esquecido que eu não havia contado para elas. Só para o ruivo.
— E por que você não fez um B.O. naquele tempo? – O policial perguntou.
Minhas mãos tremem e eu não sei se é de raiva ou de constrangimento. Só sei que de repente eu queria que ele fosse embora e sumisse da minha frente. Por que eu me sentia sendo julgada. Todo mundo disse que eu deveria ter feito alguma coisa, mas será que eles tinham noção do que implicava tudo aquilo? Que “fazer alguma coisa” seria comprar uma briga que eu não estava com a mínima vontade de ter?
Eu me sinto muito covarde.
Eu tive medo, naquele tempo, e me pergunto se era isso o que ele queria ouvir. Que eu era uma garota medrosa que preferia fingir que nada acontecia do que ter que lidar com tudo aquilo. Com toda aquela situação embaraçosa...
— Eu pensei que o foco fosse o fato do ex-namorado dela ter tentado estrangulá-la – Alexander disse, enfim, dando um passo à frente. – Não importa se foi por causa de um caderno ou se foi porque ela estava com outro cara. Ele poderia tê-la matado!
Olhei para ele de soslaio. Ele estava com aquela expressão muito intimidante que deixava as pessoas com medo, e até então estivera muito quieto do meu lado. Quase era estranho voltar a ouvir a sua voz. Por algum motivo, me senti como uma garotinha com um pitbull do lado. Sim, Alex era o meu pitbull.
O policial empalideceu de repente.
E isso me lembrou de quando vi o ruivo no bar pela primeira vez. O modo como suas tatuagens pareciam amedrontadoras à meia luz e no modo como ele fez pelo menos dois caras empalidecerem daquele mesmo jeito aquela noite.
— Eu só estou tentando entender as coisas, rapaz – ele respondeu na defensiva. Antes de virar para mim e dizer: – Então... Ele te pegou no corredor.
— E me pegou em cheio. – Eu estremeci só de lembrar.
— Preciso que você descreva – ele pediu.
Soltei um suspiro audível. Essa tortura não acabava, não é?
Descrever? Mesmo? Tudo bem, eu era boa em descrições, afinal, eu sou uma estudante de literatura. No entanto, havia algo de extremamente vergonhoso em descrever como você apanhou na frente de seus amigos e de desconhecidos tatuados.
— Hum... Ele me agarrou pela cintura... e me jogou contra a parede – eu disse, hesitante. Por algum motivo, dizer isso assim, em voz alta, era assustador. Como se tornasse tudo muito real. – Então... ele ficou puto... porque eu fugi, e me deu um tapa.... Depois ele me segurou pelo pescoço e perguntou onde estava o caderno.... E e- eu achei que fosse morrer...
Não percebo o quão perto eu estava de chorar, até que escutei o barulho da porta de repente e, quando olhei ao redor, Alexander havia sumido da sala. Senti-me mal. E envergonhada. E horrível. Mas juntei minhas mãos trêmulas no colo.
— Eu acho que o provoquei... então ele ficou com raiva e me empurrou de novo contra a parede. Foi quando bati a cabeça e não me lembro mais de nada. Acordei aqui –eu terminei, enxugando meus olhos úmidos.
Ele anota tudo o que lhe digo, e sinto a mão de Sasha no meu braço. Como se ela quisesse me dar algum apoio. Eu gosto porque dá certo, eu me sinto um pouco melhor. Tenho certeza, que teria me desfeito em lágrimas se não fosse por ela e Ellie ali. Mas havia algo muito ruim também. Como se eu estivesse machucando as duas falando essas coisas na frente delas. Me sinto mal por preocupá-las daquele jeito.
— Foi quando vocês apareceram? – O policial perguntou para o grupo de rapazes.
— Sim – respondeu um deles, que não era o moreno.
O moreno havia saído da sala também e eu não tinha visto. Esse possuía cabelos castanhos e longos, até o ombro, tatuagens pelo pescoço, e rosto muito anguloso. Queixo protuberante, testa larga e nariz grande. Parecia uma caricatura de algum metaleiro genérico.
— Chegamos logo depois – ele continuou. – Sasha e Ellie deixaram ela sozinha para nos chamar e aconteceu tudo isso. Foi questão de minutos.
Franzi o cenho, para que elas iam chamar eles?
— E vocês não viram ele entrando no alojamento? – O homem confirmou.
— Não. Achamos que ele já estava lá dentro ou entrou pelos fundos – outro respondeu. Esse era loiro de olhos azuis, cabelos grandes (mas não tão grandes quanto do primeiro) e piercings variados pelo rosto.
Então acabou e ele foi embora. Instruiu-me a fazer um “exame de corpo delito” assim que possível. Algo que eu não poderia fazer no campus da universidade, e sim na cidade. Então é assim. Foi embora. Sem promessas de prender Mike, sem promessas de pegar esse filho da mãe... só falou: “obrigado por sua cooperação” e foi embora.
— Só eu estou chocada com a falta de preparo da segurança daqui? – Ellie soltou de repente, como se não acreditasse.
— Ah, dá um desconto. O cara é segurança do campus, quando você acha que ele tem um problema de verdade para resolver? – Outro dos garotos disse. Esse era incrivelmente normal: cabelos repicados pretos, e olhos escuros. – Ele deve estar acostumado a lidar com gente fumando maconha e festas fora de controle com algum carro mergulhado na piscina.
Sasha olha para ele sarcasticamente.
— Você fala como se aqui fosse um American Pie— ela resmungou.
— E, não é? – Ele retrucou.
A ruiva deu-lhe uma cotovelada nas costelas e ele ri. Pareciam muito íntimos. Como o tipo de amizade que se cultiva com anos, ou com uma convivência intensa.
— Desculpa..., mas não faço a mínima ideia de quem são vocês – Eu comentei.
O grupo hesita e trocam olhares, como se de repente começassem a falar telepaticamente e isso meio que me irrita. Não deixa de ser uma forma de má educação você se comunicar de uma forma que nem todo mundo possa participar da conversa. Me senti excluída por ser a única não-telepata do grupo.
— Então... somos amigos do Alex – o garoto dos piercings me fala. Ele me estende a mão dizendo: – Prazer, sou Gus. E esses são Tyson e Will.
O cabeludo fez uma reverência, seguido pelo garoto “normal”.
— Ah, oi – eu respondi, incrivelmente sem graça. – Vocês já devem saber, mas sou a Isabelle. A garota quase estrangulada pelo ex-namorado.
Eles hesitam novamente.
— Que cena, falando nisso... – o rapaz moreno, Will, diz. – Sentimos muito.
Não sei porque ele diz algo assim. Como se fossem responsáveis por algo.
— Alex deve ter ficado muito puto. Não sei como ele não pulou em cima dele – Tyson comentou, fazendo uma careta. – Acho que ele ficou mais preocupado com você do que em bater no.... Qual o nome dele? Mike?
Seus amigos confirmam com a cabeça.
— Falando nisso, para onde será que ele foi? – Gus perguntou, olhando ao redor. – Ele saiu enquanto você falava... e acho que Oliver foi atrás.
De repente, os três garotos trocam olhares, mas antes que digam ou façam alguma coisa, a enfermeira aparece e diz que estou liberada. Mas que devo voltar caso sinta que há alguma alteração no que estou sentindo. Pergunto-me se o que eu sentia naquele momento tinha como ficar pior, mas não tenho coragem de lhe perguntar isso porque só quero sair dali.
Então seguimos para fora do hospital, o que me fez perceber que, pasme, aquele era o prédio de saúde do campus. Não um hospital, hospital. Mas a clínica da galera que estuda medicina, veja só. Ficava apenas alguns metros do meu alojamento. Essa percepção só não é mais assustadora do que perceber que já estava quase amanhecendo do lado de fora... e que Oliver e Alexander estavam discutindo do lado de fora.
Isso mesmo, discutindo. Não entendo bem o quê, já que chegamos no fim da conversa. Só sei que Oliver (e agora eu sei porque ele me parecia tão familiar) está entre o ruivo e o carro dele com a mão à sua frente dizendo:
— Sabe por que você não vai fazer isso? Por que ela precisa de você.
Então discussão acabou ali.
Porque Alexander hesita, olha para o seu amigo, e então para nós. O grupo intrometido que estava saindo da emergência e interrompendo algo muito pessoal. Eu não sei quanto aos outros presentes, mas eu me sinto desconfortável. Como se tivesse vendo uma discussão que não tinha a ver comigo.
Ou talvez tivesse.
Pergunto-me se Alexander estava querendo ir embora e Oliver apenas não deixou porque acha que eu quero que ele fique. Isso me deixa mal. Como se as pessoas achassem que eu era alguma obrigação que o ruivo deveria ter. De repente, eu me sinto muito rejeitada e insignificante. Porque não consigo pensar em alguém que queira ter essa obrigação de livre e espontânea vontade.
Meu coração se afunda no meu peito.
— Hum... então, posso voltar para casa – eu disse sem graça, como que para quebrar o clima. – Ou... para o meu alojamento... no caso.
— O quê?! Nem fodendo que você vai voltar para lá sozinha – Sasha disse.
— Hum, na verdade, acho que não tem problema, Sasha. Mike foi detido assim que vocês levaram ela para o hospital – Gus avisou, coçando o queixo. – Ele deve ficar lá até pelo menos amanhecer...
— Mesmo assim... – a ruiva insiste. – Você pode ficar no nosso apartamento, mas não vamos deixar você ficar lá.... Não sozinha. Chris só volta às seis.
Ellie fez uma careta para mim e disse:
— Eu acho que Sasha tem razão.
Eu sei que o que Sasha e Ellie dizem faz sentido, no entanto, eu não gosto disso. De ser tratada desse jeito. Quase sinto vontade de perguntar se eles não queriam contratar um segurança logo, ou se não preferiam me colocar dentro de uma gaiola para ficar protegida, mas fiquei em silêncio. Eu já estava me sentindo mal o suficiente com toda a bagunça que eu havia causado para dizer algo a eles.
— Ei! Vocês querem sorvete? – Will pergunta de repente.
— Quê? – Gus pergunta incrédulo.
O garoto dá de ombros.
— Sempre que eu saia do hospital, minha mãe me levava para tomar sorvete. Era a melhor coisa do mundo – ele explicou com um meio sorriso.
— Por isso que você sempre foi o cara que mais adoecia aqui, né? – Tyson respondeu. – E nós achando que você só gostava de enfermeiras, quando na verdade só estava de olho no sorvete!
Eles se provocam, mas era possível sentir que ainda havia algo tenso no ar
— Hum.... Sinceramente, estou com sono e cansada. Tudo o que eu quero agora é tomar um banho e ir dormir – eu disse, mas na verdade queria dizer que estava sem forças para fazer mais nada. Para aguentar mais nada. – Obrigada... por terem me salvado. E desculpa, por envolver vocês em toda essa situação chata de hospital, policia.... Sei lá. O caralho à quatro.
Eles me olham como se eu fosse uma garota estranha. E talvez eu fosse. Acho até que demorou muito para eles me olharem daquele jeito, para eles perceberem.
— Vamos, eu levo vocês – Alex disse, de repente, abrindo a porta do carro.
Ele dá mais um olhar para Oliver, como se eles tivessem telepatia.
Devia ser um dom do "clube dos emos".
— Hum... na verdade, Alex, acho que Sasha e eu vamos ficar para tomar sorvete com os seus amigos – Ellie disse, apressadamente, puxando Sasha para o seu lado como se quisesse que ela concordasse. – Você leva a Bell para o nosso apartamento em segurança, não é? Toma a chave. Contamos com você.
Eu fico mortificada com a tentativa clara de me deixar sozinha com ele.
Traidoras!
Mas meu coração me traí também, pulando no meu peito de ansiedade.
Eu não iria aguentar isso.
— Vocês têm certeza? – Ele perguntou, parecendo tão desconfortável quanto eu.
— Absoluta – elas respondem em coro.
Seus amigos estão com um sorriso no rosto que me envergonha, no entanto, parece mais vergonhoso ainda tentar lutar contra toda aquela situação, então eu apenas entro no carro de má vontade e coloco o sinto. Alex entra logo depois, mas não diz uma palavra. Só solta um palavrão, demonstrando seu próprio desagrado, e dirige em silêncio.
Um silêncio que me alivia, ao mesmo tempo que machuca.
Como alguém pode ser tão contraditória? Eu não sei. Talvez fosse porque eu era uma “garota que não sabia o que quer”. Eu queria que ele falasse comigo? Eu queria falar com ele? Ou queria apenas apagar minhas memórias e meus sentimentos e ter um segundo de paz? Nossa, esse simples pensamento faz com que eu me sinta mal. Seria muito mais fácil se eu pudesse desgostar das pessoas, com um interruptor.
Encosto minha cabeça, insuportavelmente latejante, no vidro gelado.
Mal podia esperar pelo momento em que tomaria um analgésico e poderia enfim dormir em paz. Já estávamos quase chegando ao apartamento de Ellie e Sasha quando ele resolveu tentar começar uma frase.
— Bell...
— Não quero conversar agora, Alexander. Por favor – foi tudo o que eu disse.
Como eu disse, ele tentou.
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