Good Gone Girl
38 Capítulo 38 – Você Está Muito Fodido
Notas iniciais
Capítulo 38 – Você Está Muito Fodido
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Quando eu consigo parar de chorar, eu digo algo tipo: “essa maldita TPM” e elas riem, mas sei que não acreditam. Então elas tentam falar de alguma outra coisa. Qualquer coisa que me distraía. E então, por volta das cinco horas da tarde elas dizem que precisam ir porque têm compromisso.
— Esqueci que tinha marcado depilação para agora – Ellie diz.
Eu franzi o cenho.
— Para vocês duas? – Eu perguntei.
Elas se encaram. Sasha arqueando uma sobrancelha.
— Hum... É. Achamos mais prático. Irmos juntas. Sabe como é, ficamos conversando enquanto esperamos. Uma dando apoio enquanto a outra grita por piedade e misericórdia... – Ellie continuou falando, e a cada vez que ela falava, mais estranha eu me sentia. – Da última vez, Sasha disse que viraria feminista para não precisar se depilar.
Sasha revirou os olhos.
— Eu já era feminista de qualquer jeito – ela respondeu, dando de ombros.
Como fiquei com medo de fazer mais perguntas, eu apenas aceito seu compromisso estranho. E elas me deixam na porta do meu alojamento. Do meu vazio e tenebroso alojamento. O qual eu me arrasto para dentro porque não havia outra escolha além de encarar o meu quarto escuro e solitário. Seria bem diferente se eles nos deixassem ter animais de estimações.... De repente, me dou conta de que sentia saudades até de Kurt.
E isso era eu tentando não pensar no dono dele...
Merda. Eu pensei.
Merda, eu pensei de novo.
AAAAAAAAAA MEU DEUS. Não devia ter deixado o ruivo pegar a minha rosa, mas o que a gente não faz por um sorriso “charmoso, charmoso, charmoso, charmoso”? Quem nunca perdeu o controle do próprio coração que atire a primeira pedra.
Infelizmente, eu queria ter perdido apenas o controle do próprio coração e não o controle da minha vida, dos meus pensamentos... tudo parecia incrivelmente estranho ao meu redor. E, pior que isso, quando eu piso no alojamento, lembro-me das vezes que ele apareceu ali de surpresa e meu coração arde dolorosamente.
Então, eu subo as escadas, as mesmas escadas que ele me acompanhou, e de repente, tenho uma visão dele me carregando bêbada para o meu quarto. E me pergunto se foi isso o que aconteceu na noite em que eu pedi para ele me levar para casa, quando nos conhecemos. E então eu me arrasto para o corredor e abro a porta e lembro-me de todas as vezes que ele entrou ali dentro e imagino que sinto o cheiro dele.
E isso faz com que meu coração se contorça mais um pouco.
Merda, eu estava com saudades dele.
Mais que isso, eu queria desesperadamente ligar para ele e pedir para conversarmos novamente. Sem bebida, sem distorções, sem omissões... apenas eu e ele, com sinceridade. Ele havia perdido a confiança em mim? Como eu poderia reavê-la? O que eu poderia fazer para reverter aquela situação? Acho que seria capaz de fazer qualquer coisa... só para ter uma segunda chance com ele.
“Você não é mais essa Bell” ouço uma voz orgulhosa relutar.
Tudo bem..., mas onde esse orgulho iria me levar?
Eu estava sentindo essa dor em todo o meu corpo, não só no peito, que gritava para eu conversar com Alex. Para que eu tentasse de novo. Que gritava... para me perder nos seus braços, sentir sua boca em mim e que gritava dizendo que a vida era muito curta para eu ser orgulhosa daquele jeito... ele foi babaca? Foi. Mas, comparado ao nível de babaquice de qualquer um dos caras com quem eu saí... foi um babaca aceitável, certo?
Me sinto como uma viciada sem droga.
Noite passada não consegui dormir, hoje eu não consegui comer... e eu sinto como se todos os meus pensamentos levassem àquele maldito ruivo. Que meu pensamento e meu corpo querem só ele.
E isso faz com que eu quase chore novamente. Dessa vez, sem ombro amigo. Sem coragem sequer de pisar no meu quarto, com medo das imagens que me assombrariam se eu me atravesse a fazer isso... No entanto, sou surpreendida quando alguém me empurra para dentro, fazendo-me perder o equilíbrio e cair no chão, e fecha a porta.
A fechadura automática trancando instantaneamente com um clique.
Quando me sento, confusa com o que aconteceu naquela questão de segundos, vejo Michael à minha frente. Os olhos furiosos, seu rosto vermelho e com veias saltando de raiva. Eu deveria ter ficado com medo. Eu deveria ouvir a voz que grita na minha cabeça: “sai daí agora! Corra para as montanhas! ”. No entanto, ela é abafada por minha confusão e a pergunta: “o que diabos Mike faz no meu quarto? ”.
— Mike? Você está louco? Qual é a sua?! – Eu brigo, levantando-me.
Ele caminha para mim lentamente e pergunta:
— Onde está o caderno, Bell?
Pergunto-me porque, com tantas pessoas que poderiam ter pego o maldito caderno, ele pensou em mim. Quer dizer, eu não podia ser a única pessoa que o odiava em todo aquele maldito campus. E então me pergunto o que devo fazer agora. Não era totalmente mentira meu envolvimento, mas não era como se eu realmente soubesse onde ele está ou o que Robert fez com ele.
Opto por franzir o cenho e me fazer de desentendida.
— Não sei do que você está falando. Sai do meu quarto agora – eu mandei, apontando para a porta trancada. – Caso você não tenha intendido, quando eu disse “quero mais é que você se foda” eu queria dizer: “não quero te ver nunca mais”.
Ele dá uma risada incrédula. Como se não acreditasse no que havia ouvido.
— Não brinque comigo, Bell – ele alertou. Sua voz soava muito calma, muito clara, no entanto, era visível o tremor de raiva ali presente. A respiração que saía pesada. – Vou perguntar só mais uma vez...
Ele se aproxima como um predador se aproximando de uma presa encurralada. Seus passos são lentos e calculados, do tipo que faz você recuar instintivamente porque cheira à perigo. Até que você fica sem escolhas: apenas com a parede em suas costas e Mike a alguns centímetros à sua frente. Havia uma espécie de déja-vu naquela cena. E apesar da minha vontade de chorar e pedir desculpas e dizer que não sei onde está o caderno, eu me mantenho firme e forte, mesmo que tenha lágrimas nos olhos e que minhas mãos estivessem trêmulas.
— Onde está o caderno? – Ele perguntou, apoiando uma mão na parede.
Ao lado da minha cabeça.
Ah, sim, totalmente déja-vu, apesar de terem sido feitas perguntas diferentes em outra época.
— E- eu... não sei do que você está-...
BAM!
— Pare de brincar comigo, garota! – Ele urra.
Ele bate na parede com força, fazendo-me encolher. Ele está tentando me intimidar, eu sei que ele está. Era assim que ele fazia. Primeiro ele te mostraria quem estava no comando, quem era o macho alfa da alcateia, e então, quando perdesse a paciência, partiria para a agressividade. Tudo era uma questão de demonstração de poder.
De repente, ao invés de medo, eu sinto raiva.
Raiva de ele estar querendo me subjugar de novo.
— Eu não sei do que você está falando – eu insisti, erguendo o olhar. – Mas se eu soubesse... diria que você deve estar muito ferrado para vir atrás de mim. Você sempre vem atrás de mim quando perde o controle da sua vida, não é? Como se eu sempre fosse culpada por tudo o que acontece nela.... Sinceramente, Mike, você me dá uma importância maior da que eu tenho e quase fico lisonjeada por isso.
Ele fica surpreso por eu responder. Mais que isso: fica surpreso com o meu tom sarcástico, e é neste momento que eu consigo me esquivar dele e correr até a porta. Consigo abrir a tranca e me jogar para fora, no entanto, ele me alcança. Me agarra pela cintura, e me joga contra a parede. Todo o meu corpo dói com o impacto e ele me segura pelo braço, como se eu fosse uma criança travessa.
— Pare de me fazer de idiota! – Ele grita, então me dá um tapa.
Nunca acreditei que um dia alguém fosse me bater na cara assim.
A princípio eu não sinto nada, apenas o choque do momento. Por um segundo eu não sei onde estou e nem o que está acontecendo, porque eu acredito que aquilo não seja real. Mesmo com a dor no corpo, e a ardência no rosto. Eu digo a mim mesma que isso só pode ser um pesadelo. Ninguém seria malvado ou cruel o suficiente para bater em alguém daquele jeito... não é? Então, a ardência vira dor. Uma dor que vai além da dor física: eu me sinto impotente, envergonhada e humilhada.
O fato de eu não ter forças para brigar de volta com Mike, era humilhante. Eu me ver encurralada como uma mocinha em perigo, me fazia sentir medo. Como se eu não pudesse revidar e nem fazer algo de volta à altura.
— Onde está o caderno?! – Ele grita, agarrando-me pelo pescoço. – Eu sei que foi você! Lauren te contou onde eu escondia e você foi lá bisbilhotar, não é?!
Eu não consigo respirar direito.
Mike segura meu pescoço com força, como se isso não fosse nada para ele. Como se eu não fosse nada. E eu não consigo lhe responder como ele merecia. E novamente, me surpreendo com a falta de medo em mim. Eu devia me jogar aos seus pés, implorar misericórdia e dizer que devia estar com Robert, mas ao invés, eu só sentia mais raiva e nojo por aquele ser à minha frente.
Tirando forças não sei de onde, eu consigo dizer:
— Você está... apavorado, né?
Ele me olha como se não acreditasse na minha coragem de desafiá-lo, então faço mais que isso. Forço um sorriso e digo:
— Você está... muito fodido-... E sabe disso.
— Cala a boca! Cala a boca!
Ele me empurra contra a parede, outra vez, com as mãos ainda no meu pescoço, e eu bato a cabeça com força. Parece que tudo o que há dentro do meu crânio sai do lugar, escurecendo a minha visão e nublando os meus sentidos. Perguntei-me, naquela fração de segundo, se eu ia morrer assim. Se era assim que a minha saga terminava.
Era um fim muito mal resolvido.
Então a minha visão clareia, mas está tudo fora de foco. Há borrões a minha volta, como aquelas imagens de supostos fantasmas em casas antigas. Então, começo a ouvir vozes. Vozes distantes, como se alguém houvesse abafado o som com algo macio. Elas falam, se agitam, gritam. Estou confusa. Desnorteada.
O que está acontecendo?
Há um apito irritante na minha cabeça e eu tento abafá-lo tapando os ouvidos. Tudo está girando muito rápido ao meu redor, até que sinto alguém me abraçando. Vultos ainda dançam ao meu redor, e consigo distinguir algumas frases:
— Me solta!
— Will, Gus, vão chamar a polícia!
— Mano, ela está legal?
— Ela precisa ir para um hospital!
Então, alguém me pega no colo, minha cabeça cai para trás e todo o meu mundo sai do lugar. Ficando tudo escuro de novo.
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Quando eu volto a mim por um instante, estou em um carro, com a cabeça apoiada em alguém. Vejo de relance uma cabeleira ruiva e lágrimas. Então apago de novo.
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É possível perceber quando recobro a consciência definitivamente pelo modo como todo meu corpo parece doer, pelo enjoo no fundo da minha garganta e a dor latejante e insuportável na minha cabeça. De repente, morrer de ressaca pareceu fichinha perto daquele mar de mal-estar generalizado.
Ressaca era tipo ser atropelada por um carro.
Aquilo era ser atropelada por um caminhão.
Arrisco abrir os olhos. Eles doem com a luz branca do cômodo e eu solto um palavrão, lacrimejando. Então tento abrir os olhos novamente, e vejo que estou numa maca na emergência de algum hospital. Dá para perceber porque reconheço as divisórias comuns entre os leitos, pergunto-me o que diabos eu estou fazendo ali.
— Ei, Bell! Você acordou? – Alguém se debruça perto de mim.
Reconheço Ellie.
— Infelizmente... – resmunguei, minha voz mal saindo. – O que... aconteceu?
Eu arrisco olhar ao redor, e então encontro Sasha um pouco mais atrás, conversando com um cara familiar, moreno, cabelos escuros e barba por fazer. Apesar de saber que eu já o vi antes, não consigo me lembrar muito bem de quando. E me perguntei quando foi que minha memória havia ficado tão ruim.
— Você não se lembra? – Sasha perguntou, aproximando-se de mim.
— Não sei... – eu respondi, incerta.
Então olhei para o teto, porque estava me enjoando olhar para o lado, e então tive a percepção de duas coisas: do outro lado, alguém segurava a minha mão, e tinha alguém fazendo carinho na minha cabeça também. Tipo um cafuné. Então eu me virei para olhar o outro lado e qual a minha surpresa quando me deparo com Alexander ali, aflito. Olhar para ele ainda doía, ainda mais quando parecia errado eu deixá-lo aflito.
Fico encarando-o confusa. O que ele estava fazendo ali?
Ele havia passado a tarde toda sem me ligar ou se me mandar uma mensagem de texto que fosse... E agora estava ali com cara de Madalena arrependida?
— Qual.... o seu problema? – Eu me ouço perguntando.
Vejo o ruivo arquear as sobrancelhas em surpresa.
— O meu problema? – Ele repete como se não acreditasse.
Eu volto a olhar para o teto, antes de soltar um suspiro, e tentar me sentar na maca. Minhas amigas e Alexander protestam, no entanto, eu insisto mesmo assim. O resultado é no mínimo humilhante: eu fico sentada, mas o mundo ao meu redor parece oscilar então eu meio que iria cair de volta na maca se Alexander não houvesse me segurado.
E então, senti a bile subir a garganta. Mas tudo bem, não vomitei.
— Eu fui... atropelada por um caminhão? – Perguntei.
— Aham, um caminhão chamado Michael Furrey. Se lembra dele? Seu ex-namorado? De dois metros de altura? – Sasha comentou com sarcasmo.
No entanto percebi que sua voz falhou e, quando olhei para ela, encontrei-a enxugando discretamente os cantos dos olhos. Era estranho ver Sasha chorando e por isso senti-me a pior pessoa do mundo. O rapaz moreno atrás dela põe a mão em seu ombro, então olha para mim. Seus olhos são azuis esverdeados e só realçam a estranha sensação de que eu o conheço de algum lugar.
Só não digo nada, porque de repente eu me lembro.
Lembro-me que estava pensando se eu deveria ser a garota fraca que iria ceder à vontade e ligar para Alexander primeiro, quando Mike apareceu e me empurrou para dentro do quarto, acusando-me de ter pego o caderno dele (ou melhor, da sua fraternidade). Então me lembro, do medo que senti, mas mais que isso, da raiva de tudo o que ele representava. A raiva que me fez ser corajosa e inconsequente.
Essa coragem poderia ter me matado, eu pensei.
De repente, sou tomada por uma onda de medo. Não sei porque vem agora. Não sei porque justo agora eu senti esse sentimento gélido e paralisante. Eu só sei... que agora eu sentia que tudo era muito real. Como se eu achasse que o que eu disse a ele, e o como ele me bateu, no alojamento fosse um sonho distante... e agora me dava conta de que era realidade. Havia acontecido mesmo.
Levei uma mão ao meu pescoço dolorido.
Uma pergunta ecoou na minha mente e só o fato dela estar ali, faz com que eu comece a tremer: “Como eu não morri? ”. Não sei Alex sente a minha tremedeira, mas ele segura a minha mão com mais força, como se quisesse que ela parasse de tremer. Eu sei que não devia, mas quase me sinto um pouco melhor. E me odiei por isso.
Por ser tão fraca.
— O que aconteceu afinal? – Ellie perguntou, atraindo a minha atenção. Seus olhos claros estavam muito grandes e assustados. – Só te deixamos sozinha por uns dez minutos para chamar os garotos, e quando vimos você estava...
Ela não consegue terminar, como se não houvesse palavras para aquilo, então cobre seu rosto com as mãos. Como se a cena estivesse acontecendo à sua frente de novo e ela não quisesse mais ver aquilo. Parece horrível. Tão horrível quanto eu estava me sentindo naquele momento.
— Eu.... Sinto muito...
— Ei, passamos no departamento de polícia do campus para fazer o B.O... – Um cara que se aproximou de nós disse, acompanhado de dois amigos e um policial. De repente, sua fala para quando seu olhar recaí em mim. – Ah, ela acordou.
Eu tenho quase certeza que, diferente do cara moreno perto de Sasha, eu nunca os havia visto na minha vida. Eles pareciam tão... britânicos, mesmo que tivessem tatuagens e rostos furados. Se eu fosse sincera, admitiria que nem no campus eu me lembrava deles, então me pergunto quem eram e o que eles estavam fazendo ali.
— Ótimo, assim pode dar o depoimento – o policial disse. – Eu acabei de dizer para o seu amigo que o B.O. só pode ser concluído com o depoimento dela... e com o depoimento dos presentes. Vocês são testemunhas.
Ele faz um gesto amplo para Sasha, Ellie, Alex e o cara estranho.
— Ei, vai com calma aí grandão – Uma enfermeira apareceu de repente. Não sei de onde. – Primeiro ela precisa fazer uns exames. Depois ela é toda sua.
Era uma enfermeira simpática, com idade para ser a minha mãe. Seus cabelos eram negros entremeados com alguns fios grisalhos, olhos escuros e pele parda. Ela consegue dispensar o enorme grupo reunido na emergência, mas por algum motivo deixa que Alexander fique comigo e eu sinceramente preferia que fosse Sasha ou Ellie, porque... era constrangedor ficar à sós com ele enquanto eu fazia exames. Quer dizer, era doloroso, na verdade. Porque... ele parecia se importar e isso me deixa tão... triste.
Como alguém que não gosta de mim pode aparentar tanto que gosta?
— Você vai ter que ficar algumas horas em observação – ela diz, quando termina. – E fazer alguns exames mais precisos. Você sem dúvida teve uma concussão... é normal você se sentir um pouco confusa, com dor de cabeça, com uma sonolência anormal, tontura, esquecimento e náuseas.
A medicina deve ser algo incrível para ela conseguir resumir tudo o que passei nos últimos cinco minutos em um diagnóstico.
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