Good Gone Girl
35 Capítulo 35 – Asteriscos.
Notas iniciais
Capítulo 35 – Asteriscos.
.
.
.
A fraternidade de Mike, como todas as outras, era uma mansão.
Uma casa enorme e branca, com aparência neoclássica (como se fosse um tempo grego do século XIX). Possuía um jardim enorme, uma varanda decorada com sofás onde os garotos ficavam à toa bebendo cerveja e falando besteira todo fim de tarde. Para evitarmos sermos vistos por eles, Will nos guia por um caminho nos fundos da casa, onde havia um muro que devia ter o dobro do meu tamanho.
— Vocês estão brincando – eu murmurei para eles.
Eu nunca havia escalado nem uma árvore quando era pequena, imagine só escalar um muro! Porém, tudo o que o garoto moreno e convencido faz é dar um sorriso que (eu acho) era para ser tranquilizante. Will sobe primeiro e lá de cima me estende a mão para me ajudar. Eu olhei para Robb perguntando-me se era sério aquilo.
Tudo o que ele faz é juntar as mãos sobre o joelho e dizer:
— Vou depois de você.
Meu coração começou a martelar no peito, porém, respirei fundo e coloquei meu pé em suas mãos e aceitei a ajuda de Will. La de cima percebi que a casa da piscina se encontrava bem em frente, à três metros do muro. De repente, como se soubesse que eu não tinha ideia de como iria descer, Will me empurrou!
Eu caio totalmente sem jeito, minhas pernas doem com o impacto e então eu rolo pelo gramado dos fundos, mas, de algum jeito misterioso, estou viva e inteira. Eles descem logo depois, segurando-se para não rir de mim.
— Você nunca escalou um muro? – Robb pergunta indignado.
— Tenho cara de quem já foi delinquente? – Eu retruquei irritada.
Ele levou uma mão ao peito como se estivesse ofendido, mas não retruca e se vira para Will e diz:
— Muito bem, você sabe onde deve ficar. Fique de olho e se vir alguém se aproximando da casa bata na janela duas vezes rápido. – Virando-se para mim ele diz: — E você, vem comigo, vamos entrar.
Will bate continência e caminha conosco até a casa da piscina. Eles me obrigam a andar abaixada, como se estivéssemos em um filme de espionagem.
A casa da piscina é uma construção moderna que claramente não havia sido feita junto com a casa antiga. Era branca também, mas quadrada e com poucas janelas, pois funcionava mais como um depósito. Mais à nossa frente, passando dela, ficava a piscina, completamente vazia, pois estava começando a ficar frio com a aproximação do outono.
Não havia sinal de ninguém, parecia muito deserto quando comparado à frente.
— Eles nunca vêm para cá nessa época do ano – comentou Robb, percebendo o meu olhar. Enquanto se encostava contra a parede e se aproximava de uma pequena janela que parecia uma guilhotina. – É muito frio, mas eles estão estudando a possibilidade de instalar uma piscina com aquecimento de água.
A expressão de Robb é debochada.
— Eles devem ser... ricos – eu murmurei.
O moreno abre a pequena janela com habilidade e diz:
— Eles são. Mike principalmente, mas você deve saber disso.
Como era muito alta, ele me estende suas mãos novamente, e eu solto um resmungo antes de colocar meu pé lá e me segurar na janela para entrar. Ela era alta e estreita, mas consigo passar metade do meu corpo, então me impulsionar para dentro. Por um instante, quando sinto a moldura de alumínio e a parte fixa da janela raspar nas minhas roupas, quase penso que vou ficar presa ali, mas tudo dá certo e eu vou parar lá dentro.
Eu caí de modo nada elegante no chão, mas estava tudo bem.
Não havia ninguém para rir de mim.
— Abre a porta para mim – ouço-o sussurrar do outro lado da janela.
O cômodo é pequeno e bagunçado, completamente cheio de entulho, principalmente de móveis velhos ou quebrados. Há um sofá com o estofamento rasgado, uma cama possui somente com um colchão furado em cima... e o resto é objetos de festas e piscinas que eu reconhecia vagamente: barris de cerveja, boias, macarrões...
No meio daquela bagunça eu vou até a porta e a destranco para Robert.
— Muito bem – ele diz entrando e fechando a porta. – Vamos vasculhar.
Como Lauren me contou que vira o caderno no sofá, é o primeiro lugar em que eu procuro. Apalpo o sofá por sobre o estofamento, perto do buraco que há nele, e até mesmo longe, mas não há nada.
— Parece lógico que ele troque de lugar depois de Lauren ter encontrado – Robb ponderou, vasculhando no colchão e então na cama. – Onde você acha que ele colocaria?
Eu penso e me aproximo de uma estante cheia de livros antigos.
— Se eu fosse ele, eu colocaria no meio de outros livros para não levantar suspeitas. Mas eu sou mais inteligente que ele, não é? – Eu comentei, analisando cada um dos títulos que havia ali. – Pelo visto sou.
Aproximo-me de Robb que está levantando o colchão da cama.
— Ahá – ele exclamou, triunfante, retirando o livro escondido no estrabo. – É o mesmo lugar onde eu guardava meus pornôs quando era adolescente.
— Eca – eu solto. – Não preciso saber disso.
Ele ri e diz:
— Você precisa saber que todo garoto usa esse esconderijo.
Eu revirei os olhos e o vi abrir o livro ali para ver se era aquele mesmo. Olho as páginas por sobre seu ombro, com curiosidade. O que há escrito lá é uma tabela muito organizada com os nomes de cada garoto da fraternidade. Do lado há os nomes: “Maçã”, “Morango”, “Batata”, “Cebola” e “Pêssego”... seguidos por outra coluna escrito: “pontuação”.
Por curiosidade, procuro o nome de Mike e encontro: Michael Furrey / Alison Franklin / Lauren Willard / Isabelle White** / Nala Rajish*/ Harriet Warminster / 440 pontos.
Por algum motivo, ler aquilo faz com que meu coração doa. Se contorça no meu peito e que meus olhos cocem. Era como se alguém houvesse me dado um tapa na cara e então gritado: “Está vendo! Olha como é verdade!”. Meu nome está ali, como se fosse uma lista de supermercado. Como se fosse o placar de um jogo.
— O que significa esses asteriscos em alguns nomes? – Eu perguntei.
Minha voz falha por algum motivo.
Robb franziu o cenho e então folheia o caderno.
Pela primeira vez nem ele tem a resposta.
— Parece... que cada fruta vale 100 pontos – eu observei, percebendo que haviam cinco frutas e a pontuação máxima parecia ser 500 pontos. Porém, percebi que sempre que apareciam alguns asteriscos a pontuação caía. — Acho que esses asteriscos significam... que algo aconteceu que fez com que eles perdessem pontos...? Sempre quando eles aparecem, os membros não têm a pontuação máxima...
Nós ficamos em silêncio por algum momento.
— Algo como... abusar de alguém? – Robb perguntou sombriamente.
Eu olhei para ele espantada.
— Mas... Mike não abusou de mim – eu murmurei.
“Tirando emocional e mentalmente...” pensei.
— Eu estava pensando em Nala... – ele respondeu com gravidade.
Olho para o placar de Mike novamente. O nome de Nala tem um asterisco.
Então eu olhei para Robb. Espera, ele estava querendo dizer que Nala foi... foi abusada por Mike? Um arrepio percorreu à minha espinha e me sinto congelada no lugar. Como se de repente eu houvesse parado no tempo. Pergunto-me se foi assim que ele ficou sabendo desse jogo: por Nala, e sabendo o que eles faziam com algumas garotas...
De repente, Robb coloca o caderno debaixo de seu suéter, prendendo-o no cós da sua calça e diz:
— Vamos. Temos o que precisamos, temos que ir.
Eu concordo com a cabeça, mesmo que não consiga dar um passo. Sei que temos que sair logo, mas então ouvimos duas batidas rápidas na janela. Esse era o sinal, não era? O sinal para o quê mesmo?
— Se esconde! – Robb sussurra para mim, me puxando para baixo da cama.
Ele me empurra muito forte e urgentemente, como se estivesse desesperado, então faz esforço para caber no pequeno espaço. A cama era de solteiro e estava completamente empoeirada debaixo dela, com muito esforço coube nós dois ali, embaixo do estrabo quebrado onde o livro estivera guardado.
Meu coração agora está martelando no meu peito, e eu estou ofegante. Minha respiração saí tão alta que Robb tapa a minha boca para que o barulho diminua.
De repente a porta se abre e ouvimos passos. E então a porta se fecha.
— Você está louca em me procurar aqui?!
Parecia a voz... de Mike. Um Mike irritado.
— E onde mais eu iria te procurar?! – Uma voz feminina igualmente irritada respondeu. – Eu devia esperar vossa excelência se dignar a me mandar uma mensagem?!
De alguma forma, a voz me é familiar, apesar de eu não ter certeza.
— Mas é óbvio! – Ele respondeu estupefato. – Sempre foi assim, não foi?!
— “Sempre ser assim” não quer dizer que vou aceitar isso para sempre! – A garota respondeu, batendo o pé enfaticamente. – Você me trata como se eu fosse a sua putinha particular, e sinceramente não sei se aguento mais isso...
Silêncio.
— O que você quer dizer com isso? – Ele pergunta, desconfiado.
A garota ri.
— Você acha que eu não percebi que você roubou alguns dos meus remédios? – Ela perguntou, seu tom de voz era ameaçador. – Ouvi dizer que você os usou para drogar algumas garotas... para tonar o jogo mais fácil. É verdade? E pensar que eu te livrei diversas vezes da mãe e do pai...
Um arrepio percorreu a minha espinha.
A única coisa que preenche o silêncio é a respiração pesada de Mike. Uma respiração que eu reconheço, de quando ele ficava irritado. Faço sinal de que tenho que sair lá debaixo da cama, mas Robb me segura e nega com a cabeça. De repente, houve um som de baque. Um som forte de alguma coisa sendo empurrada contra algo sólido.
Eu me sobressalto e Robb também.
Ouço som de alguém se engasgando.
— Quem te disse isso? – Mike rosna.
— M- me solta – a garota diz, engasgada.
Sou tomada por um impulso estranho de fazer alguma coisa. No entanto, antes que eu consiga me mover, ele me segura com força. E nega com a cabeça, como se pedisse para que não nos revelássemos. Eu me debato contra ele e ele me segura mais forte. Olho para ele, suplicando para que ele faça alguma coisa, mas o garoto apenas desvia o olhar.
Assim eu sei que ele não vai ajudar ninguém.
A sensação é horrível. Como se não pudéssemos fazer nada.
De repente, a garota solta um suspiro.
— O que você quer? – Ele perguntou. – Quer que eu te pague para você ficar calada? Eu pago. Pago assim que o pai e a mãe liberarem a minha conta.
— Você acha que isso tem a ver com dinheiro? – Ela pergunta, sua voz soa rouca e ela fala entre lufadas de ar. – E mesmo que se tivesse, você acha que eu acredito nisso? Quando você acha que isso vai acontecer? Você sabe que eles ficaram putos porque você terminou com a garota lá...
— Nem me lembra disso – Mike rosna.
— Sinceramente, não sei se você é esperto ou é muito burro – ela continua, sua voz mais estável agora. – Achei muito esperto você ficar com uma garota toda certinha e idiota para que eles achassem que você tinha entrado na linha... mas escolher a amiga dela para ser o seu morango foi o cúmulo da burrice, você sabe disso, não sabe?
Eu franzi o cenho. Era uma garota que sabia muito...
— Cala a boca! Você acha que eu não sei disso?! – Ele urrou para a garota. – Maldito seja o dia que vi essas duas garotas na minha frente! Elas acabaram com a minha vida! As pessoas estão dizendo que Lauren quis se matar por minha causa, acredita?! O técnico me colocou hoje no banco dizendo que eu não ando “concentrado” no jogo!
Robb estreitou os olhos com desconfiança.
— Até então não vejo mentira – ela comentou com indiferença. Então continuou em tom de deboche: — O seu problema Mike, é que você não faz uma simples cagada, você faz uma escultura de merda e fica esperando te elogiarem por isso. Você sempre quer mostrar que você está no controle de tudo: das coisas, das pessoas, das garotas... que passa vergonha quando a mais estúpida delas foge de suas garras-...
— Eu ainda estou no controle – ele rosnou.
A garota soltou um som de desdém.
— Bem, de qualquer forma, como eu disse, isso não tem a ver com dinheiro, Mike – ela continuou. – Isso tem a ver com você estar perdendo o bom-senso desde que entrou para essa fraternidade. Francamente, abusar de garotas?! Isso é baixo até para você.
Ele hesitou.
— Isso não é da sua conta – respondeu, na defensiva.
— Não é da minha conta?! – Ela perguntou estupefata. – Caso você não tenha percebido, bem, eu sou uma garota! Como você acha que eu me sinto sabendo da merda que a sua fraternidade anda fazendo?! E mais que meu irmão participa disso?!
— Eles nunca encostariam em você... – Mike rosnou.
— É mesmo? Você me garante? – Ela perguntou. – Meu deus, como eu sou grata a você... imagine só todas as garotas que não tem essa garantia e caíram na sua conversa e beberam da sua bebida-...
— O que você quer que eu faça? – Ele perguntou, em um tom baixo e irritado.
— M-me solta... você está me machucando...
— Você quer que eu diga que eu dopei algumas garotas para elas ficarem mais fáceis? – Ele perguntou. – Talvez eu tenha. E quer saber de uma coisa... até agora nenhuma garota reclamou. Sabe por quê? Porque no fundo elas queriam. Quem não iria querer dormir com Michael Furrey?
— Você me dá nojo, Mike!
— Quer contar para o papai e para mamãe? – Ele desafiou. – Conte.
De repente, tudo se encaixa.
Sei quem é aquela garota.
A porta da casa da piscina se abre e fecha com força. Uma força desnecessária. Então eu olho para Robert e ele olha para mim por alguns minutos. Ficamos em silêncio e ele tira sua mão de cima da minha boca. Então ele rola para fora debaixo da cama. Parece que há poeira por todo lado, inclusiva grudada na minha pele.
Preciso de um banho urgente.
No entanto, este não é o maior de nossos problemas.
Acomodada no braço do sofá, está a garota de longos cabelos loiros, pele clara e olhos azuis. Há uma mecha cor-de-rosa no seu cabelo, emoldurando seu rosto no lado direito. Ela parece pálida e cansada, no entanto, consigo perceber marcas vermelhas em seu pescoço e no seu braço.
Ela não havia mudado nada, desde que a vi pela primeira vez na casa de Mike, durante as férias de verão.
— Olá, Bell. Quanto tempo – ela me cumprimenta.
— Lalitha – eu respondi, tentando ficar calma.
Sempre houvera algo nela que me inquietava. Fosse o modo como seus olhos me examinavam, ou no como ela visivelmente não gostava de mim, ou no modo como ela tratava Mike. Como se ele fosse a representação de tudo o que ela mais odiava em alguém. Agora eu entendia porquê: porque ele era.
— Você gravou tudo? – Ela perguntou à Robert.
Franzi o cenho. Então o vi pegando o celular do bolso e mostrando para ela.
— Vocês armaram isso... de propósito? – Perguntei, estupefata.
Ela deu de ombros enquanto Robert se encolhia.
— Eu pesquisei e soube que o Michael tinha essa irmã... feminista e rebelde. Achei que ela... toparia confrontá-lo e então daria para gravarmos tudo – ele confessou. – Já que você obviamente não teria coragem de fazer isso.
Eu franzi o cenho. Então soltei um suspiro estupefata.
— E você topou isso?! – Perguntei a ela.
Lalitha deu de ombros, mas pude ver que ela estava ansiosa. Nervosa.
Me virei para Robert. Em choque.
— Você é um filho da puta – eu soltei. Fazendo-o arquear as sobrancelhas. – As pessoas são o que para você? Peças de xadrez? “Então, Isabelle não aceitou se voluntariar a se usar de isca, mas eu tenho essa outra alternativa aqui... foda-se se ela vai sair viva ou foda-se se ela vai levar um soco na cara. Eu só quero que ele admita. É para um bem maior”.
O garoto moreno de repente franziu o cenho, ofendido.
— Não é assim. Para de distorcer as coisas...
— Ele estrangulou ela! – Eu gritei, possessa. Lalitha se encolheu, assustada – E você não faria nada! Você não me deixou fazer nada! Você tem alguma ideia do que poderia ter acontecido?! De que ela estava lidando com tudo sozinha porque você jamais a protegeria dele?!
Robert faz um som para que eu faça silencio. E esse gesto faz com que eu me sinta ainda mais furiosa. Como se eu fosse uma garota histérica. Como se eu estivesse fazendo drama por nada. Bem, a marca no pescoço de Lalitha não me parece ser “nada”.
— Quer saber de uma coisa? – Eu disse apontando para ele. – Eu não ter aceitado me fazer de isca tem um motivo: Michael é perigoso. E eu sabia que ninguém moveria um dedo para me salvar se tudo desse errado. Como você não moveu um dedo para ajudá-la. E quer saber mais? Você concordou que Michael é filho da puta e manipulador, mas você não é tão diferente dele: afinal, os fins justificam os meios, não é? A única diferença é que você não abusou de ninguém.
Robert tenta agarrar o meu braço, mas eu me esquivo e saio da casa da piscina.
.
Eu estou completamente coberta de poeira, com uma provável crise alérgica a caminho, precisando urgentemente de um banho, e me arrependendo por não dar um soco em Robert quando tive a chance. Só de pensar no risco que ele colocou aquela garota, sinto uma raiva incontrolável. E tudo pelo quê? Por um furo?
O que mais me indignava, na verdade, foi aquela situação toda. Lalitha não era mais velha do que eu. Na verdade, ouso dizer que tínhamos quase a mesma idade, pois como eu, ela era caloura ali. E mesmo assim, isso não a havia poupado da fúria dele, e pensar nisso me deixou ainda mais nervosa. Ele não se controlava nem com a própria irmã caçula. Ele a havia enforcado sem qualquer receio.
A própria irmã...
E Robert havia a usado como isca. Ele havia topado aquilo. Pergunto-me se o mesmo ele faria comigo. Ele deixaria Michael me bater e não faria nada, até conseguir o que queria. Como poderia um cara ser assim? Simplesmente não ligar para a situação dos outros? Pensar nisso me dava vontade de chorar, ou de gritar.
Como podia existir gente que simplesmente não ligava para ninguém?
— O que diabos aconteceu com você?
Eu me assusto com a pergunta e paro do lado de fora do quarto, com a porta aberta a minha frente. Do outro lado, Alexander me olhava como se houvesse visto um fantasma. Eu devia estar parecendo um mesmo: coberta de poeira dos pés à cabeça. Ótimo. Ele estava maravilhoso, vestindo uma camiseta cinza com estampa cor-de-rosa. Acho que era uma das primeiras vezes que o via usando uma camiseta clara e seus olhos pareciam mais penetrantes do que nunca.
— Você vai sair? – Eu perguntei quase sem voz.
— Jantar de aniversário do meu tio – ele respondeu. – Eu te convidei, lembra?
Meu coração se contorceu dolorosamente no meu peito, então eu me lembro que no almoço Alexis havia o colocado naquela situação embaraçosa, forçando-o a me chamar para o almoço de família. Fico constrangida só de lembrar. Ainda mais porque... intimamente eu queria que ele me quisesse me convidar.
— Sua irmã te forçou a me convidar, é eu lembro – eu respondi ressentida.
— Ela não me forçou a te convidar... – ele disse.
— Você claramente não iria me convidar se ela não houvesse te colocado naquela situação... então eu acho que ela forçou sim – eu respondi, percebendo muito tarde que eu devia parecer irritada. – Mas não se preocupa, está tudo bem. De verdade.
Sinceramente, no meu peito não estava tudo bem. Mas parecia errado dizer isso.
Mas ele pareceu perceber a minha raiva e perguntou estreitando os olhos:
— Você queria que eu te convidasse?
— Não sei, você acha que deveria me convidar? – Eu pergunto de volta.
Ele solta um suspiro exasperado e retruca:
— Não sei, você acha que eu deveria te convidar?!
De repente nós dois ficamos nos olhando como se houvesse algo muito errado naquela situação e naquela conversa, porque ela não fazia sentido nenhum. E como eu não respondo, ele fica irritado. Dá para ver no modo como seu rosto parece se fechar em uma máscara fria, e na firmeza quando ele pega suas chaves e seu celular.
— Alex... – eu começo.
Odeio ver gente irritada comigo.
Tento pegar o seu braço, mas ele se esquiva. E esse pequeno movimento é capaz de me fazer sentir horrível. Como se ele me desprezasse tanto que não iria suportar nem mesmo que eu tocasse nele. Isso faz com que meu coração não apenas se contorça, mas que ele se dobre em mil pedaços, e cada dobra era uma dor diferente.
— Depois a gente se fala, estou com pressa – é o que ele responde.
E então ele vai embora.
E eu fico ali, completamente confusa e coberta de poeira.
Fale com o autor