Good Gone Girl
11 Capítulo 11 - De Fora Para Dentro.
Notas iniciais
CAPÍTULO 11 – DE FORA PARA DENTRO.
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Eu estava anestesiada.
Sasha e Ellie me acompanharam até o dormitório e se ofereceram para ficar comigo, mas eu não as queria ali. Não as queria perto de mim, não nesse momento. Então elas respeitam minha vontade e vão embora. Deixando-me sozinha, como eu queria ficar. Não sei se elas viram o mesmo que eu vi. Se viram, tiveram a delicadeza de não comentar que meu ex-namorado estava com outra garota mais bonita e melhor.
Mas elas não sabem o que eu sei, não é?
Que tudo era uma mentira.
Para começar, Michael nunca veio até mim porque ele me achava bonita ou interessante de verdade. Ele havia vindo porque tinha uma aposta para ganhar. Esse era ele de verdade: um jogador da vida alheia, um cara sem consideração, coração ou qualquer outra coisa que torne alguém humano. Afinal, como um ser humano pode se atrever a brincar tão seriamente com os sentimentos de outra pessoa.
Ele devia ser um sociopata. Um doente.
E eu havia sido outra idiota.
Uma idiota que me deixara levar por bonitas palavras, gestos bonitos, feitos exatamente para me enganar. Acreditara numa história que sempre dá certo nos livros: o cara cafajeste que se apaixona por aquela garota que, uau, vai fazer dele uma pessoa melhor. Eu só havia me esquecido de uma coisa: isso aqui não é um livro. É a vida real. E os desfechos da vida real podem nos surpreender mais do que nos livros.
Até quando eu ia continuar sendo essa garotinha que acredita em palavras bonitas?
Será que eu nunca iria amadurecer? Ver o mundo como ele era?
Olho para o meu reflexo no espelho do armário em frente à minha cama. Desde que Ellie fechara a porta do meu quarto, eu começara a chorar e ainda não havia parado. E havia algo que me incomodava muito naqueles olhos vermelhos e rosto patético que me encaravam de volta: eu sempre era a pessoa que chorava no fim.
Mike provavelmente havia levado a garota bonita para jantar, ou para um motel. E eu estava ali: sozinha no meu quarto, olhando para o meu patético rosto sem conseguir conter as lágrimas por causa da minha estupidez.
Mas há algo diferente.
Há uma raiva dentro de mim. Uma raiva de mim mesma e daquele cretino... Que eu não consigo ignorar. Ela está ali. Queimando dentro de mim, enquanto olho meu reflexo choroso no espelho. Essa raiva é quem sussurra para mim:
— Essa vai ser a última vez que você chora por um cara, Bell.
É uma promessa. Dita em voz alta e clara, apesar de trêmula.
Estou decidida de que essa noite eu posso ir para a cama chorando. E chorar até pegar num sono... Mas amanhã não vou mais chorar por Michael Furey.
...
— Então, vocês acham que isso é a minha cara? – Eu pergunto à Ellie e Sasha, mostrando-lhes um top magenta com bolinhas brancas.
Eu particularmente o achara ridículo, mas eu precisava tentar.
Ellie, que estava olhando ao redor procurando por roupas interessantes, volta-se para mim e faz uma careta. Parecia que ela era um vampiro e eu estava lhe mostrando um alho. E era por isso que eu sabia que havia acertado em chamar a dupla dinâmica para fazerem compras comigo. Para esse tipo de opinião.
— Isso não é nada a sua cara – Ellie diz ainda torcendo o nariz.
— Ótimo, então acho que vou levar – eu digo.
Eu precisava mesmo de algo que não fosse a minha cara. Porém, antes que eu consiga colocar na pilha que estou fazendo de “roupas que vou levar”, Sasha arranca a peça da minha mão e devolve para a vendedora. Aquela era a oitava roupa que ela fazia isso. Imagino que a atendente já estava ficando irritada com a ruiva.
— Não vai, não. Porque esse tipo de top não é a cara de ninguém – ela retrucou. Virando-se para a vendedora, ela diz: — Sério, isso nunca vai ser vendido. O melhor que vocês podem fazer, em nome do bom gosto, é queimar isso.
A mulher força um sorriso simpático, mas dá para perceber claramente a vontade que ela tem de estrangular Sasha. Não que ela pudesse, afinal, o cliente tem sempre razão. Então ela pega a roupa, diz que vai procurar mais opções e se afasta.
— Me explica de novo esse seu plano de sabotar o seu próprio senso de estilo, por favor, que eu ainda não entendi – Sasha manda enroscando uma mecha ruiva em seu dedo.
Eu respiro fundo e tento explicar novamente:
— Ontem eu cheguei à conclusão que não gosto da pessoa que eu sou... Não gosto de ser essa menininha boazinha que acredita em contos-de-fadas. Então, ontem eu estava pesquisando na internet sobre esse tipo de mudanças e li o seguinte: “A mudança deve começar de fora para dentro”... Como eu não gosto da pessoa que sou, vou mudá-la até encontrar uma que eu goste – expliquei o mais racionalmente possível. – E para isso, tenho que começar escolhendo roupas que eu normalmente não escolheria.
Sasha e Ellie concordam com a cabeça enquanto eu falo e acredito que elas concordem um pouco com o meu pensamento lógico.
— Ok... Mas acho que você está fazendo isso da maneira errada – Ellie diz olhando para as roupas que eu escolhi. – Você tem que separar o que você não gosta por questão de gosto e o que você não gosta por questão de bom-senso.
— Aquilo lá – Sasha apontou para outra roupa na pilha. – É mau gosto. E dos feios.
Eu franzo o cenho, um pouco indignada.
— Ainda bem que você chamou a gente – Ellie diz, passando um braço em torno dos meus ombros. – Seremos o seu Esquadrão da Moda. E vamos começar trocando de loja porque essa daqui é muito cara para gastar em um guarda-roupa novo.
— E Ellie está sendo boazinha para não dizer que essa loja além de cara, só tem roupa que minha avó usaria. Eca – Sasha murmura, puxando nós duas pelo braço.
Como sei que não tenho como convencê-las, eu deixo as duas tomarem a direção daquele momento. Elas são mais experientes que eu, têm um pouco do jeito que eu quero ter. E, mesmo conhecendo-as direito há somente um mês, algo me diz que posso confiar ao menos um pouco nelas. Elas já estiveram comigo em tantos momentos.
Nós pegamos um ônibus para o centro de Nottingham, onde elas me levam para uma grande loja de departamento.
— Primeira lição, pequena gafanhoto. Quando você quer comprar roupas novas, ou ter um estilo novo, venha para uma loja dessas. A variedades de estilos e roupas que podem-se encontrar em uma loja de departamento é incrível – Sasha diz, enquanto entramos. – Olha, ali tem uma seção punk, uma seção de cocotagem, uma seção hippie, uma seção de estilo nerd... É incrível, sério.
— E é bem mais barato também – Ellie acrescenta.
Sasha primeiro nos obriga a parar na seção punk. Cheia de roupas pretas, couros, telas, rasgados e coturnos... Eu nunca tive nada naquele estilo antes e ainda achava que nunca iria ter. Era tudo tão diferente de mim, que provavelmente não ficaria bem.
— Você acha que isso é a sua cara, Bell? – Sasha pergunta pegando um top (que mais parece um sutiã) de couro preto.
Um arrepio percorre a minha pele. Eu nunca teria coragem de usar aquilo...
— Não... – eu respondi nervosa.
— Ótimo – ela diz, me dando para segurar. – Vamos experimentar.
Era o que eu temia.
Olho para Ellie, querendo uma ajuda ou um apoio moral, mas ela apenas ri. E me mostra o seu lado maldoso que eu nunca conheci. Ela dá de ombros e me mostra uma blusa preta com uma cruz branca no meio, totalmente transparente. Estou para dizer que não tenho um sutiã para usar com aquilo quando ela diz:
— Vai ficar lindo os dois juntos!
Onde eu me meti? Não sei. Só sei que é tarde demais para voltar atrás.
— Hoje vamos conhecer um estilo novo. Estilo “Broken Heart”: nerdzinha dos filmes da Disney tem seu coração quebrado pelo popular da escola e resolve mudar radicalmente de estilo até se tornar uma femme fatale— Sasha narra com empolgação. Então sorri para nós e diz: — Uh la la.
— Adorei! – Ellie exclama batendo palmas.
A ruiva me olha, esperando aprovação também. Então eu sorrio e digo:
— Estou na mão de vocês.
Se eu tivesse dado um litro de chocolate para as duas, elas não teriam ficado mais felizes. Nós paramos em todos os estilos possíveis daquela loja e levamos um pouco de cada um deles. Só as peças mais interessantes e que ficariam bem com as que estávamos levando. Eu sinceramente nunca tinha visto Ellie e Sasha tão empenhadas em alguma coisa como aquilo.
E depois fomos brincar nos provadores. Com “brincar” quero dizer, experimentar roupas. Mas tudo pareceu uma brincadeira de bonecas para as duas. Uma brincadeira de conhecer combinações, misturar cores e tecidos. E, apesar de eu ser a Barbie delas, foi divertido sentir que tinha alguém me ajudando a melhorar e a me sentir um pouco melhor.
Sendo sentimental, era como ter duas irmãs por perto.
Então lembro a mim mesma que tenho que deixar essa minha parte um pouco de lado. Pode acabar não combinando com a “nova eu”... Ou talvez combine. Só um pouco.
Eu estava vestindo minhas roupas normais quando meu telefone começou a tocar.
Número Desconhecido.
Sasha e Ellie ficaram olhando cheias de expectativa. Esperando eu atender.
— Oi?
— Bell?
Meu coração deu um pulo no peito e tenho certeza que meu rosto fica vermelho assim que escuto a voz dele. Por telefone a voz de Alexander era tão rouca e sexy que me deu só um pouco de arrepios. Só um pouco.
Ellie e Sasha dão risinhos e murmuram uma para a outra:
— Ela tá ficando vermelha, não tá?
— Tá sim. Tipo um pimentão...
— Own, que fofinha...
— Shhhhhhh – eu faço para as duas. E falo no telefone: — Oi, sou eu sim.
— Liguei numa má hora?— ele pergunta, provavelmente porque eu fiz “shhhh”.
— Não, tudo bem. Era só Ellie e Sasha fazendo barulho – eu expliquei.
— Ah, bom— ele diz.
Rola um silêncio desconfortável agora. E eu chego à conclusão que não sou a única pessoa que não sabe conversar. Algumas frases de Alexander parecem terem sido feitas para cortar uma conversa antes mesmo dela começar.
— Então... – Eu limpei a garganta. – Tudo bem com você?
— Ah, tudo sim... – Ele responde. – Eu estava pensando... Se você não gostaria de sair hoje? É sábado... E a banda do cara que a Sasha quer pegar vai tocar em WoodStock. Seria legal a gente se encontrar lá...
Meu coração continua inquieto no peito.
Estou achando que isso foi um convite para sair, quando ele acrescenta:
— Você pode chamar Sasha e Ellie também... Apesar de eu achar que Sasha iria de qualquer jeito, com convite ou sem.
E então eu fico com dúvida. Era um convite para sair ou não? Talvez um convite para sairmos, mas não ficarmos sozinhos? Ou talvez ele tenha cogitado que eu me sentiria mais confortável estando perto das minhas amigas? A resposta parece lógica: perguntar para ele se ele está me chamando para sair. Mas tenho vergonha. Não quero soar convencida nem nada.
Bem, mas ele me beijou da última vez que nos vimos. Tenho direito de estar convencida, não tenho?
Tento parar de pensar sobre isso, antes que eu pense em mais coisas que me deixariam constrangida com aquela ligação. Fecho os olhos, respiro fundo e digo:
— Você está me chamando para sair?
Ele fica uns segundos em silêncio e então eu ouço algo que parece uma risada. Não sei se é deles, ou das duas garotas que não param quietas do meu lado. Descubro que é dele quando ele fala num tom mais leve:
— Acho que estou te chamando para sair.
— Ah tá, você também acha. Achei que só eu estava achando – eu solto.
Ouço-o rir do outro lado. Não sabia que eu era engraçada.
— Isso é um sim ou um não?— Ele pergunta.
Isso é um “Não sei o que responder, então vou ficar desconversando até me decidir” digo a mim mesma. Enquanto olho para as roupas que eu estava experimentando, e para Sasha e Ellie. Elas estão inquietas, fazendo sinal para que eu aceite de uma vez. Mas, novamente, parece muito cedo para aceitar sair com alguém... Mas essa nova Belle não pode ser de pensar muito. Ela tem que só ir e fazer.
— Acho que é um sim – eu respondo, mordendo o lábio inferior.
Ellie e Sasha dão gritinhos mudos e ficam se dando tapinhas de empolgação.
Elas me dão vergonha.
— Ah, tá, então você também acha. Achei que só eu estava achando— ele retrucou.
Eu fiquei vermelha e ri.
— Então, eu posso passar para te pegar às oito?— ele perguntou.
— Claro. Vou esperar – respondo.
Quando a ligação acaba, eu caio em mim e me pergunto o que diabos eu acabei de fazer. Eu concordei de sair com um outro cara depois de ter terminado com o meu ex-namorado há somente um mês. Isso não parece muito bom... Mas não é também como se Mike houvesse sido um exemplo, não é? Ele nunca havia ficado sozinho, para começo de histórias. Por que eu deveria me importar com isso então?
— Você viu isso, Sasha? – Ellie pergunta para a ruiva, encarando-me com malicia.
Eu fico um vermelha.
— Parece que a nossa garota tem um encontro hoje à noite – Sasha diz com a mesma malícia de Ellie. – Precisamos comemorar isso. Pague e encontre a gente lá fora.
As duas se levantam e me deixam sozinha no provador com uma pilha de, pelo menos, vinte peças de roupas para levar até o caixa. E isso sem contar o top de couro porque não o considero uma peça de roupa, talvez meia-peça.
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