Good Gone Girl

10 Capítulo 10 – Como sempre, Saí perdendo.


Notas iniciais
OIE! :) Eu tava um pouco inspirada no fim desse capítulo, então eu espero que vocês gostem, de verdade. De agora em diante, prometo tentar postar frequentemente nessa história e em "Nosso nome na lista". Boa leitura!! Agradeço aos comentários de: — Lena — Lady Sky — Skull — Uma Leitora Qualquer

CAPÍTULO 10 – COMO SEMPRE, SAÍ PERDENDO.

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Eu não consigo dormir direito e, dessa vez, a culpa não foi de Mike ou Lauren. Incrivelmente, o causador dessa insônia foi um tal ruivo que disse “então não se apaixone”, me beijou, se afastou com aquele sorriso enigmático (porque provavelmente sabia que eu não saberia o que aquilo significava) e então foi embora. Deixando-me sem saber o que ele quis dizer com aquela frase ou aquele beijo.

Eu tenho certeza que teria passado a quinta-feira inteira pensando nisso, se eu não tivesse afazeres: falar com a minha irmã, terminar a leitura de um livro e fazer um resumo e pesquisar sobre o tal concurso de “contos de romance” – um conto que devia ser voltado para o público juvenil e cujo tema era “O Primeiro Amor”.

Pergunto-me que imagem a minha professora tem de mim: uma garota que fica sentada no quarto do dormitório vendo filmes melosos e comendo sorvete? Provavelmente. Mas a verdade é que eu se eu escrevesse uma história sobre minhas paixonites... O resultado seria uns contos bem ruins. Por isso meu pai sempre disse que ser escritor era ser pago para contar mentiras.

— Bell?

Dou um pulo na cama, o que faz Chris rir. Não a vi entrar no quarto, eu estava concentrada demais na internet e nos pensamentos para percebê-la ali.

— Tava pensando no quê ai? – ela pergunta divertida, fechando a porta.

Eu limpo a garganta e me ajeito na cama.

— Nada não – respondo ficando vermelha. – Eu só... Tava pensando nas minhas paixonites de quando era mais nova... E no como elas são histórias tristes.

Eu dou uma risada sem graça, mas Chris sorri, jogando o casaco sobre a cama e o cachecol no armário. Parte de mim chega a se revirar de incômodo com aquela bagunça dentro de seu armário, mas digo a mim mesma que não tenho jurisdição naquele lugar.

— Acho que ninguém tem uma história feliz sobre os primeiros crushs— ela diz se sentando em sua cama e tirando os sapatos. — O meu primeiro crush nem sabia que eu existia. Eu era, quase literalmente, invisível para ele.

Eu franzo o cenho.

— Você é tão bonita. Não consigo imaginar nenhum cara não te notando – eu digo.

Ela sorri diante do elogio.

— Bem, o colégio nunca é fácil para ninguém, eu acho. Nem na América, nem na Inglaterra – ela responde em tom divertido, dando uma piscadela cúmplice. – Vou tomar banho. Quando quiser tomar um sorvete e ver filmes de menininha, me chama. Voltaremos a falar sobre os crushs.

Eu reviro os olhos.

Sério que essa é a imagem que todo mundo tem de mim?!

...

Sexta-feira Sasha e Ellie aparecem no meu quarto de surpresa, depois que eu saí da aula. Elas decidem que hoje vamos fazer algo mais light que sair para festas: vamos assistir à amostra de curta-metragem do curso de cinema.

Por um instante, passa pela minha cabeça que elas possam chamar Alexander e armar uma grande cilada para mim, mas mudo de ideia imediatamente. O mundo não gira em torno do ruivo, e nem de mim. Então eu me visto com minhas roupas simples: vestido hippie e meia calça e saímos. Elas reclamam porque estou com a cara lavada, mas não gosto de usar maquiagem. Me faz sentir como se meu rosto fosse outro.

Elas passam o caminho todo reclamando disso, enquanto eu finjo que estou ouvindo. Eram uns bons metros até o auditório onde seria a exibição. Até que uma hora elas param de argumentar e começam a reclamar de suas vidas. Ellie reclama do curso puxado e estressante. Sasha não entra em detalhes do seu próprio curso (que descobri ser Engenharia Elétrica). E eu lhes contei sobre o concurso que eu ia participar.

Sasha me deu um beliscão.

— Ai! O que foi?! – Pergunto confusa.

A ruiva bufa e responde:

— Bell, há coisas que não se deve sair espalhando para todo mundo. Uma delas são os seus planos futuros – ela responde. – Quanto menos pessoas souberem que você vai participar de algo, como um concurso, melhor ainda. Invejosos estão por toda parte.

Ela chega a estreitar os olhos e olhar ao redor como se quisesse conferir de que não tinha ninguém prestando atenção na nossa conversa ao redor. Acho um pouco exagerado, então eu somente dou uma risada e esfrego meu braço dolorido.

— Mas não entenda mal, estamos felizes por você – Ellie acrescenta.

— Tá! Mas precisa me beliscar? – Eu questiono.

Nem meus pais batiam em mim.

— Belisquei porque aí você vai se lembrar disso – a ruiva se explica.

Eu apenas reviro os olhos.

Quando chegamos ao teatro, dei uma olhada na programação e percebi que ia ser uma maratona de quatro horas de filme. Sinceramente, não sei se eu ia aguentar. Filmes universitários e “underground” não eram o meu estilo de filmes preferidos, mas disse a mim mesma que eu conseguiria. Afinal, não podia ser tão ruim assim, certo?

Uma coisa eu devo ser sincera, a amostra de filmes tinha um público maior do que o que eu imaginava. E as pessoas que vão assistir são tão numerosas e diversificadas que parece até um cinema de verdade e não um auditório, com um lugar improvisado para comprar uma pipoca enorme.

— Olha o tamanho dessa pipoca! – Exclamo como uma criança no parque de diversões. – Preciso! Preciso dela.

Ellie e Sasha riem da minha empolgação.

— Claro que a menina da pizza às duas horas da manhã, precisaria de uma pipoca do tamanho dela – a loira brinca, mesmo assim, se dirigindo à lanchonete improvisada.

Eu me encolho um pouco, sentindo-me constrangida. Elas discutem um pouco até decidirem comprar uma para nós três. Fico surpresa quando vejo as pessoas comprando cerveja e me pergunto que tipo de pessoa ia beber em um auditório, numa amostra de filmes (provavelmente) ruins.

Mas não me sinto no direito de comentar nada sobre a vida social das pessoas. Afinal, o que eu sabia, não é mesmo?

Assim que elas compram, procuramos um lugar para nos sentar. Encontramos um lugar bom, apesar de ser um pouco afastado da tela de exibição. Dava para ver bem os filmes, apesar disso. Não que os filmes fossem bons a ponto de merecerem serem vistos. O primeiro curta-metragem mostrava a cadeira do reitor pegando fogo na praia. Não estou brincando, foi meia hora dessa cena perturbadora.

— Como eles pegaram a cadeira do reitor para fazer isso? – Ellie ponderou.

— A questão é, como eles devolveram – Sasha retrucou com maldade.

Eu e Sasha rimos.

Os outros curtas não foram tão melhores que esses, mas de algum jeito serviu para me ajudar a esvaziar a mente. Quando nada faz sentido e te obriga a criar teorias sobre a sanidade do pessoal que estuda cinema, realmente sua mente fica bastante ocupada.

— Sinceramente, eu esperava mais da amostra de filmes desse ano – Sasha disse decepcionada quando saímos do auditório.

— Eu também – Ellie concordou, cruzando os braços. – Ano passado teve mais emoção com o nude frontal de Josh Flint, se lembra?

— Ô se lembro – ela responde se abanando. – Pena que ele é gay.

De repente, parece que todo o meu mundo para.

Na verdade, sou eu quem para: paro de ouvir as conversas, paro de andar, paro de respirar... Tudo no que consigo prestar atenção é no ritmo rápido do meu coração e o sangue fluindo para o meu rosto. Por que ali estava ale: o arrasador de corações, Michael Furey. O cara que me trocou pela minha melhor amiga.

De mãos dadas com outra garota, sorriso largo e brilhante e olhos incrivelmente claros. Sua acompanhante era uma garota magrela, com peito e bunda, vestindo roupas curtas e justas que só realçam o seu corpo, maquiagem impecável e com o cabelo amarrado no maior estilo de: “está perfeito, mas eu não levei nem um segundo prendendo isso”. Perto dela eu estou um lixo, e não quero que ele me note quando, depois de muito tempo, ele me olha.

Ele demorou tanto tempo para me notar que então eu percebo a quão pequena e insignificante eu devo parecer perto da garota ao seu lado ou perto de... Qualquer outra garota saindo daquele auditório.

Quando ele enfim me nota (consigo sentir o seu olhar em mim), percebo sua surpresa como se fosse de minha própria. E então eu percebo o como estou surpresa também, e fico ainda mais quando ele vira o rosto e arrasta a garota para outro lugar, bem longe de mim. Quase como se quisesse fugir dali.

Levo um tempo para digerir isso: primeiro, ele não está comigo nem com Lauren; segundo: ele só quer seguir com a vida dele e fingir que nada aconteceu. Que ele não arruinou uma amizade e que ele não quebrou dois corações... Que ele não me conheceu.

Isso é o que mais dói.

E o que parece mais injusto de tudo: que ele não tenha perdido nada com isso.

Quem era aquela garota? Como ele pode me trocar por Lauren, e em menos de um mês trocar Lauren por outra garota? Pensei que eles “se gostassem de verdade”. Isso não faz sentido... A menos que...

De repente, tenho um flash-back.

Uma lembrança turva e confusa de fim de semana passado. Da festa que eu fui e que fiquei bêbada. Uma lembrança, do rapaz que ficou me encarando e me disse:

— Ei, eu te conheço.

Mesmo tendo certeza que eu nunca o vira na vida.

— Conhece? – Eu perguntei. – Tenho certeza que nunca te vi na vida.

Ele riu. Possuía traços indianos muito evidentes: o nariz adunco, os olhos amendoados e escuros, a pele cor de chocolate ao leite e os cabelos negros e bagunçados. Ele era fofo. Fofo tipo o ator de “A Viagem de Pi”, mesmo assim, sei que nunca lhe dirigi um “oi” na minha vida. Eu me lembrava bem das pessoas.

— Claro que conheço – ele disse rindo. – Você é uma das namoradas do Mike!

Se ele tivesse me esfaqueado no peito com uma faca, não teria doído menos.

“Uma das namoradas do Mike” a frase repetia em minha mente enquanto eu tentava digerir toda a malícia implícita ali. Eu era somente uma das namoradas de Mike... Ele tinha várias garotas, eu era só uma delas. Eu não era “única”, “exclusiva”... Eu era só uma entre tantas outras. Eu traduzo a frase de várias maneiras diferentes para ver se a ficha caí e se eu entendo o que ele está dizendo.

Quando eu entendo, eu sinto como se fosse vomitar de nojo.

— Eu tenho que falar para ele... Ele vai achar muito engraçado! Vivia dizendo que você era igual uma batata, que nunca saía... – o indiano continuou falando.

Batata?

Ele disse mesmo que eu era igual a uma batata?!

Sinto que vou começar a chorar, todavia, na hora tudo o que eu senti foi raiva. Um calor tomou conta do meu corpo e lembro que foi a primeira vez que eu senti algo assim com tanta intensidade. Era como um veneno que fazia meu sangue borbulhar.

— Ele tem esse costume é? De sair namorando todo mundo? – Eu perguntei cruzando os braços, havia um tom sarcástico na minha voz que não sei de onde veio.

Provavelmente, viera da raiva. E da bebida.

O garoto pareceu não perceber o quanto estava ficando brava.

— Mais ou menos... Na verdade, ele fez uma aposta com uns colegas da fraternidade – ele respondeu, apoiando-se num amigo seu que estava ali próximo. Ele não parecia capaz de ficar em pé sozinho. – Os caras disseram que ele estava tão acostumado em transar com garotas experientes, que ele não saberia lidar com uma virgem... E aí ele disse que iria provar que sabia lidar com todo o tipo de mulher...

Meu relacionamento inteiro (seis meses de relacionamento), havia sido uma mentira. Havia sido uma aposta de um garoto cafajeste e desocupado, com mentalidade de treze anos... Quero dizer, quem em sã consciência faz apostinha para provar que é mais pegador que os outros? Quem, numa universidade, ainda faz esse tipo de “aposta”?

Mas agora tudo fazia sentido.

Um cara como Michael jamais sairia com alguém como eu. Isso era óbvio. Óbvio que ele fez uma aposta idiota. Óbvio que todo mundo acharia que eu era a virgem por ser muito quieta, sem namorados e sem paqueras. Óbvio que eu seria o alvo. Eu sempre sou, sempre fui. Eu vim à esse mundo para ser o “bobo-da-corte” das pessoas.

Quando ouvi aquilo... Um monstro dentro de mim (que eu não sabia da existência até então) sai e toma conta do meu corpo. Eu perco o controle e dou um tapa na cara do garoto que eu nem conheço. Não porque ele tivesse feito algo de errado para mim, mas porque ele estava falando disso como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Como se fosse uma piada, uma brincadeira.

Algumas cabeças se viram quando eu bato nele.

— Você acha isso engraçado?! – eu gritei empurrando-o. – Vocês não percebem o quanto isso foi asqueroso e nojento?! Vocês não pensaram que eu poderia ter me magoado nessa “brincadeira”?! Vocês ao menos percebem que eu sou um ser humano com sentimentos?!

Eu o empurrei várias vezes. Eu só queria que ele fosse para longe de mim. Eu estava enojada, ferida e magoada. Eu sentia que ia chorar naquele momento, mas não queria que todo mundo visse isso. Todavia, mais forte que a minha vontade de chorar, foi a raiva que senti, a indignação também. Tudo o que eu mais queria, era pular em cima dele e cortá-lo em pedaços.

Seu amigo percebe o quanto estou brava, e se mete entre mim e ele, dizendo:

— Calma, gata. Ele não tem nada a ver com a história...

— Mas ele é cúmplice! Todos vocês são! – Eu retruquei, elevando muito o meu tom de voz.

Eu estava furiosa. Era um turbilhão incontrolável de sentimentos violentos. Quando eu achei que ia pular em cima dele para lhes dar uns socos, Alexander apareceu e se meteu entre mim e os dois imbecis.

— O que está acontecendo aqui? – o ruivo perguntou com seriedade.

Eu não sei se ele ouviu o que eles disseram do meu ex-namorado (e muito menos sabia se o ruivo sabia que eu tinha um namorado há um mês) todavia, me senti um pouco feliz só pela expressão assustada no rosto dos dois.

— Não está acontecendo nada – o amigo do indiano responde rapidamente. Parece intimidado. – Foi só um mal-entendido, na verdade... A gente já está indo mesmo.

Ele me olhou, como se quisesse que eu confirmasse que havia realmente sido só um mal-entendido, mas eu não confirmo nada. Só me encolho no canto e desejo desaparecer por um momento porque eu estou muito perto de chorar: por raiva, por frustração, por humilhação... Chorar por vários motivos.

A verdade é que não estava tudo bem. Minha autoestima e meu amor próprio que os digam. Michael Furrey havia os usados como pano de chão, e nada doía mais do que isso. Nunca pensei que fosse capaz de sentir tanto nojo e tanta vergonha de alguém. Nunca pensei que eu fosse capaz de sentir tanto nojo de uma pessoa e que eu fosse sentir tanta vergonha de ser eu mesma. De ser tão idiota e ingênua.

— Bell? – Ellie põe a mão no meu braço. – Tudo bem?

Não consigo responder porque não está tudo bem e eu não sei mentir. Respiro fundo, tentando manter minhas partes juntas e forço um sorriso que eu espero que pareça dizer: “tá tudo bem sim, não perceba que eu acabei de ser esfaqueada por favor”. Mas é claro que ela percebe.

— Eu, acho melhor voltar pro alojamento – eu digo. – Desculpa.

Sasha não sabe o que fazer. Ela nunca sabe o que fazer quando alguém está no fundo do poço e eu acho isso interessante. Ela era tão decidida e centrada, que sempre achei que ela sabe o que fazer. De repente, tenho mais um flash-back.

Estou no carro de Alexander, tentando não chorar, porque o clima já está bastante tenso desde que eu lhe disse que descobri que meu ex-namorado é um filho da puta. Nossa, eu falei palavrão. Nem acredito nisso.

— Sasha é tão legal, né? – eu disse, querendo mudar de assunto. Alexander me olhou pelo canto do olho. – Ela é tão segura, autossuficiente e inabalável... Enquanto isso eu... Eu sou uma batata.

O ruivo me olha com o cenho franzido.

— O que há de errado em ser uma batata? – ele retrucou. – Batatas são gostosas. E ficam boas de qualquer jeito: purê de batata, batata frita, batata noisette... Eu gostaria de ser uma batata da McDonald’s, por exemplo.

Não sei se ele está tentando me consolar e fazer piada ou se ele está falando sério.

— Eu não sou uma batata do McDonald’s – eu respondo. – E se eu for, eu sou aquelas batatas moles e frias que eles tentam empurrar para as pessoas de madrugada. Sabe aquelas que ninguém quer? Sou eu.

Alexander não consegue segurar e ri.

— Bem – ele diz, apertando o volante do carro. – Só sei que se você fosse uma batata, eu te comeria de qualquer jeito. Nem precisaria de ketchup.

Novamente, não sei se ele está falando sério ou tentando me consolar. Só sei que quando eu olhei para ele, e ele me olhou de volta, havia algo em seus olhos... Que me deu calor. Mesmo parecendo errado.

Eu devia ser uma batata frita.

Notas finais
Eu ri muito nesse capítulo pelo simples motivo que toda vez que eu lia a fala "Olha o tamanho dessa pipoca" eu lia "Olha o tamanho dessa piroca" AUFHUARHFUAHRUA. Eu devo ser bem retardada :P Comentem, por favor!