Good Gone Girl
1 Capítulo 1 - Boas Garotas Sofrem.
Notas iniciais
Capítulo 1 – Boas Garotas Sofrem.
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“Deve haver um motivo razoável para o meu namorado estar com a língua enfiada na boca da minha melhor amiga” eu disse a mim mesma, enquanto continuava congelada na porta do meu quarto. Chocada demais para me fazer ser notada pelo casal que se pegava na minha cama.
Eu os observei se agarrando, ainda alheios à minha presença.
O jeito como as mãos de Lauren percorria o corpo de Michael, quase lhe tirando a camiseta vermelha que eu lhe dei de natal, me causavam náuseas. Mas, de um jeito masoquista, eu fiquei observando tudo porque não conseguia acreditar no que estava vendo.
Parecia tão surreal... Quer dizer, isso devia ser um pesadelo. Ou que tal uma pegadinha? Mesmo não tendo graça nenhuma...
"Você sabe que não é mentira" uma voz maldosa diz na minha cabeça. Sim, eu sabia. E sabia também que me fazer de idiota (inventando desculpas para aquela cena repulsiva) não iria mudar o fato. A verdade estava, literalmente, ali na minha frente e era inquestionável: eu estava sendo traída descaradamente por duas das pessoas que eu mais confiava em todo mundo...
Ai. Isso doía.
Doía muito.
E agora, o que eu faço? O que se faz numa situação dessas?
Há uma parte humilhantemente dentro de mim que diz que estou atrapalhando e que eu devia aproveitar para sair e deixá-los à sós como o casal feliz que deviam ser pelas minhas costas... Mas também havia outra parte de mim. Uma parte mais violenta e insensata, que me manda pular em cima deles e encher os dois de tapas e arranhões. Era uma parte que estava muito ferida.
“Como eles puderam fazer isso comigo?!” essa parte diz na minha cabeça.
Solto um soluço e, só então, percebo que estou chorando.
Meu coração apertado com tanta força, tão comprimido entre os pulmões, parecia querer sumir. Se esconder de toda a dor que ele estava sentindo. Até respirar parecia doer e eu nunca pensei que doesse tanto ser traída.
— Isabelle! – Lauren enfim me nota.
Ela empurra Michael para longe, não sei porquê. Agora que já sei a verdade, não adiantava fingir que não está acontecendo nada entre eles.
— Bell... Não é o que parece! – Michael diz, rapidamente, enquanto ajeita a camiseta que ela poderia muito bem ter lhe tirado se eu não tivesse interrompido.
Eles teriam transado se eu não tivesse chegado? Eles já fizeram isso antes enquanto eu estava em aula? Quantas vezes eles teriam se pegado sem que eu soubesse? Será que alguma vez eu já cheguei tão perto quanto agora? Será que eles pensaram, ao menos uma vez, em mim enquanto se beijavam, trepavam ou sei lá o que mais eles faziam?
Eram tantas perguntas que eu me sentia sufocada. Cada uma delas, parecendo pregos sendo martelados um a um no meu coração.
Eu namorava Michael há seis meses, desde setembro... Mas conhecia Lauren há dois anos, desde que viemos estudar em University of Nottingham e nos conhecemos como colegas de quarto. Duas americanas, dividindo o quarto numa universidade da Inglaterra... Duas estrangeiras num país estranho...
"Seria nossa história de aventura" eu havia lhe dito uma vez.
— Você era como uma irmã para mim – eu digo.
Por que era verdade. E percebo que isso é o que mais me magoa.
— E você... Eu sempre soube que você era um sedutor... Mas eu achei que você gostava de ficar comigo pra valer... — Eu digo a Michael. Um soluço patético escapa da minha boca. — Mas ficar com a minha melhor amiga, no quarto que eu divido com ela... Isso é baixo. Baixo até para o que eu estava esperando de você.
Quando eu o conheci, ele era um garoto bonito, de boas notas e que todo mundo adorava. Daqueles que sem dúvida terá um futuro brilhante quando sair da universidade... Porém, quando começamos a nos relacionar, eu descobri que ele era do tipo perigoso: que era bonito e, pior de tudo, sabia usar isso. Tanto que Michael podia ter qualquer garota que quisesse com um piscar de olhos e algumas de palavras bonitas.
Assim como ele me teve.
Eu mordo o lábio inferior, como geralmente eu faço para impedir as lágrimas... Não que houvesse muito para segurar agora. Eu já estava me desfazendo em choro como uma criança patética. E eles só me observando, sem dizer nada... E isso só me irrita.
Me irrita eles não terem nada para me dizer, não apressarem para se desculpar, muito menos inventarem uma desculpa. Me irrita eles nem estarem se dando a esse trabalho. Eu não mereço nem a tentativa de desculpas deles, aparentemente.
— Desculpa, Bell! – Lauren pede, levantando-se da sua cama e andando até mim. – Desculpa, mesmo, mas você não entende... Eu e ele...
— Vocês nada! – eu grito, afastando-me dela. – Vocês... Argh! Não tem nome para o tipo de pessoas que vocês são!
Na verdade, tinha nome sim, uns palavrões bem baixos que descreveriam os dois perfeitamente, mas não há nenhum nome que eu tenha coragem de usar. Por que eu não falo palavrão mesmo?
— Vou embora daqui – eu digo, meneando com a cabeça. – Já que eu já vi o espetáculo de vocês, não é mesmo?
Lauren tanta me segurar, ele também, mas não deixo nenhum dos dois me tocarem. Eles são tão sujos, tão nojentos... Tão baixos, traiçoeiros. Duas cobras que eu considerava mais do que eles me consideravam.
Saio do quarto antes que eles digam mais alguma coisa. Ando pelos corredores do alojamento estudantil num ritmo que é quase uma corrida. Eu só quero chegar à porta e sair de lá. Respirar um pouco de ar puro e pensar no que havia acontecido.
Todos os outros estudantes que moravam ali me olham com curiosidade, o que faz aumentar aquele sentimento de: "eu estou péssima". Estou tão péssima que, quando chego à porta, eu me esbarro em alguém.
Essa pessoa segura o meu braço e pergunta se eu estou bem. É um garoto e eu não o conheço, mas também eu nem levanto a cabeça para olhá-lo. Não quero que ninguém veja as minhas lágrimas. Só consigo observar o buquê de flores em sua outra mão e isso faz com que eu chore ainda mais. Eu sempre quis receber flores, mas Michael dizia que elas iriam morrer e que esse era o pior tipo de investimento para se fazer.
Ele sempre fora mais prático que romântico. Aquele garoto estúpido. Imbecil. Cavalo...
— Está tudo bem com você? Quer alguma coisa? – ele pergunta de novo.
Não consigo responder, pois sinto que vou cair em outra crise de choro. Não consigo fazer nada, só me solto da mão dele e saio correndo pelo campus, feito uma criança fugindo dos monstros. E talvez fosse só isso que eu fosse: uma criança de dezenove anos, criada numa redoma de vidro, muito imatura para o mundo.
Enquanto corro, imagens rondam minha cabeça. Eu fico pensando quando eu cheguei no campus e comecei a dividir o quarto com Lauren... No como nós duas estávamos nervosas em fazer amizades, no como decidimos fazer coisas juntas e explorar o lugar, no como nos divertimos tomando chá da tarde... A frase “como os ingleses” havia virado um meme de nós duas sempre que íamos fazer alguma coisa dos nativos.
Dois anos de amizade, acabado como se fossem nada.
Penso no quando eu conheci Michael também. No como eu pensei que ele era o cara mais bonito que eu já havia visto; no como seu sorriso parecia iluminar um dia nublado; no como o vento jogava seus cabelos loiros para o lado e no como seu sotaque parecia tão distinto e excitante...
Lembro que a primeira coisa que ele me disse foi: "Desculpe, sei que você não me conhece, mas eu preciso dizer que seus olhos têm a cor mais bonita que eu já vi", lembro da primeira vez que transamos e que havia sido tão perfeita (de alguma forma, acho que ele pensou que fosse a minha primeira vez), lembro de quando ele disse que eu era uma pessoa tão fácil de namorar...
Se eu era uma pessoa tão fácil de namorar, por que ele havia me traído?!
Seis meses de namoro... Acabados num piscar de olhos.
Eu paro de correr quando encontro um banco de ferro perto do prédio onde as pessoas da área de Saúde tinham suas aulas. Ainda estou chorando muito. É tudo muito confuso, muito dolorido, muito cansativo. Estou soluçando, perguntando-me quando foi que as coisas começaram a dar errado. Perguntando-me se eu havia feito alguma coisa para eles que os fizeram me odiar tanto.
Você só sacaneia alguém desse jeito quando odeia a pessoa, não é?
O que eu fiz de errado?! Como eles podiam me enganar e pisar em mim sem se importarem?! Como eles podiam se encontrar pelas minhas costas?! Como Lauren conseguia olhar na minha cara e parecer feliz por eu estar namorando Mike e como ele conseguia agir como se não estivesse trasando com ela pelas minhas costas?!
Como eu pude significar tão pouco?
Eu me sentia um lixo. Descartável.
E então eu percebo que minha vida sempre fora assim: marcada por histórias onde eu sempre amo de mais. Se eu conseguisse não me apegar a ninguém, eu tenho certeza que seria mais feliz. Se eu pudesse desligar meu emocional, só um pouco, talvez eu pudesse não me sentir um lixo toda vez que eu fosse trocada desse jeito. Como se eu não fosse nada.
Mas eu não conseguia. Por quê? Porque eu era uma boa pessoa.
Boas pessoas não conseguem brincar com outras pessoas. Boas pessoas são usadas e pisadas o tempo todo, porque os outros sabem que elas sempre estarão lá. Não importa o que aconteça. Não importa o quão maltratada elas sejam.
Odeio ser uma “boa pessoa”.
Enquanto eu fico sentada naquele banco, chorando, meu celular vibra novamente, fazendo meu coração congelar.
A primeira vez que meu celular vibrou hoje, havia sido para me mostrar uma mensagem maldosa de um número desconhecido (pela foto no whatsapp se tratava de uma garota morena que eu nunca vira na vida) e dizia: “Seu namorado está te procurando no seu quarto. De nada”.
Havia uma coisa que eu não entendi na mensagem: porque Michael iria me procurar no meu quarto se ele sabia que eu estaria na aula de Escrita Criativa. Mas então eu pensei que se houvesse acontecido algo grave, ele obviamente não se lembraria disso e iria me procurar no dormitório. Esse pensamento me fez largar a aula no meio e ir correndo até lá. Como eu sou boba.
A mensagem de agora, era de Lauren. Tenho que controlar a vontade de atirar meu celular para longe, com raiva, quando leio: "Onde você está? Nós precisamos conversar".
Conversar? Não há nada para conversar!
Ela ficou com meu namorado pelas minhas costas! E ele me traiu com a minha melhor amiga... Como é que se "conversa" sobre isso?! Com um chá da tarde no castelo de Buckingham?!
— Ué, Bell? – ouço alguém me chamar.
Levanto o olhar e encontro Ellie Hastings me olhando com um misto de curiosidade e pena. Odeio quando me olham com pena, mesmo que eu olhe assim para todo mundo, sem querer.
— Meu Deus, você está bem? Aconteceu alguma coisa? – ela pergunta, sentando-se ao meu lado no banco. Seu sotaque inglês parece mais evidente quando ela está agitada. – Por que você está chorando?
Ellie era mais velha que eu um ano, ou seja, eu não passava de uma caloura quando a conheci, há quase um ano, e ela era a veterana. Ela morou no mesmo alojamento que eu Lauren. No mesmo corredor, na verdade. Muitas vezes, nós nos falávamos e trocávamos favores. Ela era uma daquelas pessoas que não era bem sua amiga, mas que você é simpática porque ela é simpática com você.
Eu não sei se consigo falar o que eu acabei de ver no dormitório.
— Eu... Hum... Briguei com Lauren – eu digo, sem querer entrar em detalhes.
Parte de mim, não sabe como admitir para uma conhecida que meu namorado me traiu com a minha melhor amiga... Essa parte também não está com a mínima vontade de sair espalhando por aí.
Ellie não faz perguntas também. Na verdade, ela parece entender bem demais.
— Entendo... – ela diz, de forma pensativa. – Mas você ainda vai dormir no mesmo quarto que ela? Por que vocês são colegas de quarto, não é?
Meu estômago se embrulha só de pensar nisso.
Eu não tinha percebido o quão complicado era. Na verdade, eu ainda nem entendi o que tinha acontecido. Estava tudo indo rápido demais para eu acompanhar. Mas agora eu estava preocupada com o como eu olharia para Lauren de novo sem cair no choro e me lembrar dela de Michael!
— Eu não sei – eu digo, mal conseguindo falar. – Eu não sei!
Eu enterro minha cabeça nas minhas mãos. Minha cabeça está muito pesada e meus olhos muito inchados e eu não quero pensar nem falar nisso. Só quero me jogar em algum canto escuro e ficar chorando porque está tudo desmoronando.
— Você está muito estressada – ela diz, acariciando a minha cabeça. – Vem comigo. Vou fazer um chá para você e depois a gente pensa nisso... Só não vou te deixar chorando aqui nesse banco ao relento porque isso é muito deprimente.
Eu ergo olhar, sem acreditar no tamanho da gentileza dela.
— O que você ta olhando?! Levanta! Bora! – ela manda, puxando-me pelo braço até eu ficar em pé. – Vou te levar para a casa que eu tô alugando. Você vai gostar de lá.
Ela põe um braço ao redor dos meus ombros e começa a conversar sobre amenidades, como se quisesse tirar o meu foco dos meus problemas e pensar em besteiras. Parte de mim, não acha justo eu acabar de terminar uma amizade com a minha melhor amiga e já estar cedendo o seu lugar à uma conhecida.
“Você acha que ela pensaria em você num momento desses? Ela não pensou nem quando trocou saliva com o seu namorado” uma voz maldosa diz na minha cabeça.
Sinto mágoa por um instante, porque sei que ela não pensaria. Depois, sinto raiva. Raiva por ser tão otária.
“Sempre a otária".
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